6 de novembro de 2015

Defendendo o socialismo: Foner e Sanders versus Eugene Debs

Paul Street

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Diluição dinamarquesa

Tradução / Nunca subestime a corrupção moral e intelectual do professorado, incluindo alguns dos nomes mais talentosos da esquerda. Vejamos, por exemplo, a recente carta de Eric Foner, historiador americano prolífico, progressista e professor da Columbia University, escrita para o candidato presidencial do Partido Democrata, nominalmente socialista, Bernie Sanders. O assunto gira em torno do que responder na próxima vez que lhe perguntarem o que quer dizer por "socialismo democrático".

Segue, abaixo, a afirmação mais relevante de Sanders sobre o assunto até o momento - e aquela que provocou a carta de Foner. Ela foi feita durante o primeiro debate entre os presidenciáveis democratas, orquestrado pela CNN em Las Vegas, Nevada, há três semanas:

Anderson Cooper da CNN: "Senador Sanders, uma pesquisa do Gallup diz que metade do país não colocaria um socialista na Casa Branca. Você se reivindica um socialista democrático. Como pode qualquer tipo de socialista ganhar uma eleição geral nos Estados Unidos? " 
Bernie Sanders: "Bem, nós vamos ganhar, porque nós vamos explicar o que é o socialismo democrático. E o socialismo democrático se trata de dizer que é imoral e errado que o 0,1% mais rico deste país possua quase a mesma riqueza que 90% da população. É errado que, hoje, numa economia manipulada, 57% de toda renda se dirija pra esse 0,1%. Que você olhe ao redor do mundo e veja todo grande país fornecendo atenção em saúde a sua população como um direito, exceto os Estados Unidos. Nós vemos todos os grandes países dizendo para suas mães que, quando tiverem um bebê, eles não vão separá-las de seus recém-nascidos, porque terão licença paga, como qualquer outro país na terra. Esses são alguns dos princípios em que acredito, e eu acho que nós deveríamos olhar para países como a Dinamarca, como a Suécia e a Noruega, e aprender com o que eles conquistaram para os seus trabalhadores”.

Esqueça por um momento a falsidade da noção de que Sanders está realmente tentando ganhar a presidência (ele não está) e o absurdo de se pensar (ou dizer que pensa) que se pode avançar com o socialismo a partir do imperial Partido Democrata e de suas margens irremediavelmente tomadas por corporações e pelo capital financeiro. Não importa o quão graciosas sejam as denúncias de Sanders acerca da hiper-desigualdade nos EUA contemporâneo, a coisa mais notável sobre sua declaração foi seu poder de enfraquecimento sobre o significado dos termos "socialismo" e "socialismo democrático". Por qualquer perspectiva histórica significativa, o socialismo democrático se trata da propriedade coletiva, da auto-governança popular sob controle dos trabalhadores e de uma democracia realmente participativa. Significa poder popular sobre as principais instituições econômicas e políticas de uma nação, uma "reconstrução radical da própria sociedade" (o que o Dr. Martin Luther King, chamou de "o verdadeiro problema a ser enfrentado", perto do fim de sua vida). Já a versão diluida do tio Bernie versa sobre um socialismo enquanto Estado de bem-estar decente nos moldes escandinavos.

Porque Bernie não pode invocar Debs

Mas este não é o único problema com a tentativa do Sanders de representar a causa do socialismo democrático. Uma dificuldade igualmente grave diz respeito ao seu firme e bem documentado compromisso com o sistema imperial-militar bipartidário de Washington e com seu projeto. Como Chris Hedges explicou em setembro:

"Você não pode ser um socialista e um imperialista. Você não pode, como fez Bernie Sanders, apoiar as guerras do governo Obama no Afeganistão, Iraque, Líbia, Paquistão, Somália e Iêmen e ser socialista. Você não pode, como fez Sanders, votar por leis orçamentárias militares que incluem projetos de lei e resoluções que autorizam Israel a seguir com o genocídio do povo palestino, e ser um socialista. E você não pode elogiar empreiteiros militares, como fez Sanders, por trazer empregos para seu estado. Sanders pode ter a retórica da desigualdade, mas ele é membro titular do Caucus Democrata, que se ajoelha diante da indústria de guerra e de seus lobistas".

