17 de janeiro de 2016

A economia chinesa está realmente em apuros?

Aqui estão as lições da história que a imprensa ignora

Eamonn Fingleton

The Unz Review

Tradução / "Você não pode esperar subornar ou dobrar – graças a Deus! – o jornalista britânico. Mas, vendo o que o homem faz por vontade própria, não há ocasião para tentar."

Foi o que escreveu o britânico Humbert Wolfe, espirituoso homem de letras do início do século 20. Não se conhece sua avaliação de jornalistas americanos, mas, no que tenha a ver com questões crucialmente complexas, já deram provas de incapacidade até maior para analisar criticamente, que os contrapartes britânicos.

Essas incapacidades jornalísticas e correspondente falta de clareza dos jornalistas americanos raramente ficaram mais embaraçosamente evidentes do que na recente cobertura da economia chinesa.

Estamos falando da China que, provavelmente, é a mais bem-sucedida economia exportadora de toda a história do mundo, mas os jornalistas americanos foram de alguma forma persuadidos de que está de tal forma terrível que ela precisa ser desvalorizada. A rede CNBC, por exemplo, noticiou outro dia que "muitos especialistas" creem que o yuan está com nada menos de 10% de sobrevalorização. Isso, apesar de a moeda chinesa já ter caído mais de 8% contra o dólar americano nos últimos dois anos.

É verdade que a performance das exportações chinesas não tem sido das melhores ultimamente – as exportações caíram 3,7% em yuan em novembro, por exemplo, e a queda foi consideravelmente maior em dólares. O que raramente se diz, porém, é que as exportações chinesas constituem uma das séries mais voláteis da economia global. Quedas de curto prazo de até 20% ou mais são frequentes e dizem extraordinariamente pouco sobre a saúde da economia chinesa subjacente. O que realmente importa é a tendência de longo prazo, uma taxa de crescimento das exportações denominadas em dólares que sempre esteve em média acima de 17%/ano, ao longo dos últimos 15 anos. É um número absolutamente sensacional e pode-se confirmar a acuidade dele, analisando-se as importações de outros países.

Desnecessário dizer que no que tenha a ver com o que dizem os "especialistas" da mídia, a ideia de desvalorização não merece nem alguma mínima consideração superficial. Afinal, a ideia das taxas de câmbio é garantir que o comércio seja feito em termos justos e mutuamente vantajosos. E fato é que, já por uma geração inteira, o yuan esteve tão subvalorizado que já causou estrago gigante no que restava da um dia superlativa base industrial americana.

O resultado, como em 2014, foi que o déficit comercial bilateral dos EUA com a China chegou a $348 bilhões. Equivale à maior parte de todo o déficit em conta corrente dos EUA no mundo inteiro – que chegou a $389 bilhões (essa conta corrente é a medida mais ampla e mais significativa do comércio de qualquer país). Pois a China teve superávit em conta corrente de $220 bilhões.

Mesmo diante de números dessa grandeza, a mídia só faz pintar nos tons mais sombrios todo o noticiário de economia sobre a China. De fato, muitos jornalistas chegaram a sugerir – que emana, em última análise a partir de lunáticos de Sinologia – que o milagre econômico chinês não passaria de jogo de fumaça e sombras, e que, na realidade, a China estaria a um mínimo passo de distância do colapso econômico ou político ou ambos.

As consequências políticas são difíceis de exagerar. O noticiário sobre dificuldades econômicas pelas quais a China está passando não apenas dispara a mais alucinada repetição desejante, entre os cidadãos comuns, de qualquer coisa que a TV diga, mas também garante aos deputados e senadores americanos o pretexto que tanto buscam para procrastinar a aprovação de medidas contra a China, já há muito necessárias para conter o comércio fraudulento da China. Enquanto isso, vai crescendo o apoio a falcões econômicos tipo Donald Trump que só falam de endurecer contra a China.

São circunstâncias que as autoridades de Pequim não conseguiriam criar elas mesmas por mais que tentassem. Parece já bem claro é que, há anos, os próprios chineses promoveram uma agenda de propaganda de "más notícias". (Japão faz isso bem, mas isso é uma história para outro dia.)

