20 de dezembro de 2015

O que descobri ao entrevistar soldados do Estado Islâmico presos

Eles são atraídos para o movimento por razões que pouco têm a ver com a crença em um Islã extremista.

Lydia Wilson
Tradução / Logo, estou acomodada numa sala de entrevistas na delegacia de Kirkuk, no Iraque, quando vem sendo trazido o primeiro prisioneiro que estou para conhecer aqui, guiado por dois policiais e algemado. Eu me levanto e sinto um desconforto, insegura sobre a etiqueta necessária para entrevistar um soldado do EI que está encarando a pena de morte. Ele é pequeno, muito menor do que eu, numa primeira vista, apenas um garoto que entrou em apuros com a polícia, com os olhos fixos no chão, o rosto como se fosse uma máscara. Todos nós sentamos em poltronas de costas para as paredes, numa sala coberta de fumaça de cigarro e iluminada por uma lâmpada florescente comprida, uma sala tão pequena que meus joelhos quase tocam os do prisioneiro – mas ainda assim, ele não olha para cima. Eu já entrevistei muitos soldados dos diferentes lados dessa guerra, principalmente forças curdas (conhecidos como peshmerga), mas também soldados no Exército Iraquiano (conhecidos como Forças de Segurança Iraquianas, ou FSI), assim como árabes e curdos. Soldados do EI, claro, são mais elusivos, a menos que você esteja indo para os territórios do próprio Estado Islâmico, mas eu prefiro ainda manter a minha cabeça grudada ao meu pescoço.

Abundam rumores sobre as execuções sumárias de prisioneiros do EI sem o devido processo legal, mas é claro que ninguém irá registrar publicamente tais abusos dos direitos humanos. Nos contaram uma anedota de que um prisioneiro fora interrogado por 30 dias, mas disse apenas Allahu Akbar (Deus é grande) o mês inteiro. “Você não o mataria?”, me perguntaram. Um peshmerga testemunhou que cinco prisioneiros haviam sido capturados, interrogados e mortos com um tiro na cabeça. Nós falamos com vários líderes militares que disseram que não queriam prender ninguém, já que feridos podem ser armadilhas e matar aproxima os soldados; por esse motivo, o PKK tem uma política de não capturar ninguém. (O PKK, ou Partido dos Trabalhadores do Curdistão, é um grupo separatista curdo com base na Turquia que se encontra hoje na lista internacional do terrorismo; ao mostrarem-se indispensáveis na luta contra o EI, eles causaram um dilema para os governos ocidentais. Isso pode ser visto pelo fato de que esses governos se sentiram compelidos a se opor aos bombardeios turcos contra o PKK).

Outra fonte nos falou sobre a futilidade de capturar prisioneiros para ter poder de barganha: “com o EI, não há compromisso, nem negociação... eles não estão interessados em trocar prisioneiros porque eles acreditam que ficarão melhores quando morrerem”. E independente de qual seja o verdadeiro comportamento dos militares e guerrilheiros, ainda resta um fato: prisioneiros do EI são difíceis de encontrar.

Uma noite nós vimos um documentário da BBC Árabe fazendo o perfil do General Brigadeiro Sarhad Qadir, o chefe da polícia do governo iraquiano de Kirkuk. Ele fora mostrado policiando a cidade de Kirkuk, patrulhando pessoalmente as ruas e casas, prendendo pessoas suspeitas de lutar pelo EI. Sendo assim, Kirkuk pareceu ser um bom lugar para começar: ao menos aqui, segundo a BBC, havia prisioneiros.

E então meus colegas e eu dirigimos para Kirkuk a partir da capital do Curdistão iraquiano, Erbil, para então encontrar Qadir. Apesar da carga de trabalho para manter a segurança nessa difícil área meio-árabe, meio-curda, tomada por pequenas células adormecidas do EI, ele foi hospitaleiro, mandando seus guardas armados nos escoltarem no acesso principal à cidade. Ganhamos chá em seu escritório e então sentamos juntos por uma hora e meia, antes que fossemos então levados para uma sala de interrogatórios com dois coronéis (na semana seguinte após ter saído do país, ele e seus oficiais foram atingidos por um carro bomba; Qadir for ferido pela décima quarta vez desde que passara a servir no Curdistão).