Um artigo recente do CounterPunch escrito por Connor Lynch foi intitulado "Porque Bernie Sanders deve invocar Eugene Debs". Como o historiador Heather Cottin me escreveu quando alguém postou esse artigo na minha página de Facebook, "Ele [Sanders] não pode. Debs se opôs ao imperialismo e à Primeira Guerra Mundial. Ele foi pra cadeia por isso! (...) Bernie não é um trabalhador, ele é, de longa data, um socialista do voto pró-imperialista e beligerante. Bernie apoia o imperialismo e Terceira Guerra Mundial". (A parte da Terceira GM pode parecer hiperbólica, mas não é: Sanders oferece seu total apoio à provocação imprudente do governo Obama frente a uma Rússia ressurgente e nuclear na Europa Oriental e na Síria).

As mãos dadas com o império não são o único problema moral e ideológico de Sanders. Ele também contradiz e silencia grande parte da sua agenda social doméstica. "Os custos do império", observa Noam Chomsky em 1969, "são, em geral distribuídos pra sociedade como um todo, enquanto os seus lucros se revertem para poucos(...). O império serve como um dispositivo de consolidação interna de poderes e privilégios". Como Chomsky e outros demostraram muitas vezes, o keynesianismo militarizado triunfou após a Segunda Guerra Mundial, tanto para sustentar a riqueza e poder capitalista dos EUA no exterior e quanto para derrotar um projeto de keynesianismo pautado no bem-estar social e na democracia dentro de casa. A primeira forma de governo reforçaria as regras do negócio, enquanto a segunda não. Assim entendia a elite. Em um sentido puramente prático e mais imediato, a versão caseira de Sanders de um programa inspirado na socialdemocracia escandinava não pode ser custeado sem uma revisão do enorme complexo militar, que consome mais de metade dos gastos discricionários do país.

Abraçar nossos próprios radicais

Na sua missiva pro Sanders, Foner (que não é bobo e certamente entende a situação) não faz nenhum esforço para corrigir o senador sobre o real significado dos termos socialismo e socialismo democrático. Ele dá um passe-livre pro "chauvinismo social" do candidato (termo ainda útil de Lenin para os socialistas empenhados no militarismo nacionalista e no imperialismo) e pra sua colaboração com os democratas corporativos. (Não há surpresa nisso: carta do professor aparece, afinal, no The Nation, o principal órgão pseudo-independente do Partido Democrata). O único problema que Foner tem com esse uso diluído e hipócrita dos termos "socialismo" e "socialismo democrático" é serem demasiado internacionalistas - nórdicos, por assim dizer - na inspiração:

"Reconsidere a maneira como você responde às inevitáveis perguntas sobre o que significa socialismo democrático e revolução pacífica. Da próxima vez, abrace a nossa própria tradição radical americana. Não há nada errado com a Dinamarca; podemos aprender algumas coisas com eles (e vice-versa). Mas a maioria dos americanos não sabe ou não se importa muito com a Escandinávia. Mais importante, sua resposta inadvertidamente reforça a ideia de que o socialismo é importado de fora. Em vez disso, por que não falar sobre nossos antepassados radicais aqui dos Estados Unidos, afinal os radicais mais bem sucedidos sempre falaram a linguagem da sociedade americana e dela depreenderam alguns dos seus valores mais profundos".

