22 de janeiro de 2016

Este poderia ser o "The Big One"?

Mike Whitney

conterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Todos podem respirar fundo. Isto não é o 2007 novamente. Os bancos não estão cheios de $10 trilhões em títulos lastreados em hipotecas "tóxicas", o mercado imobiliário não caiu de um penhasco, exterminando $8 trilhões em home equity, e o mundo não está à beira de outro colapso financeiro excruciante. A razão pela qual os mercados estão girando tão furiosamente ao longo das últimas semanas é que as ações estão com os preços super inflados, os lucros das empresas estão encolhendo e o Fed está ameaçando tirar a tigela de ponche. E aina por cima, um número considerável de investidores têm mais em jogo do que podem pagar, então tiveram que derrubar as ações imediatamente para reequilibrar suas carteiras.

O que isso significa?

Significa que muitos investidores estão afundados até o buraco do olho em dívidas; assim, quando o mercado desaba, eles têm de vender o máximo que consigam, para continuar no jogo. É a conhecida "chamada de margem", e na quarta-feira houve uma dessas, das grandes. Os investidores venderam tudo, exceto a pia da cozinha, num frenesi de venda que jogou o Dow Jones em queda livre de 565 pontos, antes de o índice conseguir puxar-se ele mesmo, a custo, para cima, de volta a queda de 249 pontos. A razão pela qual se sabe que foi uma chamada de margem, não um pânico de venda, é que não houve corrida de volta para títulos do Tesouro dos EUA. Tipicamente, quando investidores pensam que o mundo vai se acabar, eles entrincheiram as próprias ações e fazem o que se conhece como "voo para a segurança", de volta para a dívida americana. Dessa vez, nada disso aconteceu.  A marca de dez anos dos títulos americanos permaneceu praticamente imóvel durante a operação das bolsas, embora tenha permanecido abaixo de 2%, o que sugere que os proprietários de ações calculam que a economia dos EUA permanecerá sentada na privada ao longo do futuro previsível. Mas essa já é outra história. O fato é que os investidores não estão "girando", estão "liquidando", porque penduraram tudo exceto a fazenda da família, e agora têm de vender alguma coisa bem rapidamente, para cobrir suas apostas. Mas, se pensavam que as ações voltariam a subir em um curto prazo, agora terão de tentar segurar-se pelos próprios cabelos por mais algum tempo. O que pôs todo mundo muito nervoso foi que o Fed se manteve mudo nas coxias, sem dar um pio de encorajamento, motivo pelo qual todo mundo está tentando sair agora, enquanto ainda podem.

Capisce?

Eis como Rick Santelli, da CNBC, resumiu tudo na quarta-feira à tarde:

"Basicamente temos em andamento uma chamada marginal global que está em andamento desde julho do ano passado. Ficou um pouco mais intensa desde que o Fed anunciou que era 'normalização'; porque, na essência, aumento de 0,25% (na taxa) não significa coisa alguma, mas a noção de que estamos nos aproximando de virar a esquina e sair do 'Grande Experimento', sim, significa muito" ("Closing Bell Exchange", CNBC).

Em outras palavras, os investidores estão começando a crer que o Fed continuará seu ciclo de aumentos, que porá ainda maior pressão de queda nas ações; assim sendo, estão tentando cair fora agora mesmo.

Santelli também acerta ao falar de "normalização", o que significa que o Fed tentará levar as taxas de volta ao patamar normal de 4%. Ninguém espera que aconteça, principalmente porque a fúria e ranger de dentes em Wall Street seriam insuportáveis. Além disso, o Fed passou os últimos sete anos apenas inflacionando os preços das ações, com suas taxas zero e QE. Com certeza não estourará essa bolha agora, subindo os juros e jogando as ações para o quinto subsolo, em queda livre. Mesmo assim, muitos investidores acham que o Fed continuará a aumentar paulatinamente as taxas, para 1% ou mais. E, embora ainda fique abaixo da inflação, a mudança na percepção, de "dinheiro fácil", para "aperto", faz enorme diferença nas expectativas dos investidores. E, como todo economista sabe, as expectativas moldam as decisões de investimento. Ninguém se carrega de ações, se acha que as coisas vão piorar. Trata-se, afinal, disso.

E então, a recente volatilidade extrema seria precursora do "Grande Terremoto"?

Provavelmente não, mas não significa que as ações não caiam ainda mais. Provavelmente cairão; afinal, as condições mudaram dramaticamente. Estávamos num ambiente no qual lucros gordos, juros baixos e ampla liquidez eram mais ou menos garantidos. Agora, isso mudou. Ações já não têm preços perfeitos; de fato, as desvalorizações estão gradualmente se aproximando de um ponto que reflete os fundamentos subjacentes. Além disso, sabe-se lá por que motivo, o Fed parece ansioso por convencer as pessoas de que os aumentos vão persistir.

Assim sendo, eis a questão: Se você retira da festa a tigela de ponche, ao mesmo tempo em que os ganhos começam a despencar, o que acontece?

As ações caem. Está aí. A questão que permanece é "até onde caem"? E, dado que S&P mais do que triplicou depois de ter alcançado o ponto mais baixo em março de 2009, o fundo pode ser muito fundo, motivo pelo qual os investidores estão tirando mais e mais fichas da mesa de jogo.

Vale observar também que um dos principais puxadores de preços de ações, ultimamente têm sido as empresas AWOL. Falo aqui das empresas que recompram as próprias ações, quero dizer, quando os chefões recompram ações da própria empresa para recompensar acionistas e inflar os bônus que eles mesmos recebem. Eis o que diz FT Alphaville:

"A China cada vez mais lenta, o preço do petróleo martelado sem parar, o Fed subiu depressa demais: tudo isso contribui para o início de ano abominável para os mercados mundiais de ações. Eis mais um naco de carne para o sopão, cortesia do diretor de Goldman Sachs para ações dos EUA, David Kostin: recompra de ações. 
"Uma das razões do desempenho miserável do mercado é que as recompras de grandes empresas são proibidas no mês antes da distribuição de dividendos. Qualquer macronoticiário desestabilizador que ocorra durante a janela de proibição amplifica a volatilidade, porque a maior fonte de demanda de ações está ausente." 
As recompras de ações nos EUA estão a caminho de seu maior ano desde 2007, acrescenta ele, estimando $561 bi para o ano cheio de 2015 (net of share issuance) e um declínio de $400 bi no ano cheio de 2016." ("Share buybacks, the markets miss you", FT Alphaville).

Segundo algumas expectativas, as recompras representam 20% de todas as vendas de ações; claro que a atual seca contribuiu para o recente mergulho das ações. Assim também, G-Sax Kostin espera forte repique em 2016, para $400 bi. Enquanto o preço do dinheiro estiver abaixo da inflação, as empresas continuarão a tomar emprestado o máximo que possam, para empurrar para cima o preço das próprias ações e embolsarem cada vez mais dinheiro. A ganância sempre foi péssima conselheira, em decisões sobre investimentos.

Quanto aos problemas da China: Por mais que seja verdade que a China possa ter sido o gatilho que disparou os desastres recentes em Wall Street, com certeza não é a causa deles: a causa é a política monetária fracassada do Fed. Além do mais, tudo que se diz sobre a China é enormemente exagerado. Como Ed Lazear disse à CNBC na quarta-feira:

"Uma grande recessão na China, que durasse dez anos, não custaria aos EUA mais que 2% do PIB. Ninguém teria uma queda de mercado como a que se vê nesse momento, por causa da China."

O economista Dean Baker concorda basicamente com Lazear e diz:

"Nem uma virada aguda na China jogaria a economia dos EUA para baixo. Nossas exportações totais para a China mal ultrapassam os 0,7% do PIB. A fraqueza chinesa terá impacto maior em outros parceiros comerciais, especialmente os pesadamente dependentes de exportações de commodities. Mas mesmo no pior cenário, estaríamos com um grande obstáculo na economia dos EUA, não no tipo de falência da demanda que põe toda a economia em recessão" ("Wall Street Rocks!", Dean Baker, Smirking Chimp).

Quanto aos preços do petróleo em queda, também pouco explicam. Sim, se perderam alguns bons empregos, de salários altíssimos, no setor do petróleo; investimentos de capital secaram completamente; e muitos dos fornecedores domésticos darão calotes nos próximos seis meses, por aí. Mas esses calotes seriam risco significativo para Wall Street, como foram, em 2007-2008, aqueles trilhões de dólares podres em hipotecas amparadas em Mortgage-Backed Securities (MBS) e CDOs?

Ah, não. Nem chegam perto. Haverá muito sangue pelas ruas até que tudo isso seja passado, mas o sistema financeiro atravessará a turbulência, sem colapsar. Quanto a isso, não há dúvidas. O real perigo é que os preços em queda do petróleo sinalizam a formação de pressões inflacionárias na economia, que não estão sendo compensadas por estímulo fiscal adicional. Esse é o problema real, porque significa crescimento mais lento, menos empregos, salários mais achatados, renda em queda, mais pressão sobre os serviços sociais e mais economia generalizadamente estagnada. Mas como já dissemos antes, Obama e o Congresso Republicano já fizeram tudo que podiam para manter as coisas exatamente como estão: cortam e cortam gastos do estado, para assegurar que a economia permaneça o mais fraca possível, porque, em economia moribunda a inflação não sobe, o Fed não precisa subir taxas de juros e continua a chover dinheiro fácil sobre Wall Street. Aí está, em poucas linhas, toda essa desgraceira: mate de fome as abelhas operárias e garanta mais bem-estar aos tubarões dos grandes bancos de investimento e corretoras. Esse é o sistema que políticos eleitos acabam de levar praticamente à perfeição, como mostra relatório recente da Oxfam. Segundo Oxfam: "Os 62 bilionários mais ricos possuem hoje o equivalente ao que possui a metade mais pobre de toda a população da Terra" (The Guardian).

Riqueza assim, "não é por acaso", irmão. É a política.

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