3 de janeiro de 2016

As execuções da Arábia Saudita foram dignas do EI - Será que agora o Ocidente vai parar de rastejar pelos seus monarcas do petróleo?

Robert Fisk

The Independent

A orgia de decapitações na Arábia Saudita – 47 ao todo, entre elas a do erudito clérigo xiita sheik Nimr Baqr al-Nimr, seguida de uma justificação corânica das execuções – foi digna do Estado Islâmico. Talvez fosse essa a ideia. Porque este extraordinário banho de sangue na terra da monarquia muçulmana sunita Al-Saud – cuja intenção foi claramente enfurecer os iranianos e todo o mundo xiita – voltou a sectarizar um conflito religioso que o EI tanto se esforçou por promover.

Só faltou o vídeo das decapitações, ainda que as 158 execuções no ano passado, naquele reino, estavam perfeitamente de acordo com os ensinamentos wahabitas do Estado Islâmico. A frase de Macbeth “o sangue chama sangue” aplica-se sem dúvida aos sauditas, cuja “guerra contra o terror”, ao que parece, justifica agora qualquer banho de sangue, seja sunita ou xiita. Mas com que frequência os anjos de Deus misericordioso aparecem ao ministro saudita do Interior, o príncipe herdeiro Muhammad bin Nayef?

Porque o sheik Nimr não era apenas um velho sagrado. Passou anos como erudito em Teerã e na Síria, era um reverenciado líder xiita das orações de sexta-feira na província saudita do oriente e uma personalidade que se mantinha à margem dos partidos políticos, mas que exigia eleições livres e por isso era detido e torturado com regularidade – segundo o seu relato – por se opor ao governo saudita, de orientação sunita wahabita. O sheik Nimr dizia que as palavras eram mais poderosas que a violência. A sugestão das autoridades de que não houve nada de sectário no banho de sangue deste sábado – com o argumento de que decapitaram sunitas e xiitas por igual – foi um exemplo clássico da retórica do EI.

No final das contas, o EI corta a cabeça a apóstatas sunitas sírios e a soldados iraquianos com o mesmo empenho com que massacra xiitas. O sheik Nimr teria recebido dos esbirros do Estado Islâmico exatamente o mesmo tratamento que teve dos sauditas – sem passar pela farsa de um julgamento pseudolegal que provocou a queixa da Amnistia Internacional.

Mas a chacina deste sábado representa bem mais que o ódio saudita para com um clérigo que se alegrou com a morte do ex-ministro do Interior Nayef Abdul-Aziz Al-Saud, pai de Muhammad bin Nayef. A execução do sheik Nimr vai revigorar a rebelião houthi no Iêmen, país que os sauditas invadiram e bombardearam, ano passado, numa tentativa de destruir o poder xiita local. Enfureceu a maioria xiita no Bahrein, governado pelos sunitas. E os próprios clérigos iranianos afirmaram que a decapitação causará a derrocada da família real saudita.

Também apresentará ao Ocidente o mais vergonhoso dos problemas do Oriente Médio: a persistente necessidade de humilhar-se com servilismo diante dos ricos autocratas do Golfo ao mesmo tempo que expressa inquietação pela grotesca carnificina. Se o EI tivesse cortado a cabeça a sunitas e xiitas em Raqqa – em especial a de um sacerdote xiita problemático como o sheik Nimr – é certo que David Cameron teria twitado o seu desgosto perante um ato tão odioso. Mas o homem que mandou pôr a bandeira britânica a meia-haste para chorar a morte do último rei do risível estado wahabita vai usar evasivas quando abordar este episódio de cabeças cortadas.

Por muitos homens sunitas da Al-Qaeda que também tenham perdido a cabeça, literalmente, diante de verdugos sauditas, a questão será colocada tanto em Washington quanto em capitais europeias: propõem-se os sauditas destruir o acordo nuclear iraniano obrigando os seus aliados ocidentais a apoiar até mesmo este escândalo recente? No mundo obtuso onde vivem – no qual o jovem ministro da Defesa que invadiu o Iêmen detesta o ministro do Interior –, os sauditas ainda glorificam a coligação antiterrorista de 34 nações na sua maioria sunitas que supostamente formam uma legião de muçulmanos que se opõem ao terror.

As execuções foram sem dúvida uma forma sem precedentes de dar as boas-vindas ao Ano Novo – mesmo que não tenham sido tão publicamente espetaculares quanto a exibição de fogos de artifício em Dubai, , que incluiu um dos melhores hotéis do emirado. Contudo, fora dos envolvimentos políticos, existe uma pergunta óbvia a colocar – no próprio mundo árabe – sobre a casa de Saud, na sua luta por se perpetuar no poder: será que os governantes do reino ficaram chanfrados?

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