20 de setembro de 2013

Sobre a falácia do "diálogo" com a academia israelense

Haim Bresheeth e Sherna Berger Gluck

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Um argumento padrão contra o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra a ocupação israelense – e especialmente contra o boicote acadêmico – tem sido a “necessidade de dialogar” com os israelenses. De fato, durante os 46 anos de ocupação, numerosos esforços para “dialogar” têm sido repetidamente feitos, todos os quais são calorosamente abraçados por Israel e suas instituições acadêmicas.

O exemplo mais recente é uma conferência de “História Oral Internacional” organizada pela Universidade Hebraica de Jerusalém, com a participação do renomado historiador oral italiano Alessandro Portelli. Os temas da conferência incluíam estudos sobre trauma, estudos sobre holocausto e estudos sobre conflitos, evitando assiduamente, no entanto, qualquer referência ao Nakba.

Tal elipse típica se tornou uma zona de batalha icônica ente os apoiadores dos direitos palestinos e os pró-israelenses, os quais promovem o “diálogo” e o “compromisso”. Não surpreende que a Universidade Hebraica evite esse assunto, dada sua cumplicidade com o trauma palestino em curso. A recém aprovada Lei Nakba em Israel proíbe mesmo a celebração do Nakba, portanto essa nulificação é parte de um projeto maior de negação israelense.

Foram feitos esforços privados para dissuadir os dois conferencistas escalados, e tornou-se claro que eles subscreviam firmemente o valor do “compromisso”, mesmo com uma instituição como a Universidade Hebraica, cuja cumplicidade na violação dos direitos palestinos e da lei internacional estão completamente documentadas. Seguindo essa discussão, a página original da conferência foi trocada, e uma referência elíptica pareceu abrir a porta para alguma discussão para a Nakba anteriormente não mencionada.

As questões envolvidas nessa conferência vão além de uma mal informada ou mal guiada participação dos conferencistas escalados; uma chamada pública para boicotar a conferência, assinada por 72 acadêmicos internacionais, foi lançada em agosto. Agora, em apenas um mês, existem mais de 250 assinaturas, das quais um terço é de historiadores orais de 19 países, incluindo África do Sul, Brasil, Espanha e Índia.

Como a discussão posterior sobre o boicote foi cortada na lista de emails dos Estados Unidos, onde a conferência foi inicialmente anunciada, uma mensagem postada pela organizadora da conferência foi o último comentário substantivo sobre a questão. Nele, ela afirma que boicotar a Universidade Hebraica “apenas serve como um desserviço a muitos indivíduos, organizações e comunidades que dedicam suas vidas profissionais e pessoais para encontrar uma resolução justa para o conflito”. [1] Então, o argumento para o “compromisso” era permitido, mas à comunidade acadêmica americana era negado o acesso as evidências constrangedoras para o boicote. De fato, eles estavam dando uma resposta a uma questão ainda sequer debatida publicamente.

A disputa entre os acadêmicos, e a timidez daqueles nos Estados Unidos comparados com outros pelo mundo, não é nova. Mais do que isso, representa um conflito mais profundo, relativo à questão mesma do “compromisso”.

A insensatez do “compromisso”

Os acadêmicos têm ido a conferências em Israel, especialmente em Jerusalém, durante longas cinco décadas de ocupação, “dialogando” com seus pares israelenses. Já é ruim o suficiente que essas participações não tenham resultado em absolutamente nada de positivo, mas, para piorar, eles se tornaram parte mesmo da estratégia política israelense: mais participação, discussão, encontros, negociações entre os lados ad infinitum. A atual fase de tais exercícios infrutíferos recentemente iniciada pelo Secretário de Estado John Kerry vai provavelmente se juntar às demais na lata de lixo da História.

Pior ainda, sob a aparência de continuar discussões e negociações – uma tática de adiamento desenvolvida pelo Primeiro-Ministro Shamir nos anos 1980 – Israel conseguiu adicionar 700.000 colonos ilegais nos Territórios Ocupados da Palestina e da Síria. Isso equivale ao número de refugiados palestinos que foram forçados a sair da Palestina em 1948 pelas forças israelenses e nunca retornaram, apesar de inúmeras resoluções da ONU.

