30 de novembro de 2015

David Cameron, não existem 70.000 combatentes moderados na Síria — e quem já ouviu falar de um moderado com uma Kalashnikov, em todo o caso?

Os deputados trabalhistas blairristas vão votar com Dave porque eles detestam Corbyn mais do que o ISIS

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Nunca mais, desde que Hitler ordenou que o general Walther Wenck enviasse um inexistente 12º Exército para resgatá-lo do Exército Vermelho em Berlin, se teve notícia de líder europeu que acreditasse mais firmemente em fantasias militares como ferramenta de Relações Públicas, que Dave Cameron, semana passada. Falar na Câmara dos Comuns dos 70 mil combatentes "moderados" alocados na Síria não foi apenas mentir, no sentido das mentiras que Tony Blair mentia sempre – porque Blair se persuadiu, até acreditar firmemente na próprias mentiras –, mas algo que se aproximava bem mais do burlesco.

Foi coisa ensaiada no capricho – ridícula, cômica, grotesca, caricata. Chegou perto de uma forma esquisita de pantomima trágica. A certa altura, semana passada, um dos satrapas de Cameron já chamava o tal exército fantasma de "tropas de infantaria". Duvido que haja 700 combatentes "moderados" na Síria – e estou sendo muito generoso, porque o número certo deve estar mais próximo de 70 – mas nunca 70 mil. E os curdos sírios não vão acabar com o ISIS por nós; estão já ocupados demais tentando sobreviver aos ataques de nossos aliados turcos. Além do mais, "moderados" não costumava ser aquele pessoal que detesta armas? Quem, algum dia ouviu falar de moderado armado de Kalashnikov?

O exército do regime sírio – que são soldados de infantaria de verdade e nunca se preocuparam com rebeldes "moderados", porque quanto mais moderado, mais depressa fogem – é a única força regular ativa na Síria. E graças a Vladimir Putin, não a Dave, o "Relações Públicas", eles estão conseguindo começar a recuperar território sírio perdido. Mas, depois de ter perdido pelo menos 60 mil soldados – mortos a maioria pelos terroristas do ISIS e Frente al-Nusra – o exército sírio dificilmente conseguiria resistir a assalto contra Damasco feito pelos 70 mil "moderados" de Dave Cameron. Se esse exército fantasma existisse, já teria tomado Damasco e derrubado o governo.

Pois na Câmara dos Comuns, semana passada, queriam que acreditássemos nessa bobagem – tudo em nome de disparar dois ou três jatos bombardeiros contra o ISIS na Síria. Não nos tornará mais vulneráveis, disse Dave. O fato é que já estávamos vulneráveis, porque bombardeamos o ISIS no Iraque. Mas Dave sabe – e todos nós sabemos, não é? – que o ISIS quase com certeza cometerá uma atrocidade na Grã-Bretanha, para vingar a mais recente ideia tosca-ginasiana de Dave, o aventureiro intrépido. Depois – à moda Blair depois do 7/7 – Dave insistirá que o ISIS nos mata porque odeia nossos "valores". E na sequência virá o inevitável vídeo de um suicida-matador dizendo que matou nossos inocentes porque Dave Cameron mandou seus aviõezinhos miniatura bombardear o ISIS.

Estranho, nisso tudo, é que a maioria dos britânicos com os quais cruzo e a maioria dos árabes com que falo no Oriente Médio – sabem perfeitamente de tudo que escrevi acima. O Partido Trabalhista também sabe. Mas os deputados blairitas do Partido Trabalhista votarão com Dave, porque por mais eles detestam o culto maligno de ISIS, eles odeiam o culto maligno de Corbyn ainda mais. Será que eles também acreditam – como todos deveríamos acreditar – que o chamado Comitê Conjunto de Inteligência está dizendo a verdade sobre os míticos 70 mil "moderados"? E esse indizivelmente valoroso Comitê será estúpido a ponto de não ter contado a Dave sobre o papel do culto da morte regido pelos sauditas wahabistas, que é a direta inspiração religiosa e sectária para o ISIS? E se o Comitê contou tudo a Dave, por que Dave não falou sobre os sauditas na Câmara dos Comuns, semana passada?

Não, não estamos "em guerra". ISIS pode estar massacrando nossos inocentes, mas não está invadindo a gente aqui. ISIS nunca capturará Paris ou Londres – como nós e os americanos capturamos Bagdá e Mosul em 2003. Nada disso. O que ISIS deseja é nos convencer a nos destruirmos, nós mesmos. ISIS deseja que odiemos nossas minorias muçulmanas. ISIS quer guerra civil na França entre as elites e os muçulmanos privados de todos os direitos, muitos dos quais de origem argelina. ISIS quer que os belgas odeiem os muçulmanos de lá. Quer que os britânicos odiemos nossos muçulmanos. ISIS deve ter ficado ofendido pelos milhares de bons europeus que acolheram com amor o milhão de muçulmanos refugiados que chegaram à Alemanha. Os muçulmanos deveriam estar marchando rumo ao novo Califato – nunca fugindo dele! Então, agora, ISIS quer nos pôr contra os refugiados.

Para conseguir isso, ISIS terá de implicar nas suas atrocidades centenas de milhares de refugiados muçulmanos inocentes. Terá de forçar nossas nações da União Europeia a implantar o Estado de Emergência, suspender as liberdades civis, invadir casas de muçulmanos. ISIS quer destruir a própria União Europeia. Quer atacar no coração do ideal europeu, liquidando a pedra basilar da união: nos convencendo a rasgar o acordo Schengen e a fechar todas as fronteiras. E é exatamente o que estamos fazendo. Estaremos nós, em uma espécie de autopânico, trabalhando realmente a favor de ISIS? Se essa instituição maldita não proibisse bebidas alcoólicas, seus membros estariam brindando com champanhe à vacuidade, às mentiras, aos sofismas de nossos líderes políticos, ao medo abjeto que, agora, eles tentam regularmente injetar em nós, sob o perigoso velho grito de "Unificar a nação".

Vladimir Putin compreende tudo isso. Sabe que a Turquia está ajudando ISIS – razão pela qual ele destruirá a rota de contrabando de petróleo que leva à Turquia – e, como ex-oficial da KGB, Putin também compreende o cinismo que rege todas as crises. Se um avião americano tivesse invadido espaço aéreo turco – Putin perguntou na conferência de imprensa no Kremlin, ao lado de François Hollande semana passada –, será que alguém acredita que a Turquia teria assassinado a tiros um piloto americano? Todos sabemos a resposta a essa pergunta. Se a Turquia quer destruir ISIS, por que bombardeia os curdos inimigos do ISIS? Por que mete na cadeia dois jornalistas turcos, porque noticiaram como o serviço turco de inteligência contrabandeia armas para terroristas islamistas na Síria? E Putin nada terá a objetar, se a União Europeia for empurrada pelo medo ao suicídio.

Nesse quadro real, surfa Dave, o "Relações Públicas". E por que não? Depois de ter grudado na lapela um papoula falsa que fez no Photoshop, para assim homenagear os britânicos mortos na guerra por que Dave Cameron não faz lá uns 70 mil "moderados" falsos de Photoshop e gruda num mapa da Síria?

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