17 de novembro de 2015

Do nada: Sociopatia de Hillary revelada em Des Moines

Paul Street

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Hillary Clinton disse algo notável e inesperado durante o segundo debate presidencial do Partido Democrata, em Des Moines, Iowa - algo que deveria levar à suspensão de sua candidatura à Casa Branca. O comentário veio em resposta ao moderador da CBS e a Bernie Sanders, que apontaram que sua campanha recebeu milhões em contribuições eleitorais e honorários de palestras de grandes instituições financeiras de Wall Street, enquanto Sanders depende de pequenas contribuições da classe-média e da classe trabalhadora norte-americana. Segue o que Hillary disse:

"Espere um minuto, senador. Você sabe que eu não apenas tenho centenas de milhares de doadores, sendo a maioria deles pequenos, mas também estou muito orgulhosa de que, pela primeira vez, a maioria dos meus doadores são mulheres, 60%. Então eu - eu represento Nova York. E eu representava Nova York em 9/11, quando fomos atacados. Onde fomos atacados? Fomos atacados no centro de Manhattan, onde fica Wall Street. E de fato eu gastei muito tempo e esforço ajudando na reconstrução. Isso foi bom para Nova York. Foi bom para a economia. E foi uma maneira de repreender os terroristas que atacaram nosso país".

É positivo que a maioria dos doadores individuais de Hillary sejam do sexo feminino e que ela tenha um grande número de doadores. Sabemos que a candidatura principal dos grandes partidos tipicamente recebe doações de centenas de milhares de pessoas. Mas o que chama a atenção é a senhora Clinton ser forte e desproporcionalmente financiada pelas elites de Wall Street, predominantemente do sexo masculino, que somente a apoiam por ser compreendida (o que é bastante razoável) como boa amiga da elite corporativa e financeira. Ela e seu marido Bill Clinton são líderes na expansão da elite corporativa e neoliberal do Partido Democrata pelas últimas quatro décadas.

O maior problema com sua declaração, no entanto, é a sugestão de que aquilo que motiva seu financiamento de campanha fortemente inclinado a Wall Street é o fato de ter sido senadora de Nova York, lar de Wall Street, quando Manhattan foi atacada pela Al Qaeda, em 11 de setembro de 2001. É isso mesmo, América: se esqueça de que Hillary Clinton já era uma política fortemente patrocinada por Wall Street quando concorreu pro Senado entre 1999 e 2000. Esqueça que esse patrocínio continua até hoje, refletindo longo registro dos Clinton à serviço da elite financeira por - entre outras coisas - evitar uma série de regulamentações financeiras graves. Esqueça que as sedes em Wall Street da Goldman Sachs, da JP Morgan Stanley, da Citicorp etc foram deixadas intactas pelos ataques de 9/11. Não importa que qualquer senador de Nova York (ou mesmo qualquer outro senador dos EUA) apoiariam o repasse federal para reconstruir as seções de Manhattan devastadas pelos ataques aéreos. Esqueça que 9/11 tem quatorze anos de idade e que hoje a elite financeira faz investimentos com base em cálculos políticos. E que essa elite deseja profundamente que Hillary prevaleça sobre Sanders, que pode realmente estar falando sério quando afirma que as principais instituições financeiras são parasitas da nação e devem ser desmontadas ou estreitamente regulamentadas (pena que Bernie não conclama uma nacionalização).

A mídia corporativa tradicional trata como uma mera gafe tal observação surpreendente de Hillary. Mas esse comentário não foi um erro. Outras insinuações semelhantes sobre o seu financiamento em Wall Street e sobre o 9/11 foram feitas, em pelo menos uma ocasião anterior na atual campanha. Ela e seus marqueteiros claramente decidiram que poderiam explorar a tragédia de 9/11 - quando 3000 pessoas, muitas delas trabalhadores comuns, morreram - e defender as suas contribuições financeiras para essa elite hiper-opulenta. Eles não têm um senso ético básico e utilizam uma tática sociopata.

Antes de seu comentário, o comedido e nominalmente socialista Sanders (de quem eu não sou grande fã) disse algo importante, que refletia o mais elementar bom senso. "Eu nunca escutei um candidato, nunca”, Bernie observou, "que tivesse recebido enormes quantias dos senhores do petróleo, do carvão, de Wall Street, do complexo-industrial-militar; nenhum candidato”. “Ah, estas - estas contribuições de campanha não vão me influenciar. Eu vou ser independente. Agora, por que eles injetam milhões em campanha? Eles esperam obter alguma coisa. Todo mundo sabe disso".

Hillary Clinton se ofendeu, dizendo que esta declaração foi feita para "impugnar sua integridade". Sanders negou, argumentando que a verdadeira questão aqui se trata de "um sistema de financiamento de campanha corrupto", mas a verdade é que ele coloca a integridade moral de Clinton em cheque, embora muito suavemente. Com efeito, a subseqüente sobrancelha sensibilizada de Hillary sugere que ele estava certo - e deve seguir assim com mais força e de forma abrangente nos próximos dias e semanas, se é que ele fala sério sobre uma alternativa progressista para a máquina de Clinton (algo sobre o que eu tenho sérias dúvidas). Onde fica a integridade de quem se aproveita das mortes de milhares de nova-iorquinos em 2001 para defender o seu patrocínio por alguns poucos ricos?

Em uma cultura política decente, o comentário de Hillary levaria à suspensão da sua campanha falsamente progressista. Na atual cultura política midiática que reina nos EUA, sua "gafe" provavelmente vai sumir rapidamente enquanto ela segue em sua inevitável nomeação democrata encharcada de dólares.

Nenhum comentário:

Postar um comentário