3 de novembro de 2015

A questão prévia das fontes da série “Apocalypse Stalin” no canal France 2

Annie Lacroix-Riz

Annie Lacroix-Riz

A história da Guerra Fria entre Göbbels e a Era Americana

Tradução / As três horas de difusão da série "Apocalypse Stalin", a 3 de novembro de 2015, no France 2, batem recordes de contraverdade histórica, rapidamente resumidas abaixo. Um bando de selvagens embriagados de represálias (ignora-se por que motivo) devastou a Rússia, cuja família reinante, que se banhava valentemente, antes de 1914, nas águas geladas do Báltico, era, no entanto, tão simpática. "Quais cavaleiros do apocalipse, os bolcheviques semeiam a morte e a desolação para se manterem no poder, continuando durante 20 anos, até que os alemães estivessem às portas de Moscou. [...] Lenin e um punhado de homens mergulharam a Rússia no caos" (1.º episódio, "O possesso").

Estes loucos sanguinários inventaram uma «guerra civil» (ignora-se entre quem e quem, nesta risonha Rússia czarista). O inferno estende-se sob a autoridade do bárbaro Lénin, quase demente, que pretende transformar a natureza humana, e dos seus acólitos monstruosos, entre os quais Stálin, pior do que todos os outros juntos, "nem judeu nem russo», georgiano, educado na ortodoxia, mas «de mentalidade próxima dos tiranos do Oriente Médio" (a barbárie, compreende-se, é incompatível com o cristianismo). Filho de alcoólico, tarado, deformado, coxo e carregado de complexos (sobretudo face ao tão brilhante Trotski, inteligente e popular), desprovido de sentido de humor e de qualquer sentimento, hipócrita, obcecado sexual, envergonhado da sua miserável família, Stálin odeia e extorque os ricos, pilha os bancos, etc. (suspendo a enumeração). Reconhece-se no retrato deste "asiático" os estereótipos de classe ou racistas aos quais o colonialismo «ocidental» recorre desde as suas origens.

Vinte anos de sofrimentos indescritíveis infligidos a um país contra o qual nenhum poder estrangeiro levantara nunca o dedo mindinho. Há uma alusão sibilina aos anos de guerra 1918-1920 que teriam feito «dez milhões de mortos»: os inimigos bolcheviques estão completamente cercados por um «exército de guardas brancos». Não se avista o menor exército estrangeiro no local, se bem que uma cinquentena de países imperialistas estrangeiros tivesse convergido sobre a Rússia, de todos os pontos cardeais, entre eles a França, a Inglaterra, a Alemanha, os Estados Unidos, etc. (é apenas no 2.º episódio, «O homem vermelho», que se percebe que Churchill detestou e combateu a URSS nascente: quando? Como?).

Para escapar a esta intoxicação sonora e a cores, o espetador terá interesse em ler a excelente síntese do historiador Arno Mayer, simpatizante trotskista a quem a eventual antipatia pessoal contra Stáline nunca fez esquecer as regras do seu ofício: Les Furies, terreur, vengeance et violence, 1789, 1917 [As Fúrias, terror, vingança e violência, 1789, 1917], Paris, Fayard, 2002. A obra, traduzida por um grande editor por razões que não consigo explicar, tendo em conta os hábitos que regem a tradução francesa, compara também as revoluções francesa e bolchevique. Esta comparação é particularmente útil depois de uma era Furet em que a revolução francesa foi tão mal tratada como a russa[2]. Para Mme Clarke e M. Costelle, como para os historiadores e publicistas que ocuparam a esfera midiática a partir dos anos 1980, o Terror é endógeno e desprovido de qualquer relação com a invasão do território pela aristocracia europeia. E, de 1789 a 1799, a experiência atroz, felizmente interrompida pelo golpe de Estado, civilizado, do 18 Brumário (9 de novembro 1799), a França viveu sob as torturas dos extremistas franceses (jacobinos), a má semente dos bolcheviques.

