25 de dezembro de 2015

Tentando destruir a Rússia desde 1949

Gary Leupp

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Em 1990, depois da queda do Muro de Berlim, o presidente dos EUA, George W. Bush, através do seu secretário de estado James Baker, prometeu ao primeiro ministro soviético Mikhail Gorbachev que, em troca da cooperação soviética para a reunificação alemã, a aliança OTAN da era da Guerra Fria não iria expandir-se “um centímetro” para o oriente em direção à Rússia. Baker disse a Gorbachev: “Se removerem as vossas [300.000] tropas [da Alemanha do Leste] e permitirem a unificação da Alemanha na OTAN, a OTAN não se expandirá um centímetro para o oriente”.

No ano seguinte, a URSS dissolveu-se oficialmente. A sua própria aliança militar defensiva (comummente conhecida como Pacto de Varsóvia) já havia sido encerrada. A Guerra Fria havia terminado.

Então, porque não foi a OTAN igualmente dissolvida mas, ao invés, implacavelmente expandida, cercando a Rússia europeia? Porque é que esta não é uma questão central em debate e discussão neste país?

OTAN: Uma aliança antirrussa da Guerra Fria

Alguns contestam a afirmação de que a promessa de Bush alguma vez tivesse sido feita, apesar de Baker a ter repetido publicamente na Rússia. Ou argumentam que nunca foi feita por escrito, daí que seja legalmente inconsequente. Ou argumentam que qualquer promessa feita à liderança da União Soviética, que deixou de existir em 1991, se tornou inaplicável às relações subsequentes entre os EUA-Rússia. Mas é claro que os EUA, no que diz respeito à liderança russa, têm tido uma postura de confronto com o seu inimigo da Guerra Fria, principalmente através da forma de expansão da NATO. Esta expansão quase não tem comentários por parte da comunicação social dos EUA, que tratam a entrada de uma nova nação na NATO basicamente como a entrada de um novo estado na ONU – como se tudo fosse natural e não problemático.

Mas relembre-se a história básica. A Organização do Tratado Atlântico Norte foi formada em 4 de abril de 1949, sendo constituída inicialmente pelos EUA, Canadá, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Dinamarca, Islândia, Noruega e Portugal, como uma aliança militar contra a União Soviética e principalmente contra a República Socialista Federativa da Rússia Soviética.

Foi formada apenas quatro anos após a tomada de Berlim pelos Soviéticos, derrotando os Nazis (como sabem, a Alemanha invadiu a Rússia seis meses antes do ataque do Japão a Pearl Harbor; os EUA e a URSS eram aliados contra os fascistas; as vitórias chave na guerra europeia – Moscovo, Estalinegrado, Kursk – foram vitórias soviéticas sobre os Nazis; os soldados dos EUA apenas atravessaram o Reno a 22 de março, quando o Exército Vermelho se aproximava de Berlim, tomando a cidade entre 16 de abril e 2 de maio com um custo de cerca de 80 000 soviéticos mortos. Se não sabem estas coisas, foi-vos negada uma educação em condições).

Nos quatro anos que decorreram entre o suicídio de Hitler e a formação da NATO, os dois grandes vencedores da guerra haviam dividido a Europa em esferas de influência. A vizinhança da União Soviética contribuiu desproporcionadamente para a derrota fascista: mais de oito milhões de militares e mais de 12 milhões de civis mortos, comparados com os longínquos EUA, com perdas de cerca de 186.000 mortos no teatro Europeu e 106.000 no Pacífico.

Pode parecer estranho que o menor herói nesta instância (neste conflito histórico contra o fascismo) obtenha todos os recursos do pós-guerra: os EUA criaram um bloco que incluía a Inglaterra, França, Itália, grande parte da Alemanha, os países Baixos, Portugal, a maior parte da Escandinávia, enquanto os Soviéticos declararam hegemonia – ou tentaram – sobre os seus geralmente menos afluentes estados clientes. Mas os Soviéticos não estavam, em nenhum caso, interessados em trazer, em primeiro lugar, as nações mais ricas para o seu seio; se fosse esse o caso, não teriam retirado as suas tropas da Áustria em 1955.

Ao invés da Rússia, que tinha sido historicamente invadida muitas vezes pelo Ocidente – desde a Suécia, Lituânia, Polónia, França e Alemanha, múltiplas vezes – queria principalmente manter a segurança das suas fronteiras ocidentais. Para assegurar o estabelecimento de regimes amigáveis, organizaram eleições na Polónia, Checoslováquia, Hungria e em mais locais. (Estas tiveram aproximadamente tanta legitimidade como as eleições organizadas sob a ocupação dos EUA no Iraque ou Afeganistão, posteriormente, ou em qualquer momento na América Latina). Trouxeram à existência as “repúblicas populares” da Europa de Leste,

Os EUA e a Inglaterra queixaram-se dos avanços geopolíticos do seu aliado de guerra. Em março de 1946, o ex-primeiro ministro Churchill, enquanto visitava os EUA, referiu-se a uma “cortina de ferro” que caía sobre a Europa. (Talvez estivesse inadvertidamente a usar a expressão que Josef Goebbels tinha usado apenas treze meses antes. O ministro alemão da propaganda tinha afirmado à imprensa que “se o povo alemão baixar as armas, os Soviéticos… irão ocupar toda a Europa… uma cortina de ferro cairá sobre este enorme território...”). Muito assustador.

Mas os EUA estavam a trabalhar arduamente para consolidar o seu próprio bloco na Europa. Em maio de 1947, a CIA dos EUA forçou os governos italiano e francês a purgar os membros comunistas dos gabinetes formados após sucessos eleitorais no ano transato. (Os EUA tiveram enorme influência, comprada através dos 13 biliões de dólares do Plano Marshall, começado em abril de 1947, desenhado para revitalizar o capitalismo Europeu e diminuir o apelo marxista).

