10 de fevereiro de 2015

A tendência do Ocidente para a guerra e o radicalismo islâmico

Domenico Moro

Études marxistes

"[...] penso que os esforços desenvolvidos para derrubar o regime de Assad encaminharam o dinheiro para numerosas direções. [...] É essa a razão pela qual é preciso implicar o Qatar, a Arábia Saudita e outros no combate contra as franjas extremistas sunitas." 
Daniel Benjamin, ex-chefe da secção antiterrorismo do Departamento de Estado dos Estados Unidos[1].

"A religião é o suspiro da criatura oprimida pela infelicidade, a alma de um mundo sem coração, e também o espírito de uma época sem espírito. É o opium do povo. A verdadeira felicidade do povo exige que a religião seja suprimida enquanto felicidade ilusória do povo." 
Karl Marx, Crítica da filosofia do direito de Hegel

As consequências desastrosas da destruição dos Estados árabes laicos[2]

Tradução / O inimigo está à nossa porta, ou melhor, passou já da porta. É o que nos dizem os governos e os mass media europeus. O pensamento único, depois dos atentados contra o Charlie Hebdo, é que o Ocidente, com os seus valores de liberdade de opinião e de expressão, foi gravemente atingido pelo brutal extremismo islâmico. É preciso, pois, prepararmo-nos para uma guerra interna e externa. O que podemos afirmar é que entramos numa nova fase da "guerra contra o terror" lançada por Bush depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 que ainda decorre. Não é por acaso que, quando se faz referência aos atentados de Paris, se fala do 11 de Setembro europeu e que Matteo Renzi aproveitou para declarar que a Itália estava disposta a intervir militarmente na Líbia, incluindo com a cobertura da ONU, há um pouco mais de cem anos da invasão colonial de 1911.

Neste caso também – como em todas as guerras qualquer, que seja a sua natureza –, a primeira vítima é sempre a verdade. É por isso que é fundamental levantar o véu da hipocrisia que reina em matéria de encarar a realidade dos fatos. Este objetivo é complicado de alcançar pela evolução do contexto histórico caraterizado por fenômenos cujo papel era antigamente menos importante e sobretudo regional, designadamente o do radicalismo muçulmano. Nesse ponto, tal como na atualização da categoria de imperialismo e do papel da emigração extraeuropeia na União Europeia, a esquerda manifesta um sério atraso em matéria de análise e a sua posição política e ideológica continua indefinida.

O primeiro ponto a sublinhar é que a propagação do extremismo islâmico está estreitamente ligada ao processo de desestabilização do eixo Oriente Médio/Norte de África, sistematicamente impulsionado pelas potências imperialistas ocidentais, em particular pelos Estados Unidos e a França. O apoio ocidental ao radicalismo islâmico e designadamente ao movimento jihadista, que reivindicou os atentados de Paris e ao qual declararam pertencer os irmãos Kouachi e Coulibali, foi um elemento decisivo nesta estratégia, que nos toca a nós, italianos, tão de perto. Com efeito, nos anos 80, os serviços secretos italianos favoreceram e sustentaram o extremismo islâmico no Norte de África, contra os regimes laicos que se pretendia derrubar e redimensionar. Em julho de 2007, a influente revista Limes publicava o testemunho de Nino Arconte, no qual o ex-agente do SISMI revelava que os serviços secretos militares italianos tinham construído vinte campos de treinamento para os militantes islâmicos apoiando, assim, as revoltas que, em 1987, conduziram à expulsão de Bourguiba, na altura presidente laico da Tunísia[3]. Os islâmicos, inicialmente abandonados pelos italianos, depois perseguidos pelo novo governo tunisino de Ben Ali, refugiaram-se na Argélia onde alimentaram a longa e sangrenta guerra civil dos anos 90, entre islâmicos e forças armadas.

Se, hoje, no Norte de África e no Oriente Médio, existem vastos territórios dominados pela anarquia ou nas mãos de organizações terroristas e de milícias jihadistas, como o famoso Estado Islâmico, é porque os antigos Estados laicos que os combatiam e travavam foram sistematicamente destruídos. Esta destruição foi levada a cabo diretamente pelas forças armadas ocidentais, como aconteceu com a invasão do Iraque, ou indiretamente por milícias locais sustentadas política e militarmente pelo Ocidente e as petromonarquias árabes aliadas do Ocidente, como aconteceu na Líbia e na Síria. Na Líbia, sobretudo, os bombardeamentos aéreos levados a cabo pela Europa e os Estados Unidos custaram a vida a inúmeros civis e permitiram aos insurretos alcançar a vitória sobre Kadhafi, vitória que teria sido impossível de outro modo. Enquanto os meios de comunicação ocidentais exaltavam as "primaveras árabes", apresentando-as como ações de luta pela liberdade dos povos contra os ditadores sanguinários, milhares de jihadistas, vindos dos quatro cantos do mundo islâmico, penetravam na Líbia e na Síria, ambas reduzidas hoje à servidão às mãos dos senhores da guerra, como dois Afeganistão à nossa porta. O próprio Daniel Benjamim, antigo chefe da seção do antiterrorismo do Departamento de Estado, na altura de Hilary Clinton, reconhece explicitamente que as petromonarquias da Arábia Saudita, do Qatar e do Koweit, aliadas históricas da Europa ocidental e dos Estados Unidos, que aí detêm diversas bases militares, financiaram as diferentes milícias que derrubaram Kadhafi e praticamente afastaram Assad[4].

A responsabilidade da França na criação desta situação é particularmente grande. Com efeito, são precisamente a França e, em menor grau, a Grã-Bretanha, que apoiaram de modo decisivo a intervenção militar ocidental, diretamente ou sob a forma de apoio aos "rebeldes", na Líbia e na Síria, mostrando-se os Estados Unidos e a Itália mais hesitantes, especialmente no que se refere à intervenção na Líbia. Os serviços secretos franceses, apesar de reconhecidos pela sua eficácia, foram acusados de incompetência em todo o mundo, depois dos recentes ataques de Paris. Perguntaram ao jornal televisivo da RAI (que não é propriamente um blog conspirativo) como era possível que os irmãos Kouachi tivessem podido circular, sem serem incomodados, entre a Síria e o Iêmen onde se iam treinar. Foi apenas incompetência? Talvez exista uma ligação com o fato de, pelo menos até um certo momento, ser preferível para os franceses não se mostrarem demasiado rigorosos no controle dos fluxos de combatentes que deixavam a Europa para irem combater Assad na Síria. Este fluxo circulou por esta zona fronteiriça com a Síria controlada pela Turquia, membro da OTAN, e que, segundo Alberto Negri, do diário Il sole24ore, sempre apoiou, contra Assad, não apenas o ESL (o Exército Sírio Livrre), mas também o grupo jihadista Jabhat al Nosra, filial da Al-Qaeda na Síria[5]. Além disso, a Al Nosra beneficia do apoio do Qatar e do Koweit, enquanto a Arábia Saudita apoia a Frente Islâmica, também ela jihadista, e que tem como objetivo a construção de um emirado islâmico na Síria.