De fato há algo a ser dito sobre a linhagem radical americana. Mas a exaltação dessa tradição por Foner é preocupante. Ele menciona alguns nomes muito bons do panteão radical dos EUA: Tom Paine, Frederick Douglass, Abby Kelley, os populistas de 1890, e própria suposta inspiração de Sanders: Eugene Debs. Muitos são deixados de fora, é claro, sobretudo aqueles de matiz mais radical, como os mártires de Haymarket (incluindo os revolucionários socialistas-anarquistas Albert Parsons e Adolph Fischer), Lucy Parsons, Emma Goldman, os lideres sindicalistas radicais Bill Haywood, Mother Jones e Tom Mooney, Joe Hill, o líder do Free Speech Movement Mario Savio, os comunistas e trotskistas heróicos que provocaram o surgimento do sindicalismo de massas durante os anos 1930 e 1940, Malcolm X, Leonard Peltier e o American Indian Movement, Fred Hampton e os Panteras Negras, o linguista anarquista e anti-imperialista Noam Chomsky, acima mencionado, e... Eu poderia continuar e continuar.

Mas é que Foner inclui na ala radical americana, e não quem ele exclui, que torna tudo mais angustiante. "O que falar", Foner questiona, "sobre a plataforma progressista de 1912, sobre um partido que nomeou Theodore Roosevelt para presidente, que defendeu, entre outras coisas, um limite rígido sobre as contribuições de campanha, um sistema de saúde universal, uma supervisão federal vigorosa sobre as grandes corporações, entre outras medidas que, ao longo de um século depois, ainda não foram realizadas?". Como Foner bem sabe, o descaradamente nacionalista, darwinista social e militar-imperialista Teddy Roosevelt foi um liberal autoritário e inimigo feroz da política radical-democrática, em geral, e do Partido Socialista de Eugene Debs, em particular. O projeto de Roosevelt, compartilhado com todos os seus adversários na eleição presidencial de 1912, menos Debs, era completar o que o brilhante historiador Martin J. Sklar chamou de "reestruturação corporativa do capitalismo americano": a transição do capitalismo proprietário, do pequeno-produtor, ao capitalismo corporativo monopolista que manteria o sistema de lucros intacto, sem "interferência indevida" da maior parte da população, do populismo de base e do socialismo. [1]

"A assim chamada Convenção Progressista" (1912)

Debs se surpreenderia ao ver seu nome mencionado na mesma frase que Teddy Roosevelt e o Partido Progressista de 1912 como integrantes de uma "tradição radical americana". Aqui vai o trecho de um discurso de campanha que Debs deu em Fergus Falls, Minnesota, em 12 de agosto de 1912:

"Amigos e trabalhadores: a astúcia de poucos triunfou e agora tem as massas à sua mercê. Esses poucos estão aliados em seu domínio econômico, assim como também estão em seu controle do aparelho político. Seu dinheiro e os seus mercenários controlaram a convenção republicana em Chicago, escreveram sua plataforma e ditaram seus candidatos. E o mesmo vale pra convenção democrata em Baltimore. Quanto à assim chamada Convenção Progressista, é suficiente dizer que não se esconde o fato de que foi financiada e controlada por três representantes proeminentes da plutocracia que é proprietária e governa grande parte dessa terra (...). Os republicanos, os democratas e os progressistas são compostos e inteiramente controlados por políticos profissionais a serviço da classe dominante. (...)O Partido Socialista é o único partido nesta campanha que se opõe ao atual sistema e existe para o povo; o único partido que corajosamente se confessa o partido da classe operária e seu objetivo de derrubada da escravidão assalariada". 
"Enquanto a ordem capitalista atual prevalecer e esses poucos estiverem autorizados a possuir as indústrias do país, as massas trabalhadoras estarão batalhando no inferno da pobreza como fazem hoje. (...) A propriedade privada e a competição já tiveram seu dia. O Partido Socialista se levanta em defesa da propriedade social e da cooperação. De um lado, temos o capitalismo; do outro, o socialismo. De um lado, o despotismo industrial; do outro, a democracia industrial. (...) Os republicanos, democratas e progressistas, todos eles defendem a propriedade privada e a concorrência. O Partido Socialista é o único que defende a propriedade social e a cooperação". 
"Os partidos republicano, democrata e progressista acreditam na regulação dos trustes; o Partido Socialista acredita em possuí-los, de modo que todos se beneficiem deles, em vez de alguns plutocratas que conservam massas empobrecidas. (...) Os trabalhadores que fizeram o mundo e que aguentam esse mundo nas costas, estão se preparando para tomar posse dele. Este é o significado do socialismo e isso que o Partido Socialista defende nesta campanha. Exigimos a maquinaria de produção em nome dos trabalhadores e o controle da sociedade em nome do povo. Exigimos a abolição do capitalismo e da escravidão-assalariada, exigimos a rendição da classe capitalista. (...) Exigimos o controle completo da indústria pelos trabalhadores; exigimos toda a riqueza que produzem para seu próprio prazer, e exigimos a terra para todo o povo" (grifo nosso).
(Leia a nota de rodapé [2], se quiser saber mais sobre desdém ácido do socialista-internacionalista Eugene Debs em relação a Teddy Roosevelt)