O chefe de estação da CIA em Roma gabou-se, posteriormente, de que “sem a CIA”, que fundou uma campanha de Terror Vermelho e fomentou a violência, mesmo confrontos e acontecimentos fatais, “o Partido Comunista teria seguramente ganho as eleições [italianas] em 1948”. (Alguém que pense que os Soviéticos manipulavam eleições enquanto os EUA proporcionavam eleições justas como princípio é um caso perdido de inocência).

Entretanto – antes da constituição da NATO, em abril de 1949 – os EUA e a Inglaterra tinham estado a combater numa guerra na Grécia, desde 1946, em nome dos monárquicos contra as forças lideradas pelos comunistas, que foram o pilar do movimento antifascista durante a 2ª Guerra Mundial. Os comunistas tinham um amplo apoio e poderiam perfeitamente ter ganho a guerra civil, se os soviéticos os tivessem apoiado. Mas, ao observar e ao compreender as esferas de influência acordadas em Yalta e Potsdam, Stáline recusou apelos dos comunistas gregos (e jugoslavos) à ajuda soviética. Os partidários gregos renderam-se em outubro de 1949, seis meses após a formação da NATO. (Mas a NATO de facto não esteve desligada desta intervenção militar na Grécia, vista como a primeira operação militar dos EUA da Guerra Fria sob a amplamente anticomunista “Doutrina Truman”).

Apenas um mês após a formação da NATO, os líderes pró-EUA na Alemanha ocidental anunciaram unilateralmente o estabelecimento da República Federal da Alemanha. (A República Democrática Alemã, pró-soviética, foi declarada apenas seis meses depois. Tal como na Coreia, os soviéticos promoveram a reunificação dos setores ocupados. Mas os EUA estavam decididos a estabelecer estados clientes e a dividir nações, se necessário para obstruir as estradas internas soviéticas. Este foi também o caso no Vietname).

Quatro meses após a criação da NATO, os soviéticos conduziram o seu primeiro teste nuclear com sucesso. A Guerra Fria estava lançada com determinação.

A NATO foi assim formada para confrontar agressivamente a URSS e explorar o medo de uma suposta ameaça de um ataque soviético ao ocidente (para impor o sistema social soviético contra a vontade dos povos). Esta ameaça nunca foi materializada, claro. Os soviéticos separaram Berlim Leste do ocidente através do Muro de Berlim, em 1961, para prevenir uma embaraçosa saída massiva. Mas nunca invadiram a Alemanha Ocidental ou provocaram qualquer confronto com qualquer nação da NATO, em toda a Guerra Fria. (De facto, à luz da carnificina vivida na Europa desde 1989, desde as guerras civis nos Balcãs e no Cáucaso, a ataques terroristas em Londres, Madrid e Paris e ao golpe de estado neofascista na Ucrânia no ano passado, a Guerra Fria aparenta ser, em retrospetiva, um longo período de relativa paz e prosperidade no continente).

Comparando as agressões dos EUA e da Rússia soviética, durante a Guerra Fria

A NATO expandiu-se em 1952, incorporando a agora pacificada Grécia e a sua rival histórica, a Turquia. Em 1955 trouxe para o seu seio a República Federal Alemã. Só então – em maio de 1956, sete anos após a formação da NATO – os soviéticos estabeleceram, em resposta, a sua própria aliança militar defensiva. O Tratado da Amizade, Cooperação e Assistência Mútua (Pacto de Varsóvia) incluía apenas oito nações (contra as 15 da NATO): URSS, Bulgária, Checoslováquia, Alemanha de Leste, Hungria, Polónia, Roménia e Albânia.

As forças do Pacto de Varsóvia foram apenas mobilizadas uma vez durante a Guerra Fria para esmagar o movimento reformista na Checoslováquia, em 1968. (Não foram usadas durante a supressão da “Revolução Húngara” de 1956, que ocorreu cinco meses após a fundação da aliança. Esta operação foi levada a cabo por tropas soviéticas e forças húngaras leais.) A intervenção checoslovaca resultou na saída da Albânia do pacto, enquanto a Roménia protestou contra esta e recusou contribuir com tropas. Assim, na prática, o Pacto de Varsóvia ficou com apenas seis membros contra os 15 da NATO. A aliança ocidental expandiu-se para 16, quando a Espanha se lhe juntou, em 1982.

Entre 1945 e 1991 (quando o Pacto de Varsóvia e a URSS foram dissolvidos), os EUA envolveram-se em três grandes guerras (Coreia, Vietname e Golfo Pérsico); invadiram Granada e o Panamá; intervieram militarmente na Guatemala, na República Dominicana, no Líbano, em Cuba, no Camboja, no Laos, na Nicarágua, no Haiti e noutros países.

Durante o mesmo período, os soviéticos invadiram as nações da Europa de Leste duas vezes (a Hungria em 1956 e a Checoslováquia em 1968), basicamente para manter o statu quo. Noutros locais, existiu um breve conflito fronteiriço com a China, em 1969, que matou cerca de 150 soldados de ambos os lados. E os soviéticos, claro, invadiram o Afeganistão em 1979 para acabar com o regime secular, enfrentando a oposição islâmica. E é basicamente isto. De facto, se for comparado com o recorde dos EUA, é um recorde de agressões muito irrisório para uma superpotência.

Aquela oposição islâmica no Afeganistão, como sabemos, metamorfoseou-se nos Talibãs, na al-Qaeda e no grupo fundado no Iraque pelo anteriormente rival de bin Laden, Abu Musab al-Zarqawi, agora chamado EI ou Estado Islâmico. Referido – quase com afeto – pela imprensa norte-americana dos anos 80 como os “Mujahadeen” (“aqueles que estão envolvidos na jihad”), os militantes religiosos eram à data idolatrados como guerreiros sagrados anticomunistas pelo Conselheiro para a Segurança Nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski. Brzezinski disse ao presidente, seis meses antes de os soviéticos enviarem tropas, que ao apoiar os jihadistas, os EUA poderiam “induzir uma intervenção militar soviética”. Os EUA, declarou, tinham “a oportunidade de darem à URSS a sua Guerra do Vietname” e poderiam agora “fazer sangrar” os soviéticos como estes tinham feito “sangrar” os EUA no Vietnã.

