7 de janeiro de 2016

Por que o nazismo?

Notas contemporâneas sobre o lado não ideológico do fascismo: Crise, dívida, guerra aos salários e "política do mal menor" na Alemanha, 1918-1933

Annie Lacroix-Riz*


Tradução / O fascismo é muitas vezes apresentado como “uma contrarrevolução preventiva” das classes dirigentes, com o objetivo de reprimir o recrudescimento da agitação social e política que se tinha seguido à I Guerra mundial (no caso da Alemanha, ente novembro de 1918 e janeiro de 1919 e, no italiano, 1919-1920)[1].

Foi, sobretudo, uma réplica feroz da crise de sobreprodução que ameaçou o colapso dos lucros. Cingir-me-ei aqui ao exemplo do fascismo alemão, com um sucesso mais tardio do que em Itália (outubro de 1922), mas considerado mais “perfeito”: o alinhamento das classes dirigentes da Europa continental com este modelo e a atração considerável que exerceu sobre as dos Estados Unidos e do Reino Unido tiveram as mesmas motivações sócio-econômicas.

A falaciosa aliança entre capital e trabalho de novembro de 1918

O grande patronato alemão tinha digerido mal as concessões públicas que tinha sido obrigado a consentir, em 15 de novembro de 1918, para matar no ovo a “revolução” que ameaçava seguir-se à capitulação do Kaiser, Guilherme II do 9. Este fundamento do “contrato social” da República de Weimar repousava, contudo, numa capitulação falaciosa. A ADBG (Confederação geral sindical alemã), maioritária, organicamente ligada ao SPD [Partido social-democrata alemão] e tão empenhada como ele no combate à revolução social, tinha, ao mesmo tempo, assinado com os delegados patronais um protocolo secreto, libertando-os dos seus compromissos: as convenções coletivas sobre os salários e as condições de trabalho não se aplicariam senão “de acordo com as condições da indústria respectiva”; “a jornada de 8 horas em todas as indústrias” apenas se “as principais nações industriais” também o praticassem.

Este acordo clandestino entre Trabalho e Capital foi o equivalente social da aliança política secreta “com as forças do antigo regime” concluída em outubro-novembro pelo SPD com o Estado-maior da Reichswher [Defesa do Império: forças Armadas Alemãs entre 1919 e 1935], porta-voz das classes dominantes em 1918. Completada com uma impiedosa caça aos vermelhos, na qual se formaram as futuras eminências nazistas, este pacto “contranatura” deixava poucas hipóteses de sobrevivência à “República de Weimar”[2].

A dívida privada e a falência da Alemanha

Cheios de ódio contra a referida República (contudo, tão boa filha era) nascida da sua derrota pública, a aristocracia e a grande burguesia despojaram-na do seu verniz enganador “de esquerda” inicial. A base social de “Weimar” resistiu-lhes melhor até ao furacão dos anos 1930, que devastou a Alemanha. Empresas, comunas e Estado endividaram-se maciçamente junto dos bancos internacionais, desde a estabilização do marco, em 1923-1924, realizada sob tutela americana, para desenvolver as capacidades produtivas, designadamente ao serviço da retaliação militar.

Assim, o Reich tornou-se o maior devedor internacional dos Estados Unidos e de todos os países do “centro” imperialista. O capital financeiro estrangeiro foi, pois, um fator de primeiro plano, tal como aconteceu nos anos 1920 com o enorme devedor que foi a Itália, das medidas drásticas tomadas pela Banca das regras internacionais durante a tempestade do verão de 1931, para prorrogar a dívida alemã. Os diktats deste clube privado dos bancos centrais fundado pelo Plano Young, antepassado (ainda vivo) e pouco conhecido das instituições americanas de Bretton Woods, prefiguravam exatamente as medidas adotadas na última fase mais aguda da atual crise sistêmica, sob a tutela dos grandes bancos de cada país, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional.

A guerra aos salários e a política do SPD do “mal menor”

O desmoronamento dos mercados e dos lucros e o imperativo de regularizar “a dívida internacional privada” exigiam a “quebra”, não só dos salários, mas de todos os lucros não monopolistas: este objetivo mobilizou as classes dirigentes nacionais e os seus credores americanos, ingleses, franceses, etc. Entre as condições postas, em julho de 1931, para o “resgate” do Reich, figurava o envolvimento do NSDAP [Partido nacional-socialista alemão], vencedor eleitoral de Setembro de 1930, graças ao apoio de longa data (sobretudo depois de 1923 e da ocupação do Ruhr) do patronato mais concentrado da indústria pesada, que foi seguido pelo resto do patronato: esta fórmula de direita sem exceção permitiria, com os seus métodos de terror (e de sedução), baixar os rendimentos das vítimas sem temer a reação.

