14 de dezembro de 2015

As 300 hiroshimas da Itália

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Enquanto a palavra “segurança” volta a ser gritada pelos megafones político-midiáticos, a palavra do ministro da defesa russo Shoigu sobre o cada vez mais perigoso confronto nuclear na Europa cai no silêncio. Nenhum alarme, nenhuma reação governamental na Itália quanto ao que ele disse: “Cerca de 200 bombas nucleares estadunidenses estão instaladas na Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha e Turquia, e este arsenal nuclear é sujeito a um programa de renovação”. Por tais razões, “as forças de mísseis estratégicos russos mantêm mais de 95% dos lançadores prontos para o combate a qualquer momento”.

E enquanto o submarino russo lança desde o Mediterrâneo contra objetivos do chamado Estado Islâmico (EI) na Síria mísseis de cruzeiro Kalibr (que percorrem cerca de três mil quilômetros a baixa altitude acelerando na fase final em três vezes a velocidade do som), o presidente Putin adverte que “os mísseis Kalibr podem ser armados seja com ogivas convencionais, seja com ogivas nucleares”, acrescentando que “certamente isto não é necessário na luta contra os terroristas, e espero que não seja jamais necessário”. Esta clara mensagem dirigida na realidade à OTAN, em particular aos países europeus em que estão instaladas as armas nucleares dos Estados Unidos, é apresentada pela mídia como uma “brincadeira” de Putin mostrando seus “músculos”.

Assim, não se alarma a população, deixando-a na ignorância sobre o perigo ao qual é exposta. As cerca de 70 bombas nucleares B-61 dos Estados Unidos, prontas para uso nas bases de Aviano e Ghedi-Torre, estão por ser substituídas pelas B61-12. Com tal escopo – documenta a Federação dos Cientistas Americanos (FAS, na sigla em inglês) com fotos de satélites – foi efetuado o upgrade das duas bases, em 2013 e 2014, quando se desenvolveu o Steadfast Noon, exercício da OTAN de guerra nuclear com a participação também dos caças F-16 da Polônia, que se ofereceu para hospedar as novas bombas nucleares dos Estados Unidos.

A B61-12 é uma nova arma nuclear que, lançada a cerca de 100 quilômetros do objetivo, é projetada para “decapitar” o país inimigo em um ataque nuclear relâmpago. Apaga-se assim a diferença entre as armas nucleares estratégicas de grande porte e as armas táticas de pequeno porte.

Não se sabe quantas B61-12 serão implantadas na Itália, mas, com uma estimativa precária, calcula-se que a sua potência destrutiva equivalerá à de cerca de 300 bombas de Hiroshima. Segundo as regras do Grupo de Planificação Nuclear da OTAN, de que faz parte a Itália, os países que hospedam as armas nucleares estadunidenses “colocam à disposição aviões equipados para transportar bombas nucleares e pessoal adestrado com tal escopo”, mas “os Estados Unidos mantêm o controle absoluto e a custódia de tais armas nucleares”. A FAS confirma que em Ghedi estão estocadas as bombas nucleares dos Estados Unidos “para o Tornado italiano” e que os pilotos italianos são treinados para o seu uso.

Como se prevê substituir o Tornado com os F-35, os primeiros pilotos italianos, que completaram em novembro o adestramento nos F-35 na base Luke da U.S. Air Force no Arizona, são treinados também para o uso dos B61-12.

Assim, a Itália viola o Tratado de não proliferação ratificado em 1975, que a “compromete a não receber qualquer que seja a arma nuclear, nem o controle sobre tais armas, direta ou indiretamente” (Art. 2). Por conseguinte, tornou-se base avançada da estratégia nuclear dos Estados Unidos e da OTAN e, portanto, alvo de represálias nucleares. É vital a luta pela desnuclearização da Itália, sem a qual a exigência genérica de abolição das armas nucleares se torna uma cobertura demagógica para quem não quer enfrentar a questão nodal. Isto prova que o sono da consciência levou também à perda do instinto de sobrevivência.

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