21 de janeiro de 2016

Woody Guthrie, Velho Trump e os alicerces de um império imobiliário racista

por Will Kaufman

The Conversation

Tradução / Em dezembro de 1950, Woody Guthrie assinou o contrato de aluguel de um novo apartamento no Brooklyn, em Nova York. Mesmo agora, mais de meio século depois, esse documento insípido provoca uma reação de surpresa tardia.

Embaixo de todo o jargão legal está a assinatura do homem que compôs This Land Is Your Land (“Esta Terra é sua Terra”), o mais retumbante apelo por uma partilha igual para todos na América. Abaixo dela, está a assinatura do pai de Donald Trump, Fred. Nenhum outro par poderia parecer mais improvável.

O inquilinato de dois anos de Guthrie num dos prédios de Fred Trump e seu relacionamento com o magnata imobiliário dos bairros mais afastados de Nova York produziram alguns dos escritos mais ácidos de Guthrie, os quais descobri numa viagem recente aos Arquivos Woody Guthrie em Tulsa, Oklahoma. Tais escritos nunca foram publicados antes; deveriam ser, pois eles colocam de maneira clara o compositor de baladas nacional da América contra os alicerces racistas do império imobiliário de Trump.

Recordar tais alicerces torna-se mais relevante diante das proclamações racialmente carregadas de Donald Trump, que em 2015 anunciou: “Meu legado tem suas raízes no legado de meu pai”.

Um defensor da igualdade

No tempo em que se mudou para o novo apartamento, Guthrie já havia percorrido uma longa estrada desde o racismo casual de sua juventude em Oklahoma.

Havia aprendido, ao longo do caminho, que o norte não detinha qualquer pretensão especial de esclarecimento racial. Havia escrito canções tais como The Ferguson Brothers Killing, em que condenava o assassinato sem hesitação dos desarmados Charles e Alfonso Ferguson pela polícia em Freeport, Long Island, em 1946, depois que o café de um terminal de ônibus se recusara a atender os dois jovens negros.

Em Buoy Bells from Trenton, denunciou o extravio da Justiça no caso dos chamados “Trenton Six” –negros condenados por assassinato em 1948 por um júri inteiro de brancos num julgamento manchado por perjúrio oficial e evidências forjadas.

E, em 1949, ficou ombro a ombro com Paul Robeson, Howard Fast e Pete Seeger contra as mobilizações racistas e anticomunistas de Peekskill, Nova York, em 1949, onde o racismo norte-americano, em sua face mais horrorosa, inspirou 21 canções da sua pena (uma delas, My Third Thousand, foi gravada por Billy Bragg e Wilco).

Um refúgio habitacional do pós-guerra - para brancos

Nos anos do pós-guerra, com o retorno de centenas de milhares de recrutas a Nova Iorque, habitações públicas acessíveis haviam se tornado uma prioridade urgente.

Na maioria dos casos, projetos habitacionais de baixo custo haviam sido relegados a empresas públicas estatais e municipais sem um tostão. Mas quando a Federal Housing Authority (FHA, Agência Federal de Habitação) interveio de modo decisivo para distribuir empréstimos e subsídios federais para blocos de apartamentos urbanos, um dos primeiros empreiteiros na fila, de olho em tirar partido da grande oportunidade, era Fred Trump. Ele fez fortuna não apenas através da construção de projetos habitacionais públicos, mas também cobrando os aluguéis deles.

Quando Guthrie assinou seu contrato de aluguel pela primeira vez, é improvável que estivesse a par dos bastidores obscuros da construção da sua nova casa, o monumental complexo habitacional que Trump apelidou de “Beach Haven” (“Paraíso da Praia”).

Trump seria investigado por um comitê do Senado dos EUA em 1954 por explorar contratos públicos até às últimas consequências, inclusive superfaturando os custos de construção do seu Beach Haven no montante de US$ 3,7 milhões.

O que Guthrie descobriu demasiado tarde foi a adoção entusiástica de Trump à regra da FHA para que se evitasse “utilizações desarmônicas de habitações” – ou, como a biógrafa de Trump, Gwenda Blair propõe, “uma frase eufemística para ‘vender casas em áreas de brancos para negros’”. Como salienta Blair, tais “cláusulas restritivas” eram comuns entre os projetos da FHA – uma traição aos planos do New Deal que deram luz à agência.