Assim que o primeiro prisioneiro chega ali, e sem a possibilidade de bater papo, nós vamos diretamente às perguntas que nossa pesquisa nos permitiu fazer, as mesmas perguntas que fiz a soldados e civis em todo o país, perguntas que também fiz quando estive no Líbano, que inclusive foram reproduzidas em outras partes do mundo pelos meus colegas pela Artis International, um consórcio de estudos científicos a serviço da resolução de conflitos. A pesquisa é baseada na psicologia cognitiva e moral, explorando quando e por quê os humanos cometem os sacrifícios mais extremos – incluindo aqui suas vidas e as vidas de suas famílias – por causas abstratas, por valores ditos “sagrados”. Nossa pesquisa tenta determinar por que as pessoas vão mudar de ideia sobre esses valores “sagrados”, e se elas vão e como vão mudar de comportamento ao defendê-los. Nós esperamos descobrir como persuadir as pessoas a abandonar caminhos violentos, ainda que eu admita estar perdendo a fé nessa possibilidade perante essa parte do mundo.

Para essa viagem, sou acompanhada por dois colegas veteranos: Scott Atran, um acadêmico residente na França e por Doug Stone, um general aposentado americano que passou dois anos no Iraque durante a ocupação americana, entrevistando prisioneiros diariamente. Isso, é claro, muda a experiência da entrevista fundamentalmente, enchendo a sala e dando ainda mais importância ao evento, mais formalidade, mas também trazendo diferentes questões, ênfases e especialidades, assim como contemplando diferentes ângulos sobre as entrevistas. De qualquer forma, a informalidade nunca vai ser atingida com prisioneiros no corredor da morte.

Primeiro, tem as questões que desafiam nossas percepções sobre a força dos vários grupos envolvidos – alguns dos quais o entrevistado pode ter simpatia (ainda que ele não necessariamente expresse isso). Outros grupos ele iria claramente considerar como sendo o Outro, o Inimigo. Eu trago comigo um pendrive com as fotos de homens semi-nus, mostrando desde rapazes mirrados até o mais forte fisiculturista – e cada um deles aparece com uma bandeira do Estado Islâmico no lugar da cabeça. Independentemente do que esse jovem estava esperando, independente do que já lhe perguntaram anteriormente – isso era algo novo. Ele olha para cima, chocado, dirigindo-se ao meu colega, Hoshang Waziri – sua primeira reação humana – que começa então a explicar.

“Este é o Estado Islâmico – olhe, aqui está a bandeira”, diz Hoshang, apontando para o fisiculturista que flexionava seu bíceps. “Essa foto mostra o Estado Islâmico como o mais forte dentre todos. Aqui, como você pode ver, eles estão muito, muito fracos; e aqui, o meio-termo. Quão forte você acha que eles são?” O rapaz timidamente aponta para o mais fraco – o que era esperado, já que ele não quer ser visto como um fã – e então nós mostramos fotos similares, mas com a bandeira curda ao invés das bandeiras do Estado Islâmico, ocupando onde seria a cabeça dos corpos. “Agora os peshmerga: quão forte eles são?”

O prisioneiro parece ter compreendido a ideia da pergunta e aponta para o segundo mais forte das fotos. Em outras imagens, ele decide que o Exército Iraquiano é um meio-termo, que o Irã é um pouco mais fraco e que os Estados Unidos seriam os mais fortes (ele não conhecia o PKK, apesar das vitórias impingidas contra o EI). Nós pedimos para ele hierarquizar todas as forças, usando cartões, e então percebo que ele ainda está algemado, no que solicito para que elas lhe sejam removidas. Durante o breve hiato em que os policiais buscam as chaves e caminham em direção ao prisioneiro, eu tento conversar mais informalmente e ele finalmente olha para mim, respondendo sucintamente perguntas sobre sua idade, trajetória, educação, família. Lentamente, com excertos emergindo ao longo da entrevista, eu consigo montar um quadro que deve ser repetido, com algumas pequenas diferenças, por outros prisioneiros que falaríamos a partir daquele dia, histórias conhecidas pelo general Stone durante a ocupação americana, assim como para jornalistas e pesquisadores com quem conversei.

Esse jovem, com 26 anos, é o mais velho de 17 filhos de duas mães (isto é, seu pai tinha duas esposas ao mesmo tempo), da região de Kirkuk. Ele tem a sexta série completa, o que significa que ao menos ele era alfabetizado, ao contrário de outros que nós entrevistamos. Ele é casado, tem dois filhos, um menino chamado Rasuul, que significa “profeta”, e uma menina chamada Rusil, o plural de “profeta” – o que indicaria a centralidade do Islã em sua vida. Ele estava trabalhando como operário para sustentar sua grande família quando ele então machucou suas costas e acabou perdendo seu emprego. Foi nesse momento, segundo sua história, que um amigo, da mesma tribo, mas de parentesco distante, chegou até ele com a oferta de trabalhar para o EI. A história foi afinada a partir de repetidos interrogatórios e julgamentos e vem até nós já devidamente imaculada. A vida sob o jugo do Estado Islâmico era apenas terror, ele nos diz; ele lutou somente porque ele estava aterrorizado. Outros podem ter feito isso por crença, mas ele não. Sua família precisava do dinheiro e essa era a única oportunidade para sustentá-los.