"Para conter os excessos do capitalismo"

Sanders decepcionaria seu suposto herói, Eugene Debs, com sua definição rasa de socialismo democrático e com seu apoio ao contínuo militarismo tanto quanto o suposto herói de Barack Obama, Dr. Martin Luther King Jr, se decepcionaria com a atual administração, implacavelmente a serviço de uma ditadura do capital, do império, da supremacia branca e arrasadora do meio-ambiente. Debs sentiria profundo desgosto pelo seguinte trecho da declaração de Foner para Bernie Sanders:

"O termo socialismo, hoje, não se refere a um plano para uma sociedade futura, mas a necessidade de conter os excessos do capitalismo, manifestos em torno de nós, para empoderar as pessoas comuns em um sistema político plutocrata, e desenvolver políticas que tornem reais as oportunidades pros milhões de americanos para quem elas não são. Isto é o que significava nos dias de Eugene Debs, o grande líder trabalhista e candidato socialista à presidência. (...) Debs falava a língua do que ele chamou de "igualdade política e liberdade econômica". Mas igualmente importante, como enfatizado por Debs, o socialismo é tanto uma noção moral quanto econômica - a convicção de que vastas desigualdades de riqueza, poder e oportunidade são simplesmente erradas e que pessoas comuns, usando o poder político, podem produzir profundas mudanças. Foi fervor moral de Debs tanto quanto seu programa que o fizeram amado por milhões de americanos".

Debs certamente sentiria a proposição de uma falsa escolha nesta passagem: o socialismo enquanto "plano para uma sociedade futura" ou o socialismo enquanto um esforço moral para “conter os excessos do capitalismo". Socialismo, para Debs, era uma luta em curso e um movimento (que incluiam ações de base para além da política eleitoral) a fim de derrubar e transcender o capitalismo, e não apenas regulá-lo. Debs sabia muito bem que apenas paixão moral não levaria o povo muito longe sem um programa socialista específico e um movimento que dirigisse os trabalhadores do mundo e os cidadãos norte-americanos para além das depredações mortais do capital e do império.

Pela definição melancolicamente diluída de socialismo democrático do Foner e do Sanders, até a militante neoliberal arco-imperialista e sociopata Hillary Clinton se qualificaria como uma socialista democrática. Afinal de contas, a candidata Clinton critica esses novos Anos Dourados da desigualdade extrema e da plutocracia. Ela conclama maior igualdade e democracia nos EUA. "O deck está empilhado" para os poucos ricos, ela lamenta, prometendo igualar as chances pros trabalhadores comuns. Ouça a resposta da Hillary para Cooper e Sanders sobre o socialismo democrático, no debate em Las Vegas:

Hillary Clinton: “Veja bem, Anderson. Quando eu penso em capitalismo, eu penso em todos os pequenas negócios que foram empreendidos porque temos oportunidade e liberdade no nosso país para que as pessoas façam isso, para que façam uma boa vida para si e para suas famílias. E eu não acho que nós devemos confundir [socialismo com] aquilo que temos que fazer de vez em quando na América, que é salvar o capitalismo de si mesmo. E eu acho que o que o senador Sanders está dizendo certamente faz sentido em termos da desigualdade que temos por aqui. Mas nós não somos Dinamarca. Eu amo Dinamarca. Nós somos os Estados Unidos da América. E é nosso trabalho conter os excessos do capitalismo para que ele não se descontrole e cause o tipo de desigualdade que estamos vendo em nosso sistema econômico hoje".

Onde está a carta de admiração do professor de Columbia para Hillary Clinton? (Isso virá, sem dúvida, depois que Sanders for varrido obedientemente para fora do palco da candidatura presidencial). Observe, caro leitor, exatamente a mesma frase em itálico nas minhas duas últimas passagens citadas, a primeira de Foner e a segunda de Hillary: "para conter os excessos do capitalismo". É uma coincidência acidental? Eu sinceramente duvido.

Um New Deal radical de FDR?

Falando de políticos "salva[ndo] o capitalismo de si mesmo", Foner lembra Bernie Sanders de outra parte da "tradição radical americana": "o New Deal de Roosevelt". O estimado professor rarefaz o socialismo e naturalmente não diz nada sobre como o inteligente político da classe dominante, Franklin Delano Roosevelt (FDR), se gabou de ter resgatado e preservado o capitalismo com seu New Deal. Em março de 1931, o grande filósofo americano John Dewey observou que "política é a sombra lançada sobre a sociedade pelos grandes negociantes". Dewey profetizou que a política dos EUA permaneceria assim enquanto o poder residisse nos "empreendimentos para lucro privado através do controle privado dos bancos, da terra e da indústria, reforçados pela imprensa e pelos demais meios de publicidade e propaganda”. O New Deal de Roosevelt manteve esse problema básico intacto, algo que orgulhava bastante Roosevelt.

Como Lance Selfa observa em seu excelente estudo Os Democratas: uma História Crítica (Haymarket, 2008), "Roosevelt [disse aos] (...) seus críticos de negócios: 'Eu sou o melhor amigo que o sistema de lucros já teve’. Na campanha de 1936 , ele se proclamou o ‘salvador’ do ‘sistema de lucro privado e da livre iniciativa"’. Isso poderia impressionar Dewitt Clinton (que quase se tornou presidente pelo proto-capitalista Partido Federalista em 1812) mas certamente não Eugene Debs. Foner não diz nada sobre como as reformas do New Deal, que acomodaram a tensão da luta de classes, foram impostas sobre a elite capitalista pela significativa rebelião da classe trabalhadora organizada, em grande parte oficialmente anônima, mas muitas vezes composta por brilhantes e heróicos marxistas e outros ativistas radicais - pessoas que merecem destaque em qualquer homenagem séria a tradição radical americana.

Foner pode querer dar uma olhada para trás, sobre o primeiro livro publicado por seu mentor acadêmico Richard Hofstader. Em seu brilhante estudo (para a época) - The American Political Tradition and the Men Who Made It (1949) - uma curiosa antecipação da história revisionista da Nova Esquerda a qual mais tarde Hoftsader viria aristocraticamente se opor - Hofstader "examinou", nas palavras de Howard Zinn, "nossos líderes nacionais mais importantes, de Jefferson e Jackson a Herbert Hoover e os dois Roosevelts - republicanos e democratas, liberais e conservadores. Hofstadter concluiu que [aqui Zinn citou Hofstader] 'o alcance da visão dos principais competidores entre os dois partidos sempre foi delimitado pelos horizontes da propriedade e do empreendimento. (...) Eles aceitaram as virtudes econômicas da cultura capitalista enquanto qualidades necessárias ao homem. (...) Cultura que tem sido intensamente nacionalista'".[3] Hofstader dedicou um capítulo específico para cada Roosevelt, mostrando em ambos os casos como o profundo conservadorismo, amistoso aos negócios, contradizia suas imagens e retórica progressista. Ele certamente não viu nada de radical no FDR ou o no New Deal.