A raiz do problema da imprensa é uma má escolha de fontes. Em vez de procurar proativamente fontes confiáveis e independentes, os jornalistas simplesmente consultam, infindavelmente, sempre os mesmos supostos especialistas, quase sempre não pela importância da opinião ou da fonte, mas pela disponibilidade do especialista. Muito frequentemente, isso implica só ouvir fontes que o lobby da China põe ao alcance de jornalistas incompetentes.

O fato é que muitos dos principais "especialistas" americanos em assuntos da China são acentuadamente pró-Pequim e tendem muito claramente a defender a China. Outros são ambiciosos e acreditam que, para garantir bons empregos em governos futuros é importante não dizer coisa alguma que desagrade ao lobby chinês (o que vale igualmente para "especialistas" nos EUA e na China). Esse lobby é pago por grandes empresas americanas que têm suas principais fábricas na China e cujo principal interesse é manter baixa a cotação do yuan – indiferentes às consequências dessa manobra para o futuro da base industrial americana. Dado que esse lobby controla grandes fatias do dinheiro que mantém as bolsas de estudos de/sobre a China nos EUA, não é difícil garantir que os sinologistas americanos mais frequentemente citados ou ouvidos na mídia nos EUA estejam todos alinhados com esse lobby pró-China.

Quanto a outras fontes-chave, analistas de ações e securities e economistas de bancos para questões chinesas, são em geral ainda menos confiáveis que sinologistas de universidade. São visivelmente limitados pela necessidade de agradar aos clientes mais assíduos e que lhes dão os maiores lucros, dentre os quais vários dos braços financeiros do sistema chinês que há muito tempo já tomaram os principais postos. (China é agora exportadora gigante de capital, o que, claro, é excelente notícia para as empresas de Wall Street prestigiadas por Pequim.)

O que está claro é que muitos dos principais sinólogos acadêmicos parecem ser congenitamente pró-Pequim. Em particular, há uma minoria de analistas de extrema-direita dedicados à China que adoram pregar o manual do laissez-faire dos americanos, nos ouvidos de uma Pequim ignorante. É a ala "Tea Party" da Sinologia americana. Os seus membros parecem extraordinariamente privados de qualquer capacidade para ouvir, tão absolutamente essencial para compreender realidade complexa como é a da China (basicamente, é preciso saber ouvir principalmente os não ditos – coisa que aquele pessoal do Tea Party provavelmente considera absurdo, um oximoro). Claro, uma vez que os sinologistas norte-americanos erram tanto, tão frequentemente, eles são vistos em Pequim como idiotas úteis, que fazem maravilhas em matéria de manter os EUA desunidos e confusos e completamente desentendidos.

Embora só raramente se possa dizer com certeza que um ou outro analista americano de China está na gaveta de Pequim, muitos deles, sim, estão, sem dúvida alguma. Fariam cenas e cenas do mais indignado horror se fossem descobertos, mas a agenda pela qual trabalham é muito evidente no modo como eles se autocensuram. Em vez de falar sobre as barreiras ao comércio da China, roubo de propriedade intelectual e do yuan desvalorizado, o que fazem sempre é escapar como enguias, para bem longe de qualquer discussão franca sobre essas questões.

Examinemos mais de perto algumas das figuras mais problemáticas da Sinologia nos EUA. Qualquer rápida pesquisa na Internet já logo mostra incontáveis observadores da China que se cansaram de prever o eclipse do Império do Meio, quando não o colapso, repetidas vezes ao longo dos anos. Adiante examinaremos o trabalho de Gordon Chang, considerado o rei do bloco da "China em colapso"; antes, passemos os olhos por alguns aspirantes ao trono.

Nome frequentemente citado é Michael Pettis, professor e analista com base em Pequim. Apesar de os comentários de Pettis variarem, inúmeras vezes fala como um Super-Urso.

Eis, por exemplo, como descreveu a economia chinesa para a Associated Press em 2007: "Nesse momento estamos num mar de rosas. As coisas, melhores não podiam ser... Pode-se dizer com razoável certeza que temos todas as condições para crise grave quando há choque adverso. Há muito mais dívida lá fora do que pensamos."

Deputado ou senador dos EUA que acreditasse nisso não teria meios para realmente ver o que aconteceria depois. As exportações chinesas, por exemplo, aumentaram 300% em dólares, nos sete anos seguintes.