"O povo soviético" é incessantemente submetido aos tormentos da fome – particularmente à «fome organizada por Stálin no começo dos anos trinta, catastrófica sobretudo na Ucrânia», onde teria feito «5 milhões de mortos de fome», vítimas do «Holodomor»[3] -, à repressão permanente, incluindo as violações sistemáticas, nos campos de concentração «do Goulag» («inferno do deserto gelado para os russos », onde todas as mulheres são também violadas), tão semelhantes aos da Alemanha nazista (um dos numerosos momentos onde as sequências soviética e alemã são «coladas», para que se apreendam bem as similitudes do «totalitarismo»). Mas ele ganha a guerra em maio de 1945. Compreende-se mal, aliás, por que aberração este povo martirizado durante mais de vinte anos pôde mostrar-se sensível, a partir do 3 de julho de 1941, ao apelo «patriótico» do carrasco bárbaro que o esmaga desde os anos 1920. E que, entre outras perversidades, concluiu «a 23 de agosto de 1939» uma «aliança» com os nazistas que siderou o mundo, o indigno pacto germano-soviético, responsável, em última análise, pela derrota francesa de 1940: "Stálin tinha feito tudo para evitar a guerra, tendo até chegado a fornecer a Hitler o petróleo e os metais raros que tinham ajudado Hitler a vencer a França".

É verdade que o inverno de 1941-1942 foi excecionalmente gelado, o que explica, em grande medida, as desventuras alemãs (em contrapartida, «o general Inverno» devia estar em greve entre 1914 e 1917, quando a Rússia czarista foi vencida antes de os bolcheviques terem decretado «a paz»). Também é verdade que a ajuda material aliada foi «decisiva» desde 1942 (episódios 2 e 3), aviões, material moderno, etc. (4% do PNB, lançados quase exclusivamente depois da vitória soviética de Estalinegrado). Não obstante, é um mistério esta devoção ao ignóbil Stálin, que vive no luxo e na luxúria desde a sua vitória política contra Trotski, enquanto «o povo soviético» continua a ser torturado: não pelos alemães, de que nos apercebemos na liquidação apenas de 30 milhões de soviéticos, excetuando a sua perseguição aos judeus da URSS, mas por Stálin e seus esbirros. Assim, «os camponeses ucranianos vítimas das fomes estalinianas abençoam os invasores alemães». Não é a Wehrmacht que incendeia, fuzila e enforca: estes ucranianos «serão enforcados pelos soviéticos arrependidos» e filmados a título de exemplo como colaboradores. Stálin manda matar também os soldados tentados a recuar, tendência natural, pois o monstro «declara guerra ao seu povo» desde 1934 (desde então somente?), e aniquilou o seu exército mandando fuzilar milhares de oficiais em 1937, etc.

Afigurando-se impossível a crítica, palavra por palavra, deste «documentário» grotesco, consultaremos, sobre o período antes da guerra e da guerra, a obra fundamental de Geoffrey Roberts, Stalin’s Wars: From World War to Cold War, 1939-1953, New Haven & London: Yale University Press, 2006, acessível atualmente ao público francês: Les guerres de Staline, 1939-1953, Paris, Delga, 20144. A política de «apaziguamento» em relação ao Reich hitleriano foi a única causa do pacto germano-soviético cuja assinatura os «apaziguadores» franceses, britânicos e americanos tinham previsto serenamente, desde 1933, como a única via aberta à URSS e de cuja «aliança inversa» tinham decidido privá-la. Esta realidade, a causa decisiva da “Débâcle” francesa, que não teve rigorosamente nada a ver com a URSS, está ausente do rufar dos tambores de Mme Clarke e de M. Costelle. Isso pode ser constatado lendo Michael Jabara Carley, 1939, The aliance that never was and the coming of World War 2, Chicago, Ivan R. Dee, 1999, traduzida pouco depois: 1939, L’alliance de la dernière chance. Une réinterprétation des origines de la Seconde Guerre mondiale, edições da Universidade de Montréal 2001; e os meus trabalhos sobre os anos 1930, Le Choix de la défaite: les élites française dans les annés 1930, Paris, Armand Colin, 2010 (2ª edição) e De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938-1940, Paris Armand Colin, 2008.