A linha de cor do “Velho Trump”

Apenas um ano morando em Beach Haven, Guthrie - ele próprio um veterano -, já estava lamentando a intolerância que impregnava sua nova vizinhança, branca como um lírio, a qual gostava de chamar “Bitch Havens”.

Nos seus cadernos, imaginava uma trama para estraçalhar a linha de cor e transformar o complexo de Trump numa cornucópia diversa, com “uma face de cada cor brilhante, gargalhando e caçoando nestas velhas janelas sombrias e vazias, que choramingam em segredo”. Imaginava-se evocando em versos livres whitmanescos a “guria negra que caminha contra este vento de proa /agarrada à sua bolsa e ao seu casaco de pele”:

“Dou-lhes as boas-vindas para que vivam aqui. Dou a ambos, a você e a seu homem, as boas-vindas aqui em Beach Haven para se amarem de quaisquer maneiras que quiserem e terem um tipo de lugar decente para se engravidar e criar seus filhos. Estou gritando minhas próprias boas-vindas a vocês.”

Para Guthrie, Fred Trump personificava toda a malignidade dos códigos racistas que continuavam a colocar habitações decentes –tanto públicas como privadas– fora de alcance para tantos dos seus concidadãos:

“Eu suponho
Que o Velho Trump saiba
Quanto
Ódio Racial
Ele instigou
No pote de sangue dos corações humanos
Quando traçou
Aquela linha de cor
Aqui no seu
Projeto de mil e oitocentas famílias...”

E como que para não deixar dúvida alguma acerca da culpabilidade pessoal de Trump em perpetuar o estado dos negros americanos enquanto refugiados internos - estrangeiros na própria terra estrangeira -, Guthrie retrabalhou sua típica balada estilo Dust Bowl, “I Ain’t Got No Home”, que foi transformada num ataque virulento contra o seu senhorio:

“O Beach Haven não é meu lar!
Eu mal posso pagar este aluguel!
Minha grana desceu pelo ralo! E minha alma está terrivelmente curvada!
Beach Haven se parece com o céu
Onde nenhum negro vem vagar!
Não, não, não! Velho Trump! O velho Beach Haven não é meu lar!”

Em 1979, 12 anos depois que Guthrie havia sucumbido ao destino mortal da Doença de Huntington, o repórter do Village Voice Wayne Barrett publicou uma exposição em duas partes sobre o império imobiliário de Fred e Donald Trump. Barrett dedicou atenção especial aos casos instaurados contra os Trump em 1973 e 1978 pela Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça dos EUA. Uma acusação importante era a de que “a conduta racialmente discriminatória de agentes dos Trump” havia “criado um impedimento substancial ao pleno usufruto de oportunidades iguais”. A evidência mais condenatória viera dos próprios empregados dos Trump. Como resume Barrett:

“De acordo com os autos do tribunal, quatro superintendentes ou corretores confirmaram as solicitações enviadas ao escritório central [dos Trump] para aceitação ou rejeição eram classificadas por raça. Três porteiros eram instruídos a desencorajar negros que viessem procurar apartamentos quando o gerente estava fora, seja alegando não haver vagas, seja fazendo subir os aluguéis. Um superintendente disse que era instruído a mandar candidatos a locatários negros ao escritório central, enquanto aceitava solicitações de brancos no próprio local. Outro agente de aluguel disse que Fred Trump o instruíra a não alugar para negros. Além disso, o agente disse que Trump queria ‘diminuir o número de inquilinos negros’ que já estavam no empreendimento ‘encorajando-os a instalar-se em habitações noutra parte’.”

Guthrie havia escrito que supremacistas brancas como os Trump estavam “muito à frente de Deus” porque 

“Deus não
sabe muito
sobre qualquer linha de cor.”

Dificilmente Guthrie estivesse pretendendo que isso soasse como um elogio. Mas os Trumps - pai e filho, semelhantemente - podem muito bem ter sido arrogantes o bastante para ver desta forma. Afinal, se você se acha “muito à frente de Deus” em qualquer tipo de corrida, então o que mais Deus deve ser exceto, ora, “um perdedor”? E sabemos o que Donald Trump pensa sobre os perdedores.

Uma coisa é certa: Woody Guthrie não tinha tempo algum para o “Velho Trump”.

Só podemos imaginar o que pensaria do seu herdeiro

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