Mais tarde, na mesma entrevista, descobrimos o quanto ele era comprometido a sua família, inicialmente com pendrives que usamos para testar o grau de fusão dos indivíduos com vários grupos. Nós perguntamos sobre Iraque, Islã, família, amigos e o Estado Islâmico. As escolhas na resposta são pictóricas: nós usamos um conjunto de dois círculos que se sobrepõem um ao outro (numa parte, eles nem se tocam e em outra eles praticamente estão juntos, com quatro outros círculos variando graus de sobreposição entre eles) e, novamente, eles são inesperados e confundem o prisioneiro – não há uma resposta óbvia e “certa” na maioria deles. O homem acaba saindo de sua posição retraída, perdendo sua insegurança e concentrando-se nas perguntas de Hoshang. Eventualmente, ele decide que seu círculo está quase totalmente fundido ao do Iraque e ao do Islã, completamente separado do Estado Islâmico (de novo, isso já era esperado por nós), mal conectado com seus amigos (“eu não tenho amigos”), e completamente sobreposto com o de sua família. De fato, sua família é o único grupo que ele estava completamente sobreposto numa decisão rápida e imediata. Durante as questões mais informais sobre sua família e sua tribo, vem essa afirmação peremptória: “Nós precisamos que a guerra acabe, nós precisamos de segurança, nós estamos cansados de tanta guerra... tudo que eu quero é estar com a minha família, meus filhos”.

Quando ele foi levado, nós tivemos a chance de descobrir afinal, do que ele era culpado, como o encontraram e qual era a evidência. Ele era um mestre dos carros bombas, detonando pelo menos quatro deles em Kirkuk, assim como também uma motoneta-bomba, que explodiu numa souq que vendia armas, matando várias pessoas e também diminuindo a capacidade dos residentes locais em lutar contra o EI. Ele fora encontrado a partir da captura de um dos financiadores da célula adormecida em Kirkuk, que por sua vez tinha uma lista de pseudônimos junto com telefones e quantias de dinheiro. A polícia fez com que esse homem ligasse para cada pessoa da lista, uma célula composta por seis pessoas, e marcar encontros em que a polícia os capturaria – todos eles foram pegos num dia só. O financiador viu que eles estavam todos lá e “entrou em colapso; ele deu 5 páginas de confissão”. Ele manteve seu depoimento no tribunal, onde então foi acusado pelo artigo 40 da lei iraquiana sobre terrorismo, que por sua vez leva à pena de morte.

Por que ele teria feito todas essas coisas? Muitos imaginam que esses soldados são motivados por uma crença no Estado Islâmico, um califado controlado por um califa com título tradicional de Emir al-Muminiim, “o comandante dos fiéis”, um papel que atualmente cabe à Abu-Bakr al-Baghdad; que os soldados ao redor do mundo estão vindo para essa área por uma chance de lutar por esse sonho. Mas esse não parece ser o caso dos prisioneiros que estamos entrevistando. Eles são bastante ignorantes sobre o Islã e têm dificuldades em responder questões sobre a Sharia, sobre militância jihadista e sobre o califado. Mas um conhecimento detalhado, ou mesmo superficial, sobre o Islã não é necessariamente relevante para o ideal de lutar em nome do Estado Islâmico, como é possível perceber a partir do pedido feito na Amazon do livro Islã para principiantes feito por um soldado inglês que lutava pelo EI.

De fato, Erin Saltman, veterana pesquisadora de contra-extremismo no Instituto de Diálogos Estratégicos diz que agora há cada vez menos ênfase no conhecimento do Islã durante a fase de recrutamento. “Nós estamos vendo um movimento que não mais se interessa pelo restritivo treinamento ideológico religioso como requisito para o recrutamento”, disse ela. “Se nós fossemos olhar para os recrutas estrangeiros para o Afeganistão a 10 ou 20 anos atrás, veríamos um intenso treinamento religioso e teológico ligado ao recrutamento. Hoje em dia, nós vimos que a estratégia de recrutamento se expandiu para uma audiência muito maior e com uma série de fatores de integração”.