Os realizadores, os seus objetivos públicos e a sua concepção da história

A única emissão de France Inter, na manhã de 30 de outubro (disponível na internet até 28 de julho de 2018) deu uma ideia das condições do lançamento «apocalítico», com todos os meio de comunicação envolvidos, desta série Stálin que, pelos meios utilizados, recorda a operação Livro Negro do Comunismo, em 1997. Ela esclarece também as intenções dos realizadores instalados, desde 2009, na lucrativa série «Apocalypse» (http://apocalypse.france2.fr/).

A música e o som destas três horas penosas estão adaptados aos seus objetivos. A «colorização», que viola os originais fotográficos, traz a marca de fábrica da série «Apocalypse»: ela impõe-se para atrair «os jovens», fazer sair a história do sótão poeirento a que estava confinada, argumenta Isabelle Clarke, perdida de gratidão (bem compreensível) para com a France 2 que «repôs a grande História em prime time (sic)»; também modestamente, o coautor Daniel Costelle atribui este lugar de honra nas nossas telas domésticas à qualidade do trabalho realizado pelo duo desde as origens da série (2009). A «voz de Mathieu Kassovitz» é considerada «formidável» pelos autores e a sua anfitriã, Sonia Devillers: o ator debita, num tom sinistro e grandiloquente, o «cenário de filme de horror» soviético e estaliniano que tanto fascina Mme Clarke.

Para que a coisa seja mais viva, os autores, que fazem «filmes para [se] entusiasmarem a [si] mesmos», decidiram que não teriam preocupações cronológicas: mais exatamente, optaram por fazer em cacos a cronologia, com permanentes idas atrás (flashbacks) que supostamente tornariam «o trabalho um pouco mais interativo». O método impede toda a compreensão dos acontecimentos e das decisões tomadas, em 1936 ou 1941 fazendo anteceder o conflito de 1917 ao período anterior à Primeira Guerra mundial, precisamente uma das suas consequências. Salta-se continuamente de antes de 1914 para 1945 em todos os episódios e em todos os sentidos: torna-se impossível reconstituir o puzzle dos acontecimentos feitos em bocados, tanto mais que os fatos históricos são cuidadosamente depurados, selecionados ou transformados exatamente no seu contrário (é assim que os pérfidos bolcheviques teriam atacado a Polónia em 1920, enquanto que é Varsóvia quem assalta a Rússia já invadida por todos os lados). Explicam-nos muitas vezes que a montagem de um filme é fundamental: a fraude «Apocalypse Stalin», que junta a mentira permanente e as tesouras do censor, confirma-o.

Para cúmulo, a conjuntura está do lado dos autores:

1º A propaganda antissoviética é, desde 1917, obsessiva em França como em geral no «Ocidente», mas foi infletida durante alguns decênios, quer por uma fração do movimento operário (sobretudo) e dos intelectuais, quer pelas circunstâncias, em particular aquelas que precederam e acompanharam a Segunda Guerra mundial. Tal deixou de acontecer desde os anos 1990, quando o movimento operário, todas as tendências misturadas, alinhou nos desenvolvimentos do Livro Negro do Comunismo: único defensor da URSS desde o nascimento da Rússia soviética, o PCF não cessa, desde 1997, de expiar os seus tenebrosos anos estalinianos e de deplorar a sua não condenação do tão funesto Pacto germano-soviético. Lembremos que a implementação do Pacto oferece aos sovietes uma trégua de quase dois anos e permite-lhes duplicar os efetivos do exército russo nas suas fronteiras ocidentais (efetivos de 1,5 a 3 milhões de homens). Laurent Joffrin, num artigo que pretende abarcar diversos pontos de vista sobre o «carrasco» Stálin, a quem, no entanto, «devemos muito», salientou legitimamente que era delicado, no passado recente, contar em França o que quer que fosse sobre a URSS, mas que o obstáculo foi suprimido pela relação de forças internacionais e internas (http://www.liberation.fr/planete/2015/11/02/staline-gros-sabots-contre-unbourreau_ 1410752).