Dentre outros Super-Ursos à chinesa, poucos são mais ousados que Arthur Waldron, professor na University of Pennsylvania e membro do Council on Foreign Relations. Em 2002, dizia que o crescimento da economia chinesa foi forjado. Escrevendo no Washington Post, pôs-se a divulgar teoria completamente ensandecida segundo a qual, em vez de crescer cerca de 6% como se dizia oficialmente, a economia chinesa, na verdade, estava em contração já há quatro anos. Concluiu que a política industrial da China seria "receita, não de crescimento, mas de colapso econômico".

Outro sinólogo, nesse caso uma sinóloga, com papel de destaque na tarefa de confundir a opinião pública americana é Susan Shirk. Como professora da cátedra Ho Miu Lam de Relações com a China e países do Pacífico na University of California, San Diego, Shirk continua a ser hoje o que sempre foi: grande "amiga da China". Indicação bem precoce do que depois viria encontra-se em 1994, quando ela publicou How China Opened Its Door: The Political Success of the PRC’s Foreign Trade and Investment Reform. Depois foi vice-secretária de Estado assistente no governo Clinton, e teve papel chave nas negociações que levaram a China a ganhar status comercial de Most Favored Nation.

A ascensão dela à fama como Super-Urso pró-China recebeu impulso considerável depois de publicado seu livro de 2007, China: Fragile Superpower: How China’s Internal Politics Could Derail Its Peaceful Rise. O livro postulava um suposto sério risco de que o regime chinês fosse derrubado por revolução popular. As consequências, ela sugeria, poderiam ser devastadoras, não só para a China, mas para todo o ocidente. Exigia que o ocidente não apenas passasse da dar mostras muito visíveis de grande respeito pelos líderes chineses mas, também, que adotassem política explícita para mantê-los no poder. Dentre outras medidas que presumivelmente visavam a pôr fim a reclamações contra as políticas comerciais chinesas.

Praticamente todas as linhas e cada um dos aspectos da análise dela podem ser demolidos até virarem pó, mas seria preciso mais espaço do que tenho aqui. A primeira coisa a observar é que ela diz que suas análises seriam baseadas em conversações com numerosos altos líderes chineses. É possível, claro, mas Shirk evidentemente nunca se perguntou o que eles ganhariam com falar com ela. É sabido que os chineses cultivam a nobre arte de manter segredos. Por que diabos exporiam o coração a ela?

Por hora, basta observar que ao longo de milênios os governantes chineses mostraram-se, em geral, sempre adeptos de não deixar florescer nenhum tipo de revolução incipiente. O líder supremo Deng Xiaoping perpetuou a tradição, tão brutalmente rompendo os protestos de Tiananmen, em 1989. Os líderes de hoje, além disso, parece mais seguros do que os seus antecessores em que eles estão equipados com modernos métodos de vigilância eletrônica que podem fornecer um aviso muito mais cedo do problema incipiente do que no passado.

Agora vamos considerar David Shambaugh, cientista político da Universidade George Washington. Destacado há muito tempo por sugerir que o Exército de Libertação do Povo não passaria de tigre de papel, nos anos recentes converteu-se em pessimista militante no que tenha a ver com o sistema político da China em anos recentes. Ensaio que publicou em 2014 em National Interest levava o título de "A ilusão do poder chinês".

Em seguida, março 2015 ele convenceu os editores do Wall Street Journal a publicar um comentário intitulado "The Coming Chinese Crackup".

Escreveu: "Já começou o fim do comando dos comunistas sobre a China, me parece, e já andou até mais longe do que muitos supõem." Referindo-se ao Partido Comunista, acrescentou: "O fim do poder dos comunistas será lento, confuso e violento. Não descarto a possibilidade de Xi Jinping ser deposto numa disputa por poder ou golpe de Estado."

Sua análise foi redigida em tom tão melodramática que atraiu críticas consideráveis, inclusive trabalho detalhado, de demolição parágrafo por parágrafo, de Stephen Harner, de Forbes.com e que, diferente de Shambaugh, pode dizer que fez grande parte de sua carreira na China).

O ponto central de Shambaugh era a ideia segundo a qual os esforços do presidente Xi Jinping para conter a corrupção teria irritado poderosos rivais de seu governo.

Como critério para julgar da diminuição de poder de Xi, Shambaugh registra que, em visita recente à livraria do campus de uma universidade chinesa, observou que uma pilha de panfletos assinados por Xi não havia diminuído. É um argumento tão ridículo quanto seria um visitante chinês analfabeto avaliar as possibilidade de Hillary Clinton chegar à presidência, pela altura de uma pilha de panfletos assinados por ela na Columbia University.

