15 de janeiro de 2016

Hillary Clinton: Israel primeiro

Robert Fantina

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Ainda que faltem dez meses para o próximo exercício de futilidade eleitoral nos EUA, a maioria das sondagens não dizem o que mais gostariam que acontecesse à ex-secretária de Estado Hillary Clinton: uma vitória estrondosa da sua candidatura. É um bom sinal que, apesar de não ter no campo democrático nenhum opositor real que se destaque, a grande coroação esperada parece não vir a ter lugar.

Centrando-nos na adoração que a srª Clinton sente por Israel, e vendo os seus comentários sobre essa nação de apartheid pode ter-se uma visão clara de algumas das perspectivas mais amplas e preocupantes que a srª Clinton parece ter claramente assumidas.

Em 6 de Janeiro, apareceu no The Jewish Journal um artigo de opinião escrito pela srª Clinton. Trata-se de um ensaio servil, sentimentalista, típico da narrativa de alguém que tenta ocupar o grande lugar político nacional dos EUA e que sabe ter de prestar homenagem ao seu amo e senhor israelense. Há vários pontos neste ensaio que dizem muito sobre a srª Clinton:

"Estou especialmente preocupada pela nova onda de violência dentro do próprio Israel: apunhalamentos brutais, disparos e ataques com veículos que apenas procuram semear o medo entre os inocentes."

O número de palestinos assassinados na Cisjordânia, só por colonos e pelas terroristas forças israelenses de ocupação, é a mais alta dos últimos dez anos. Por que razão a srª Clinton não está «especialmente preocupada» pela continuada onda de violência contra os palestinos numa zona que, inclusive os EUA, dizem que Israel ocupa de forma ilegal? Acaso não procuram esses brutais ataques «semear o medo» entre os inocentes?

"Só a solução dos dois Estados negociada entre as partes pode proporcionar aos palestinos a independência, soberania e dignidade, e levar aos israelenses as fronteiras seguras e reconhecidas de um Estado democrático judeu."

Porquê, oh porquê, a srª Clinton continua a fazer esta ridícula declaração? As fronteiras do Estado judeu foram reconhecidas pela maioria do mundo, incluindo as Nações Unidas, que são as que foram determinadas antes de 1967. Não há nada para negociar. Despreza a srª Clinton o direito internacional? Parece sentir que Israel, tal como os EUA nos seus acordos internacionais, está na verdade acima da lei?

Uma vez mais, devo assinalar que as negociações que se têm vindo a realizar de forma intermitente ao longo de vinte anos, só podem ser eficazes se cada uma das partes quer qualquer coisa que a outra tem e que só poderá ser alcançada se entregar qualquer coisa que ela tem. Israel quer a Palestina inteira, e dela se vai apoderando, pedaço a pedaço, com total impunidade. Por que razão deverá a Palestina aceitar mais conversações inúteis?

A srª Clinton fala de fronteiras «seguras e reconhecidas» de um Estado judeu, mas parece não considerar reconhecer de forma alguma as fronteiras «seguras e reconhecidas» de um Estado palestino.

"Temos de continuar a luta contra os esforços globais para deslegitimar Israel. O Movimento a favor do Boicote, Desinvestimento e as Sanções, conhecido como BDS, é a última frente de batalha. O BDS demoniza os intelectuais e cientistas israelenses – inclusive os jovens estudantes – e compara Israel com o apartheid sul-africano. Isto é um erro e há que por termo a esta campanha."

Os esforços mais significativos para deslegitimar Israel são os que faz o próprio Israel. A sua sociedade racista onde os judeus têm mais direitos que qualquer outra pessoa; o seu sistema de segregação, próprio de um apartheid; o seu total desprezo pelos direitos humanos dos palestinos; as suas declarações homicidas e racistas feitas pelas autoridades do seu governo, tudo isso deslegitima ainda mais o país, demonizando-o, e com razão. Israel é amiúde comparado com o apartheid sul-africano e a comparação é legítima.

E não o é apenas no contexto de Palestina e Israel em que a srª Clinton demonstra uma enorme ignorância ou uma grande desonestidade. O seu ensaio também continha estas pérolas de sabedoria:

"Temos que trabalhar com os nossos amigos e parceiros para privar o ISIS de território no Oriente Médio, desmantelar a infraestrutura global de terror e reforçar as nossas defesas em casa. Não podemos limitar-nos a conter o ISIS, temos que o derrotar."

É realmente esse o objetivo dos EUA? Garikai Chengu, investigador da Universidade de Harvard, sugeriu em Setembro de 2014 que o ISIS «é um produto made in USA», um instrumento de terror desenhado para dividir e conquistar o Oriente Médio, rico em petróleo, e contrariar a crescente influência do Irã na região.

Em Junho de 2015, numa coluna do The Guardien, o editor associado Seumas Milne escreveu o seguinte: "Os EUA e os seus aliados não só estavam a apoiar e armar uma oposição que sabiam estar dominada por grupos sectários extremistas; estavam dispostos a consentir a criação de algum tipo de «Estado Islâmico» - apesar do «grave perigo» que tal pressupunha para a unidade do Iraque – como amortecedor sunita para debilitar a Síria."