2º A liquidação da história científica francesa da URSS foi ainda mais facilitada desde os anos 1980, quando a ofensiva antissoviética e anticomunista foi acompanhada por um trabalho propositado de demolição do ensino geral da história, submetido a uma série de «reformas» cada uma mais calamitosa que as anteriores. O corpo de ensino do secundário lamentou-o, mas o seu protesto não foi nada apoiado por organizações outrora combativas, tanto no terreno científico como nos outros. «Os jovens» a quem o desmantelamento do ensino da história inflige, daí em diante, 1º, a supressão de painéis inteiros do conhecimento, 2º, o abandono da cronologia, sem a qual não se podem compreender as origens dos fatos e acontecimentos e, 3º, o sacrifício dos arquivos originais ao famoso «testemunho», encontram-se em terreno particularmente familiar, se tiverem tido a coragem de suportar as três horas destas barbaridades.

3º A história científica relativa à Rússia, sobretudo anglófona, está em forte desenvolvimento desde há uma vintena de anos, mas é, em geral, inacessível ao público francês: as obras idôneas são traduzidas em seis meses, as outras praticamente nunca, com algumas exceções. Alguns destes «buracos» feitos na Cortina de Ferro da ignorância histórica do mundo russo foram mencionados acima. Seja como for, quando as obras sérias são traduzidas, desaparecem no nada, com todos os meios de comunicação conluiados.

História, que História?

Svetlana Aleksievitch, conselheira em "testemunhos"

Isabelle Clarke admite que «Apocalypse Stalin» não se pode incluir na categoria de História, reivindica-o mesmo. Declara-se fascinada pelo imenso trabalho de Svetlana Aleksievitch e considera que a atribuição do prêmio Nobel de literatura de outubro de 2015 a esta autora faz lembrar a coroação «ocidental» da obra de Alexandre Soljenitsyne (https://fr.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Soljenitsyne), laureado de 1970, com motivações semelhantes. Sejam quais forem as suas eventuais qualidades literárias, Mme Aleksievitch não foi promovida senão por razões ideológico-políticas, em conformidade com uma tradição do pós-guerra que a documentarista e historiadora britânica Frances Stonor Saunders expôs, em 1999, numa obra essencial sobre a Guerra fria cultural: é a intervenção expressa dos Estados Unidos, através da ação clandestina exercida sobre as questões culturais (como sobre as operações políticas e mesmo militares), por intermédio da CIA ou instituições por ela financiadas. Foi o que aconteceu, através do Congress for Cultural Freedom (CCF) fundado, depois de uma série de iniciativas prévias, em junho de 1950, com o bloqueio da atribuição do prêmio Nobel da literatura a Pablo Neruda no começo dos anos 1960: Neruda foi preterido em 1964 em favor de Jean-Paul Sartre, que Washington seguia de perto e cujos desentendimentos com o PCF apreciava, mas que teve a elegância de o declinar[5]. O poder positivo de apoio dos Estados Unidos, desde 1945, aos "dissidentes" ou aos anticomunistas mais diversos foi tão eficaz como a sua capacidade de causar danos aos intelectuais que combatia: o Nobel de literatura recompensou um número completamente desproporcionado de adversários notórios do comunismo em geral e da URSS ou da Rússia em particular: a consulta sistemática é esclarecedora: https://fr.wikipedia.org/wiki/Prix_Nobel_de_litt%C3%A9rature#Ann.C3.A9es_1960.

