25 de dezembro de 2015

Espanha diz "Não"

Conn Hallinan

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Pela terceira vez em um ano, as duras políticas de austeridade da União Europeia (UE) tomaram uma surra quando os eleitores espanhóis esmagaram seu governo de direita e derrubaram quatro décadas do reinado bipartidário. Seguindo os passos dos eleitores gregos e portugueses no início deste ano, os espanhóis rejeitaram a fórmula econômica da Troika - Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional - fórmula que empobreceu milhões de pessoas e elevou a taxa de desemprego à quase um quarto da população.

O primeiro-ministro de esquerda da Grécia, Alex Tsipras, disse que "A austeridade foi politicamente derrotada na Espanha" e que a eleição foi um sinal "de que a Europa estava no caminho da mudança". O primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, disse: "Como já aconteceu na Grécia e em Portugal, os governos que aplicam medidas de austeridade rígidas (...) estão destinados a perder suas maiorias".

O grande perdedor nas eleições espanholas foi o direitista Partido Popular (PP), que perdeu 63 assentos e sua maioria no parlamento de 350 membros. O PP recebeu mais votos do que qualquer outro partido único, mas seu apoio caiu de 44% nas eleições de 2011 para 28,7%. Embora o primeiro-ministro (do PP) Mariano Rajoy tenha baseado sua campanha na tese de que a economia espanhola havia se recuperado depois do desastre com a crise financeira de 2007-08, os eleitores não compraram esse discurso tão facilmente.

A economia está de fato crescendo - 3,1% neste ano e projeções para 2,7% em 2016 - mas depois de quatro anos ela ainda não recuperou os níveis pré-crise. O desemprego manteve-se em 21% na média nacional, e mais do que o dobro entre os jovens e na maltratada região sul da Espanha.

Além de declarar um decisivo "não" a austeridade, os espanhóis também derrubaram o sistema bipartidário que havia dominado a Espanha desde a morte do ditador Francisco Franco, em 1975. Durante 40 anos, o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PSOE) e o PP se revezaram no governo do país, acumulando um histórico de corrupção e de prevaricação. Os Socialistas também tomaram uma surra, embora menos do que o PP. O PSOE perdeu 20 assentos e caiu de 28,8% de apoio em 2011 para 22% em 2015.

Os vencedores foram dois novos partidos: o Podemos de esquerda ("Nós Podemos") e o Ciudadanos (Cidadãos) de centro-direita, embora tenha sido o primeiro que realmente ganhou o dia.

Em pesquisas pré-eleitorais do Ciudadanos, havia previsão para tornar-se o segundo maior partido do país, mas os eleitores decidiram claramente que as suas estratégias econômicas de livre mercado e suas posições retrógradas sobre o aborto e a imigração o assemelhavam demais ao PP. Esperava-se que o Ciudadanos alcançasse 25%. Em vez disso, levou menos do que 14% dos votos, que significam 40 assentos no total.

Durante meses, os meios de comunicação espanhóis e europeus inventaram histórias sobre o Podemos, dizendo o partido perdia seu apoio. Um jornal inclusive fez uma matéria chamada "Não Podemos" - enquanto o New York Times ungia o Ciudadanos com ares vitoriosos de novidade. Os eleitores, no entanto, tinham uma ideia diferente e deram ao partido de esquerda 20,6% dos votos e 69 assentos no parlamento.

O sistema político da Espanha é fortemente ponderado pelas zonas rurais, onde tanto o PP como os Socialistas são fortes. Em Madrid, um candidato precisa de mais de 128 mil votos para ser eleito. Em uma área rural, esse número pode ser apenas um pouco maior do que 38 mil. A diferença de votos entre os Socialistas e o Podemos - sendo que ambos receberam mais do que cinco milhões de votos - foi apenas de 341 mil. Mas os Socialistas têm 90 assentos e o Podemos tem 69.

O Podemos surgiu em 2011, nas manifestações dos “Indignados" contra as execuções hipotecárias, a desigualdade social, os despejos e os cortes maciços na educação e na saúde. Sua composição é principalmente urbana, embora tenha tido ganhos em áreas rurais. Sua experiência de organização de base foi importante na conquista dos votos.

O Cuidadanos começou como um partido regional de oposição à independência catalã, mas apenas ganhou amplitude nacional no ano passado.

Rajoy afirma que pretende formar um governo, mas como isso se dará ainda não ficou claro. Ambos Podemos e os Socialistas - que juntos controlam 159 assentos - explicitaram que pretendem lutar contra qualquer tentativa por parte do PP para permanecer no poder. Rajoy poderia tentar uma coalizão com o Ciudadanos, mas isso só equivaleria a 163 assentos, sendo que o governo precisa de 176 cadeiras para controlar o parlamento. Em qualquer caso, o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, diz que não vai entrar em uma aliança com Rajoy devido a história corrupta do PP.

Existem outros membros do parlamento que representam as regiões do País Basco e da Catalunha, mas o Podemos emergiu como o partido mais forte em ambas as regiões. No entanto, não será fácil para uma aliança Socialistas/Podemos remendar juntos uma maioria, tampouco é simples navegar as políticas complicadas da Catalunha.

Catalunha, a província mais rica da Espanha, tem 17 assentos no parlamento, os quais apoiam, sem rodeios, uma maior independência ou a separação. A Catalunha se tornou parte da Espanha depois de ter sido conquistada por uma junta armada entre Espanha e França, durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714). Tem a sua própria língua e cultura, que até recentemente eram suprimidas por Madrid. Em setembro, 47,7% dos catalães votaram em candidatos favoráveis a independência, que agora controlam o parlamento regional.

O Partido Socialista e o Podemos são ambos contrários a independência da Catalunha, embora o Podemos acredite que a questão deva ser decidida pelos catalães e apoie um referendo. O Ciudadanos é inflexível em sua oposição à independência catalã.

É possível que o governo tente forjar uma base a partir dos 159 assentos controlados pelo Podemos e pelos Socialistas junto a outras 28 cadeiras que representam os bascos, os catalães e os canários, além de outros grupos esquerdistas. Embora tal governo pareça frágil, poderia ser melhor do que tentar forjar uma aliança de três vias entre os Socialistas, o Podemos e o Ciudadanos.

O último entre os partidos supracitados se opõe à regulamentações governamentais, apoia privatizações de ativos publicos e, em sua essência, é socialmente conservador. A esquerda, por outro lado, defende um forte papel para o governo e opõe-se firmemente à privatização. E a eleição, diz o líder do Partido Socialista Pedro Sanchez, mostra que a Espanha quer "uma guinada à esquerda".

Em 13 de janeiro, o rei Felipe VI provavelmente irá oferecer a Rajoy a primeira oportunidade para formar uma base de governo. Se ele aceitar, será uma minoria de curta duração. No mês passado, o presidente português de direita nomeou um governo de direita minoritário, que durou apenas uma semana. A esquerda portuguesa está pressionando conjuntamente por uma aliança de três vias que irá governar o país.

Se Rajoy falhar e os Socialistas não puderem articular algo juntos, então terá de ocorrer novas eleições. Ainda assim, a esquerda tem a melhor oportunidade de organizar uma coalizão unida.

Aconteça o que acontecer, o antigo sistema bipartidário foi desmantelado. Antes desta eleição, os dois principais partidos controlavam entre 75% e 85% dos votos. Nesta última eleição, decairam para pouco mais de 50%. E, como diz o líder do Podemos, Pablo Iglesias, "a Espanha não será mais a mesma e estamos felizes".

A próxima dificuldade é a UE. No entanto, embora a Troika tenha martelado a Grécia, a Espanha, com a quinta maior economia da UE, é totalmente uma outra questão. O jogo está mudando e a Espanha é uma nova peça no tabuleiro, que a Troika não será capaz de intimidar tão facilmente como a Grécia ou Portugal.

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