Em mais de seis décadas de existência, Israel desafiou a ONU em todas as mais cruciais resoluções aprovadas sobre os direitos dos palestinos; instalou ilegalmente colonos nos territórios; desafiou a Convenção de Genebra numerosas vezes, incluindo aí sua “falha” em proteger a população sob ocupação. Entre outras coisas, se recusou a dar às universidades palestinas o direito de operar, e fechou as instituições palestinas existentes por longos períodos. Durante todo esse tempo, ninguém na academia israelense pediu pela reabertura das universidades palestinas, ou pela restituição da liberdade acadêmica na Palestina. As universidades israelenses foram diretamente cúmplices da violação israelense dos direitos humanos palestinos e das leis internacionais, e todas colaboraram de alguma forma com a ocupação militar, incluindo aí assistência ao complexo industrial-militar.[2] No caso da Universidade Hebraica de Jerusalém, seu campus de Mt. Scopus foi expandido dentro de terra ilegalmente confiscada e ocupada.

No entanto, em contraste com o caso do apartheid sul-africano, a maioria dos acadêmicos pelo mundo permaneceu calada por anos, mostrando pouca oposição aos crimes de Israel. Somente em 2005, seguindo o chamado da PACBI por um boicote acadêmico, o BDS e o boicote acadêmico começaram a sério no Reino Unido. Desde então, o BRICUP (Comitê Britânico pelas Universidades na Palestina, na sigla em inglês) tem se envolvido em diversas ações de sucesso, incluindo a retirada do famoso físico Stephen Hawking da conferência presidencial de 2013 – uma ação que galvanizou cientistas e acadêmicos pelo mundo.[3]

Quatro anos após a fundação da BRICUP, e em resposta a Operação Cast Lead campanhas tanto nos EUA (USACBI) quanto na França (AURDIP) foram iniciadas. [4] Seguidas ao sucesso do repúdio mostrado por Hawking, ambas campanhas tem sido ativas. Nos Estados Unidos, talvez o mais significativo sucesso no front acadêmico tenha sido a aprovação da resolução do boicote acadêmico na Conferência de Estudos Asiático-americanos em maio de 2013. A AURDIP, apesar de severamente dificultada pelas políticas repressivas iniciadas por Sarkozy e totalmente aplicadas sob Holland, permanece uma importante referência para o boicote acadêmico, regularmente utilizando eventos públicos de mostra de cooperação entre instituições acadêmicas de França e Israel como uma plataforma para promover o BDS.

Hoje, existem campanhas ativas de boicote na Espanha (PBAI), Berlim (BAB) e Índia (IncABCI), todas as quais foram iniciadas em 2010[5], e na Irlanda (AFP – Academics for Palestine) foi criada em 2012[6]. Talvez o mais importante desdobramento tenha sido o desenvolvimento de um movimento BDS dentro de Israel (Boycott from within – Boicote a partir de dentro). Essas campanhas de boicote têm angariado apoio crescente, freqüentemente de alguns dos mais notáveis acadêmicos em seus países e regiões, como Josep Fontana, o prestigiado historiador catalão. Os grupos de boicote na Espanha, Índia e Estados Unidos estão atualmente organizando contra parcerias sendo montadas com a Technion de Israel. Mesmo na Alemanha, onde qualquer crítica a Israel é altamente suspeita, o BAB está desafiando um acordo de cooperação entre a Universidade Livre de Berlim e a Universidade Hebraica.

A mensagem está se espalhando, gradualmente penetrando as instituições acadêmicas em todas as partes. Em resposta, Israel e o movimento sionista têm devotado tremendos esforços, financiados pelo governo, para conter o boicote. A política de longo prazo que foi então idealizada priorizou o Reino Unido. Uma série de forças-tarefas feitas em universidades israelenses chegaram ao Reino Unido para “explicar” a necessidade de “compromisso” e “diálogo”. Os mesmos professores que por anos se puseram contra qualquer engajamento no apoio aos direitos civis e humanos dos palestinos, incluindo seu direito a educação, estavam agora militando em apoio a “real vítima” – Israel – e promovendo o “compromisso” com as forças de ocupação sob a bandeira do diálogo. A mais recente tentativa, certamente não a última, é a campanha do governo para usar os estudantes israelenses contra o boicote. Revelações recentes expuseram a criação de unidades disfarçadas nas universidades israelenses, criadas para trabalhar com a União Estudantil Nacional Israelense, usando as mídias sociais.