O Orçamento da Liberdade

Na "tradição radical americana" que ele quer que Sanders invoque, Foner inclui o Orçamento da Liberdade. É uma referência compreensível a um programa progressista interessante e esquecido. Lançado pelo antigo socialista e líder trabalhista dos direitos civis, A. Phillip Randolph, em 1967, o Orçamento da Liberdade foi um ambicioso plano para acabar com a pobreza na América. Mas ele não era exatamente um documento radical, dada sua recusa explícita em pedir cortes no orçamento do Pentágono, em desafiar a distribuição de renda e de riqueza e em questionar às prerrogativas gerenciais do capital. As falhas do documento em tratar da guerra e do império (em um momento no qual a Guerra do Vietnã se aprofundava em uma guerra a pobreza) é especialmente notável aqui à luz do apoio de Sanders ao projeto imperial dos EUA. Também digno de nota é o seu compromisso com o rápido crescimento econômico, o que os autores do Orçamento da Liberdade viam como a verdadeira solução para a pobreza, em vez da redistribuição da riqueza e da renda. Ao que tudo indica hoje, o crescimento econômico nos moldes capitalistas de "empreendimentos para lucro privado" defendido por ambos os partidos políticos reinantes nos EUA é uma sentença de morte pra raça humana e pros demais seres vivos.

O tempo da Terra acabou

O que me lembra: onde estão os grandes ambientalistas de esquerda como Barry Commoner, Rachel Carson e Murray Boochkin na tradição radical americana de Foner? A crise ambiental que se desenrola diante dos nossos olhos é a principal razão pela qual nós realmente não temos tempo para enrolação de professor em torno de um falso radicalismo do cativo Partido Democrata uma vez a cada quatro anos. O capitalismo e o seu irmão gêmeo imperialista nos trouxeram agora a beira de múltiplas e interrelacionadas catástrofes, nenhuma mais urgente e ameaçadora do que a crise ambiental. O objetivo real de Debs - "a abolição do capitalismo” e controle popular das principais instituições da sociedade, e não apenas um Estado de bem-estar reforçado, são agora um pré-requisito urgente para a sobrevivência. Qualquer um que pense que eles estão sendo realistas ao embarcar na mais recente extravagância eleitoral orquestrada pelas grandes corporações e pela grande mídia - com a sua definição incrivelmente restrita e estagnada no tempo de "isso é política, a única política que importa" - estará desperdiçando seu tempo e sua energia, bem como o dos trabalhadores e dos cidadãos. Estamos ficando sem tempo para toda essa besteira, para ser bem sincero. Nós temos uma militância de base muito mais radical a organizar.

Notas

[1] Ver Martin J. Sklar, The Corporate Reconstruction of American Capitalism, 1890-1916 (New York: Cambridge University, 1986), 333-364, para uma discussão embasada sobre a posição anti-socialista e liberal de Theodore Roosevelt no início de século XX em favor da classe dominante dos EUA. A entristecedora guinada à direita de Sklar no fim da vida, não deve obscurecer o brilho do seu trabalho como marxista (que desde o final dos anos 1950 e perpassa a era Reagan) sobre reconstrução corporativa dos EUA e sobre a ideologia corporativa-liberal, o direito, a política, e política durante os Anos Dourados. Com justiça, deve-se reconhecer que (graças as suas ideias socialistas conservadoras sobre "sistemas mistos" em que capitalismo contém socialismo e vice-versa), o Sklar, que escreveu The Corporate Reconstruction ficaria do lado de Sanders e Foner no argumento postulado neste presente ensaio.

