31 de dezembro de 2015

Rumo a uma sociedade pós-trabalho

por David Frayne


Ilustração por Mirko Rastić.

Tradução / Quando estranhos nos encontram pela primeira vez, a primeira pergunta que eles quase sempre farão é: “o que você faz?” A convenção nos diz que o que eles realmente querem dizer é: “qual trabalho você realiza?”, o que é um terrível pergunta a uma pessoa que não trabalha, ou que não gosta do trabalho que faz. É também um sinal claro de que, quer queiramos ou não, nas sociedades industriais, vivemos num mundo profundamente centrado no trabalho.

A centralidade do trabalho é compreendida quando consideramos quanto tempo a sociedade gasta no trabalho, no qual também podemos incluir o tempo gasto o procurando e se preparando para ele, viajando de e para, e se recuperando do trabalho. Em seu ensaio de 1935, “Elogio ao Ócio”, Bertrand Russell lamentou a quantidade de tempo de lazer moderno gasto em “diversões passivas e enfadonhas”, mas a verdade é que o trabalho, depois de devorar o tempo e a energia das pessoas, muitas vezes os deixa com recursos inadequados para fazer qualquer coisa mais gratificante.

Para aqueles com empregos exigentes, torna-se impossível fazer qualquer coisa fora do trabalho que exigiria um investimento de tempo e atenção, ou laços de comunidade. O desemprego também não oferece qualquer alívio, pois até mesmo isso já foi transformado em uma espécie de trabalho. Na sociedade moderna, o desemprego assume a forma de “busca de emprego”, que, como o trabalho, tem suas próprias demandas performativas e sistema de prestação de contas.

Podemos também compreender a natureza centrada no trabalho da sociedade quando consideramos quantas funções sociais importantes foram delegadas ao trabalho. O trabalho é o mecanismo principal da sociedade para a distribuição de renda, significando que a maioria das pessoas depende de seu trabalho para a sobrevivência. A capacidade de ganhar o próprio pão é o que tradicionalmente marca a passagem para a maturidade, e trabalhar é também a maneira principal e certamente a mais culturalmente aprovada com que as pessoas vivem uma existência pública.

A crise do trabalho

Se o trabalho é vital para a renda, a inclusão social e um senso de identidade, então uma das contradições mais preocupantes do nosso tempo é que essa centralidade do trabalho persiste mesmo quando o trabalho está em um estado de crise. A constante erosão do emprego estável e satisfatório torna cada vez menos claro se os empregos modernos podem oferecer o senso de ação moral, reconhecimento e orgulho necessários para assegurar o trabalho como uma fonte de significado e identidade. A padronização, a precariedade e a duvidosa utilidade social que caracterizam muitos empregos modernos são uma das principais fontes da miséria moderna.

O desemprego em massa é também agora uma característica estrutural duradoura das sociedades capitalistas. A eliminação de grandes quantidades de mão-de-obra humana pelo desenvolvimento de tecnologias mecânicas é um processo que tem se estendido por séculos. No entanto, talvez devido a desenvolvimentos de alto perfil como o assistente computadorizado da Apple, o Siri, ou os drones de entrega da Amazon, a discussão em torno da automação está mais uma vez acesa. Um estudo frequentemente citado de Carl Frey e Michael Osborne antecipa uma escalada do desemprego tecnológico nos próximos anos. Ocupações sob alto risco incluem modelos, cozinheiros e trabalhadores de construção, graças a avanços como avatares digitais, máquinas de virar hambúrgueres e a capacidade de fabricar construções pré-fabricados em fábricas com robôs. Tem se antecipado também que avanços em Inteligência Artificial e Aprendizagem de Máquina permitirão uma quantidade crescente de tarefas de trabalho cognitivo se tornarem automatizadas.