Seja o que for que se pense sobre as universidades israelenses, elas não podem ser acusadas de serem liberais ou apoiadoras de direitos humanos. Alguns meses antes da incursão em Gaza em dezembro de 2008, uma petição pela liberdade acadêmica nos Territórios Ocupados circulou entre mais de 10.000 acadêmicos israelenses. Essa moderada petição, que requeria meramente o governo a permitir que os palestinos desfrutassem da mesma liberdade que os acadêmicos israelenses, foi assinada por apenas 407 deles – 4% do total. As associações acadêmicas em Israel nem mesmo a discutiram. Embora a Universidade de Tel-Aviv seja de longe a mais “liberal” de todas, com 155 membros assinando a petição, em 2012, Shlomo Sand se sentiu compelido a repreender seus colegas no Departamento de História por ocultarem a problemática história de sua própria universidade, construída na antiga vila palestina de Sheikh Muwanis.[7]

Os acadêmicos israelenses continuamente ignoram os chamados da sociedade civil palestina pelo BDS contra a ocupação agressiva de Israel, argumentando pelo “diálogo” com os colegas israelenses. De fato, a conferência na Universidade Hebraica é promovida como um “local de participação no qual ‘diálogos difíceis’ sobre memória e perspectivas serão discutidos”. Como de costume, ao invés de promover diálogo com os acadêmicos palestinos, o máximo que os organizadores conseguem fazer é uma referência a “questões que este país e região encaram”. Seria a ocupação tal questão?

O que pode ter de errado em dialogar?, alguém poderia perguntar. No entanto, a questão correta seria: “é moral colaborar com um Estado colonial, racista, militarizado, de forma a limpar seus crimes?” Não significa isto que os crimes continuam e que novos crimes serão perpetrados? De fato, as evidências claramente demonstram que “compromissos” continuados não levaram a nenhuma resolução, mas, ao contrário, serviram para adormecer a sensibilidade da academia internacional para as realidades da Palestina ocupada. No caso da África do Sul, era claro para todos os acadêmicos que não existia nenhuma maneira de “dialogar” com o apartheid falando com seus representantes; o único modo de lidar com o apartheid era se opondo a ele – boicotar, desinvestir e aplicar sanções; negar às instituições sul-africanas qualquer apoio ou diálogo; e seguir o conselho do CNA.

Embora não ainda na mesma escala que a campanha sul-africana, a campanha BDS tem tido sucesso. Muitos acadêmicos pelo mundo estão agora sensibilizados demais para tornarem-se cúmplices da ocupação ilegal de Israel, suas políticas coloniais e suas práticas de apartheid e pararam de colaborar com instituições israelenses. A campanha para boicotar a conferência de história oral “internacional” da Universidade Hebraica é parte de um crescente esforço mundial para honrar o chamado palestino por um boicote acadêmico a Israel.

Porque tantos historiadores vêem seu trabalho como um modo de dar voz aos oprimidos e silenciados, boicotar essa conferência deveria ser óbvio. De fato, para os historiadores orais com mente aberta, trata-se somente disto, mesmo que muitos dos praticantes da História Oral nos Estados Unidos tenham enfiado basicamente suas cabeças na areia, seguindo a orientação de seu governo.

Nós imaginamos o que os dois advogados do compromisso, solicitados para a palestra, farão, e especialmente como a Universidade Hebraica responderá. Irá ela jogar fora, por exemplo, os dispêndios generosos aos participantes, lhes rendendo sua parte para a máquina de propaganda israelense? Nós esperamos, ao contrário, que os historiadores orais ao redor do mundo prestarão atenção ao chamado dos palestinos, honrando a fundação ética/moral básica do trabalho do historiador. [8]

Notas

[1] Dr. Sharon Kangisser Cohen, postado na lista de divulgação da Conferência, 05 de agosto de 2013. Disponível em: http://bit.ly/1PDm0XI.

[2] KELLER, U. “The Academic Boycott of Israel and the Complicity of Israeli Academic Institutions in Occupation of Palestinian Territories”. In. The Economy of the Occupation: A Socioeconomic Bulletin. Alternative Information Centre, 2009. Disponível em: http://bit.ly/23w9Muu.

[3] Ver SHEIZAF, Noam. “Stephen Hawking’s message to Israeli elites: the occupation has a price”. +972. 8 de maio de 2013. Disponível em: http://bit.ly/1KHUTJR.

[4] AURDIP – Association Universitaire pour le Respect du Droit International en Palestine.

[5] PABI – La Plataforma para el Boicot Académico a Israel; BAB – Berlin AB; InCACBI – Indian Campaign ACBI.

[6] Começada com a aprovação, em 9 de novembro de 2012, de uma moção de boicote acadêmico na união acadêmica TUI (Teachers Union of Ireland). Ver PACBI, “TUI Dublin Colleges Branch AGM passes motions in support of Boycott, Disenvestment and Sanctions; recognizes Israel’s apartheid nature”. 13 de novembro de 2012. Disponível em http://bit.ly/1UtnUOZ.

[7] SAND, S. The Invention of the Land of Israel: From Holy Land to Homeland. Londres: Verso, 2012. p. 259-281.

[8] A carta em Inglês, Francês, Português e Espanhol pode ser acessada em: http://www.aurdip.org/Call-to-Boycott-the-Oral-History.html e usacbi.org

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