Shambaugh também observou que número crescente de chineses está viajando para estudar no exterior. É tendência, diz ele, que adviria de um medo mórbido da crescente instabilidade interna. Parece não ter considerado a possibilidade de explicar o mesmo sinal por explicações mais simples. Afinal, considerados números recentes, há sete vezes mais estudantes coreanos que estudam, nos EUA, que chineses; e quatro vezes mais estudantes vindos de Taiwan. Será que se deve começar a temer riscos equivalentemente maiores de quebradeira e golpe de estado na Coreia do Sul e em Taiwan, que na China? O fato é que alunos do leste asiático viajam ao exterior para estudar por uma infinidade de motivos, dentre as quais se deve incluir o interesse por aprender e aprimorar a competência em língua inglesa. A tendência tem sido muito estimulada em todo o leste da Ásia dado o aumento na riqueza local e, também, as crescentes facilidades nas viagens e nas comunicações que sido promovidas pela globalização.

O argumento de mais peso, dos que Shambaugh lista parece ter sido que famílias chinesas super ricas têm comprado propriedades no ocidente. Absolutamente não é novidade, como Stephen Harner dá-se o trabalho de explicar. Chineses fazem isso há muitas gerações. A única diferença, hoje, é que têm muito mais dinheiro para gastar. Claro que dinheiro atrai noticiário, e a coisa ganha espaço na mídia.

O nome que parece ser o mais propagandeado do clube da "China à beira do colapso" é Gordon Chang, advogado chinês-americano. Desde que publicou The Coming Collapse of China em 2001, nunca mais disse uma palavra de otimismo ou de esperança positiva sobre o destino da China. Isso, apesar de, entre 2001 e 2014, as exportações chinesas terem saltado de $267 bilhões para $2,331 trilhões – salto de mais de oito vezes, com taxa composta de crescimento anual de inacreditáveis quase 18,1%. Significou taxa de crescimento sustentado da produção que poucas nações igualaram em todo o mundo, talvez nenhuma.

Contatado recentemente, Chang mostrou que ainda é Super-Urso convicto. Mas se a China conseguiu escapar do Armagedom econômico logo depois da publicação do livro dele há 14 anos, o que seria diferente hoje? Na formulação mais recente, o argumento de Chang é que a China estaria enfrentando a mais devastadora nova concorrência da Índia. Assim como uma China em ascensão gerou confusão e desastre na economia dos EUA, uma Índia emergente estaria fazendo o mesmo na economia chinesa.

Para não economista, especialmente alguém que não conheça a Ásia, pode até não parecer totalmente implausível. Afinal, o argumento de Chang está baseado em uma das falácias mais elementares em economia: a ideia de que o sucesso seria jogo de soma zero (o vencedor leva tudo). Ele assume implicitamente que para que alguma nação vença alguma coisa, as demais tem necessariamente de perder. É malthusiano e não vê o fato de que nas condições modernas o crescimento é universo em expansão. Considerem o crescimento da Escandinávia. Embora Noruega, Suécia e Dinamarca estejam próximas ou já no topo da liga das nações de mais alta renda do mundo, os países escandinavos de modo algum ameaçam o crescimento, por exemplo, da Alemanha.

O que Chang parece sugerir é que a Índia teria recebido carta branca para usar os mesmos métodos super agressivos contra a base industrial chinesa que a China usou contra a base industrial americana. O que Chang deixa passar sem ver é que Washington dormiu no ponto, o que resultou em a China safar-se, apesar de ter cometido o equivalente econômico de assassinato. De mais significativo, a China roubou uma cornucópia de tecnologias avançadas de produção dos EUA. As empresa americanas foram informadas de que, para vender seus produtos na China, teriam de fabricá-los lá e levar para lá suas melhores tecnologias. Para dizer o mínimo, são diktats chineses que atropelam as obrigações da China em termos de vários tratados de comércio internacional que a China assinou. A China jamais permitirá que a Índia use as mesmas técnicas de extorsão contra a China.

Na verdade, praticamente a única coisa que Índia e China têm em comum é endereço na Ásia. Em termos de fundamentos econômicos e políticos, são completa e absolutamente diferentes. No comércio, por exemplo, a Índia ainda é força insignificante, apesar da muita agitação que provoca, há anos, no comércio ocidental. Segundo cálculos recentes, a China exportou nove vezes mais que a Índia, e a China parece estar ampliando a diferença. (Medidas desde 2006, as exportações indianas mal conseguiram duplicar de valor, e as chinesas mais que quadruplicaram.)