(Pensem um momento na moralidade, aqui. Os soviéticos ajudaram os vietnamitas a lutar contra um regime impopular, apoiado pelos EUA, e a enfrentar os horrores do assalto dos EUA ao seu próprio país. Agora – para se vingar, como Brzezinski referiu – os EUA poderiam ajudar extremistas islâmicos, cujas mentes estão na Idade Média, a “induzir” uma intervenção soviética, a fim de matar os jovens rapazes soviéticos alistados e prevenir o advento da modernidade).

Os jihadistas antissoviéticos foram recebidos na Casa Branca pelo Presidente Ronald Reagan durante uma visita, em 1985. Reagan, talvez já mostrando os sinais da doença de Alzheimer, anunciou-os como “o equivalente moral dos pais fundadores da América”. Isto acontece quando o grosso da ajuda dos EUA (CIA) aos Mujahadeen estava a ir para os cofres de Gulbuddin Hekmatyar, um senhor da guerra terrífico, agora alinhado com os Talibãs. Um dos muitos ex-ativos dos EUA (incluindo Saddam Hussein) que teve a sua queda perante o chefe, foi o alvo de pelo menos um ataque de drone falhado levado a cabo pela CIA, em 2002.

Assim, o único conflito militar soviético prolongado durante a Guerra Fria, que durou desde dezembro de 1979 até fevereiro de 1989 e custou cerca de 14.000 vidas soviéticas, foi um conflito com o que os eruditos dos EUA passaram a chamar “terrorismo islâmico”.

Os soviéticos não estavam certamente confrontados com anticomunistas ansiosos por “liberdade” como pode ser concetualizado por alguma ideologia moderna. O inimigo incluía líderes tribais clericais que se opunham a quaisquer alterações ao estatuto das raparigas e mulheres, em particular aos seus trajes, e à submissão à autoridade patriarcal em matérias como o casamento.

Os pressupostos revolucionários apoiados pelos soviéticos confrontavam-se com fanáticos religiosos ignorantes, em matérias como as necessidades médicas das mulheres, hostis à mera ideia de clínicas públicas e opositores à educação das mulheres (de facto, os soviéticos conseguiram aumentar a taxa de literacia das mulheres durante os anos 80 – um feito nunca igualado pelos novos ocupantes desde 2001 – mas isto foi principalmente devido ao facto de manterem controlo sobre Cabul, onde as mulheres podiam não apenas frequentar a escola como andar sem o lenço na cabeça).

Tais dias acabaram quando o regime soviético de Mohammad Najibullah foi derrubado pelas forças da Aliança do Norte, em abril de 1992. As coisas apenas pioraram. Rebentou imediatamente a guerra civil entre o Pastun Hekmatyar e os seus rivais Tajik, e as forças de Hekmatyar bombardearam brutalmente a capital— algo que não havia sequer acontecido durante os piores dias do período soviético.

Enquanto a guerra civil se aprofundava, emergiam os Taliban, apresentando-se como moralmente verticais, com liderança baseada na Sharia. Adquirindo uma grande base social, tomaram Cabul, em setembro de 1996. Entre os seus primeiros atos estiveram o rapto de Najibullah, que se havia refugiado no complexo da ONU na cidade, três anos antes, a sua castração e enforcamento público, negando-lhe um enterro muçulmano apropriado.

À medida que os neocolonialistas se vangloriavam do triunfo do capitalismo sobre o comunismo e do suposto “fim da história”, o monstro Frankenstein do islamismo fez reaparecer a sua horrível cabeça. Não houve quaisquer lágrimas derramadas nas capitais ocidentais por Najibullah. Mas os Taliban eram olhados com preocupação e desagrado e o assento da ONU permanecia com o ex-regime da Aliança do Norte, que controlava apenas 10% do país.

Como a Guerra Fria encorajou o “Islã Radical”

Seguramente os EUA – que fizeram as malas e saíram após a retirada soviética, deixando os paquistaneses com o problema de refugiados massivos e o Afeganistão num estado de caos – teriam feito sangrar os soviéticos e qualquer um que se atrevesse a aliar-se com eles. E seguramente esta experiência contribuiu para a realização do mais profundo desejo de Brzezinski: o colapso da União Soviética.

Mas também produziu, em grande, o terrorismo islâmico, enquanto os EUA – tendo organizado o recrutamento e treino de legiões de jihadistas de todo o mundo muçulmano para fazer sangrar os Soviéticos – foram e são agora obrigados a lidar com o revés e as suas respostas invariavelmente criam mais terror.

Não é óbvio que as ações militares dos EUA contra os seus vários alvos “terroristas” no “Grande” Médio Oriente, incluindo o Afeganistão, o Iraque, a Síria, o Iémen e a Líbia alargaram grandemente as fileiras da al-Qaeda e do EI?

E o rumo dos acontecimentos no Afeganistão – onde o governo de Cabul permanece paralisado e inepto, os senhores da guerra governam as cidades provinciais, o Supremo Tribunal condena pessoas à morte por delitos religiosos, grande parte do campo foi concedido aos Taliban e os seus militantes estão a fazer incursões no norte – não nos convence de que os EUA não deveriam ter interferido com os seus e os jihadistas contra as forças seculares soviéticas, há trinta e cinco anos?

Numa entrevista, em 1998, feita por Jeffrey St. Clair e Alexander Cockburn, foi perguntado a Brzezinski se ele se arrependia de “ter dado armas e conselhos a futuros terroristas [islâmicos].”

Brzezinski: O que é mais importante para a história do mundo? Os Taliban ou o colapso do império soviético? Alguns muçulmanos irritados ou a libertação da Europa Central e o fim da guerra fria?

P: Alguns Muçulmanos irritados? Mas foi dito e repetido: o fundamentalismo Islâmico representa hoje uma ameaça mundial.

Brzezinski: Disparate! É dito que o ocidente teve uma política global no que diz respeito ao Islão. Isso é estúpido. Não existe um Islão global. Olhem para o Islão de uma forma racional e sem demagogia ou emoção. É a religião líder no mundo com 1.5 biliões de seguidores. Mas o que existe em comum entre o fundamentalismo da Arábia Saudita, a moderação de Marrocos, o militarismo do Paquistão, o pro-ocidentalismo do Egipto ou a laicidade da Ásia Central? Nada mais do que o que une os países cristãos.

Noutras palavras, ganhando a competição com a Rússia – sangrando-a até ao colapso – foi mais importante do que qualquer risco de promoção do fundamentalismo islâmico militante. É aparente que aquela mentalidade persista quando, mesmo no mundo pós 9/11, alguns oficiais do Departamento de Estado prefeririam ver a queda de Damasco às mãos do EI do que a ser defendida pelos russos em apoio a um regime laico.

A NATO no resgate do Mundo Pós-Guerra Fria

Desde a queda da URSS e o desaparecimento do Pacto de Varsóvia, o que tem feito a NATO? Em primeiro lugar, moveu-se para preencher um vazio de poder nos Balcãs. A Jugoslávia estava a desmoronar-se. Havia sido neutra durante toda a Guerra Fria, nem membro da NATO nem membro do Pacto de Varsóvia. Enquanto caíam governos por toda a Europa de Leste, membros secessionistas nas repúblicas multiétnicas produziram conflitos generalizados. O Secretário de Estado dos EUA, Baker, preocupou-se que a queda da Jugoslávia pudesse produzir instabilidade regional e opôs-se à independência da Eslovénia.

Mas o Ministro dos Negócios Estrangeiros Alemão, Hans-Dietrich Genscher e o Chanceler Helmut Kohl – rejubilando de orgulho com a reunificação da Alemanha e pretendendo ter um papel mais poderoso no mundo – pressionaram o desmantelamento da Jugoslávia. (Existia um profundo interesse histórico alemão neste país. A Alemanha Nazi havia ocupado a Eslovénia de 1941 a 1945, estabelecendo uma forte Guarda Doméstica Eslovena de 21000 membros e fazendo negócios. A Alemanha é agora, de longe, o primeiro parceiro comercial da Eslovénia.) A linha de Kohl ganhou.

A Jugoslávia, que tinha sido um modelo de harmonia interétnica, ficou retalhada por conflitos étnicos, nos anos 90. Na Croácia, os croatas lutaram contra os sérvios, apoiados pelo Exército Popular Jugoslavo; na Bósnia-Herzegovina, os bósnios, croatas e sérvios lutaram por causa da divisão da terra. Na própria Sérvia, a retirada da autonomia das províncias do Kosovo e Vojvodina desencadeou raiva entre os albaneses. Em 1995, imagens de homens e rapazes bósnios macilentos em campos de detenção sérvios foram amplamente publicitados na imprensa mundial, enquanto Bill Clinton resolveu não deixar Ruanda (leia-se: genocídio) acontecer de novo. Não sob a sua vista. A América iria resolver o problema.

Ou melhor: a NATO iria resolver o problema! Longe de ser menos relevante após a Guerra Fria, a NATO, afirmou Clinton, era a única força internacional capaz de lidar com este tipo de desafio. E assim, a NATO bombardeou e bombardeou – mesmo pela primeira vez, numa guerra real – até os sérvios bósnios pedirem misericórdia. A presente configuração da Bósnia-Herzegovina, uma federação disfuncional que inclui uma minirrepública sérvia, foi imposta pelo Secretário de Estado dos EUA, Warren Christopher, e o seu vice Richard Holbrooke na reunião em Dayton, Ohio, em novembro de 1995.

A Rússia, a tradicional aliada dos sérvios, foi obrigada a assistir passivamente, enquanto os EUA e a NATO remapeavam a ex-Jugoslávia. A própria Rússia estava sob o governo do palhaço bêbado Boris Yeltsin, uma confusão total. A economia estava a afundar-se; o desespero prevalecia; a longevidade masculina caía a pique. A nova política era tudo menos estável. Durante a “Crise Constitucional” de setembro-outubro de 1993, o presidente ordenou mesmo que o exército bombardeasse o edifício do parlamento para forçar os legisladores a acatar o seu decreto para a dissolução. Na mão de oligarcas corruptos e do capitalismo selvagem do Ocidente, os russos estavam desiludidos e desmoralizados.

Depois vieram mais insultos do ocidente. Durante o último ano de Yeltsin, em março de 1999, os EUA deram as boas vindas a mais três nações: Checoslováquia (mais tarde República Checa e Eslováquia), Hungria e Polónia. Estes eram os países mais fortes do Pacto de Varsóvia, além da URSS e da Alemanha de Leste. Esta foi a primeira expansão da NATO desde 1982 (quando a Espanha se lhe juntou) e preocupou, compreensivelmente, o Kremlin. Qual a possível razão para expandir agora a NATO? perguntaram os Russos, apenas para assegurar que a NATO não estava contra ninguém.

O Senado tinha votado para alargar a adesão à Polónia, Hungria e Checoslováquia, em 1998. Nessa altura, foi pedido a George Kennan – o famoso diplomata dos EUA que desenvolveu a estratégia da guerra fria de contenção da União Soviética – que comentasse.

“Penso que é o início de uma nova guerra fria” declarou Kennan, de 94 anos. “Penso que os Russos irão gradualmente reagir de forma bastante adversa e tal irá afetar as suas políticas. Penso que é um erro trágico. Não existe qualquer razão para isto… Isto demonstra muito pouca compreensão da história russa e da história soviética. Claro que irá existir uma má reação da Rússia e depois [a expansão da NATO advoga-o] dirão que sempre disseram que é assim que são os russos – mas isto é simplesmente errado”.

NATO versus Sérvia

Nesse mesmo mês de março de 1999, a NATO (incluindo os seus três novos membros) começou a bombardear a capital Sérvia de Belgrado – a primeira vez, desde a II Guerra Mundial, que uma capital europeia foi sujeita a um bombardeamento. A razão oficial foi a de que as forças estatais sérvias tinham vindo a abusar dos albaneses na província do Kosovo; a diplomacia havia falhado e a intervenção da NATO era necessária para corrigir as coisas. Este arrazoado foi acompanhado por relatórios largamente exagerados sobre as mortes pelas forças de segurança sérvias de kosovares, supostamente atingindo o “genocídio”.