Isabelle Clarke felicita-se pelo «trabalho de testemunho» realizado por Svetlana Aleksievitch, graças ao qual «os crimes comunistas», nunca julgados, puderam finalmente ser recenseados: na ausência de instrução e de acesso aos facos, foi preciso contar com os testemunhos obtidos com muita morosidade, mas mais esclarecedores do que a pesquisa histórica. Estes testemunhos espalhados ao longo dos três filmes, nunca ligados ao estabelecimento dos fatos, formam, portanto, a trama histórica do «cenário de filme de horror». Svetlana Aleksievitch não pretende fazer obra histórica. Obcecada pela procura do Homo sovieticus, conceito proclamado impossível, pois não seria possível mudar os humanos mudando o modo de produção, a autora de La Fin de l’homme rouge ou le temps du désenchantement (tradução publicada em 2013 pelas Actes Sud) (http://www.actes-sud.fr/la-fin-delhomme- rouge-de-svetlanaalexievitch) «grava os depoimentos das pessoas encontradas e reúne assim a matéria de onde tira os seus livros: “Eu faço perguntas não sobre o socialismo, mas sobre o amor, o ciúme, a infância, a velhice. Sobre a música, as danças, os cortes de cabelo. Sobre milhares de pormenores de uma vida que desapareceu. É a única maneira de inserir a catástrofe num quadro familiar e tentar aí contar alguma coisa. Adivinhar alguma coisa... A História não se interessa senão pelos fatos, as emoções, essas, ficam sempre de lado. Não é costume deixá-las entrar na história. Eu olho o mundo com os olhos de uma escritora e não com os de uma historiadora” (https://fr.wikipedia.org/wiki/Svetlana_Aleksievitch).

Ficamos, pois, avisados de que este espetáculo «emocional» e «ocidental», organizado com grande pompa pelos responsáveis da série «Apocalypse Staline», está fundamentado na literatura antissoviética lacrimejante, apreciada e
 recompensada como tal pelo «Ocidente» civilizado.

Os "Conselheiros Históricos" de «Apocalypse Stalin»: O Instituto de História Social, de Boris Souvarine a Pierre Rigoulot

Quando passamos à «história» stricto sensu, o balanço é pior e caracterizado por práticas desonestas e não explicitadas. Isabelle Clarke orgulha-se de ter «reposto em prime time (sic) a grande História» e de não ter negligenciado a História de que ela gosta menos do que da literatura: ela teria estudado todas as obras «recomendadas pelos nossos conselheiros históricos»: «Robert Service, Jean-Jacques Marie, Simon Sebag Montefiore» (este último sempre traduzido nos meses que seguem as suas publicações anglófonas), cujos trabalhos são caracterizados por uma visão praticamente caricatural do monstro, com nuances que só o leitor dos seus trabalhos pode julgar. Que «conselheiros históricos»? Temos, no entanto, a escolha entre os historiadores franceses da URSS, quase tão sovietófobos como midiáticos: não tendo sido aberta nenhuma carreira acadêmica desde há 30 anos a um especialista da URSS sovietófilo, tal pessoa não existe.

Na rubrica «agradecimentos» do 3.º episódio, figura a menção de citação(ões) de uma única obra de historiador, o Stálin de Jean-Jacques Marie, especialista do monstro com base em obras de segunda mão (as únicas outras citações provêm de Mme Aleksievitch). Os alegados «conselheiros históricos» não foram mencionados, mas realça-se que, entre as sete personalidades que foram objeto de «agradecimentos», apenas nomeadas, mas não apresentadas, há um único «historiador» presumível: Pierre Rigoulot (os outros seis são artistas ou técnicos especialistas[6]).

O sr. Rigoulot dirige o Instituto de História Social, fundado em 1935 por Boris Souvarine, célebre e precoce trânsfuga do comunismo (1924) que, segundo uma tradição nascida ao mesmo tempo que o PCF, foi contratado pelo grande patronato francês. Souvarine, trotskista proclamado antiestaliniano (categoria de «esquerda» muito apreciada pela luta específica contra os partidos comunistas7), trabalhou como propagandista para o banco Worms. Foi um dos redatores da revista os Nouveaux Cahiers, fundada em 1937, com o objetivo da cisão da CGT, financiada e amparada pelo diretor geral do banco, Jacques Barnaud, futuro delegado geral das relações econômicas franco-alemãs (1941-1943). A revista, que cantou sem descanso os louvores de uma «Europa» sob tutela alemã, foi publicada entre a fase crucial da cisão, de origem patronal, da CGT (nº 1, 15 de março 1937)8, e a “Derrocada” organizada da França (nº 57, maio de 1940). Souvarine mantinha relações com a fina flor da «sinarquia», saída da extrema-direita clássica (Action française) que ia povoar os ministérios de Vichy: sendo-lhes requerido para isso apenas ser especialista (no insulto contra) em URSS e na cruzada contra a república espanhola, controlada pelo Eixo Roma-Berlim[8].