A facilitação do afluxo de combatentes islâmicos à Síria insere-se logicamente na estratégia ocidental em que se inspira, pelo menos até agora, a administração Obama: evitar as intervenções diretas com as tropas no terreno e preferir o recurso à força aérea e às milícias locais. Esta solução é menos dispendiosa no plano econômico, menos comprometedora no plano político internacional e menos problemática para o consenso interno. E, como sublinharam diversas obras cinematográficas (a última foi a recente longa metragem, pelo menos ambígua, de Clint Eastwood) há sempre o risco de que os jovens soldados americanos aprendam à sua custa que nenhum dos "libertados" os considera como libertadores. De qualquer modo, a utilização de tropas locais não é nova. Na época do colonialismo, a Inglaterra servia-se de tropas indianas para conduzir as suas guerras e a Itália servia-se de dubats e de askaris[6]. Ainda hoje, na véspera dos atentados de Paris, Benjamin confirma que é preciso rejeitar a tentação de enviar tropas ocidentais para o terreno. Mas o problema é que pareceria menos evidente controlar e dirigir à vontade os novos askaris, pois eles muitas vezes voltam-se contra aqueles que pretendiam manobrá-los.

O inimigo interno, o desenvolvimento do radicalismo islâmico na Europa

Mas quem são estes novos askaris? Segundo a mídia, seriam milhares os combatentes provenientes da Europa, incluindo os indígenas "brancos" conquistados pelo radicalismo islâmico. Estamos também confrontados com uma nova questão, a saber, por que é que a frente de guerra externa, que o Ocidente, como vimos, contribuiu largamente para abrir, se encontra refletida numa frente de guerra interna. Neste caso, igualmente, determinar os limites do conflito, as responsabilidades e saber quem começou nem sempre é tão simples como parece. Nesta época da informação descartável, esquecemo-nos facilmente do que incomoda. É assim que nos esquecemos que o atentado terrorista mais grave cometido nos últimos anos em território europeu ocidental foi o perpetrado pelo norueguês Anders Breivik, que, em 2011, massacrou 77 jovens e adolescentes do partido socialdemocrata norueguês para "protestar contra a desconstrução da cultura norueguesa pela imigração massiva dos islâmicos".

Mais recentemente, a aversão ao Islã enquanto religião, afirmou-se em toda a Europa, não apenas através de votos em massa a favor dos partidos xenófobos, mas também alimentando as ações violentas e terroristas, como na Suécia, onde, entre o Natal e o Ano Novo, se registaram ataques repetidos com cocktails Molotov contra várias mesquitas. O crescimento do sentimento anti-islâmico reflete-se na propagação do movimento Pegida na Alemanha que, mesmo agindo de forma mais apresentável do que a extrema-direita nazista, difunde o mesmo conceito de defesa da identidade nacional europeia contra o Islã. Paralelamente a estas manifestações de uma parte da população europeia, que pertence principalmente às classes subalternas, as novas gerações de filhos de imigrados de fora da Europa redescobrem em massa a religião islâmica. Esta redescoberta do Islã como doutrina religiosa é acompanhada pela sua adesão a diferentes formas do Islã político.

Quais são as bases materiais e sociais da afirmação destas manifestações ideológicas[7] de tipo religioso e político? Porque parece ter falhado na Europa, e particularmente em França, a integração interétnica e inter-religiosa? O ponto de partida é a criação na Europa de um novo "povo do abismo", representado por milhões de pessoas que pertencem às camadas inferiores do trabalho assalariado e do subproletariado.

Muitos deles são cidadãos europeus, filhos ou netos de imigrados árabes ou de fora da Europa. Trata-se do que se poderia chamar um "terceiro mundo" doméstico, uma espécie de «colônia interna», que foi alimentada durante décadas pelo capital e que continua a sê-lo atualmente.

O objetivo era sempre, e continua a ser, face à diminuição da taxa de natalidade da população europeia, a formação de mão-de-obra suficiente e de «um exército industrial de reserva» que permitisse manter os salários num nível baixo. A França, depois de décadas de declínio demográfico, apresenta hoje a taxa de fertilidade mais alta do continente[8], graças aos imigrados e a um sistema de proteção social generoso para as famílias. Mas, a crise do capital e as «reformas estruturais» impostas pelas políticas de austeridade na Europa obrigam a um nivelamento dos salários, limitando o Estado providência e, sobretudo, a possibilidade de ter um emprego decente. Em conclusão, o que se produz é um excesso de população, uma sobrepopulação, não em termos absolutos, mas em relação à capacidade de integrar esta última na sociedade atual da única maneira possível, isto é, empregando-a como mercadoria força de trabalho no processo de acumulação do capital.

Esta sobrepopulação relativa afeta numerosos europeus, não apenas os imigrados ou filhos de imigrados de segunda ou terceira geração, mas também numerosos «indígenas» que passam à «reserva» do exército do trabalho, de modo definitivo. Esta situação cria uma certa tensão social que, de uma maneira ou de outra, tem de encontrar uma saída e, não a encontrando na luta comum «supraétnica» contra a verdadeira causa do problema (o modo de produção capitalista), se manifesta numa luta entre pobres (ou entre aquele que é pobre e o que tem medo de o ser) pela repartição dos recursos cada vez mais reduzidos, luta que toma conotações étnicas, ou se reveste de um aspeto religioso e de confronto cultural entre civilizações. Marx, materialista e político revolucionário, era crítico em relação à religião que via como "a expressão da miséria material e o protesto contra esta miséria material"[9].

Assim, quando ele diz que a religião é «o ópio do povo», coloca nesta afirmação muito mais riqueza e cambiantes que uma certa vulgata não deixa compreender. Marx dizia que a religião é «o ópio do povo» no sentido em que, como todo o ópio que se empregava para tratar dos feridos durante a guerra, a religião tem por função aliviar os sofrimentos de uma humanidade oprimida e humilhada[10]. De resto, cristianismo e islamismo eram, no seu início, religiões dos pobres e dos escravos. No Corão, como nos Evangelhos, encontram-se mais vezes palavras duras contra os ricos, enquanto o Apocalipse é um verdadeiro auto de acusação contra o imperialismo romano.

Estas referências a Marx e à história das religiões não pretendem ser apenas filosóficas, são motivadas pela necessidade política de compreender a natureza da religião, para melhor combater a sua função de instrumento de dominação utilizado pelas classes dominantes. Ainda hoje, para alguns europeus (de origem e imigrados), a religião (islâmica e cristã) é a única forma que têm de se exprimir num contexto de identidade fraturada por uma modernidade cada vez mais alienante. É sempre importante fazer a distinção entre radicalismo islâmico e islã. O islã é uma doutrina religiosa que, como o cristianismo, não implica por si a adesão a uma orientação política determinada e ainda menos à jihad e às ações violentas. Com efeito, milhões de crentes muçulmanos, como milhões de cristãos, apoiaram partidos de orientações políticas e ideológicas diversas.