O que tudo isto significa é que estamos nos tornando uma sociedade de trabalhadores sem trabalho: uma sociedade de pessoas que estão materialmente, culturalmente e psicologicamente ligadas ao emprego remunerado, mas para as quais não há empregos estáveis e significativos suficientes. Perversamente, o problema mais premente para muitas pessoas já não é a exploração, mas a ausência de oportunidades para serem exploradas de forma suficiente e confiável. O impacto desse problema na epidemia de ansiedade e exaustão de hoje não deve ser subestimado. [5]

O que torna a situação ainda mais cruel é a sensação generalizada de que as vítimas precárias da crise são de alguma forma pessoalmente responsáveis pelo seu destino. No Reino Unido, dificilmente passa uma semana passa sem uma reafirmação soberba da ética de trabalho [6] na mídia, ou alguma história que constrói o desemprego como uma forma de desvio. O programa de televisão britânico ‘Benefits Street’ [algo como ‘Rua do Benefício’] vem à mente, mas talvez o exemplo mais escandaloso dos últimos tempos não venha do mundo da TV-lixo, mas da tese do Dr. Adam Perkins, ‘The Welfare Trait’ [algo como ‘A Marca das Políticas de Bem-Estar’]. Publicado no ano passado, o livro de Perkins abordou o que ele definiu como a “personalidade resistente ao emprego”. O desemprego é explicado em termos de um transtorno psicológico transmitido intergeracionalmente. O estudo de Perkins é o produto mais polido da ideologia do trabalho que se pode imaginar. Está tão deslumbrado por suas próprias reivindicações à objetividade científica, tão impermeável ao seu próprio fundamento na ética do trabalho, que mendiga crença.

Parece que nos encontramos em um dilema. Por um lado, o trabalho tem sido posicionado como uma fonte central de renda, solidariedade e reconhecimento social, enquanto que, por outro lado, a promessa de um emprego estável, significativo e satisfatório desmorona em torno de nós. A questão crucial: como as sociedades deveriam se ajustar a esta crise do trabalho cada vez mais profunda?
Negócio de Sempre

Ao longo da história do capitalismo, as sociedades tenderam a compensar os efeitos deslocadores de trabalho dos ganhos de produtividade, ou aumentando a produção de determinadas indústrias, ou expandindo a economia para novas indústrias e setores. Anders Hayden se referiu a esta solução como uma esteira rolante: a necessidade de expansão econômica sem fim simplesmente para manter os níveis de emprego.

Entre as possibilidades mais distópicas desta trajetória está a visão de um mundo afundado em bens de consumo descartáveis [7], produzidos principalmente para manter as pessoas trabalhando e gastando, bem como a perspectiva sombria de uma sociedade onde praticamente todas as necessidades são terceirizadas para o mercado e todas as relações mediadas pela economia. Talvez a maior objeção à solução de “mais empregos”, porém, seja a natureza insustentável da expansão econômica perpétua. Mesmo que o crescimento econômico pudesse acompanhar a demanda por empregos, quais seriam os custos ambientais? Apontando para organismos bem estabelecidos de pesquisa sobre o esgotamento dos recursos naturais, a perda de biodiversidade, a poluição do solo, e a mãe de todos os limites, a mudanças climática [8], ecologistas políticos como Tim Jackson tem mostrado que a expansão da economia para fornecer trabalho tem se tornado uma estratégia cada vez mais intragável.

Se a solução não é “mais empregos”, quais outras respostas estão disponíveis para nós? Sob o neoliberalismo [9], os cidadãos têm sido encorajados a assumir as questões com suas próprias mãos. A estratégia mais socialmente aceitável hoje é evitar o redemoinho da precariedade, do desemprego e do trabalho sem sentido investindo pessoalmente em “empregabilidade”, fazendo um esforço de longo-prazo para adquirir as habilidades, qualificações e sensibilidades que serão mais atraentes para os empregadores.

O projeto de empregabilidade pode moldar qualquer coisa, desde o que os sujeitos escolhem estudar até que aspectos de suas personalidades consideram “problemáticos” e precisam de reforma. [10] Uma das maiores baixas desse foco na empregabilidade é a educação, cujo papel na sociedade centrada no trabalho foi reduzido a uma função econômica. A contribuição mais prontamente aceita da educação não é ensinar os princípios da democracia, do pensamento crítico ou da autoconfiança, mas preparar e certificar jovens para a adoção de um papel de emprego pré-definido. A ansiedade explode na fábrica de diplomas (tanto entre os professores como entre os estudantes), e a mobilidade social prometida pelo progresso educacional é, de qualquer forma, um pobre substituto da justiça econômica genuína. Claramente nem todos podem ter sucesso na corrida por empregos decentes.