Esta «pequena revista amarela» que atraía muitas «colaborações», segundo a expressão do sinarca e amigo de Barnaud, Henri Du Moulin de Labarthète, chefe do gabinete civil de Pétain10, é anunciadora de quase todos os aspetos da Colaboração. Conserva-se nos fundos de instrução do Supremo Tribunal de Justiça dos Arquivos nacionais (W3, vol. 51, com consulta livre: regime de derrogação geral, série completa até ao número de dezembro de 1938) e dos arquivos da Prefeitura de polícia (série PJ, vol. 40, sob derrogação quando a consultei). O leitor curioso constatará que «Boris Souvarine, historiador» (assim qualificado no 3º episódio, «Stálin, O senhor do mundo»), nos seus artigos regulares, traça, entre 1937 e 1940, um retrato da URSS (e) de Stálin em todos os aspetos conforme com o que o espetador francês aprendeu, a 3 de novembro de 2015, sobre o pesadelo bolchevique. Souvarine partiu para Nova Iorque em 1940, aí passou a guerra, e tomou então contacto com os serviços de informações, então oficialmente dedicados unicamente à guerra contra o Eixo (especialmente o Office of Strategic Services (OSS), antepassado da CIA, mas fortemente antissoviéticos. Não regressa a França senão em 1947. É o suporte financeiro clandestino do duo CCF-CIA que lhe permite editar e fazer triunfar o seu Stalin: com falta de editor e de público da Libertação no fim dos anos 1940, o chefe do «Instituto de História social e de Sovietologia» (definitivamente reconstituído em março de 1954) acedeu, assim, ao estatuto de «historiador» que lhe concede «Apocalypse Stalin»[11].

O segundo «historiador», não assinalado como tal, mas «agradecido» nos agradecimentos, Pierre Rigoulot, presumível chave-mestra dos filmes sobre Stálin, faz pesar sobre os três episódios da série uma tripla hipoteca.

1. O sr. M. Rigoulot não é um historiador, mas um ideólogo militante ao serviço da política externa dos Estados Unidos, oficialmente aparentado, desde os anos 1980, com os «neoconservadores», segundo a Wikipédia, que não se poderá considerar como tendo excessiva complacência com o comunismo: nenhuma das obras que ele redigiu sobre a URSS, a Coreia do Norte (o seu novo capricho desde a sua contribuição sobre o assunto no Livro Negro do Comunismo), Cuba, não observa as mínimas exigências do trabalho científico (https://fr.wikipedia.org/wiki/Pierre_Rigoulot).

2. Falsário comprovado disfarçado de defensor «dos judeus» foi, pela sua obra L’Antiaméricanisme (edições Robert Laffont, 2005), condenado por difamação em julgamento na 17ª secção do TGI de Paris, a 13 de abril de 2005, «por ter inventado com todas as peças [uma] falsa citação» antissemita (ausente) numa obra de Thierry Meyssan, adversário manifestamente não perigoso (mesma referência em linha).

3. O IHS, que M. Rigoulot integrou em 1984 como bibliotecário, depois «encarregado das pesquisas e publicações», e do qual é diretor, não é uma instituição científica: é um escritório de Guerra fria e, depois da Libertação, escritório de reciclagem dos colaboracionistas de sangue e/ou de caneta, saídos da extrema-direita clássica e da esquerda anticomunista. Este organismo, depois da Libertação, foi financiado pelo banco Worms, o CNPF e, quase oficialmente, pela CIA. Esteve intimamente ligado a Georges Albertini, número dois de Marcel Déat que, já no período anterior à guerra, trabalhava para o banco Worms e foi reciclado à sua saída da prisão (1948) como propagandista do anticomunismo e do antissovietismo de todos estes angariadores de fundos. Encontrar-se-á, sobre todos estes pontos, uma ampla bibliografia, baseada quer nos arquivos policiais franceses (da Prefeitura de polícia), quer nos fundos americanos, que estabelece a convergência de todos estes autores[11].