Por outro lado, o islã apresenta importantes variedades no plano doutrinário, encontrando-se, por exemplo, importantes correntes quietistas ou mesmo místicas, como o sufismo, que recusam qualquer recurso à força. Nós, europeus, temos dificuldade em compreender o islã, porque estamos condicionados pelo cristianismo que possui um clero, uma organização estruturada e um pensamento religioso sistematizado, sobretudo no que respeita à Igreja católica. No islã, não há igrejas nem verdadeiro clero, apenas a minoria xiita possui algo que se lhe assemelhe. Importa, por outro lado, fazer a distinção entre o islã e o radicalismo islâmico que não é uma doutrina religiosa, mas uma orientação política e religiosa, que se define islâmica porque, segundo uma interpretação própria e subjetiva, justifica e associa a sua linha política à doutrina religiosa e, em particular, à aplicação da lei corânica que, como é o caso de todas as leis, é sobretudo uma questão de interpretação. Assim, o radicalismo islâmico já não é totalmente unitário e não pode ser associado ao jihadismo. Apresenta diferenças internas significativas entre correntes que adotam posições políticas e métodos de luta por vezes completamente opostos.

De qualquer maneira, para estes filhos de imigrantes que hoje se voltam para o radicalismo político islâmico, o islã encarna a arma de libertação e de vingança contra uma Europa e, por extensão, contra um Ocidente que, depois de ter acolhido os seus pais, rejeita hoje os filhos cujas expetativas alimentou. Também neste caso, tem-se a impressão de assistir a um déjà vu. Um mesmo movimento, uma mesma vontade de encontrar as suas próprias raízes e a sua própria identidade face à discriminação racial e à descriminação de classe conduziram milhares de negros americanos a converter-se ao islã nos anos 50 e 60. Também nesta época, como acontece hoje em França, tratava-se de jovens proletários ou subproletários à margem da sociedade, geralmente pequenos delinquentes, que entraram em contato com a religião islâmica igualmente na prisão. O caso de Malcolm Little, mais conhecido como Malcolm X, é um perfeito exemplo.

Naquela época, contudo, o desenvolvimento de uma consciência negra, enquanto pertença a uma «colônia interna», não conduziu à hegemonia do radicalismo islâmico nem desembocou numa jihad; pelo contrário, conduziu os negros à política e à luta contra o poder capitalista e o imperialismo dos Estados Unidos[11]. Um resultado evidentemente encorajado pela existência de um contexto político-ideológico e de relações de força internacionais totalmente diferentes dos de hoje, e por uma estrutura capitalista avançada e diferente da do Oriente atual Médio, menos desenvolvido.

Convergência política entre imperialismo ocidental e jihadismo

Para muitos jovens europeus de origem árabe e africana, o radicalismo islâmico não é necessariamente ou apenas fonte de uma visão religiosa da realidade, mas é também um modelo político, social e ideológico alternativo ao modelo no qual eles vivem. E se um tal modelo emerge é em grande parte porque se mostra ganhador. Dito de outro modo, o radicalismo islâmico surge hoje ganhador, nos países árabes e africanos em particular, face ao secularismo ocidental. Contudo, não foi sempre assim. Durante muito tempo, entre os anos 40 e 70, existiram no Oriente Médio e no norte de África movimentos e partidos laicos, nacionalistas ou de esquerda e mesmo de orientação marxista, designadamente o nasserismo no Egito e o partido Baas na Síria e no Iraque, à cabeça dos povos árabes para a independência e a construção de uma sociedade emancipada das antigas potências coloniais.

Foi esta orientação que conduziu estes países a abandonar os Estados Unidos e a aproximarem-se da URSS e do seu modelo social. As coisas começaram a mudar sobretudo a partir da revolução iraniana de 1979, no momento em que o radicalismo islâmico começou a afirmar-se e a eliminar progressivamente a concorrência dos partidos laicos e a impor, num espaço de três décadas, a sua hegemonia em toda a região. O declínio das esquerdas laicas árabes é o resultado da interação de vários fatores. Em primeiro lugar, um enfraquecimento da esquerda e do socialismo ao nível mundial e, por consequência, uma perda de prestígio junto das massas mais pobres e dos intelectuais no mundo e, em particular, nos países árabes.

Em segundo lugar, a instrumentalização do radicalismo islâmico contra as esquerdas laicas pelo imperialismo ocidental e pelas petromonarquias árabes. A isso se juntam os fundos substanciais investidos pelas petromonarquias, que permitiram que numerosos movimentos e partidos islâmicos pusessem de pé um sistema de segurança social privada que, por sua vez, lhes permitiu enraizar-se nas realidades sociais empobrecidas e privadas de serviços públicos. Por fim, uma perda de credibilidade progressiva devido às numerosas derrotas registadas, quer na construção de uma sociedade moderna, quer na luta contra o imperialismo ocidental e contra Israel, com os quais alguns laicos e governos pós-coloniais foram muitas vezes coniventes.

Estas causas, todas mais ou menos superestruturais, apoiam-se em causas mais estruturais, econômicas e sócio-demográficas que, sendo embora fundamentais, não poderão ser abordadas aqui senão de forma breve. Limitar-nos-emos a constatar que a globalização, através de uma maior integração das economias periféricas nas economias centrais, engendrou fatores que estão na origem de fortes tensões nos países do norte de África e do Oriente Médio, provocando, por consequência, uma desestabilização da estrutura social e das instituições políticas[12]. Entre estes fatores encontra-se a dinâmica das finanças que, por diversas vezes, provocou uma subida dos preços das matérias-primas alimentares e fragilizou o desenvolvimento dos países desta região dependente da Europa e dos Estados Unidos.

A crise agrícola regional desempenhou um papel decisivo. O setor agrícola, com efeito, foi duramente penalizado por um tipo de desenvolvimento baseado na exportação, o que agravou a falta de água característica destas regiões.

Paralelamente, o crescimento exponencial da população que atingiu taxas de 3 a 5% e a forte migração das populações rurais para as metrópoles cada vez maiores e cada vez mais inabitáveis, tiveram efeitos dramáticos. O Egito, por exemplo, passou de 64 milhões de habitantes em 2000 para 85,7 milhões em 201413. A estrutura demográfica mostra a prevalência dos grupos mais jovens, que não encontram resposta à sua crescente procura de trabalho e de participação política[14]. Face à decadência das ideologias provenientes do ocidente, o protesto contra a realidade vivida tende a empregar os instrumentos ideológicos disponíveis mais «à mão», a saber, os que estão ancorados na tradição histórica. Por outro lado, na ausência de oferta política alternativa, o radicalismo islâmico cresce sobre o húmus das tensões sociais e políticas das massas subalternas da região, em particular dos mais jovens e, por isso, mais inclinados a agir.

As vicissitudes do povo palestino ilustram perfeitamente o que acaba de ser dito. A saber, o declínio progressivo da Fatah, das organizações de esquerda e das organizações marxistas, assim como a afirmação de diversas correntes do islamismo radical, com o apoio de Israel, em conformidade com o princípio fundamental do imperialismo clássico, dividir para reinar. O imperialismo ocidental procurou sempre pôr este princípio em prática no Oriente Médio, onde os Estados que apareceram durante o período colonial, do Líbano à Síria, passando pelo Iraque, formam uma absurda manta de retalhos de etnias e grupos religiosos, resultando dos acordos secretos assinados em 1916 entre a França e a Grã-Bretanha, tendo como objetivo a partilha destas regiões. Mais recentemente, e designadamente depois da guerra entre o Iraque e o Irã (1980-1988), os Estados Unidos não cessaram de atiçar as tensões entre leigos e religiosos, entre árabes e persas, entre sunitas e xiitas e empurraram Sadam Hussein para atacar o Irã persa e islamo-xiita. Mais tarde, com a eliminação definitiva de Sadam Hussein e do Estado iraquiano pelos Estados Unidos, com a invasão de 2003, alimentou-se no Iraque o conflito entre sunitas e xiitas, com a dissolução do exército iraquiano, a única organização verdadeiramente nacional, e favorecendo os xiitas em detrimento dos sunitas.

A consequência é hoje toda a região do Oriente Médio ser um paiol fragmentado em grupos religiosos e étnicos diferentes, em conflito uns com os outros. Ora, do ponto de vista da nossa análise, o principal aspecto a reter é que, com tempo, se constituiu uma espécie de aliança, visivelmente contra natura, entre certas correntes do radicalismo islâmico, designadamente o jihadismo, e o imperialismo ocidental. Uma aliança que não é completamente nova, pois em 4 de fevereiro de 1945, à margem dos acordos de Ialta, que tinham por objetivo redefinir a ordem mundial na previsão da iminente derrota da Alemanha e do Japão, ocorreu um encontro histórico entre o presidente Roosevelt e o monarca Ibn Saud. Nesta ocasião, a Arábia Saudita foi integrada na nova ordem mundial enquanto fornecedora de petróleo e aliado estratégico do imperialismo ocidental, sob a direção dos Estados Unidos. A aliança entre os defensores ocidentais dos direitos do homem e das liberdades individuais e os Saud continuou, mesmo que a Arábia Saudita, em conformidade com a sua interpretação wahhbita do Islã, não pareça fazer grande caso das liberdades e dos direitos, a começar pela igualdade entre homens e mulheres. De resto, é interessante relembrar que a Arábia Saudita desempenhou um papel importante na luta contra a URSS e que muitos combatentes sauditas, que mais tarde formariam os grupos jihadistas, entre os quais Ossama ben Laden, viveram as suas primeiras experiências bélicas no Afeganistão, contra o Exército Vermelho.

A história recente mostra que a convergência entre o imperialismo ocidental e importantes setores do radicalismo islâmico jihadista se dá precisamente com a partilha de um mesmo objetivo estratégico, a saber, a desintegração dos Estados laicos e a dissolução do nacionalismo árabe e pan-árabe. Para o imperialismo ocidental, tratava-se de eliminar as formações estaduais (Iraque, Síria, Líbia), que constituíam um obstáculo aos seus projetos de domínio e de controle da região mediterrânica e do Oriente Médio, fundamentalmente no plano geoestratégico e sobretudo energético. Para o radicalismo islâmico, tratava-se de eliminar estes Estados-nação árabes que considera como o produto de uma secularização externa que não reconhece o princípio da soberania divina. Na base da reflexão dos ideólogos radicais do início do século XX, entre os quais se encontra o egípcio Qutb, que se tornará uma das figuras mais influentes dos Irmãos muçulmanos, e o paquistanês Mawdudi, aparece a jahilyya, ideia segundo a qual as sociedades islâmicas caíram num nível de ignorância comparável à que antecedeu a vinda do Profeta, por causa da adoção dos modelos ocidentais, de onde provém a derrota das sociedades e dos Estados árabes nascidos com a descolonização. É manifesto que, no que diz respeito às questões antimodernas e antiocidentais, a relação entre certas correntes do radicalismo árabe, como o jihadismo, por exemplo, e o imperialismo ocidental, aparece como contraditória, conflitual e temporária, muitas vezes limitada à luta contra o inimigo comum do momento, tais como Assad ou Kadhafi.

O radicalismo islâmico enquanto fenômeno não homogêneo de um ponto de vista ideológico e social

De qualquer modo, sempre que se fala de radicalismo islâmico é preciso saber que se está a incluir num único e mesmo fenômeno diversas orientações que se diferenciam não apenas no plano doutrinal, mas também no plano social e no plano das referências de classe. Mas, para simplificar, pode-se distinguir diferentes orientações na base das duas diferenças mais importantes. A primeira separa os neotradicionalistas e os radicais, no que respeita sobretudo aos métodos de luta. Os neotradicionalistas querem conquistar a sociedade e islamizar a partir "da base", a partir do social, através da prédica, de atividades de beneficência e de caridade, que se desenvolveram enormemente graças aos donativos das petromonarquias árabes. Mas, assim que os neotradicionalistas tomaram a forma de partido, ficaram encurralados entre as críticas dos radicais, que os acusam de colaboração com os governos «ímpios», e a repressão das forças armadas do Estado que nunca reconheceram a sua vitória eleitoral, como aconteceu com o FIS na Argélia, nos anos 90 e, em 2103, com os Irmãos muçulmanos no Egito, onde o presidente Morsi foi destituído por um golpe de Estado militar.

Os radicais, pelo contrário, pensam que é possível islamizar a sociedade unicamente «por cima», pela conquista do Estado, que deve ser rápida e violenta. O que foi sempre caraterístico deste movimento é a ausência de vínculo com um verdadeiro movimento de massas e autônomo no que diz respeito aos preceitos religiosos tradicionais dos ulemas. A alienação progressiva do contexto social incitou estes grupos, entre os quais a Al-Qaeda, a recorrer a ações violentas individuais e espetaculares, com o objetivo de assumir, com a ajuda da mídia, o papel de campeões da causa árabe. Com efeito, para estes grupos, o principal dever de cada muçulmano é a jihad, no sentido de guerra permanente contra os infiéis e os alegados apóstatas[15].

A segunda separa dois modelos correspondentes aos dois maiores Estados islâmicos do Oriente Médio, a saber, a Arábia Saudita e o Irã. A Arábia Saudita, que assume um papel mais hegemônico graças à vitória árabe na guerra com Israel, em 1973, representa o polo conservador do islamismo. A concepção saudita do Islã funda-se na autoridade dos ulemas de confissão wahhabita, isto é, no regresso a um Islã primitivo e à aplicação rigorosa das leis da legislação islâmica, a charia. O objetivo da Arábia Saudita é «wahhabisar» o mundo islâmico, apoiando-se em enormes riquezas. A reacionária Arábia Saudita, principal produtor e detentor mundial de reservas de petróleo, está ligada, no plano político e econômico, aos Estados Unidos e à Europa ocidental. A enorme liquidez em dólares da Arábia Saudita e das outras monarquias árabes, geradas pelo imenso superlucro comercial acumulado graças aos rendimentos do petróleo, afluíram nos principais centros financeiros do ocidente, como Londres, onde contribuíram para determinar a criação do mercado financeiro mundial, a partir dos anos 70.

As dívidas públicas americanas e ocidentais são financiadas pelas petromonarquias árabes, que participam em numerosas empresas transnacionais ocidentais, geralmente através dos seus fundos soberanos respetivos. A classe dominante das petromonarquias é uma classe de rentistas parasitários de tipo feudal, que se associaram à classe capitalista transnacional do centro do sistema capitalista. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita sempre esteve ligada, no plano ideológico e prático, ao extremismo fundamentalista sunita e em particular ao jihadismo, mesmo que tal não tenha sucedido sem fricções e contradições. Foi o que aconteceu durante a primeira guerra do Golfo, em 1990, em que numerosos jihadistas se afastaram dos seus patrocinadores sauditas por terem autorizado a presença de um exército infiel, isto é, soldados americanos, no território onde se encontram os lugares santos de Meca e Medina.

A partir do final dos anos 70, a Arábia Saudita, para impor a sua supremacia sobre o islamismo, vai empreender uma luta feroz contra o Irã, cuja revolução islâmica de 1979 teve um efeito perturbador no Oriente Médio. Com efeito, a revolução iraniana, cuja base social de apoio são as massas pobres, é provavelmente a última revolução anti-imperialista vitoriosa do ciclo histórico da descolonização. Paralelamente, teve um papel de precursor ao substituir o islamismo pelo nacionalismo laico ou socialista, enquanto instrumento ideológico e político da luta contra o imperialismo ocidental. Para dizer a verdade, no início, a revolução tinha igualmente um forte componente laico e de esquerda. Contudo, durante a guerra contra o Iraque, a ala mais jovem e politizada do clero xiita, sob a direção do imã Khomeiny e dos pasdarants, uma força militar de elite de inspiração religiosa mas de composição laica, vão impor a sua total hegemonia. Em qualquer caso, o islamismo de inspiração khomeinista vai impor-se desde o início, não apenas às classes dirigentes laicas comprometidas pelas suas relações com o imperialismo, mas também às classes muçulmanas conservadoras dos países árabes (a começar pelos sauditas), acusando-os de dissimular, atrás do rigor religioso, o seu apoio ao ocidente. A revolução iraniana foi, pois, imediatamente contestada pela Arábia Saudita e pelo imperialismo ocidental, que instigaram o Iraque de Saddam Hussein contra o Irã. A Arábia Saudita, dominada pelo islamismo sunita, tinha todos os trunfos para impedir os objetivos dos iranianos xiitas, que esperavam exportar a sua revolução; o xiismo, com efeito, é minoritário no mundo muçulmano e considerado como uma aberração para numerosos sunitas. Contudo, os iranianos conseguiram penetrar lá onde a presença xiita é mais importante e, designadamente, islamizar os dois conflitos mais importantes que, até então, tinham encarnado a causa nacionalista árabe, a saber, o conflito palestino e o conflito libanês, como o provam as relações que existem entre o Hamas, o Hezbollah e o Irã.

O Irã islâmico não foi em nada um Estado progressista e carateriza-se pela sua violenta e sanguinária eliminação das formações laicas e de esquerda e, em particular, do partido comunista, ainda hoje ilegal. Além disso, assim que o impulso revolucionário se desfaz com o tempo, uma burguesia nacional faz a sua aparição, em parte representada pela complexa rede de indústrias e de infraestruturas criada pelos pasdarants, e preserva a paz social ao proporcionar serviços de apoio social às classes mais baixas, graças aos rendimentos do petróleo. Para além das orientações religiosas, os interesses estatais e econômicos do Irã, que também é uma potência petrolífera, opõem-se aos da Arábia Saudita, o que vai implicar uma luta pela hegemonia regional. Os conflitos sectários entre xiitas e sunitas no Oriente Médio são alimentados por estes interesses estatais e econômicos. O caso mais recente é o do Iêmen, onde as milícias xiitas põem em dificuldades o presidente apoiado pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita, que muitas vezes interveio militarmente neste país.

Sendo um fato a importância do islamismo para a compreensão da situação de conflitos generalizados no Oriente Médio, importa também ter em conta uma diferença significativa entre as raízes teóricas do xiismo, declinado na versão khomeynista, e as do sunismo radical. Para os sunitas radicais, os opressores são sempre os não-muçulmanos e os oprimidos são sempre muçulmanos. Segundo esta visão, a pátria onde reina o Islã opõe-se à pátria onde reina a guerra, representada pelos países não islâmicos. Ao contrário, para a ideologia khomeynista, não existe nenhuma identificação dos opressores aos não-muçulmanos e dos oprimidos aos muçulmanos. O khomeynismo constitui igualmente uma ruptura com a tradição quietista xiita, a favor de um islã marcado por uma visão militante e pela «justiça social». Hoje, o Irã é uma república em que estão presentes tendências políticas e ideológicas diferentes e em que o poder está estruturado e dividido de uma maneira inconcebível para as monarquias absolutistas da região e, em particular, para a Arábia Saudita. Além disso, o país mantém relações econômicas e políticas com a Rússia e a China, e a sua posição geoestratégica não é certamente favorável ao imperialismo ocidental, para quem o Irã constitui uma espécie de espinha na garganta nesta zona estratégica do Golfo Pérsico, a mais importante ao nível mundial para as fontes de energia. De qualquer forma, a administração Obama, em comparação com a de Bush, parece, nestes últimos tempos, querer adotar uma atitude de maior abertura em relação ao Irã, provavelmente porque tem a perfeita consciência das dificuldades de controlar os acontecimentos na região sem implicar a potência regional iraniana.

O partido xiita libanês Hezbollah[16] é um outro exemplo da importância das divergências políticas no seio do radicalismo. Este partido, das simpatias do Irã, filia-se na corrente xiita revolucionária. O Hezbollah evoluiu até se tornar não sectário e sempre mais nacional, dando prioridade à luta pela defesa do Líbano contra o imperialismo americano e contra as agressões israelenses, como aconteceu em 2006. O objetivo perseguido pelo Hezbollah é a reconstrução da sociedade e de um Estado nacional libanês, baseado numa colaboração entre as diferentes componentes religiosas. A este propósito, a posição tomada em 1983 por Ibrahim al-Amin, portavoz do partido, é muito significativa: «Rejeitamos qualquer discriminação entre muçulmanos e cristãos na nossa recusa de opressão»[17]. Com efeito, o Hezbollah colaborou com o Partido Comunista e com os cristãos do general Aoun e, num documento de 2009, apresenta o Líbano como um «modelo de coabitação entre adeptos de religiões monoteístas». A esta concepção junta-se uma posição também aberta no plano internacional, baseada na colaboração com as forças políticas laicas dos países árabes e com os Estados não árabes ao nível internacional, posição que conduziu o Hezbollah a apoiar a Venezuela e Cuba contra os Estados Unidos. A visão nacional, a radicalização das massas e a luta popular que caracterizam o Hezbollah, aproximando-o dos movimentos de libertação nacional dos anos 50 e 60, são muito diferentes do universalismo e dos métodos de luta baseados na ação espetacular e individual, próprios dos grupos jihadistas.

Tudo o que foi dito, mesmo se não se trata em nenhum caso de um quadro completo do fenômeno complexo que representa o radicalismo islâmico, pode ser suficiente, na minha opinião, para dar uma ideia da heterogeneidade de orientações políticas e ideológicas do radicalismo islâmico em relação ao imperialismo e do fato de ele representar classes sociais diversas. Estudar e compreender o islamismo e o radicalismo islâmico apresenta-se como uma necessidade para quem quiser enfrentar eficazmente não apenas os problemas internacionais, mas também os problemas internos europeus.

O verdadeiro problema é o papel do imperialismo e a sua tendência para a guerra

A fase em que nos encontramos é uma fase histórica nova, caraterizada por dois fenômenos principais, a saber, a crise estrutural do modo de produção capitalista e a mundialização da economia. A crise afeta sobretudo os países cujo desenvolvimento capitalista é mais antigo, dito de outra forma, a Europa ocidental, os Estados Unidos e o Japão. Paralelamente ao declínio das zonas centrais do sistema econômico mundial, observa-se um rápido crescimento dos países ditos emergentes, tais como o Brasil, a Rússia, a índia e, sobretudo, a China. A parte dos países emergentes no PIB mundial subiu de 16,8% em 1970, para 36,9% em 2011 (a China passou de 2,7 para 12,5%); ao invés, a parte dos Estados Unidos para o mesmo período cai de 32,2% para 22,7% e a da União Europeia passa de 25,9% para 23,3%18. Como sempre, no caso de um crescimento desigual observa-se uma tendência para a modificação das relações de forças políticas e militares, considerando como um fato os laços estreitos que existem entre economia e poder territorial dos Estados. É a esta redefinição das relações de força que o Ocidente se opõe, ou melhor, o eixo Estados Unidos-Europa ocidental[19], servindo-se de todas as alavancas com as quais conservou uma certa supremacia, a saber, nas finanças, na tecnologia, na informação e sobretudo na potência militar.

A luta contra os países emergentes, e em particular contra a China e a Rússia, é conduzida de forma indireta, designadamente nas zonas estratégicas, como a bacia mediterrânica e a região do Golfo Pérsico. O controle destas duas regiões, onde se situam as maiores e mais facilmente extraíveis reservas de petróleo e de gás do mundo, é fundamental de vários pontos de vista. O petróleo do Oriente Médio desempenha o papel principal no aprovisionamento dos países europeus e no dos do Extremo-Oriente, incluindo a China e o Japão. Para os Estados Unidos, que não se abastecem de petróleo nesta região, o controle do Oriente  Médio e da bacia mediterrânica é um instrumento capital para fazer assentar a sua hegemonia mundial, e mesmo para garantir a sua sobrevivência como potência econômica. O controle das fontes energéticas permite-lhes não apenas exercer uma influência indireta sobre as outras economias industrializadas, mas também estabelecer o controle sobre o mercado financeiro mundial. Com efeito, se os Estados Unidos conseguem financiar as suas duas enormes dívidas, a saber, a dívida do comércio externo e a dívida pública, é porque o dólar é a moeda internacional de câmbio e de reserva. Os bancos centrais do mundo inteiro compram imensas quantidades de títulos do Tesouro americano, financiando deste modo a dívida pública e a economia americana.

O problema é que o declínio econômico relativo dos Estados Unidos põe em perigo a hegemonia do dólar, que é uma moeda internacional apenas na medida em que é utilizada para comercializar as mercadorias mais importantes, deixando claro que a mercadoria mais importante é, incontestavelmente, o petróleo. É por esta razão que os Estados Unidos têm de controlar o mercado mundial do petróleo, coisa que se mostra impossível se não se controla o petróleo do Oriente Médio. Não é, pois, por acaso que Saddam Hussein assinou a sua sentença de morte em outubro de 2000, quando converteu em euros a conta que tinha nas Nações Unidas no quadro do programa ―petróleo contra alimentos. Não é por acaso que os iranianos ameaçaram por diversas vezes instalar nas ilhas do Golfo Pérsico uma Bolsa independente para o petróleo, numa outra divisa que não o dólar[20].

Assim, para os Estados Unidos e para o imperialismo em geral, o objetivo não é necessariamente exercer o controle sobre uma dada região ou exercê-lo para explorar em seu proveito os seus recursos minerais, mas pode ser para subtrair uma região ao controle dos seus concorrentes, ou de os impedir de utilizar livremente esses recursos. Vistas as coisas por este ângulo, a desagregação das estruturas estatais da região adquire todo o sentido, bem maior do que o estabelecimento de uma nova ordem «neocolonial». A divisão dos Estados nacionais preexistentes em minientidades para-estatais de natureza confessional, perpetuamente em conflito, é, pois, coerente em relação aos objetivos de fundo do imperialismo ocidental. Isto tem se feito, pelo menos até hoje, não por intermédio de um recurso direto à força, mas através de guerras econômicas e de proxy wars, ou dito de outra forma, de «guerras por procuração», feitas por outros.

Estes outros tanto podem ser tropas regulares dos Estados clientes (Arábia Saudita, etc.), como milícias minoritárias étnicas rebeldes, ou grupos sectários islâmicos ou mesmo jihadistas. Os Estados insolventes, para utilizar uma expressão atualmente muito em voga, com certeza não abrem falência de si próprios, são empurrados para a insolvência através da ingerência ocidental. Como se viu atrás, certas especificidades religiosas, étnicas ou socioeconômicas destes países constituem um terreno fértil para as contradições e os conflitos. Não se pode afirmar que os movimentos de contestação e as revoltas nascem por simples decisão dos serviços secretos ocidentais. Contudo, é um fato que, sem a intervenção do imperialismo, nas circunstâncias atrás descritas, estas contradições muito dificilmente teriam dado origem por si só à destruição de numerosos Estados. Além disso, em certos países, o controle das revoltas passou rapidamente das mãos das forças «democráticas» - muitas vezes tidas como tal – para as mãos das milícias islâmicas e jihadistas, sustentadas e encorajadas pelas petromonarquias e as potências ocidentais. O Líbano, um país que, há 30 anos, com a expressão «libanização», se tornou sinônimo de guerra civil de todos contra todos, é uma perfeita demonstração contrafactual do que acaba de ser dito. Hoje, graças à presença de forças islâmicas que evoluíram diferentemente em relação a outros países, colocando em primeiro plano a luta unitária nacional contra o imperialismo, o Líbano já não representa um conjunto caótico de sectarismos opostos.

O último fator a ter em conta é a crise estrutural do modo de produção capitalista que, no ponto mais alto do seu desenvolvimento, manifesta uma tendência constante para a baixa da taxa de lucro. Observa-se, nos países centrais, um certa estagnação das atividades de produção e uma atitude cada vez mais parasitária que, recorrendo permanentemente à especulação e produzindo continuamente bolhas financeiras, provocam a putrefação do sistema econômico. Ao mesmo tempo, assiste-se nestes países à concentração do poder econômico nas mãos das mesmas elites muito internacionalizadas ao nível dos seus laços e relações econômicas, acompanhada por uma concentração do poder político através de uma transformação oligárquica das instituições estatais.

Simultaneamente, observa-se no exterior um reforço da tendência de expansão, quer através do volume de exportações e dos investimentos de capitais no exterior, quer através da luta pela conquista e controle das matérias-primas e dos mercados. O controle dos fluxos financeiros que, como se viu atrás a propósito das relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, permite aos países hegemônicos atrair para as suas próprias praças financeiras o sobreproduto comercial mundial, designadamente em Londres e em Nova Iorque, é também muito importante. Neste contexto, assiste-se a uma intensificação da concorrência entre empresas e entre zonas econômicas supranacionais, correspondendo a frações específicas do capital internacional. Esta concorrência não se trava apenas através dos mecanismos impessoais do mercado mundial autorregulado, mas utiliza também a força dos Estados, em particular os maiores e os mais poderosos, incluindo a militar, no estrangeiro. Além disso, a doutrina militar ocidental define a época atual como expeditionary era, dito de outro modo, época das expedições militares.

São estas as raízes econômicas e sociais do imperialismo, a saber, a tendência para a expansão, típica da fase mais avançada de desenvolvimento do capitalismo. Hoje, do ponto de vista das relações entre centro dominante e periferia dominada, encontramo-nos numa nova fase do imperialismo. A primeira fase, entre meados do século XIX e a segunda Guerra Mundial, é caracterizada pela dominação direta e territorial dos Estados europeus sobre a periferia por meio do colonialismo. A segunda fase é, por sua vez, caracterizada pela descolonização e foi influenciada pela Revolução de outubro e pelo impulso que suscitou nas periferias mundiais, no quadro das lutas de libertação nacional contra o imperialismo. A terceira fase, aquela em que nos encontramos e que começou com a desintegração da URSS e a criação de um mercado mundial, caracteriza-se pela tentativa dos países imperialistas de anular as consequências da descolonização.

Paralelamente, a mundialização deu lugar igualmente a uma modificação das relações de forças, assim como a uma intensificação da concorrência ao nível mundial. Todos estes fatores, a começar pelo enfraquecimento relativo dos centros de poder tradicionais e a emergência de novos poderes regionais, geraram uma tendência para a guerra, que revela um caráter permanente. Com efeito, esta tendência não é um fator conjuntural, mas uma característica estrutural do Ocidente, doravante inerente aos seus mecanismos de produção econômica. Os resultados saltam à vista: uma situação caótica que degenerou e que, nesta era de mundialização, se repercute posteriormente de forma inevitável nas periferias devastadas mais próximas, a saber, o norte de África e o Oriente Médio (mas também a Ucrânia), até ao próprio interior das cidadelas do capitalismo europeu.

Os trágicos acontecimentos de Paris levaram a um apelo às armas, à preparação de um terreno ideológico e emocional para a passagem a estádios ulteriores nesta guerra permanente, na qual o Ocidente já embarcou há algum tempo, e cuja causa não provém do exterior, mas dos seus próprios problemas e contradições. Provavelmente, a preparação do terreno, tendo em vista eventuais intervenções no terreno de tropas europeias e ocidentais, como Renzi referiu explicitamente a propósito da Líbia, e como fez a França ao intervir sozinha no Mali. A identificação do inimigo islâmico assume dois aspetos: um aspeto grosseiro, como é próprio dos partidos xenófobos e de extrema-direita, e um aspeto mais refinado e elaborado da parte dos círculos dominantes do capital transnacional. É o pensamento puramente hegemônico destes últimos que, enquanto pregam hipocritamente a tolerância com os imigrados não europeus e do Islã, mistificam a opinião pública ao apresentar um conflito entre uma Europa racional e tolerante e um Islã integrista, obscurantista e bárbaro. Uma narrativa que se filia na tradição cultural europeia e que, depois da guerra entre a Grécia e o Império persa, opõe um Ocidente defensor da liberdade e da democracia a um Oriente do despotismo. O imperialismo ocidental, porém, tende bem mais para a dominação do que para a liberdade e para a afirmação da irracionalidade que da racionalidade.

Não há, pois, nada de paradoxal no fato de o imperialismo ocidental encontrar um entendimento com os regimes absolutistas como a Arábia Saudita e alimentar as tendências mais reacionárias e cegamente violentas do radicalismo islâmico. É por isto que importa fazer a distinção entre Islã, como religião, e o radicalismo islâmico enquanto fenômeno político e social multiforme e diferenciado, igualmente, em particular perante os projetos fantasistas do Estado Islâmico de invadir a Europa, avaliar corretamente a força e a influência do imperialismo ocidental sobre a realidade mundial que são, a todos os níveis, infinitamente mais importantes que as do radicalismo islâmico. A principal contradição é, pois, a que opõe o imperialismo às massas de assalariados e pobres que vivem nas suas periferias, tanto internas como externas. E é sempre o imperialismo, que se exprime através da crise e da tendência agressiva das relações de produção capitalistas cada vez mais dominantes ao nível mundial, que constitui o obstáculo principal à resolução dos conflitos e à manutenção da paz.

Enquanto na época da descolonização e até aos finais dos anos 70 existia um elo político e mesmo formas de coordenação entre as lutas do centro e da periferia, este elo hoje está quebrado. O radicalismo islâmico é ao mesmo tempo o efeito e a causa desta interrupção e do desaparecimento de um movimento internacional crítico do imperialismo e de orientação socialista. O problema mais importante do radicalismo islâmico reside na substituição da contradição econômico-social entre opressores e oprimidos e entre explorados e exploradores, pela contradição entre crentes e não crentes e infiéis/apóstatas, que desemboca numa confrontação entre orientações religiosas no seio do próprio campo islâmico. As consequências são desastrosas, não apenas para a esquerda e os povos árabes, mergulhados num turbilhão de conflitos entre sectarismos religiosos e entre potências candidatas à hegemonia regional, mas também para os povos europeus, arrastados num conflito de civilizações, e para a esquerda europeia que se encontra privada de orientação política e ideológica válida.

Mesmo se está formulada de boa-fé e com as melhores intenções, a crítica "esclarecida" e "libertária" do Islã enquanto religião e sistema de crenças, arrisca-se a ser, no melhor dos casos, uma crítica que orienta o conflito num mau caminho. O caminho para a emancipação não passa por um conflito entre culturas e civilizações, um lodaçal onde chafurdam com a mesma desenvoltura o imperialismo e o sectarismo jihadista retrógrado. Pelo contrário, o principal problema da época atual é a capacidade de encontrar uma teoria e uma prática política capazes de propor de novo uma perspetiva de emancipação social e política, ao mesmo tempo no centro e na periferia do sistema capitalista e, no nosso caso preciso, na margem norte e na margem sul do Mediterrâneo. De qualquer modo, deve-se primeiro avaliar esta força na nossa casa, na Europa, através da reparação de fraturas econômicas, políticas, étnicas e culturais no interior do trabalho assalariado. Isto significa usar os meios adequados para agir nas nossas periferias, tendo em vista uma implicação na luta política dos trabalhadores estrangeiros e das novas gerações, que representam uma parte cada vez menos negligenciável das classes mais pobres, no nosso país em particular.

Notas

1 Marco Platero, «Il rischio della provocazione. Attaco a Parigi apre nuova fase terrorismo: concorrenza ISIL Al Qaeda, truppe USA in campo ?» Il Sole24ore, 10 de janeiro de 2015.

2 Este artigo apareceu sob o título «La tendenza alla guerra dell’occidente e il radicalismo islamico», Resistenti, n.o 530, 10-2-2015, Centro de cultura e documentação popular, www.resistenze.org/sito/te/pe/im/peimfb10-015778.htm.

3 Antonino Arconte, «Il nostro golpe contro Bourghiba», Limes, n.º 4, julho de 2007.

4 Marco Platero, «Duello al Qaeda-Isis, nuova sfida per gli Usa», Il Sole24ore, 11 de janeiro de 2014.

5 Alberto Negri, «Decisivo il ruolo della Turchia», Il Sole24ore, 16 de janeiro de 2015.

6 A palavra dubat designava os soldados locais utilizados pela Itália na Somália italiana. Identicamente, askari (nome árabe para soldado) foi utilizado para designar um polícia ou soldado indígena dos impérios coloniais italiano, alemão ou britânico na África oriental.

7 O termo ideologia é usado, aqui, despido de toda a conotação negativa – e não se entenda no sentido de uma mascarada doutrinária ou falsa consciência. Pelo contrário, pretendo com este termo fazer referência a sistemas de ideias coerentes que exprimem uma certa visão do mundo. Estas visões do mundo exprimem, por sua vez, as aspirações, os interesses e a cultura de grupos e classes sociais determinadas num dado momento, mas não são o reflexo puro destes grupos e classes, pois elas têm uma certa autonomia.

8 Em 2012 (último ano considerado pelo Eurostat), a taxa de fecundidade em França era de 2,01 crianças por mulher, a comparar com uma média de 1,55 na zona euro e de apenas 1,43 em Itália.

9 Estes conceitos e os seguintes são tomados de K. Marx, Contribuição para a crítica da filosofia do direito de Hegel, Introdução.

10 Nicolao Merker pôs recentemente em evidência este aspeto da conceção marxista da religião, em Karl Marx: Vita e opere, Laterza, 2010, p. 47.

11 O exemplo mais flagrante foi o Partido Pantera Negra.

12 Domenico Moro, «La crisi e le rivolte in Nord Africa», Economia e politica, 1 de março de 2011, www.economiaepolitica.it/primo-piano/la-crisi-e-le-rivolte-in-nord-africa/.

13 Dados das Nações Unidas.

14 A. e Y. Benachenhou, Ambiente e sviluppo, Jaca Book, 2000.

15 A jihad — literalmente, luta pela fé — encarna para os jihadistas um valor bem mais vasto do que aquele que, geralmente, encarna no islã, onde é interpretada como o dever social de defender os lugares santos e o território habitado pelos povos muçulmanos contra as ameaças exteriores. O jihadismo moderno baseia-se na definição de Qutb, que, segundo alguns, retomou o teólogo medieval Ibn Taymmiyya. Segundo a interpretação jihadista, a jihad é assumida no sentido de guerra para libertar o mundo do mal, que se traduziu num conflito armado permanente contra os «Estados infiéis», que não são unicamente os Estados ocidentais, mas também os Estados árabes secularizados e que já não são autenticamente islâmicos. Segundo a componente egípcia do jihadismo, o inimigo «próximo» – dito doutro modo, os governos árabes laicos ou muçulmanos moderados – é mais importante, enquanto que o inimigo «longínquo», ou seja, Israel, é um inimigo secundário. Daqui resulta que é preciso, primeiro, aniquilar o inimigo «próximo». Ao contrário, a componente saudita, a de ben Laden, coloca em pé de igualdade os inimigos próximos e os longínquos, e coloca a jihad num nível universal. Ver Steven Simon, « Cos’è il terrorismo georeligioso », Quaderni speciali di Limes, suplemento ao n.o 4, 2001.

16 Sobre o Hezbollah, ver Stefano Mauro, Il radicalismo islamico: Hizbollah da movimento rivoluzionario a partito politico, Edizioni Clandestine, Marina di Massa, 2007.

17 Citado por Mauro em Il radicalismo islamico, p. 107.

18 Estatísticas da CNUCED.

19 Por razões de simplicidade e para não sermos longos, não nos debruçaremos aqui sobre as clivagens, os contrates e a hierarquia no seio do eixo atlântico Europa ocidental-Estados Unidos. Limitar-nos-emos a considerar aqui este eixo como um imperialismo ocidental único, mesmo se, em certas passagens, procuramos fazer sobressair as diferenças entre, por exemplo, a França e os Estados Unidos. A questão de saber se existe ou não um imperialismo europeu, distinto do imperialismo americano, necessita de ser tratado separadamente, dada a sua complexidade e importância.

20 Sobre estes aspetos, ver Paolo C. Conti e E. Fazi, Euroil: La borsa iraniana del petrolio e il declino dell’impero americano, Fazi editore, Roma, 2007.

Notas bibliográficas

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Domenico Moro (domenico.moro@alice.it), nascido em Roma em 1964, é diplomado em sociologia e investigador no Instituto Nacional de Estatística italiano (Istat). Colabora em numerosas revistas de economia e de política e publicou nas edições Delga La crise du capitalisme et Marx [A crise do capitalismo e Marx - NT]. Le Groupe Bilderberg, l’élite du pouvoir mondial [O Grupo Bilderberg, a elite do poder mundial - NT] deve ainda ser publicado em francês. É membro do Comissão Política nacional do partido Refundação Comunista.

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