[2] Em um famoso discurso proferido em Canton, Ohio, em 1918, Debs falou com desprezo contra a hipocrisia de Teddy Roosevelt ao batucar os tambores da guerra contra a Alemanha em nome da "democracia". Debs observou que Roosevelt e o Kaiser alemão foram ambos belicistas autoritários, companheiros da alta classe, inimigos da classe operária e do socialismo: "Você se lembra de que, no fim do segundo mandato de Theodore Roosevelt como presidente, ele foi até a África para guerrear com alguns de seus antepassados. Você se lembra de que, no fim de sua expedição, ele visitou as capitais da Europa; e que lá ele fez as suas refeições, dignificado e glorificado por todos os Kaisers e czares e Imperadores do Velho Mundo. Ele visitou Potsdam enquanto o Kaiser estava lá; e, de acordo com as notas publicadas nos jornais americanos, ele e a Kaiser entraram tranquilamente em termos. Eles agiram de forma íntima e deram tapinhas nas costas um do outro. Quando Roosevelt reviu as tropas do Kaiser, de acordo com as mesmas notas, ele se entusiasmou e disse: 'Se eu tivesse um exército como esse, poderia conquistar o mundo". Ele sabia quem era o Kaiser, a Besta de Berlim. E, no entanto, permitiu-se ser recebido por ele; teve seus pés sob o mogno da Besta de Berlim; estave lado a lado com ele. E, enquanto Roosevelt era regiamente entretido pelo Kaiser alemão, esse mesmo Kaiser estava colocando os líderes do Partido Socialista na prisão. Roosevelt foi o convidado de honra na casa branca da Kaiser, enquanto os socialistas preenchiam as prisões por combatê-lo. Quem mesmo estava lutando por democracia? Roosevelt? Roosevelt, que foi homenageado pelo Kaiser, ou os socialistas, que foram presos por ordem do Kaiser? (...) Quando os jornais noticiaram que o Kaiser Wilhelm e o ex-presidente Theodore se reconheciam a primeira vista e eram perfeitamente íntimos um do outro, eles fizeram uma admissão fatal para a pretensa alegação de Roosevelt, isto é, de ser um amigo do homem comum, um campeão da democracia; eles admitiram que eles eram amigos e parentes; que eles eram muito parecidos; que suas idéias e ideais eram semelhantes. Se Theodore Roosevelt é o grande campeão da democracia, o arqui-inimigo da autocracia, que diabos ele fazia como convidado de honra do Kaiser prussiano? E quando ele conheceu o Kaiser, e fez honras ao Kaiser, nos termos imputados a ele, não era muito forte prova de que ele próprio era um Kaiser no coração? E agora, depois de ser o hóspede do imperador Wilhelm, a Besta de Berlim, ele volta a este país e quer enviar dez milhões de homens para matar o Kaiser; para matar seu ex-amigo e camarada. Estranho, não é mesmo? E, no entanto, ele é o patriota, nós que somos os traidores. Eu lhe desafio a encontrar um socialista sobre a face dessa terra que tenha alguma vez sido convidado da Besta de Berlim, exceto como prisioneiro - o Liebknecht mais velho e o Liebknecht mais jovem, filho heróico de seu pai imortal".

[3] Howard Zinn, A People’s History of the United States, 1492-Present (New York: Harperperennial, 2003), 563. Antes da publicação de História do Povo de Zinn, tradição política americana de Hofstader oferecia talvez o melhor e mais legível balcão único volume -narrative para um professor de história progressiva US atribuir em uma classe US History Survey. Hofstader é mencionado como o diretor de dissertação do Foner na Universidade de Columbia em seu brilhante primeiro livro Free Soil, Free Labor, Free Men: The Ideology of the Republican Party Before the Civil War (Oxford University Press, 1970), vii.

O livro mais recente de Paul Street é They Rule: The 1% v. Democracy (Paradigm, 2014).

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