A necessidade de se tornar o que Michel Foucault chamou de “empreendedor do eu” para mitigar a insegurança da vida sob o neoliberalismo também derruba o poder de barganha dos trabalhadores precários da sociedade. Um dos melhores ativos de um sujeito empregável é a amabilidade – um objetivo de agradar – o que coloca os trabalhadores em uma posição fraca para negociar melhores condições para si próprios. Esta é talvez uma explicação para o fenômeno recentemente documentado do “presenteismo“, onde se vê pessoas ficando obedientemente até tarde no escritório, mesmo que não tenham trabalho a fazer.

Em um artigo recente sobre a empregabilidade dos graduados, Costea e colegas sugeriram que a tragédia final da empregabilidade é a sua condição psicológica de “potencialidade sem fim”. O eu-empreendedor nunca está satisfeito, nunca sente ter feito o suficiente. Cada relacionamento é uma “conexão” potencial e cada atividade é um item potencial para o currículo. Juntamente do derramamento de trabalho em casa através de tecnologias em rede, a “potencialidade infinita” da empregabilidade torna compreensível um dos segredos coletivos da sociedade mais carregados de culpa: o desejo oculto por uma breve onda de doença pessoal – pelo menos por alguns dias – fazer tudo isso parar.

Uma alternativa radical

Parece que precisamos de uma alternativa mais radical – e, felizmente, não há escassez de recursos para o quais nos voltarmos em busca de inspiração. Existe um importante legado de pensadores críticos que defendem que a solução mais racional e libertadora para a crise do trabalho não é nem econômica nem pessoal. Este grupo provocador de pensadores – abrangendo desde críticos como André Gorz e Herbert Marcuse até membros do movimento pós-operaísta italiano e autores feministas contemporâneas como Kathi Weeks – tem argumentado que a única solução legítima para a crise do trabalho é uma solução política. Reconhecendo que a sociedade centrada no trabalho já não é sustentável, estes autores argumentam que devemos repensar radicalmente o papel do trabalho na sociedade moderna.

Um tema comum nestas críticas é observar como a tremenda capacidade do capitalismo para o desenvolvimento produtivo abriu a possibilidade teórica de mais tempo livre. As máquinas podem fazer mais do trabalho necessário, nos deixando livres para outras coisas. No entanto, crucialmente, a tecnologia por si só não tem a capacidade de nos libertar do trabalho. Como argumentou Gorz em sua “Crítica da Razão Econômica”, “o desenvolvimento das forças produtivas pode, por si só, reduzir a quantidade de trabalho que é necessária, mas não pode, por si só, criar as condições que farão dessa libertação de tempo uma libertação para todos.”

Para críticos como Gorz, o desafio que temos diante de nós é desenvolver uma luta política que nos permita finalmente transformar o tempo economizado por décadas de ganhos de produtividade para fins humanos. Esse desafio coletivo – que Gorz chamou de “política do tempo” – exige a definição de novas liberdades e garantias coletivas, que permitirão a todos se beneficiar de mais tempo livre. Uma das coisas que torna a crítica do trabalho um projeto tão emocionante é que as preocupações dos críticos são sempre acentuadas de forma diferente. No entanto, em termos de propostas políticas, há um número destas que são bastante consistentes por toda a linha.

A primeira proposta é uma política de redução da jornada de trabalho por toda a sociedade, amarrada a uma redistribuição social do trabalho necessário. Ao espalhar as horas de trabalho disponíveis de forma mais equilibrada entre as populações, o objetivo é inverter a divisão crescente da sociedade em elites ocupacionais estressadas, de um lado, e uma massa de desempregados, subempregados ou precariamente empregados, de outro. Cada um de nós trabalharia menos para que mais de nós pudéssemos trabalhar.