Não há dúvida que esses prisioneiros que estou entrevistando estão comprometidos com o Islã; mas é o seu próprio tipo de Islã, apenas remotamente próximo daquele professado pelo Estado Islâmico. Similarmente, soldados ocidentais que viajaram para o território do Estado Islâmico estão também profundamente comprometidos, mas sua ideia de jihad é bastante própria e diferente daquela baseada em sólida argumentação teológica a partir do Qur’an. Como Saltman diz, “O recrutamento joga com um desejo de aventura, de ativismo, romance, poder, pertencimento, tudo junto com realização espiritual”. Ou seja, o Islã tem uma parte nisso tudo, mas não necessariamente na sua forma rígida e salafita, tal qual exigida pelos líderes do Estado Islâmico.

Mais pertinentes que a teologia islâmica, há outras explicações muito mais convincentes para explicar o porquê dessas pessoas lutarem desse lado da trincheira. No final da entrevista com o primeiro prisioneiro, nós perguntamos: “Você tem algumas perguntas para nós?” Pela primeira vez desde que chegamos na sala, ele sorriu – surpreso – e finalmente nos contou sobre o que realmente o motivara, sem qualquer duplo sentido. Ele sabe que há um americano na sala e talvez possa até adivinhar que, pelo seu comportamento e suas perguntas, que esse americano é um ex-militar, dirigindo sua pergunta a ele na forma de uma afirmação cheia de raiva. “Os americanos vieram”, ele disse. “Eles derrubaram Saddam, mas eles também acabaram com a nossa segurança. Eu não gostava de Saddam, nós estávamos morrendo de fome naquela época, mas pelo menos não havia guerra. Quando vocês vieram, a guerra civil começou”.

Toda essa experiência foi bastante familiar para Doug Stone, o general americano a quem fora dirigida essa diatribe. “Ele se encaixa no perfil do tipo ideal”, disse Stone posteriormente. “A média etária dos prisioneiros no Iraque quando eu estava aqui era de 27 anos; eles eram casados; eles tinham dois filhos; tinham educação da sexta a oitava série completas. Ele tem basicamente o mesmo perfil de 80% dos prisioneiros daquele período... e sua principal reclamação sobre segurança e contra as forças americanas era exatamente a mesma de cada um dos detidos”.

Esses rapazes amadureceram durante a desastrosa ocupação americana em 2003, numa caótica e violenta parte árabe do Iraque, governada por Nouri al-Maliki, um xiita violento e sectário. Crescer como sunita não era nada bom. Um entrevistado posterior descreveu sua vida sob a ocupação americana: ele não podia sair, não tinha vida própria e ele especificamente mencionara que não tinha namoradas. O maior ressentimento de um soldado do Estado Islâmico é justamente a falta de uma adolescência. Outro dos entrevistados foi recrutado à tenra idade de 13 anos, quando sua família fugiu de Kirkuk para a província de Diyala, no auge da sectária guerra civil iraquiana. Eles são filhos da ocupação, muitos que inclusive perderam os pais durante os períodos cruciais (seja pela prisão, pela execução sumária ou por lutarem na insurgência), cheios de ódio contra os americanos e contra seu próprio governo. Eles não se alimentam da ideia de um califado islâmico sem fronteiras; ao invés disso, é importante compreender que o EI é o primeiro grupo desde a destruição da Al Qaeda que oferece a esses jovens humilhados e raivosos uma forma de defender sua dignidade, sua família e sua tribo. Não se trata de radicalizar-se num modo de vida fundamentalista, mas sim a promessa de uma saída para suas vidas inseguras e indignas; a promessa de viver orgulhosos como árabes iraquianos sunitas, que não é apenas uma identidade religiosa, mas também cultural, tribal e baseada na terra.

Um exemplo ilustrativo sobre esse comprometimento incompleto à causa do Estado Islâmico pelos iraquianos veio do peshmerga curdo, general Aziz Waysi, comandante das forças de elite Zerevani (“dourada”). Ele relatou ter ouvido uma conversa entre soldados do EI no campo de batalha e seu líder, através de um walkie-talkie confiscado de um cadáver inimigo. “Meu irmão está comigo, mas ele está morto e nós estamos cercados, nós precisamos de ajuda para ao menos levar embora o corpo de meu irmão”, e o general Waysi ouviu então a resposta: “O que mais você pode querer? Seu irmão está no paraíso e logo mais você também estará”. Essa resposta não era o que aquele pobre homem cercado esperava. “Por favor, venha e me resgate”, ele disse, “eu não quero esse paraíso”. Mas eles não vieram, deixando ele à mercê de qualquer paraíso que fosse que o esperava.

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