Isto era principalmente um absurdo. Os EUA exigiram, na conferência em Rambouillet, França, que a Sérvia retirasse as suas forças do Kosovo e restaurasse a autonomia da província. O presidente sérvio, Slobodan Milosevic, concordou. Mas os EUA exigiram ainda que Belgrado aceitasse as forças da NATO em todo o território da Jugoslávia – algo que nenhum líder de um estado soberano poderia aceitar. Belgrado recusou, apoiado pela Rússia.

Um “oficial sénior do Departamento de Estado” (provavelmente a Secretária de Estado dos EUA, Madeleine Allbright) vangloriou-se junto dos jornalistas que, em Rambouillet, “nós, intencionalmente, colocámos a fasquia demasiado alta para que os sérvios a pudessem aceitar… Os sérvios precisavam de um pequeno bombardeamento para verem a razão”. Henry Kissinger (que não é um amante da paz) disse à imprensa, em junho: “O texto de Rambouillet, que apelou à Sérvia para admitir as tropas da NATO em toda a Jugoslávia, foi uma provocação, uma desculpa para começar a bombardear. Rambouillet não é um documento que um sérvio angélico pudesse aceitar. Foi um documento diplomático terrível que nunca deveria ter sido apresentado daquela forma”.

Os EUA obtiveram a aprovação da ONU para os ataques da NATO na Bósnia-Herzegovina, quatro anos antes. Mas desta vez não a procuraram nem tentaram organizar uma força da ONU para lidar com o problema do Kosovo. Com efeito, insistiram que a NATO fosse reconhecida como a representante da “comunidade internacional”.

Foi revoltante. Ainda assim, a opinião pública dos EUA foi amplamente persuadida a pensar que os sérvios falharam em negociar a paz de boa-fé e, como tal, mereceram o bombardeamento, apoiado pela imprensa, particularmente pela “correspondente internacional sénior” da CNN, Christiane Amanpour, uma fonte interna do Departamento de Estado, que continuamente transmitiu aos seus espetadores que “Milosevic continua a estar-se nas tintas para a comunidade internacional” – porque este recusou um ultimato intimidatório da NATO que, mesmo Kissinger, identificou como uma provocação!

Depois do massacre massivo dos kosovares se ter tornado uma realidade (uma vez que as bombas da NATO começaram a cair no Kosovo), e depois de dois meses e meio de bombardeamentos focados em Belgrado, um acordo mediado pela Rússia pôs um fim ao conflito. Belgrado evitou a ocupação da NATO que anteriormente recusou. (por outras palavras, a NATO não conseguiu nada que os sérvios não tivessem já concedido em Rambouillet!).

Assim que o cessar-fogo entrou em vigor, a 21 de junho, uma coluna de cerca de 30 veículos blindados, transportando 250 tropas Russas deslocaram-se dos deveres de manutenção de paz na Bósnia para estabelecer o controlo sobre o aeroporto de Pristina, no Kosovo. (Apenas uma pequena recordação de que também a Rússia tinha um papel a desempenhar na região.)

Isto apanhou de surpresa o comandante americano da NATO, Wesley Clark. Ordenou que os paraquedistas britânicos e franceses fossem transportados para cercar o aeroporto, mas o general britânico Sir Mike Jackson, prudentemente, recusou. “Não farei com que os meus soldados iniciem a III Guerra Mundial”, afirmou.

Penso que provavelmente este gesto dramático de último minuto no aeroporto foi pressionado pelo emergente Vladimir Putin, conselheiro de Yeltsin, que foi brevemente nomeado vice-presidente e, posteriormente, o sucessor de Yeltsin, desde dezembro de 1999. Putin veio a demonstrar-se um oponente muito mais veemente da expansão da NATO do que o seu embaraçoso predecessor.

Cooperação junta-se a provocação

Ainda assim, relembre-se como, dois anos depois – depois de 9/11, quando os EUA, invocando a carta da NATO, apelaram aos seus aliados da NATO para que se envolvessem na guerra no Afeganistão – Putin se ofereceu para permitir que a aliança transportasse material de guerra para o Afeganistão através de território russo. (Em 2012, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Lavrov, ofereceu à NATO o uso da base em Ulyanovsk para transportar equipamento para fora do Afeganistão.) Esta invasão do Afeganistão foi apenas o terceiro destacamento de forças da NATO para a guerra, após a Bósnia e a Sérvia, e Moscovo aceitou-o como facto consumado. Até silenciou as suas preocupações quando os EUA estabeleceram bases militares nas ex-Repúblicas Soviéticas Centrais do Uzbequistão e da Quirguízia.

Mas em 2004, a NATO expandiu-se novamente – para incluir a Estónia, a Letónia e a Lituânia, que fizeram parte da URSS e faziam fronteira com a Rússia. Ao mesmo tempo, a Bulgária, a Roménia e a Eslovénia foram admitidas, juntamente com a Eslováquia, que havia sido separada da República Checa. Os russos perguntaram novamente, “Porquê?”.

Em 2007, os EUA começaram a negociar com os polacos para instalar um complexo de defesa de mísseis na Polónia, com um sistema de radar na República Checa. Supostamente, seria para abater quaisquer mísseis iranianos dirigidos à Europa, no futuro! Mas Moscovo estava furioso, acusando os EUA de quererem lançar uma outra corrida às armas. Essencialmente graças ao sentimento antimilitarista entre os polacos e os checos, estes planos foram arquivados em 2009. Mas podem ser reavivados a qualquer momento.

Então, em 2008, os EUA reconheceram a sua dependência Kosovo, que agora acolhe a maior base militar dos EUA (Campo Bondsteel) fora do seu território, como um país independente. Apesar de os EUA terem insistido até este momento que reconheciam o Kosovo como uma província da Sérvia (e talvez compreendendo o seu profundo significado como o coração da Ortodoxia Sérvia), agora proclamavam (através de Condoleezza Rice) o Kosovo como um fenómeno “sui generis” (especial). Esqueçam então o direito internacional; simplesmente não se aplica.

Neste mesmo ano de 2008, a NATO anunciou corajosamente que a Geórgia e a Ucrânia “iriam ser membros da NATO”. Isto após o cómico presidente da Geórgia, Mikheil Saakasvili ter bombardeado Tskhinvali, capital da autoproclamada República da Ossétia do Sul, que resistiu à integração na atual República da Geórgia desde o desmembramento da União Soviética, em 1991. Nesta situação, a Rússia defendeu a Ossétia do Sul, invadindo a Geórgia. Reconheceu então a independência da Ossétia do Sul e da República de Abkhazia, na Geórgia. (Isto pode ser visto como uma retaliação face à decisão dos EUA de reconhecimento da independência do Kosovo em relação à Sérvia, seis meses antes).

Foi uma guerra de seis dias, que resultou em cerca de 280 militares mortos (incluindo 100 do lado da Ossétia do Sul-Rússia) e cerca de 400 mortes civis. E nunca mais houve qualquer guerra russa. A Crimeia não foi “invadida” no ano passado, mas apenas cercada pelas forças russas no local, com apoio popular generalizado. E não existem provas de que o exército russo esteja a confrontar as forças estatais ucranianas; etnias russas estão a fazê-lo, recebendo sem dúvida apoio dos primos ao largo da fronteira historicamente instável. Mas a história de uma “invasão russa da Ucrânia” é uma invenção do Departamento de Estado – propaganda automaticamente papagueada pelas marionetas eruditas da imprensa oficial, não uma realidade contemporânea.

Saakasvili, líder da Geórgia, talvez esperasse que os EUA o apoiassem quando provocou Moscovo, em 2008. Mas enquanto recebeu apoio firme do Senador John McCain, que declarou “Agora somos todos Georgianos”, recebeu pouca ajuda do Departamento de Estado de George W. Bush, receoso de provocar a III Guerra Mundial. A Geórgia ainda não era um membro da NATO apto para citar a cláusula de defesa mútua da Carta da NATO.

Saakasvili abandonou o gabinete em 2010 e está agora sob acusação dos tribunais georgianos, por abuso de poder. Após uma breve estadia na Escola Fletcher de Direito Internacional e Diplomacia, em 2014, adquiriu nacionalidade ucraniana – perdendo consequentemente a sua nacionalidade georgiana – e (como um dos muitos exemplos de insanidade da atual liderança de Kiev, incluindo Yatsenyev e Poroshenko) foi nomeado governador de Odessa, em maio passado!

Atendendo ao desastre de 2008, países como a Alemanha muito dificilmente aceitarão a admissão da Geórgia, a curto prazo. Não veem grandes benefícios na provocação da Rússia, através da infinita expansão da aliança “defensiva” da Guerra Fria. Ainda assim, a Croácia e a Albânia aderiram à NATO em 2009, no primeiro ano da administração Obama – mesmo a tempo de participar na quarta guerra da NATO, contra a Líbia.

Mais uma vez, não existia qualquer motivo para a guerra. O Coronel Gadhafy tinha sido consistentemente cordial com os regimes ocidentais desde 2003 e cooperou proximamente com a CIA, contra o terrorismo islâmico. Mas quando a “Primavera Árabe” varreu a região, em 2011, alguns líderes ocidentais (encabeçados pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, mas incluindo a sempre beligerante Hillary Clinton) convenceram-se de que a queda de Gadhafy era iminente e seria melhor apoiar a oposição na sua deposição e assim cair nas boas granças de quaisquer sucessores.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução para estabelecer uma zona interdita a voos, para proteção dos civis das supostas tropas genocidas de Gadhafy. Mas o que a NATO lançou foi bastante diferente: uma guerra a Gadhafy, que levou ao seu assassínio brutal e a um caos horrível, que tem reinado desde então na Líbia, agora uma base confiável para a al-Qaeda e o EI. A Rússia e a China protestaram, com a guerra ainda em curso, afirmando que os EUA haviam distorcido o significado da resolução da ONU. É improvável que os dois membros permanentes do Conselho de Segurança sejam enganados novamente numa tal cooperação.

Podemos, assim, somar o estado falhado da Líbia aos estados disfuncionais da Bósnia-Herzegovina, Kosovo e Afeganistão à nossa lista das conquistas da NATO, desde 1991. Para resumir: desde o colapso da URSS, os EUA e alguns aliados (normalmente na sua qualidade de aliados na NATO) iniciaram guerras contra os sérvios bósnios, a Sérvia, o Afeganistão, o Iraque e a Líbia, enquanto atacavam alvos no Paquistão, Iémen, Somália e noutros locais, com impunidade. A Rússia entrou em guerra precisamente uma vez: durante oito dias, em agosto de 2008, contra a Geórgia.

E, mesmo assim, cada comentador de notícias nos canais de TV dominantes diz nas nossas caras que Putin é quem “invade países”.

Qual é o objetivo da expansão da NATO?

Assim, enquanto a NATO expandiu os seus membros, mostrou uma grande propensão para ir para a guerra, desde a Ásia Central à África do Norte. Pode-se questionar: qual é o objetivo?

O ponto putativo, em 1949, era a defesa da “Europa Ocidental” contra uma suposta invasão soviética. Esta lógica ainda é utilizada; quando os apoiantes da NATO falam a favor da inclusão da Lituânia, por exemplo, podem afirmar isto, se a Lituânia tivesse ficado fora da aliança – os russos seguramente já a teriam invadido sob o pretexto de defender os direitos das etnias russas, etc.

Existem, efetivamente, poucas provas das ambições russas, ou mesmo das ambições de Putin, de recriar um império czarista ou uma União Soviética. (Putin queixou-se há alguns dias, “Não queremos a URSS de volta, mas ninguém acredita em nós”. Também opinou que as pessoas que não têm quaisquer saudades da União Soviética – como dizem que é expresso por muitos dos cidadãos da ex-URSS, suficientemente novos para se lembrarem – não têm coração, enquanto que aqueles que a querem restaurar não têm cérebro).