Isso vem de mãos dadas com uma segunda proposta para desvincular o direito a um salário da atividade do trabalho, e explorar métodos alternativos de distribuição de renda. A crescente discussão em torno da Renda Básica Universal é um sinal promissor. A Renda Básica tem muitas justificativas concorrentes, mas uma importante é que ela promete remediar o deprimente desperdício de tempo e talento testemunhado no presente capitalista, onde a inclusão social ainda depende da capacidade de manter um emprego. Independente se sua força de trabalho for exigida pela economia formal ou não, as pessoas que se beneficiem de uma Renda Básica terão recursos para empreender trabalho para si mesmas e para os outros, se assim o desejarem. A esperança é que, com os benefícios de tempo e renda, as pessoas seriam capazes de desenvolver uma gama de interesses e capacidades fora do emprego. [12]

Essas mudanças talvez não seriam muito se não fossem escoradas por uma mudança mais qualitativa em nossas culturas e sensibilidades. Uma solução radical para a crise do trabalho também requer que nos re-examinemos e exploremos a possibilidade de formas alternativas de experimentar o prazer e a solidariedade que as pessoas têm convencionalmente procurado (muitas vezes sem sucesso) no trabalho. Para articular isso em termos de uma demanda: precisamos exigir um fim à idéia conservadora de que o trabalho remunerado é inerentemente saudável e civilizador.

Alguns vão, sem dúvida, objetar dizendo que o emprego é crucial para o bem-estar das pessoas (e há uma profusão de pesquisas sobre as misérias do desemprego que elas podem citar como evidência). [13] A dinâmica deste debate é complicada porque o trabalho em alguns sentidos realmente é importante para a saúde em uma sociedade organizada para promover uma dependência em relação ao trabalho. No entanto, é apenas um apego moral ao trabalho que nos impede de permanecer abertos à idéia de que o futuro poderia ser diferente. No futuro, é perfeitamente possível que atividades alternativas nos permitam experimentar o sentido de solidariedade e propósito que o trabalho agora oferece (ou não fornece, conforme o caso). Também faríamos bem em lembrar aos que duvidam que a construção atual da identidade e da solidariedade social através do trabalho nos torna supremamente aptos para a exploração.

Outros podem protestar contra a crítica ao trabalho como uma defesa um pouco juvenil do “direito de ser preguiçoso”. Por exemplo, quando o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, declarou que seu governo serviria principalmente os interesses de “pessoas que trabalham duro”, as linhas éticas foram firmemente traçadas: você é um trabalhador ou um vagabundo? Parece que não há espaço para se ocupar no meio, não há uma forma legítima de fazer uma contribuição social que não seja através do trabalho.

É importante que rejeitemos essa dicotomia sempre que possível, e também que reconheçamos que a crítica ao trabalho é muito mais do que a defesa do direito de ser preguiçoso. Embora a preguiça certamente tenha um lugar legítimo em um futuro pós-trabalho, o que em última análise é exigido pela crítica do trabalho é menos um direito à ociosidade do que um direito de desenvolver as capacidades humanas mais plenamente. Em ‘The Problem With Work’ [‘O Problema com o Trabalho’], Kathi Weeks articula bem essa questão quando argumenta que criticar o trabalho não o é, necessariamente:

“É, antes, insistir que há outras maneiras de organizar e distribuir essa atividade e nos lembrar que também é possível ser criativo fora dos limites do trabalho. É sugerir que pode haver uma variedade de maneiras de experimentar o prazer que podemos hoje encontrar no trabalho, bem como outros prazeres que podemos querer descobrir, cultivar e desfrutar.”

Num momento em que o trabalho está muito claramente em estado de crise, o projeto crítico que Weeks descreve aqui é importante. Dada a crescente crise do trabalho, o sonhador talvez não seja mais o utópico que procura alternativas, mas a pessoa que acredita que as coisas podem continuar como estão. A solução radical é a solução sã.

Ao mesmo tempo, porém, seria um erro ver a crítica do trabalho meramente como uma “solução” para a crise. É também uma oportunidade para finalmente cumprir a promessa original do desenvolvimento produtivo do capitalismo: nos libertar do trabalho e nos permitir desfrutar coletivamente de mais tempo livre. A esperança é que uma política do tempo nos permitiria explorar essas aptidões e aspectos de nós mesmos que muitas vezes ficam marginalizados em um mundo centrado no trabalho. A esperança é que ter mais tempo fora do trabalho, com o benefício de novas instalações públicas, desencadearia a criação de redes informais de produção e intercâmbio fora dos limites da economia formal.

Talvez um aumento no tempo livre também permitiria que as pessoas se tornassem cidadãos mais ativos. Uma das razões pelas quais o debate democrático está atualmente em um estado tão moribundo é que nossas vidas ocupadas nos deixam com tão pouco tempo para se envolver com a política, se organizar coletivamente ou descobrir o que está acontecendo em nossas comunidades. Entretanto, o que uma política do tempo talvez prometa, acima de tudo, é permitir que usemos nosso tempo livre para outra coisa que não escapar do trabalho.