Crucialmente importante, a taxa de poupança na Índia é pouco acima da metade da chinesa. Pior, as autoridades da Índia parecem não ter as ferramentas autoritárias necessárias para promovê-la. Em Jaws of the Dragon, livro que publiquei em 2008, mostrei os vários controles autoritários que os chineses usam para reprimir o consumo, o que automaticamente e fortemente impulsiona as taxas de poupança.

Outra distinção importante é que, enquanto a China tem enormes superávits de conta corrente ao longo de décadas, o balanço de pagamentos indiano continua teimosamente no vermelho.

Uma segunda vertente do argumento de Chang é que a fuga de capitais ameaça destruir a economia chinesa. Embora isto novamente pode impressionar um não-economista, há novamente muito menos aqui do que aparenta. Para começar, a China é necessariamente um grande exportador de capital como resultado de seus atuais superávits em conta (como uma questão de aritmética simples, cada dólar de excedente representa um dólar de capital a ser exportado o mais rapidamente possível).

Mas é verdade, sim, que os governantes chineses falam frequentemente como se estivessem preocupados com alguma fuga de capitais. É assim, porém, apenas, para distrair a atenção popular para bem longe das intervenções no mercado que o Banco do Povo tem de fazer para manter o yuan desvalorizado.

O que está claro é que, se as autoridades de Pequim pode controlar a internet e a imprensa, a fortiori eles podem controlar a fuga de capitais (which requires mainly just a firm grip on a mere handful of major banks, most of which are, in China's case, state-owned). O fato é que, enquanto o desempenho do Reino Unido era persistentemente anêmico, a taxa de crescimento na China é hoje de cerca de 6% e ainda é das mais altas do mundo. No evento pouco provável de que alguma fuga de capitais chineses passe a ser problema, as autoridades chinesas têm remédios disponíveis, não menos importante, um sistema orwelliano de espionagem eletrônica muito mais intrusivo do que qualquer coisa conhecida no Ocidente hoje, muito menos no Reino Unido de 1960.

Então, o que nos resta? Já vai longe o tempo em que a mídia americana orgulhava-se da sua tradição de isenção e equilíbrio. É hora de ela recuperar o senso comum. Por sorte, nem todos os jornalistas profissionais ativos hoje são absolutamente incapazes de aprender com a experiência.

Vou deixar a última palavra para Gideon Rachman do Financial Times. Ele voltou para o núcleo da questão em um comentário bem equilibrado em 2012.

Ele escreveu:

É evidente que é verdade que a China tem enormes desafios políticos e econômicos à frente. Mas é altamente improvável que alguma instabilidade futura venha a desencaminhar o crescimento da China. Seja qual for o wishful thinking de especialistas no ocidente, tão cedo ninguém acordará de repente para descobrir que o milagre chinês não passara de miragem. 
Essa minha opinião sobre a China é temperada por saber que analistas ocidentais já preveem o fim do boom chinês praticamente desde sempre. Em meados dos anos 1990, como editor de Ásia da The Economist, eu vivia editando histórias sobre a instabilidade inerente da China – fossem previsões arriscadas sobre a fragilidade do sistema bancário, ou matérias sobre disputas selvagens no topo do Partido Comunista. Em 2003, comprei um livro muito aclamado, The Coming Collapse of China, de Gordon Chang –, que previa que o milagre chinês teria mais cinco anos de vida, no máximo. Então, agora, quando eu li que os bancos da China estão perto do colapso, que o campo está em um fermento de instabilidade, que as cidades estão à beira de um desastre ambiental e que as classes médias estão em revolta, estou tentado a bocejar e virar a página. Eu realmente ouvi tudo isso antes.

Eamonn Fingleton trabalhou em Tóquio, durante 27 anos, cobrindo economia e finanças do Leste Asiático. Entrevistou Deng Xiaoping em 1986 e previu o crash da bolsa de ações e do mercado imobiliário no Japão, em artigo publicado em Euromoney em setembro de 1987. É autor de Unsustainable: How Economic Dogma Is Destroying American Prosperity (New York: Nation Books, 2003). Recebe e-mails em efingleton@gmail.com.

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