8 de janeiro de 2016

Precisa a Coreia do Norte de bombas nucleares para impedir uma agressão dos EUA?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Aqui está o vosso quiz [teste; pequeno exame] sobre a política externa dos EUA de hoje:

Pergunta 1 – Quantos governos tentaram ou conseguiram os EUA derrubar desde a Segunda Guerra Mundial?

Resposta – 57 (ver William Blum.)

Pergunta 2 – Quantos desses governos tinham armas nucleares?

Resposta — 0 (zero).

Significa isto que a Coreia do Norte necessita de armas nucleares para impedir uma agressão dos EUA?

Sim e não. Sim, as armas nucleares são dissuasores credíveis; mas, não, não é por isso que a Coreia do Norte detonou uma bomba de hidrogênio na passada terça-feira. A razão pela qual a Coreia do Norte detonou a bomba foi para forçar a administração Obama a sentar-se e tomar isso em conta. Foi apenas isto. O líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong Un, quer que os EUA percebam que vão pagar um preço elevado por fugirem de negociações diretas. Por outras palavras, Kim está a tentar pressionar Obama a regressar à mesa de negociações.

Infelizmente, Washington não está a ouvir. Veem a Coreia do Norte como uma ameaça à segurança regional e decidiram que os melhores remédios são sanções adicionais e o isolamento. A administração Obama entende que tem todo o assunto sob controlo e não precisa de ser flexível ou de quaisquer cedências e, por esse motivo, opta pelo pau em vez da cenoura. De fato, Obama recusou quaisquer conversações bilaterais com o Norte a não ser que o Norte concordasse, antecipadamente, com o abandono total dos seus programas nucleares e com a permissão para que os inspetores de armas examinassem todos os seus complexos nucleares. Isto é um não início para a RPDC. Veem o programa de armas nucleares como o seu “trunfo”, a sua única hipótese para terminar com a hostilidade persistente dos EUA.

Contudo, se separarmos o incidente da “bomba de hidrogênio” da narrativa histórica mais antiga, datada da Guerra da Coreia, é possível distorcer os factos de uma forma que faça o Norte parecer o “mau da fita”, mas simplesmente não é o caso. De fato, a razão pela qual o mundo está hoje a deparar-se com estes problemas é o aventureirismo dos EUA no passado. Assim como o EI emergiu das cinzas da Guerra do Iraque, assim também a proliferação nuclear surgiu na península coreana em resultado direto da política externa falhada dos EUA, nos anos 50.

O envolvimento dos EUA na guerra coreana impediu um acordo final, o que significa que a guerra nunca acabou verdadeiramente. Um acordo de tréguas que foi assinado a 27 de julho de 1953 finalizou as hostilidades, mas um “tratado final de paz” nunca foi conseguido; então, a nação permanece dividida até hoje. A razão que importa é que os EUA ainda têm 15 bases militares na Coreia do Sul, 28 000 tropas de combate e artilharia suficiente, assim como mísseis para rebentar com o país em pedaços. A presença dos EUA na Coreia do Sul impede, efetivamente, a reunificação do país e uma conclusão final para a guerra a não ser nos termos totalmente definidos por Washington. Em suma: mesmo que os canhões tenham parado de disparar, a guerra arrasta-se, graças, em grande parte, à contínua ocupação dos EUA.

Assim, como pode o Norte normalizar as relações com os EUA se Washington não fala com eles e, ao mesmo tempo, insiste em que abandonem o seu programa nuclear, que é a sua única vantagem?

Talvez pudessem fazer um volte-face, ceder às exigências de Washington e esperar que, por estenderem um ramo de oliveira, as relações melhorassem gradualmente. Mas como poderá isto resultar se Washington, antes de mais, o que quer é uma mudança de regime, a fim de instalar uma marioneta dos EUA que ajudasse a criar outra distopia capitalista para os seus amigos capitalistas. Não é esta a forma como normalmente acabam as intervenções dos EUA? Isto não é uma cedência, é suicídio.

E há ainda uma outra coisa: a liderança em Pyongyang sabe com quem está a lidar e é por isso que optaram pela linha dura. Sabem que os EUA não reagem a fraquezas, apenas à força. É por isso que não podem ceder no projeto nuclear. É a sua única esperança. Ou os EUA recuam e fazem concessões ou o impasse continua. Estes são os únicos cenários possíveis.