Os três episódios de «Apocalypse Staline» tratam, e no mesmo tom carregado de ódio, todos os temas matraqueados pelo IHS desde a sua fundação, principalmente os do Gulag («o terror e o Gulag são a principal atividade do Politburo», 3.º episódio, «Stáline, O senhor do mundo»), de que M. Rigoulot fez, desde 1984, data da sua entrada neste escritório, um dos temas privilegiados dos seus trabalhos e do «Holodomor», «organizado» por Stáline.

Conclusão

Poder-se-ia propor ao espetador visionar, suprimindo o som desta projeção grotesca, as hordas de «rushes» [ataques] (os autores dos filmes pretendem ter exposto o puro documento em bruto, particularmente autêntico, mas o filme de ficção, aliás soviético, ocupa nele uma parte não negligenciável). Aperceber-se-ia, assim, imediatamente, que se poderia ter feito uma outra história da URSS no tempo de Stálin, completamente diferente daquela que se apoia num material adulterado. Mas isto não é o essencial. O serviço público de televisão francesa, uma vez mais, em matéria de história, desrespeitou os mínimos princípios de precaução científica e ridicularizou os espetadores franceses, servindo-lhes uma mixórdia de pura propaganda antissoviética: o serviço público já se tinha aberto, entre 2011 e 2013, aos únicos herdeiros de Louis Renault, vindos para se lamentar, com ou sem historiadores cúmplices, da espoliação do seu avô, quase um resistente. É normal que a sociedade France Télévisions, financiada pelas taxas lançadas sobre todos os contribuintes, se preste a uma operação digna do «ministério da informação e de propaganda» de Göbbels? Espera-se o «debate» que a desonestidade comprovada deste empreendimento impõe. Aí participaria com todo o gosto.

Notas

1.  Atmosfera historiográfica geral desde a era Furet, Lacroix-Riz, L’histoire contemporaine toujours sous influence, Delga-Le Temps des cerises, 2012.

2. Annie Lacroix-Riz é professora emérita de história contemporânea, Universidade Paris 7.

3. A propósito deste conceito importado, não da Ucrânia soviética do período entre as duas guerras, mas nascida na Galícia polaca, e tornado um tema alemão e americano da estratégia da divisão da URSS ou «Rússia»-Ucrânia a partir de 1933, ver o meu trabalho arquivístico e bibliográfico «Ukraine 1933 mise à jour de novembre-décembre 2008» [«Ucrânia 1933 atualização de novembro-dezembro de 2008»] http://www.historiographie.info/ukr33maj2008.pdf; e Mark Tauger, obra a publicar pela editora Delga em 2016 sobre as fomes na Rússia czarista e na União Soviética, cujo prefácio vou redigir.

4. Ver também Lacroix-Riz, «Le rôle de l’URSS dans la Deuxième Guerre mondiale (1939-1945)» [O papel da URSS na Segunda Guerra mundial 1939-1945 - NT], maio de 2015, http://www.lescrises.fr/annie-lacroix-riz-le-role-de-lurss-dans-la-deuxieme-guerre-mondiale/.

5. Frances Stonor Saunders, Qui mène la danse, la Guerre froide culturelle Denoël, 2004; tradução de The cultural Cold War : the CIA and the world of art and letters, New York, The New Press, 1999, origem da paginação presente, p. 347-351 sobre Neruda; sobre Sartre, muitas vezes citado, índice.

6 São citados apenas os nomes de sete, não a sua qualidade: Emi Okubo é músico; Sonia Romero, artista ; Karine Bach, montagem na France Télévisions; Thomas Marlier, realizador; Kévin Accart, assistente de montagem; Philippe Sinibaldi, gerente da produtora.