Antes de o NSDAP ser empossado como partido do governo, em fevereiro de 1933, a par da direita “clássica”, a missão foi atribuída às organizações operárias “compreensivas”. Estas apelaram aos seus aderentes a participarem nos sacrifícios apresentados como indispensáveis ao interesse nacional, reduzindo os seus salários: o ultradireitista chefe (SPD) do sindicato das madeiras e um dos chefes nacionais da AGBD [Central sindical alemã], deputado do SPD (1928), Fritz Tarnow, propagandeava em 1931 «“um casamento de conveniência” com os patrões» (“não deveremos nós ser o médico à cabeceira do capitalismo?”). O SPD apoiou o seu chanceler Hermann Müller que, tendo tomado posse depois do sucesso eleitoral da esquerda, governou com a direita “clássica” e tentou uma primeira “reforma” (por baixo) do subsídio de desemprego (junho de 1928-março de 1930).

O SPD apoiou também o sucessor de Müller, Brüning (entre maio de 1930 e maio de 1932) e a reeleição de Hindenburg para a presidência do Reich (abril de 1932), e ficou indiferente ao golpe de Estado da direita aliada aos nazistas, dizendo que contava com as eleições seguintes (novembro de 1932). Tudo em nome do “mal menor” contra Hitler, enquanto a direita, com Brüning e Hindenburg à cabeça, preparava abertamente a chegada do NSDAP. Os adeptos da “frente republicana” do século XXI deveriam debruçar-se sobre a experiência política dos anos 1930.

A esquerda alemã e o nazismo

A conversa sobre as culpas do KPD [Partido Comunista Alemão] “esquerdista” dissimula as responsabilidades esmagadoras, e entendidas como tal desde 1933, das direções do SPD e das suas organizações, entre as quais a AGDB[3]. A passividade perante o patronato e a sua solução nazista, levada até à oferta de serviços, serviria de sésamo para as “carreiras ocidentais” do pós-guerra, como a de Tarnow: perseguido em 1933, mas rejeitado pelos hitlerianos e obrigado a exilar-se, regressou da Suécia em 1946 a pedido dos americanos, que o tinham escolhido para dirigir, contra qualquer risco de aliança com os comunistas, na Bizona, em 1947, e na Alemanha ocidental, em 1949, a velha central sindical que então passou a chamar-se DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund).

Não foi a agitação social que permitiu, em 1933, a chegada dos hitlerianos ao poder: foi a recusa maioritária das classes lesadas de rejeitar este assalto contra os seus rendimentos, ou a sua passividade face a esta “estratégia de choque”, para retomar uma expressão posterior de Naomi Klein. Contra esta linha, que as organizações maioritárias da “esquerda de governo”, os combatentes isolados, essencialmente operários, do KPD e da sua “Organização Sindical Vermelha” (RGO), combateram corajosamente, quer depois quer antes de fevereiro de 1933, mas em vão. É urgente que se reflita sobre isto na presente crise sistêmica do capitalismo, em que os «médico[s de “esquerda” à moda de Tarnow] à cabeceira do capitalismo» fingem acreditar na magia dos encantos “antifascistas”[4].

Notas

[1] Pierre Milza, Les fascismes, Paris, Points Seuil, 1991.

[2] Gerald Feldman, Army, Industry and Labour in Germany, 1914-1918, Princeton, 1966, obra-prima não traduzida em francês; Gilbert Badia, Histoire de l’Allemagne contemporaine 1933-1962, Paris, Éditions sociales, 1962, et Les spartakistes, 1918: l’Allemagne en révolution, Paris, Julliard, 1966.

[3] RG Prefeitura da polícia, sobre “Les événements d’Allemagne”, 8 de maio, e RG Segurança national SN JC5. A. 4509, Paris, 18 de maio de 1933, F7 (polícia geral), vol. 13430, Alemanha, janeiro-junho 1933, Arquivos nacionais, conforme documento publicado aqui; e Derbent, La résistance communiste allemande, Bruxelles, Aden, 2008 (e transcrição em linha).

[4] Badia, Histoire de l’Allemagne; Lacroix-Riz, Industrialisation et sociétés (1880-1970). L’Allemagne, Paris, Ellipses, 1997; comparação entre fascismo francês e alemão, Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930, Paris, Armand Colin, 2010, e De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938- 1940, Paris, Armand Colin, 2008; sobre Tarnow, Scissions syndicales, réformisme et impérialismes dominants, Montreuil, Le Temps des cerises, 2015, pp. 172, 207-209 e 232. O documento de 1939 que se publica aqui mostra o efeito devastador do triunfo patronal de 1933 sobre os salários e as condições de vida populares.

* Professora emérita de história contemporânea, Universidade de Paris 7.

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