Apesar de tudo isto, a srª Clinton não comentou onde e como o ISIS obteve grande parte do seu sofisticado armamento. Em 2014, o Departamento de Defesa emitiu um comunicado onde falava de alguns progressos para a destruição do ISIS. Dizia o comunicado à imprensa: "Os três ataques destruíram três veículos armados do ISIL, uma bateria anti-aérea montada num veículo do ISIL, um posto de controle do ISIL e um "armazenamento de dispositivos explosivos improvisados (IED, na sua sigla em inglês)..."

Alex Kane, em comentário a esta informação em Alternet, disse o seguinte: "O que o Pentágono não referiu é que os veículos armados e a artilharia bombardeada tinham provavelmente sido pagos com dólares dos impostos estadunidenses. As armas que o ISIS possui são outra forma sombria de contragolpe pela invasão estadunidense do país (Iraque) em 2003. Qualquer coisa parecida como a intervenção que na Líbia derrotou o ditador Muamar Kadafi, mas que também destabilizou o país e facilitou um enorme fluxo de armas para os combatentes do Mali, onde a França e os EUA empreenderam uma guerra em 2013". Portanto, como não só está em dívida com os lóbis israelenses mas também com os denominados contratados da defesa nos EUA, a srª Clinton utilizará o poderio militar estadunidense para destruir o que o tal poderio militar estadunidense proporcionou ao ‘inimigo’.

"Temos que enviar uma mensagem ao Irã. Em Teerã não podem haver dúvidas de que os seus dirigentes violam os compromissos procurando, desenvolvendo ou adquirindo qualquer arma nuclear, nem que os EUA os irão deter. O Irã vai testar a nossa determinação com as suas experiências com misseis balísticos, pelos quais deveríamos impor-lhes novas sanções. Têm que compreender que os EUA atuarão com decisão se o Irã violar o acordo nuclear, inclusive se for necessária a ação militar."

Uma vez mais, qualquer pessoa tem que perguntar por que é que Israel pode ter armas nucleares e o Irã não pode. Parece que, no retorcido ponto de vista sobre o mundo da srª Clinton, alguns países podem ter capacidade para defender os seus cidadãos e outros não. E parece que os que podem são precisamente os que não respeitam o direito internacional.

"Necessitamos de assegurar que Israel continue a manter a sua vantagem militar qualitativa."

Os EUA enviaram para Israel quase 4.000 milhões de dólares em 2015, grande parte da qual de índole militar, que serviu para matar mais de 2.000 palestinos, incluindo mais de 500 crianças. Israel bombardeou hospitais, centros de refúgio das Nações Unidas, escolas mesquitas e edifícios residenciais, tudo em violação do direito internacional. É assim que consegue que se mantenha ‘a qualitativa vantagem militar de Israel’.

Continuar com este texto é uma tarefa só ao alcance de estômagos fortes; como fez anteriormente em muitas ocasiões, a srª Clinton suspira romanticamente quando fala de Israel.

"Para mim, isto é mais do que política, é qualquer coisa de pessoal. Nasci poucos meses antes de Israel declarar a sua independência. A minha geração chagou à maioridade a admirar o talento e a tenacidade do povo israelense, que converteu um sonho em realidade no duro solo desértico. Vimos como uma pequena nação lutou sem medo pelo seu direito de existir e construir uma florescente e enérgica democracia. E, depois de tudo isso, a procura da paz por Israel foi tão inspiradora como a sua habilidade para a guerra. É por isso que, como muitos outros estadunidenses, sinto uma profunda conexão espiritual com Israel. Somos nações entrelaçadas, dois territórios levantados por emigrantes e exilados que procuravam viver e rezar em liberdade, animados por espíritos democráticos e sustentados pelo labor e sacrifício de gerações de patriotas".

O povo israelense ‘converteu o sonho em realidade’ em cima a expulsão forçada de quase 700.000 palestinos deslocados e das tumbas de pelo menos 10.000 assassinados, para dar lugar a que aquele sonho se convertesse em realidade.

Israel é uma democracia apenas na visão da srª Clinton e de outros políticos que dependem das muito generosas doações dos lóbis israelenses para comprarem os seus poderosos lugares. Só com votações periódicas um país não se converte numa democracia.

A srª Clinton elogia a busca da paz por Israel, ignorando a contínua construção de assentamentos condenada por todo o mundo. Acaso não sabe a srª Clinton que é uma violação do direito internacional que uma potência ocupante traslade permanentemente os seus cidadãos para terras ocupadas? Não ouviu o Primeiro assassino israelense, Benjamin Netanyahu afirmar categoricamente que não vai retirar nenhum colono dos ilegais assentamentos na Cisjordânia? Esta é simplesmente uma prova mais de que o direito internacional não tem qualquer significado para a srª Clinton.

E aí temos a mulher que vai ser, que poderia muito bem vir a ser, presidente. Que significará tudo isso? Mais opressão para os palestinos; mais guerra; mais desestabilização no Oriente Médio; mais invasões estadunidenses onde os EUA decidam que os seus interesses e os do seu amado Israel estão ameaçados, espezinhando o direito internacional e a diplomacia. Mais do mesmo, de ‘não há razão como a do bastão’; menos atenção aos direitos humanos por todas as partes e mais ajuda para que os ricos sejam mais ricos.

Buscamos em vão um democrata ou um republicano que se diferencie da srª Clinton. Mas não há um ‘mal menor’ em quem votar; o mal é universal nos dois principais partidos políticos estadunidenses, que parecem clones um do outro. Já está na hora de aparecer um terceiro partido viável no que passa por ser uma democracia dos Estados Unidos. Até que isso aconteça o negócio será tão sangrento como de costume.

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