30 de novembro de 2015

Míssel contra o gasoduto

Manlio Dinucci


Tradução / O míssil AIM-120 AMRAAM disparado de um F-16 que voava sob bandeira turca (míssil e avião fabricados nos EUA) não foi dirigido só contra o avião de combate russo que luta na Síria contra o ISIS, mas contra alvo muito mais importante: o "Ramo Turco", gasoduto que traria gás russo para a Turquia e, a partir dali também para a Grécia e outros países da UE.

O "Ramo Turco" foi a resposta de Moscou à proibição, por Washington, de que prosseguisse a construção do "Ramo Sul", que contornaria a Ucrânia e levaria gás russo para Tarvisio (Udine) e para todos nós, na UE, com grandes benefícios para a Itália também em termos de novos empregos. Aquele projeto, lançado pela Gazprom da Rússia e pela italiana Eni, depois expandido para Wintershall da Alemanha e a EDF francesa, já estava em fase avançada de implementação (ENI Saipem tinha contrato de € 2 bilhões, para construir o gasoduto através do Mar Negro), quando, depois de provocar a crise ucraniana, Washington inventou e lançou o que jornal New York Times chamou de "estratégia agressiva de redução do fornecimento do gás russo para a Europa."

Sob pressão dos EUA, a Bulgária bloqueou, em dezembro de 2014, o trabalho de escavação; assim, enterrou o projeto Ramo Sul. Ao mesmo tempo, no entanto, apesar de Ancara e Moscou estarem em campos opostos na questão da Síria e do ISIS, a Gazprom assinou acordo preliminar com a empresa turca Botas, para construírem um duplo gasoduto Rússia-Turquia através do Mar Negro.

Em 19 de junho, Moscou e Atenas assinaram acordo preliminar sobre a extensão do Ramo Turco (ao preço de US $ 2 bilhões, a serem pagos pela Rússia) até a Grécia – convertida em porta de entrada do novo gasoduto em território da União Europeia. Em 22 de julho, Obama telefonou para Erdogan, pedindo que a Turquia se retirasse daquele projeto. Em 16 de novembro, Moscou e Ancara anunciaram novas conversações, mas para relançar o mesmo Ramo Turco, com capacidade ainda maior que a do maior gasoduto através da Ucrânia. Oito dias depois, em 24 de novembro, a derrubada do caça russo levou à suspensão, se não ao cancelamento, de todo o projeto. Não há dúvidas de que Washington festejou a vitória. A Turquia, que importa da Rússia 55% do gás e 30% do petróleo que consome, sofre pesadamente sob sanções russas, além do risco de perder os importantes negócios do Ramo Turco.

Quem, então, na Turquia, teria interesse em deliberadamente derrubar o caça russo, conhecendo as consequências? A declaração de Erdogan ("Gostaríamos que não tivesse acontecido, mas aconteceu. Espero que não volte a acontecer") sugere fortemente que o cenário é muito mais complexo do que sugerem as versões oficiais. Na Turquia estão instalados controles militares importantes, bases de radar e a OTAN sob comando dos EUA: a ordem para derrubar o caça russo foi dada dentro desse quadro de relações.

Qual a atual situação, nesse momento, na "guerra dos gasodutos"? EUA e OTAN controlam o território ucraniano, pelo qual passa o Rússia-UE; mas a Rússia acabou por ficar menos dependente daquele gasoduto (a quantidade de gás que viaja por aqueles dutos caiu, de 90% para 40% do gás russo que chega à Europa), graças a dois corredores alternativos. O Ramo Norte, ao norte da Ucrânia, transporta o gás russo para a Alemanha. A russa Gazprom quer duplicar seus dutos, mas o projeto enfrenta oposição da UE, representada ali pela Polônia e outros governos europeus (mais próximos de Washington que de Bruxelas). O Ramo Azul, operado em pé de igualdade pela Gazprom e pela Eni, passa pela Turquia, e por isso mesmo está também ameaçado. A UE poderia importar gás muito barato do Irã, por um gasoduto já programado através do Iraque e da Síria, mas o projeto está bloqueado (não surpreendentemente) a partir da guerra travada nesses países pela estratégia dos EUA/OTAN.

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