2 de dezembro de 2015

O ataque neoliberal à vida dos negros de Baltimore à Buenaventura, Colômbia

Ajamu Baraka

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Danelly Estupiñan, uma grande ativista de direitos humanos afro-colombiana e minha amiga pessoal, hoje enfrenta uma ameaça mortal de criminosos fanáticos alinhados com os interesses econômicos dos poderosos, que se empenham em manter a subjugação da população negra na cidade portuária de Buenaventura e em toda a Colômbia.

Ativista e membro do Processo das Comunidades Negras (PCN), Danelly faz parte de uma longa lista de mulheres, trabalhadores e jovens ativistas que estão enfrentando a morte ou foram assassinados por se atrever a organizar afro-colombianos em defesa de sua dignidade.

Às 17:30 de 23 de novembro, Danelly recebeu uma ameaça de morte que dizia: "Danelly, você está perto do seu fim". Menos de cinco horas depois, ela recebeu um telefonema de um amigo, que foi interposto por uma voz distorcida dizendo "nós sabemos onde você está, nós sabemos onde você está".

O escritório do Processo das Comunidades Negras (PCN) em Buenaventura atua há décadas em defesa dos direitos e da dignidade da população negra que vive na área de Bajamar da Ilha de Cascajal, em Buenaventura. Os afrodescendentes que vivem nesta área, muitos dos quais foram deslocados juntamente com seus filhos, fugiram de conflitos e de abusos nas comunidades ribeirinhas próximas. Eles agora vivem em condições sub-humanas decorrentes do abandono por parte do Estado. Não só têm de enfrentar uma extrema marginalização, pobreza, falta de serviços básicos e pouco acesso a oportunidades de emprego, mas agora a área em que vivem teve seu valor aumentado como resultado do "acordo de livre comércio" entre a Colômbia e os EUA, o que os tornou alvo de grupos armados que procuram forçá-los a abandonar suas terras.

Eu conheço esta comunidade. Eu andei por suas ruas e comi do mesmo pão que seus habitantes. O governo quer que essa e outras comunidades negras simplesmente desapareçam, porque pretende expandir o porto e construir um novo calçadão na cidade, de modo a atrair investimentos privados e dólares de turistas. Seu único obstáculo são as pessoas que vivem naquela terra valiosa. Danelly e o PCN representam uma resistência organizada a esses planos e, portanto, tornaram-se alvo dos grupos paramilitares que protegem e fazem valer os interesses da elite colombiana.

A pobreza, a repressão e a luta de vida e morte das comunidades negras em Buenaventura, Colômbia, não pode ser compreendida se ignorarmos a estrutura e a lógica da globalização capitalista neoliberal - uma perspectiva que relaciona as condições de Buenaventura com as condições de outra cidade portuária - Baltimore.

Em ambos os casos, os efeitos da globalização capitalista resultaram no deslocamento maciço de populações negras; aumento da pobreza; marginalização econômica do trabalho negro e violência estatal ou privada. A erupção da resistência popular em uma das comunidades mais pobres de Baltimore durante anos de negligência estatal e policiamento militarizado é consequência direta das condições sócio-econômicas devastadoras geradas pelos milhares de empregos perdidos quando os EUA transnacionalizaram grande parte das atividades industriais e portuárias da cidade, resultado de uma globalização neoliberal. Em contexto de pauperização da classe trabalhadora negra em Baltimore, os administradores negros de classe média que ocupavam as instituições governamentais locais apoiaram planos de desenvolvimento, como o complexo Inner Harbor, que deslocou milhares de famílias da classe trabalhadora negra.

Em Baltimore, a relativa fraqueza da resistência negra ao significativo deslocamento em massa fez com que não fossem necessários esquadrões da morte para exterminar líderes comunitários, diferente do que vemos na Colômbia. O domínio eminente e um policiamento militarizado neofascista, com impunidade de crimes cometidos contra os negros e pobres concentrados nas comunidades arruinadas, tem sido arma eficaz para controle e contenção das pessoas. E quando houve erupções de oposição, como durante a última rebelião em Baltimore em resposta ao assassinato policial de Freddie Gray, vimos como o Estado, a nível local e nacional, não hesitou em trazer todo o peso de sua jurisprudência opressora sobre quem se atrevia a resistir.

O que deve ser claramente entendido e articulado em linguagem inequívoca é que essa guerra travada contra corpos negros não significa contenção de "maçãs podres" pelas forças policiais, não é uma falta de revisão eficaz das práticas policiais ou, no caso da Colômbia, não é simplesmente a ausência de um governo que intervenha de forma mais agressiva para desmantelar os grupos paramilitares. A guerra que está sendo travada contra negros pobres e contra a classe trabalhadora é precisamente a manifestação de uma guerra mais ampla, engendrada por uma supremacia branca assassina e voraz, uma classe dominante global, colonial, capitalista e patriarcal que visa manter e expandir a sua hegemonia mundial.

Esta é a base e o objetivo da Parceria TransPacífico (PTP), do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial (BM), da OTAN, da guerra na Síria e do apoio contínuo ao forte do imperialismo ocidental no Oriente Médio, conhecido como Israel.

Não se confunda com o papel dos estados vassalos, como Turquia, Arábia Saudita, França, Reino Unido ou mesmo com os estados que parecem independentes dessa dominação, como China e Rússia - as fundações da dominação capitalista global, através de força, ainda se situam no Ocidente e representam uma continuação do velho projeto colonial e capitalista pan-europeu, agora com 523 anos. Esta é principal contradição que os diferentes povos do mundo enfrentam.

Em 9 de novembro, os paramilitares assassinaram o jovem ativista Jhon Jairo Ramirez Olaya em Buenaventura. Hoje, Danelly Estupiñan, cuja vida e luta são símbolo para todos aqueles que lutam contra opressões, está enfrentando a morte pela audácia de se organizar e resistir a globalização capitalista.

Nós devemos nos juntar ao povo da Colômbia. Temos de nos certificar de que as vidas dos negros de Buenaventura importam e de que a nossa querida irmã estará protegida. Mas também devemos reconhecer que, para que a vida negra realmente importe, a vida de todos aqueles que sofrem e são explorados pelo capitalismo neoliberal e pela ideologia desumanizadora da supremacia branca devem também importar. A valorização de nossas vidas só pode acontecer quando nós, os oprimidos, lutarmos pelo poder de transformar nossas condições e de imaginar e lutar por um novo mundo.

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