Não vale de nada que, antes da Síria, Líbia, Iraque, Nicarágua, El Salvador, Vietname e o longo catálogo de banhos de sangue dos EUA, durante décadas, tenha existido a Guerra da Coreia. Os americanos varreram-na para debaixo do tapete, mas cada coreano, do Norte e do Sul, sabe o que se passou e como terminou. Aqui fica uma pequena lembrança que explica porque é que o Norte ainda é cauteloso com os EUA, 63 anos após a assinatura do armistício. Este excerto é de um artigo chamado “Os Americanos esqueceram-se do que fizeram à Coreia do Norte”, no Vox World:

"No início dos anos 50, durante a Guerra da Coreia, os EUA largaram mais bombas na Coreia do Norte do que em todo o Pacífico, durante a II Guerra Mundial. Este bombardeamento de saturação, que incluiu 32 000 toneladas de napalm, foi frequentemente e deliberadamente dirigido a civis, assim como a alvos militares, devastando o país muito mais do que o necessário para combater na guerra. Cidades inteiras foram destruídas, com muitos milhares de civis inocentes mortos e muitos mais deixados sem casa e à fome... 
De acordo com o jornalista dos EUA, Blaine Harden... 
'Durante um período de cerca de três anos, matámos – aproximadamente – 20% da população', disse o General da Força Aérea, Curtis LeMay, chefe do Comando Estratégico Aéreo durante a Guerra da Coreia, ao Gabinete da História da Força Aérea, em 1984. Dean Rusk, um apoiante da guerra e posteriormente secretário de estado, disse que os Estados Unidos bombardearam 'tudo o que se mexia na Coreia do Norte, cada tijolo que estava em cima de outro.' Após escassearem os alvos urbanos, os bombardeiros dos EUA destruíram as barragens hidroelétricas e de irrigação nas fases mais tardias da guerra, inundando campos agrícolas e destruindo colheitas... 
Pode ter-se um vislumbre das consequências políticas e humanitárias num telegrama diplomático alarmado enviado pelo ministro dos negócios estrangeiros da Coreia do Norte para as Nações Unidas... em janeiro de 1951: 
'A 3 de janeiro, pelas 10:30, uma frota de 82 fortalezas voadoras largou a sua carga mortífera sobre a cidade de Pyongyang… Centenas de toneladas de bombas e um complexo incendiário foram lançados simultaneamente em toda a cidade, causando fogos aniquiladores; os bárbaros transatlânticos bombardearam a cidade com bombas altamente explosivas de ação retardada, que explodiam com intervalos de dias inteiros, tornando impossível que as pessoas saíssem às ruas. Toda a cidade está agora a arder, envolta em chamas, há dois dias. No segundo dia, 7 812 casas de civis tinham ardido. Os americanos estavam bem cientes de que já não existiam quaisquer alvos militares em Pyongyang... 
O número de habitantes de Pyongyang mortos pelos estilhaços de bombas, queimados vivos e por inalação de fumo, é incalculável… Cerca de 50 000 habitantes permanecem na cidade que, antes da guerra, tinha uma população de 500 000.'" 
("Os americanos esqueceram-se do que fizemos à Coreia do Norte", Vox World)

Ficaram com uma ideia? Quando ficou claro que os EUA não iriam ganhar a guerra, decidiram ensinar “àqueles comunistas podres” uma lição que nunca mais iriam esquecer. Reduziram todo o norte a destroços, condenando o povo a décadas de fome e pobreza. É assim que Washington trava as suas guerras: “Matem todos e deixem que Deus decida”.

Esta é a razão pela qual o Norte está a construir as suas bombas nucleares ao invés de fazer concessões, porque Washington aposta na vitória ou na aniquilação.

Então, o que quer a Coreia do Norte dos Estados Unidos?
O Norte quer o que sempre quis. Quer que os EUA parem as suas operações de mudança de regime, que honrem as suas obrigações de acordo com o Acordo Quadro de 19943 e assinem um pacto de não-agressão. É tudo o que querem, um fim do constante acossamento, repreensões e interferências. Será pedir muito? Foi assim que Jimmy Carter o resumiu no Washington Post (a 24 de novembro de 2010):

"Pyongyang tem enviado uma mensagem consistente durante as conversações diretas com os Estados Unidos de que está preparada para concluir um tratado para finalizar os seus programas nucleares, colocando-os sob a inspeção da AIEA e concluir um tratado de paz permanente para substituir o cessar fogo “temporário” de 1953. Deveríamos considerar responder a esta oferta. A pior alternativa para os norte-coreanos é a de concretizar ações que considerem necessárias para se defenderem daquilo que dizem mais temer: um ataque militar apoiado pelos Estados Unidos, juntamente com esforços para mudar o regime político'". ("A mensagem consistente da Coreia do Norte aos EUA", Presidente Jimmy Carter, Washington Post).

Aqui está, preto no branco. Os EUA podem terminar o conflito, hoje, apenas cumprindo com as suas obrigações, nos termos do Acordo Quadro e acordando em não atacar a Coreia do Norte no futuro. O caminho para o desarmamento nuclear nunca foi tão fácil, mas as hipóteses de Obama seguir esse caminho são, na melhor das hipóteses, exíguas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário