10 de janeiro de 2016

Guerra xiita-sunita de "interesses". Pouco religiosos

Maurizio Mussolino


Soam os tambores de guerra, tendo por protagonistas dois Estados que são referências das principais correntes do Islamismo: o Irã e a Arábia Saudita. Faz-se alarido sobre a guerra religiosa (a Europa sabe algo sobre isso), desta vez totalmente muçulmana, mas por trás dos contrastes teológicos escondem-se outros, ou interesses econômicos, ambições regionais e fins estratégicos geopolíticos que encontram em outros sujeitos as verdadeiras marionetes.

Portanto, é enganoso pensar que nos encontramos diante de uma disputa teológica que tem por origem a herança política do profeta. O confronto que opõe Riad a Teerã não tem a ver com as razões de Ali (que originou os xiitas) ou de Abu Bakr (sunita), mas com as de milhões de pessoas de carne e osso, seu cotidiano e interesses, e com as instrumentalizações que são feitas às suas costas.

Há, porém, um elemento que tem como origem a história das duas correntes islâmicas e que ainda hoje tem sua influência. Os sunitas, sempre majoritários no mundo islâmico, no decorrer dos séculos reprimiram seus “irmãos xiitas”, constrangendo-os a viver em condições miseráveis à margem das capitais árabes. Um fosso religioso e social que jamais foi preenchido. Para essas massas a revolução iraniana de Khomeyni, no final dos anos 1970, representou uma esperança de resgate, a possibilidade de recontratar o próprio status social. Nesse sentido, a história do Líbano é emblemática.

Mas esta aspiração de resgate, mesmo em palavras, no centro da tão invocada “primavera árabe”, põe em risco antigos equilíbrios, que veem no poder monarquias corruptas e ávidas, dispostas a tudo para conservar o próprio poder, inclusive a financiar o chamado Estado Islâmico e reprimir violentamente qualquer forma de oposição interna.

Os interesses econômicos em jogo são de fato enormes: riquezas energéticas, os petrodólares correspondentes, oleodutos e gasodutos nos quais transita a força vital para o Ocidente. Os sauditas (entendidos como a família Saud) querem preservar a sua influência regional, controlar os países do Golfo até Sana'a (Iêmen) e impor-se como o único ator entre os grandes produtores de petróleo e gás ao Ocidente e África; a própria condenação à morte do xeique al-Nimr deve ser lida considerando a sua influência sobre a numerosa minoria xiita na província de Qatif, rica em reservas petrolíferas. Um cenário que não desagrada nem aos Estados Unidos nem à Europa.

Por seu turno, o Irã reivindica o papel histórico de potência hegemônica na região e de defensor da minoria xiita. Um Irã que, depois de anos de isolamento total, vê a possibilidade concreta de reentrar na disputa a partir da assinatura dos acordos nucleares e do reconhecimento de seu papel no Iraque e na Síria.

A família de Saud, depois de ter assistido ao questionamento da sua liderança no mundo sunita por parte da Turquia de Erdogan (redimensionado com a eliminação de Morsi no Egito) e sobretudo depois da áspera disputa petrolífera com os Estados Unidos – que com Obama tentaram emancipar-se do “laço médio-oriental” através do petróleo obtido da fragmentação de rochas (tentativa fracassada com a colocação no mercado mundial de uma grande quantidade de óleo cru que fez baixar o preço do barril) – perdeu definitivamente seu papel devido à acusação (de circunstância) por parte do Ocidente de ajudar o chamado Estado Islâmico.

Eis então que a ostentação do confronto com os iranianos permite à monarquia wahabita evitar surpresas desagradáveis e levar adiante operações, como a do Iêmen, na qual a nova geração dos príncipes reinantes joga o seu futuro. Tudo isso, esperando as próximas eleições nos Estados Unidos, com a esperança de que vença um republicano, historicamente em sintonia com as posições e os interesses sauditas.

Uma disputa totalmente econômica, portanto, não propriamente religiosa, que já teve suas vítimas, como são o Iraque, a Síria, o Barhein, o Líbano e o Iêmen.

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