7 Frédéric Charpier, Histoire de l’extrême gauche trotskiste: De 1929 à nos jours, [História da extrema-esquerda trotskista - NT], Paris, éditions 1, 2002.

8 Lacroix-Riz, Impérialismes dominants, réformisme et scissions syndicales, 1939-1949, Montreuil, Le Temps des cerises, 2015, chap. 1, e De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938-1940, Paris, Armand Colin, 2008, cap. 3 et 6.

9 Sobre Jacques Barnaud, tutor desde 1933-1934 do presumível herdeiro de Jouhaux René Belin, diretor do gabinete Belin (julho-fevereiro de 1941) e verdadeiro ministro do trabalho quando o seu pupilo ocupava oficialmente o posto; sobre os Nouveaux Cahiers [Novos Cadernos - NT], Lacroix- Riz, Le choix de la défaite, Vichy [A escolha da derrota De Munich a Vichy - NT], e Industriels et banquiers français sous l’Occupation, [Industriais e banqueiros franceses no tempo da Ocupação - NT], Paris, Armand Colin, 2013.

9. Du Moulin de Labarthète, «La synarchie française» [«A Sinarquia francesa» - NT], artigo publicado em 25 de maio de 1944, na revista suíça Le Curieux, com o pseudónimo de Phillipe Magne, apenso ao relatório do «inspetor especial» da PJ Vilatte, encarregado, na Libertação, do inquérito «sobre a sinarquia», 1 de junho de 1947, PJ 40, Barnaud, APP.

10. Roger Faligot et Rémi Kauffer, «La revanche de M. Georges [A vingança de M. Georges - NT]» (Albertini), in Éminences grises [Eminências pardas - NT], Paris, Fayard, 199, p. 150 (p. 135-170); Emmanuelle Loyer, Paris à New York. Intellectuels et artistes français en exil (1940-1947) [Paris em Nova Iorque. Intelectuais e artistas franceses no exílio - NT] Paris, Hachette, 2007; Peter Coleman, The Liberal Conspiracy: the Congress for Cultural Freedom and the Struggle for the Mind of Postwar Europe, New York, Free Press, 1989, índice, obra não traduzida à qual Pierre Grémion recorreu amplamente, Intelligence de l’Anticommunisme: Le Congrés pour la Liberté de la Culture à Paris 1950-1975 [Inteligência do Anticomunismo: O Congresso para a Liberdade da Cultura realizado em Paris 1950-1975 - NT], Paris: Fayard, 1997; Lacroix-Riz, «La Banque Worms et l’Institut d’histoire sociale [O Banco Worms e o Instituto de história social - NT]» e «Des champions de l’Ukraine indépendante et martyre à l’institut d’histoire sociale [Os campeões da Ucrânia independente e mártir no Instituto de história social] - NT», http://www.historiographie.info/champuk.pdf.

11. N. 10, e Jean Lévy, Le Dossier Georges Albertini. Une intelligence avec l’ennemi [O dossiê Georges Albertini. Uma espionagem com o inimigo - NT]. L’Harmattan-Le Pavillon 1992 ; Charpier, Génération Occident [Geração Ocidente - NT], Paris, Seuil, 2005; La CIA en France: 60 ans d’ingérence dans les affaires françaises [A CIA em França : 60 anos de ingerência nos assuntos franceses - NT], Paris, Seuil, 2008; Les valets de la guerre froide: comment la République a recyclé les collabos [Os lacaios da guerra fria: como a República reciclou os colaboracionistas - NT], Paris, François Bourin ed., Paris, 2013; Benoît Collombat e David Servenay, dir., Histoire secrète du patronat: de 1945 à nos jours [História secreta do patronato: de 1945 aos nossos dias - NT]. Paris, La Découverte [Paris, A Descoberta - NT], Arte edições, 2ª edição, 2014 (no qual o artigo de Charpier); Lacroix-Riz, todas as op. cit. supra; Saunders, op. cit., etc.

Nenhum comentário:

Postar um comentário