5 de janeiro de 2016

Wall Street começa 2016 com a cara no chão

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / 2016 começou com um baque na segunda-feira, quando notícias da China fizeram ações globais despencarem em queda livre. O índice Xangai caiu 242 pontos, antes de um sistema preventivo desligar todo o circuito e o pregão ser paralisado. Os três maiores índices dos EUA acompanharam a queda livre asiática, com Dow Jones puxando a manada, com perda de três dígitos no dia. As notícias de que as fábricas chinesas continuaram a encolher, depois de dez meses diretos de erosão, pôs uma pedra sobre qualquer festividade de Ano Novo, com corretores frenéticos torrando ações em ritmo que não se via desde 2011. A combinação de dados econômicos tétricos, investimentos oscilantes, crescimento abaixo de zero e altas taxas de juros puseram Wall Street em péssimo humor, antevendo ano volátil e de muitos solavancos, sem muito que comemorar.

Embora a causa aparente da atual turbulência sejam os sinais que o setor da manufatura chinesa está emitindo, as causas subjacentes são ainda mais importantes, como o estado terminal da economia dos EUA, que permanece em coma, sem data para acordar. Aqui, um bom resumo que o economista Jack Rasmus publicou em CounterPunch:

A economia real norte-americana cresceu, desde 2008, a uma taxa que mal chega a 2/3 da normal. Empregos na manufatura e na construção que ofereçam salário decente são hoje 1 milhão a menos do que em 2007. Salários médios para não gerentes ainda estão abaixo do nível de 2007, e as famílias estão novamente naufragando em novas dívidas para pagar custos médicos, aluguéis, carros e educação que não param de aumentar. As vendas no varejo estão mais lentas a cada dia. A atividade da construção cai hoje para 2/3 do que foi; e a manufatura nos EUA está novamente encolhendo. O boom da indústria de fracking de gás-petróleo de 2012-2014 – importante fonte de crescimento – terminou no ano passado, e demissões em massa de centenas de milhares estão acontecendo na mineração, na manufatura e no transporte. Refletindo a real fragilidade da economia dos EUA, preços estão caindo e chegam agora a 1,3% e com viés de baixa, com EUA, como Japão e Europa – em deriva rumo à deflação. ("Central Banks Out of Control", Jack Rasmus, CounterPunch)

Rasmus resumiu perfeitamente. O estímulo da taxa zero do Fed foi problema para todos, exceto para a classe dos investidores que arrecadaram trilhões dos programas monetários concebidos para inflar bolhas, enquanto a economia real permanece travada. É particularmente interessante, que ele mencione o "boom da indústria de fracking de gás-petróleo de 2012-2014", porque virtualmente toda a chamada expansão do crédito aconteceu nessa indústria intensiva em capital que está hoje em crise severa, porque os preços do petróleo despencaram e a deflação está voltando. Examinem esse quadro no excelente website de Warren Mosler "The Center of the Universe" que acompanha o crescimento do crédito desde 2001:


Assim sendo, se os baixos juros do Fed não geraram uma expansão do crédito para os lares e as empresas norte-americanas, aqueles juros serviram para quê?

Na verdade, para quase nada. Os empregos de altos salários no setor petróleo já secaram, levando os proprietários a dívidas consideráveis de endividamento nas operações de perfuração que já não são lucrativas. Com os preços do petróleo ainda caindo, o preço do dinheiro no mercado de títulos podres continua a subir, preparando o caminho para uma onda de calotes que podem alastrar-se, por efeito dominó para toda a indústria. O cenário é tipicamente sempre esse, quando o Fed baixa os juros. Investidores passam a procurar freneticamente por maiores ganhos, muitas vezes metem o próprio dinheiro em papéis ligados a operações de alto risco que, vez ou outra, caem de costas. O boom do fracking é apenas mais um exemplo de como dinheiro barato e preços em queda podem levar ao desastre.

Naturalmente, se você derrubar até o zero o preço do dinheiro e o deixar no zero durante sete anos, com certeza acontecerão muitas coisas ruins. A especulação aumentará, investidores tomarão maiores riscos e o preço das ações e títulos subirá às alturas. Mas o que de modo algum jamais acontecerá é que os trabalhadores, que ainda nem conseguiram livrar-se das dívidas desde a última grande explosão, pôr-se-ão a tomar mais e mais dinheiro emprestado e a gastar dinheiro como doidos varridos. Isso não aconteceu e não vai acontecer. A única recuperação que se viu acontecer nos portfólios de ações dos banqueiros gigantes e outros investidores imundamente ricos. O restante de nós ainda estamos só esperneando para manter a cabeça fora d'água.

Houve inúmeros sinais de que as políticas monetárias do Fed estão empurrando o sistema para mais uma crise financeira. Vejam o que diz World Socialist Web Site:

Em relatório sobre o estado dos mercados financeiros lançado essa semana, o Office of Financial Research (OFR), instalado pelo Tesouro dos EUA depois da crise de 2008, pintou um quadro, nas palavras de Gill Tett, comentarista econômico do Financial Times, "visivelmente distorcido do sistema financeiro norte-americano" resultante de sete anos de juros ultrabaixos. 
O OFR disse que "o risco de crédito no setor empresarial não financeiro é elevado e continua a subir." Chegou mesmo a alertar que "taxas básicas mais altas podem criar riscos de refinanciamento [...] e potencialmente precipitar um ciclo mais alto de calotes." 
Em outras palavras, criou-se uma situação na qual um calote ou uma série de calotes em áreas de alto risco pode desencadear uma reação em cadeia em todo o sistema, que fará lembrar os efeitos do colapso das hipotecas podres." ("After Fed rate hike, global economic fault lines deepen", Nick Beams, World Socialist Web Site)

Foi precisamente o que aconteceu em 2008, quando Lehman entrou em dificuldades e ameaçou arrastar consigo todo o sistema bancários dos EUA. Agora – segundo o Gabinete de Pesquisa Financeira –, estamos na mesma situação insustentável, porque as taxas zero do Fed "distorceram flagrantemente" os preços, criando a perspectiva de outra crise.

É claro que o Fed está preocupado com o que sairá disso tudo. Já na semana passada, o vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, disse que o Fed precisava de mais ferramentas para impedir o crash financeiro e para conter os efeitos do crash, se não conseguir impedi-lo de acontecer. Eis o que disse Bloomberg:

[Fisher] "disse na Associação Econômica Americana no domingo que o Fed não está bem equipado com poderes regulatórios para conter bolhas imobiliárias e outras, como alguns outros bancos centrais. E questionou se o Congresso não teria ido longe demais ao limitar a capacidade do Fed para intervir, no caso da eclosão de crise que ameace todo o sistema financeiro.
"Só saberemos quando já for tarde demais" se o Fed foi ou não exageradamente limitado, disse Fischer na reunião anual da AEA em San Francisco. Aí está algo com que "todos temos de nos preocupar muito" [...].

Fischer também comentou as amarras que o Congresso impôs à capacidade de o Fed atuar como emprestador de último recurso numa emergência financeira [...]. Em legislação bancária aprovada em 2010, deputados e senadores norte-americanos proibiram o Fed de se envolver no resgate de firmas financeiras individuais, como se envolveu nos casos de Bear Stearns Cos. e do American International Group Inc. durante o último crash." ("Fischer Worries Fed Can’t Head Off or Contain Financial Crises", Bloomberg).

Por que Fisher estaria pedindo poderes adicionais, se não visse nuvens se reunindo no horizonte?

O Fed é inteiramente responsável pela condição dos mercados financeiros. É o regulador primário e a base que se supõe firme por trás de experimentos como o "Alívio Quantitativo" e a política de juros zero [zero interest rate policy (ZIRP)]. Não surpreendentemente, o Fed implementou essas duas políticas sem ter sequer ideia de alguma estratégia para sair delas. Agora tenta desesperadamente improvisar qualquer saída para fora da confusão que o próprio Fed criou. Basta olhar para a forma como eles estão tentando elevar os juros. É procedimento completamente novo, que pode funcionar ou não, mas ninguém tem qualquer ideia sobre o que possa acontecer. Antes da crise financeira, para fazer subir a taxa dos fed-funds, o Fed simplesmente comprava pequenas quantias de securities. Mas agora que o Fed já afogou os bancos com excesso de reservas da ordem de $2,6 trilhões, aquela via está fechada. Em vez dela, o Fed planeja experimentar com acordos de recompra prefixada [reverse repos] na esperança de conseguir recuperar o controle sobre o mecanismo de determinação das taxas de juros. Eis o que o Wall Street Journal supõe, sobre como a coisa funcionaria:

O Fed testa uma nova ferramenta: o acordo de recompra overnight. São empréstimos efetivamente colateralizados feitos ao Federal Reserve que drenam temporariamente o excesso de reservas das entidades governamentais ou o excesso de caixa dos money-market funds. Mas também aí há riscos. Se o Fed não limitar a quantidade de recompras, a oportunidade de obter ganhos sem risco na nova taxa mais alta do Fed pode disparar uma fuga potencialmente desestabilizante para longe dos papeis de risco, como ações de fundos mútuos. Se o Fed fixar um teto baixo demais, corre o risco de perder o controle das taxas de empréstimos overnight" ("The Fed’s Rate Increase: A New Test Looms", Wall Street Journal).

Significa que, segundo o autor, o novo processo para aumentar as taxas é:

  1. Arriscado e 
  2. Ninguém sabe se ele vai funcionar, porque isso nunca foi tentado antes.

Isso não é exatamente um endosso à nova política do Fed, não é mesmo?

Claro, ninguém vai admitir que nada disto teria sido necessário se o Fed tivesse nacionalizado os bancos e ao preço das respectivas dívidas quando teve a chance de fazê-lo em 2008. Ah, não. Em vez disso eles vão continuar repetindo as mesmas bobagens sem sentido que dizem sem parar já há oito anos – que tudo está melhorando e que a prosperidade está aí, ao alcance da mão. Que engraçado. Enquanto isso, o sistema financeiro só faz aproximar-se mais e mais do momento inevitável de um macabro acerto de contas, graças em grande parte aos esforços do Fed.

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