Enquanto a NATO se expandia inexoravelmente entre 1999 e 2009, a Rússia respondeu não com ameaças mas com calma indignação.

As observações de Putin sobre a dissolução da União Soviética como sendo uma “tragédia geopolítica” e as suas palavras ocasionais dirigidas à língua e outros direitos dos Russos nas ex-repúblicas soviéticas não constituem ameaças militares. Como sempre, os neocolonialistas escolhem uma frase aqui e ali enquanto tentam caricaturar Putin como (um) “outro Hitler”. De facto, os russos têm sido as vozes da razão em anos recentes; alarmados com as consequências das ações dos EUA no Médio Oriente, conseguiram travar o imperialismo dos EUA, enquanto desafiam o terrorismo islâmico.

Em agosto de 2013, Obama ameaçou atacar a Síria para punir ostensivamente o regime pela utilização de armas químicas contra o seu povo. (A acusação original foi desacreditada por Seymour Hersh, entre outros). Uma intervenção hábil do Ministro dos Negócios Estrangeiros Russo, Sergey Lavrov, e a recusa da Casa dos Comuns Britânica no apoio ao ataque (assegurando que não iria, como na Guerra do Iraque, ter o apoio geral da NATO) e a oposição doméstica, tudo ajudou a evitar outra guerra dos EUA no Médio Oriente.

Mas é como se falcões no Departamento de Estado – ressentidos com o êxito da Rússia na proteção do seu aliado sírio do destino de Gadhafy e chateados com a sua capacidade contínua para manter unidades aéreas e navais na costa Síria – redobrassem os seus esforços para provocar a Rússia. Que forma melhor para o fazer do que interferir na Ucrânia, que não só foi parte da União Soviética, mas também do estado russo desde 1654 e, de facto, o centro nevrálgico do Kievan Rus1, no século X?

A NATO tem namorado a Ucrânia desde 1994 – cinco anos antes da aliança se expandir para incluir a Polónia, Hungria e Checoslováquia. Kiev assinou a filiação no Plano de Ação da NATO, em 2008, quando Viktor Yushchenko era presidente, mas tal foi parado quando Viktor Yanukovych foi eleito, em 2010. Com o sólido apoio do leste russo, Yanukovich ganhou aquilo que os observadores internacionais chamam de eleição justa e livre.

Yanukovich não queria que a Ucrânia aderisse à NATO: queria uma Ucrânia neutra, que mantivesse a tradicional relação próxima entre a Ucrânia e a Rússia. Isto enfureceu Victoria Nuland, chefe do gabinete da Eurásia no Departamento de Estado, que tomou como sua missão de vida a filiação da Ucrânia na NATO. Este seria o prémio último na Europa de leste: um país de 44 milhões de pessoas educadas, o tamanho da França, estrategicamente localizado no Mar Negro, historicamente dominado pela Frota Russa do Mar Negro. Um país etnicamente dividido, com um este pró-russo e de língua russa e um oeste mais ocidentalizado e de língua ucraniana, com um pouco usual movimento neofascista vigoroso e fortemente antirrusso – apenas à espera de ser usado.

Nuland, uma ex-assessora de Cheney, cuja visão neocolonialista despertou a atenção favorável de Hillary Clinton, resultando na sua promoção, é a mulher do comentador neocolonialista e apoiante da guerra no Iraque, Robert Kagan. (Kagan foi um membro fundador do famoso grupo de reflexão Projeto para um Novo Século Americano). O casal representa duas alas de uma conspiração neocolonialista incessante: aqueles que trabalham para destruir a Rússia e aqueles que trabalham para destruir o Médio Oriente, usando conscientemente mentiras para confundir as massas sobre os seus verdadeiros objetivos.

No Clube Nacional de Imprensa, em 2013, Nuland gabou-se de que os EUA (através de algumas “ONG”, tais como a National Endowment for Democracy) gastaram 5 biliões de dólares na Ucrânia, para apoiar as suas “aspirações europeias”. Esta formulação deliberadamente vaga refere-se supostamente à admissão de Kiev na União Europeia. O caso que os EUA construíram contra Yanukovich não foi o de que este recusou a adesão à NATO; tal nunca foi mencionado. O caso foi construído com base na suposta traição de Yanukovich às aspirações pró-UE do seu povo, tendo inicialmente aceitado e depois rejeitado um acordo de associação com o bloco de comércio, receando que significasse um regime de austeridade de estilo Grego, imposto ao país pelo exterior.

Desde novembro de 2013 que multidões se juntaram na Maidan, em Kiev, para protestar (entre outras coisas) contra a mudança de opinião de Yanukovich sobre a adesão à UE. O Departamento de Estado abraçou a sua causa. Pode questionar-se porquê, uma vez que a UE é um bloco de comércio concorrente; os EUA não deveriam estar tão interessados na promoção da adesão de qualquer país. Que diferença faz a qualquer um de nós que a Ucrânia tenha laços económicos mais próximos com a Rússia do que com a UE?

O segredo obscuro aqui é que o objetivo dos EUA apenas foi o da utilização da causa da “adesão à Europa” para aproximar a Ucrânia da NATO, o que poderia ser visto como o próximo passo natural no realinhamento geopolítico da Ucrânia.

Nuland e a sua equipa – incluído o ubíquo John McCain, que apareceu na Maidan a distribuir bolachas e a encorajar a multidão a depor o presidente –, basearam-se no desprezo popular por Yanukovich, pela sua corrupção, mas também no trabalho com políticos conhecidos por favorecer a admissão na NATO e a expulsão das forças navais russas da base Crimeia, que detinham desde 1780, incluindo as forças neofascistas que odeiam a Rússia, mas também desprezam a UE.

Isto resultou, claro. A 22 de fevereiro, a um dia de assinar um acordo mediado pela Europa para reformas governamentais e uma nova eleição, a situação descontrolou-se e Yanukovich foi forçado a fugir para sobreviver. As forças neofascistas do Svoboda e o Setor de Direita serviam como tropas de derrube do regime. As manobras maquiavélicas de Nuland triunfaram; um neoconservador judeu instou antissemitas confessos a derrubar um regime e a implementar um regime pró-NATO no seu lugar.

Quase pareceu que, após 14 anos de expansão, a NATO iria brevemente dar as boas vindas a um novo grande membro nas suas fileiras, completar o cerco à Rússia e expulsar a frota russa, transformando o Mar Negro num lago da NATO.

Enfim, os neoconservadores e “intervencionistas liberais” – o novo regime dos escolhidos de Nuland, Arseniy Yatsenyuk e os seus aliados do partido Svoboda – imediatamente alienaram a população de leste que fala russo, que continua armada tornando o país ingovernável, mesmo enquanto a economia colapsa; e a noção de expulsar os russos de Sevastopol tornou-se inimaginável.

Mas o que querem os planeadores da NATO? Para onde está a levar toda a imprudente expansão e provocação?

Rússia: uma “Ameaça Existencial”?

Em primeiro lugar, a NATO advoga – por mais que repitam que “Não estamos contra a Rússia, isto não é sobre a Rússia” –, de facto postula efetivamente uma ameaça duradoura à Rússia. Assim, o General Sir Adrian Bradshaw, o mais antigo oficial britânico na NATO, afirmou em fevereiro último que a Rússia representa “uma óbvia ameaça existencial ao nosso ser”. O General Joseph Votel, chefe do Comando das Operações Especiais disse no Fórum de Segurança em Aspen, em julho, que a “Rússia pode representar uma ameaça existencial aos Estados Unidos”.

O Presidente da Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA, Mac Thornberry (R-Texas) avisou Obama para assinar uma lei de apropriações militares porque a Rússia representa “uma ameaça existencial” ao filantropo americano George Soros (que gosta de financiar “revoluções coloridas”) escreveu na New York review of Books, em outubro, que “a Europa está perante um desafio da Rússia à sua própria existência”.

Estas são palavras selvagens e estúpidas vindas de figures colocadas em locais cimeiros. Não é óbvio que é a Rússia que está a ser cercada, pressionada e ameaçada? Que o seu orçamento militar é uma fração do orçamento militar dos EUA, que a sua presença militar global é minúscula, quando comparada com a pegada dos EUA?

Mas quem quer que veja os debates dos candidatos presidenciais dos EUA – e que se aperceba da prevalência da paranoia sobre a Rússia, a aceitação irrefletida do tema de “Putin como Hitler” e a expressão obrigatória de tornar a América mais “forte” – pode entender porque é que a expansão da NATO é tão horrivelmente perigosa.

As pessoas que não pensem racionalmente, ou cujas mentes estejam distorcidas pela arrogância, podem olhar para os mapas da expansão da NATO e pensar com orgulho “Isto é como deve ser! Porque é que alguém questionará a necessidade das nações se protegerem através da aliança com os Estados Unidos? São alianças como a NATO que preservam a paz e a estabilidade no mundo”.

(Alguns podem acreditar nisso, talvez, mas o facto é que o mundo está menos pacificado e muito menos estável do que durante a Guerra Fria, quando os dois superpoderes controlavam os movimentos um do outro. A partir de então, os EUA emergiram como aquilo que um diplomata francês chamou de “hyper-puissance” ou híper-poder, intervindo impunemente em múltiplos países e produzindo novas e frequentemente feias formas de resistência).

As pessoas que olhem para o mapa da NATO da Europa podem também colorir mentalmente Montenegro. Uma pequena república no Adriático, com menos de 650.000 pessoas, foi formalmente convidada pela NATO para submeter o seu pedido de filiação, em 2 de dezembro. Que outros países terão ainda de assinar?

Como afirmado, em 2008, a NATO anunciou que a Geórgia e a Ucrânia iriam juntar-se. Mas os seus casos, aparentemente, estão em espera. A Bielorrússia, localizada entre a Polónia e a Rússia, está sob o autodenominado “autoritário” Presidente Alexander Lukashenko, desde 1994. O regime, considerado próximo de Moscovo, foi alvo de uma “revolução colorida” abortada, financiada pelos EUA, em março de 2006. Os EUA favoreceram Mikhail Marynich, um ex-embaixador na Letónia e proponente da filiação na NATO. (Participou numa conferência privada da NATO em Riga, em novembro de 2006, chamada “Guerra e Paz”).

Existe ainda a Moldávia, a ex-república Socialista Soviética Moldava, localizada entre a Roménia e a Ucrânia. A leste está a república separatista da Transnístria, onde os a etnia moldava é uma minoria e os russos e ucranianos representam cerca de 60% da população. É uma zona de “conflito congelado”. O sonho neoconservador é o de alterar todos os seus regimes e levá-los ao quente abraço da NATO.

Um anel para todos governar, um anel para os encontrar
Um anel para todos trazer e na escuridão os amarrar
Na Terra de Mordor, onde jazem as sombras

O que fazer após completar o cerco ocidental da Rússia? Ora, destabiliza-se o próprio país, esperando desmembrá-lo! A Rússia permanece uma nação multiétnica e multicultural. Existem tensões e movimentos secessionistas para explorar, particularmente no Cáucaso, mas também na Península Careliana e na Sibéria.

Se a Rússia é uma ameaça existencial, a sua própria existência é uma ameaça, certo? Então, porque não cortá-la?

Não exige a lógica expansionista da NATO um inimigo e não é a América que lidera o mundo na derrota dos inimigos?

Ou se não, não é a própria NATO a ameaça real? (Afinal, não foi esta, no seu último grande projeto, que destruiu completamente o estado moderno da Líbia e, em consequência, desestabilizou o Mali?).

Não deveríamos nós dar as boas vindas às tensões dentro da NATO e às falhas dos estados membros em entregarem os 2% do PIB exigidos para despesas militares? Não deveríamos nós dar as boas vindas à resistência a mais expansão, às queixas sobre as pressões dos EUA e aos pedidos de cooperação com a Rússia, ao invés do confronto e da destruição?

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