A estrada à frente

A construção social do trabalho como uma fonte básica de renda, direitos e sensação de pertencimento continua inabalável. No entanto, o que também está claro é que, para um vasto número de pessoas, o trabalho se tornou uma fonte não confiável dessas coisas. Trata-se de uma crise profunda, que exige uma reavaliação igualmente profunda do trabalho e do seu lugar na sociedade moderna. Esta tarefa – que André Gorz chamou de política do tempo – tem como objetivo oferecer uma resposta prática ao mundo de trabalho em desintegração de hoje. Mas mais do que isso, também nos convida a falar sobre as condições para a liberdade e a nos engajar em um novo diálogo sobre o tipo de sociedade em que gostaríamos de viver.

Em geral, estou inclinado a concordar com a sugestão de Gorz de que a mudança cultural para uma sociedade pós-trabalho já tem ocorrido até certo ponto. Se cortarmos através da glorificação da ética do trabalho na mídia conservadora, o que encontraremos é que um enorme número de pessoas já está se desligando mentalmente da sociedade centrada no trabalho e agora está ativamente tentando maximizar seu tempo de lazer, reconfigurando sua identidades através de atividades não-laborais. Sensibilidades anti-trabalho podem ser encontradas em todos os lugares, quer se trate de artistas e [artistas/atletas/etc] amadores encontrando tempo para fazer o que realmente amam, voluntários e cuidadores não remunerados dedicando seu tempo para os outros, pessoas se aposentando cedo para redescobrir prazeres perdidos, ou graduados lentamente desistindo do sonho de um emprego estável de que eles gostam.

Eu documentei essas sensibilidades anti-trabalho em algum grau em meu livro, ‘The Refusal of Work’ [‘A Rejeição do Trabalho’], que se baseou em entrevistas com pessoas que tentam (com diferentes graus de sucesso) resistir à realização de trabalho remunerado. Muitos estavam dispostos a suportar dificuldades significativas para fazê-lo. Uma das coisas notáveis deste estudo foi que seus participantes eram menos sujeitos políticos radicais, exigindo alternativas sociais, e mais pessoas comuns que estavam simplesmente tentando trabalhar menos e ter mais tempo de lazer. Eles encarnavam uma insatisfação latente com o trabalho que ainda não encontrou vasão política, e o dilema que talvez agora enfrentemos seja como legitimar e mobilizar essa insatisfação. Precisamos encontrar maneiras de articulá-lo na forma de uma alternativa política.

Com relação às perspectivas de desenvolver uma política pós-trabalho neste sentido, é justo dizer que concluí minha pesquisa com uma nota um tanto pessimista. No Reino Unido, a política dominante tanto na Esquerda como na Direita ainda parece obcecada com a dignidade do trabalho. No entanto, tem havido alguns barulhos notáveis desde que a minha pesquisa foi publicada. A política anti-trabalho do grupo ativista britânico ‘Plan C’ vale a pena ser mencionada aqui, juntamente com a ‘New Economics Foundation’ – um think tank que tem explorado a possibilidade de uma semana de trabalho de 21 horas. A discussão em torno da Renda Básica também parece estar aumentando, com uma série de campanhas e experiências notáveis sendo documentadas pela ‘Basic Income Earth Network’ nos últimos meses.

Também vale a pena mencionar o recente “No Jobs Bloc” – uma coalizão de grupos coordenada pela Assembléia Radical, que marchou como parte do protesto anti-austeridade de Londres no início de 2016. Os manifestantes carregavam faixas com slogans inspirados pela recente crítica do trabalho de Nick Srnicek e Alex Williams, ‘Inventing the Future’ [“Inventando o Futuro”], exigindo uma Renda Básica para todos, automação completa, redução da semana de trabalho e a atribuição de valor ao trabalho não remunerado e emocional . Esse abraço popular da crítica do trabalho é encorajador, e é difícil prever o destino da crítica no futuro. Uma coisa, porém, é certa: se alguém me dissesse há um ano que ativistas no Reino Unido estariam cantando slogans anti-trabalho nas ruas, eu não teria acreditado.

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