8 de fevereiro de 2016

Charles Krauthammer: voz conservadora da América - Uma análise

Lawrence Davidson


Parte I - O conservadorismo de Krauthammer

Charles Krauthammer é o pensador conservador contemporâneo mais famoso nos Estados Unidos. Mas não se trata apenas de teoria: trata-se também de homem de ação política, que quer pôr um conservador na Casa Branca, alinhado aos demais conservadores que já mandam no Congresso. Assim sendo, Krauthammer apoia candidatos Republicanos feito Marco Rubio e Chris Christie (Ted Cruz, por mais que seja "conservador genuíno" parece-lhe "radical demais"; e Jeb Bush nem merece a atenção de qualquer tipo de crítica) como candidatos à presidência que "darão ao conservadorismo sua melhor chance desde Reagan, para ser a filosofia do governo dos EUA."

São palavras de ideólogo sem pejo, dos que não pedem desculpas: bom para os Estados Unidos, só se o conservadorismo, como filosofia Krauthammer, assumir o controle do governo. E o que significa tal coisa? Para Krauthammer como para outros pensadores conservadores que jamais evoluíram e permanecem confinados na teoria econômica do capitalismo do século 19, conservadores no poder significa "reformas" e mais "reformas" no governo, ou, como Krauthammer ainda escreve, no "estado de bem-estar do século 20". Reforma significa, essencialmente, reduzir cada vez mais o governo, porque assim se preservaria a "liberdade" individual no mercado; e, claro, também uma correspondente redução de impostos para a classe empresarial.

Há muitas coisas perigosamente erradas nessa abordagem simplória de Krauthammer, do que seja "conservadores no poder". Uma delas é que, num país como os EUA, de quase 320 milhões de habitantes (porção considerável dos quais vão se tornado mais pobres a cada dia), acabar com os serviços e regulações assegurados pelo Estado de Bem-estar cria o grave risco de acelerar o empobrecimento dos cidadãos; de aumentar a exploração econômica nos locais de trabalho; de aumentar a erosão da infraestrutura estadual e local; e de favorecer o crescimento explosivo da corrupção dos negócios. Embora Krauthammer jamais aceite essa evidência, é simples erro histórico pretender que o capitalismo, sem amplas regulações impostas pelo governo e sem significativo apoio financeiro do governo, algum dia tenha gerado qualquer prosperidade para a maioria de qualquer população. A segunda coisa errada com o pensamento Krauthammer é sua escandalosa incapacidade para compreender a diferença entre ineficiência e tamanho do governo. É absolutamente indispensável que o governo seja grande, para que grandes sociedades possam viver em situação de saúde social e econômica. No entanto, o tamanho do governo não se traduz automaticamente em ineficiência do governo. Uma coisa é a necessidade de monitorar a eficiência de qualquer burocracia, para que faça o que tenham a fazer, de modo acertado e no tempo necessário. Redução de pessoal, a ponto de desmantelar agências governamentais necessárias, com base no pressuposto ideológico conservador que elas são cronicamente ineficientes e um peso morto excessivamente caro é outra completamente diferente. O primeiro torna as coisas melhores. O último corre o risco de colapso social.

Parte II - O populismo e o socialismo

Mesmo assim, o que Krauthammer insiste em ensinar é que essa "reforma" para enxugar o Estado do bem-estar seria a resposta para curar "a profunda ansiedade que brota da estagnação secular (sic) dos salários e padrões de vida que oprimiram as classes média e trabalhadora por uma geração". K. justapõe essa resposta ideologicamente inspirada, contra as respostas que, segundo ele mesmo, estariam vindo de Donald Trump e Bernie Sanders. Trump estaria oferecendo um "populismo etnonacionalista". Krauthammer explica o que já é óbvio, que Trump atribui a culpa pelos problemas dos EUA a "estrangeiros, principalmente aos astutos mexicanos, chineses, japoneses e sauditas que se aproveitam sem piedade, dos EUA" (como alguém consegue meter aí lado a lado mexicanos e sauditas ultrapassa minha capacidade de entendimento). Mas, ao mesmo tempo em que critica a xenofobia de Trump, Krauthammer faz como se não percebesse que são esses ideólogos conservadores da laia do próprio Krauthammer os que mais insistiram a favor do tipo de acordos comerciais que autorizam Donald Trump a focar toda a atenção sobre gente de fora dos EUA.

Depois, vem o fenômeno Bernie Sanders. Até onde vai a compreensão de Krauthammer, Sanders prega o socialismo, e a resposta visivelmente positiva o surpreende muito. "É difícil acreditar que os EUA, tendo resistido ao canto de sereia do socialismo durante todo o século 20, até hoje, sucumba de repente aos charmes dele, uma década depois de o socialismo ter sido intelectualmente descartado." Só por trás das muralhas cegas da ideologia conservadora de Krauthammer, alguém cogitaria de declarar o socialismo "intelectualmente descartado". Sem dúvida alguma o socialismo está vivo e é competitivo, em termos políticos na Europa Ocidental e do norte.

Claro que, apesar de Krauthammer não fazer distinção alguma, Sanders não chega sequer próximo dos socialistas que havia no bloco soviético durante a Guerra Fria. De fato, Sanders aproxima-se mais dos social-democratas que prevalecem na Europa Ocidental e, até, aos da ala liberal do Partido Democrata, antes da gangue de Bill Clinton chegar ao poder. E pode-se dizer que sucesso da mensagem de Sanders está na direta proporção do fracasso do conservadorismo de Krauthammer, o qual, esse com certeza, jamais conseguiu gerar prosperidade econômica durável e serviços sociais confiáveis para o povo dos EUA. Pois Krauthammer não consegue ver sequer essa relação. Para ele, o grande sucesso de Sanders é inimaginável. "Os Democratas arriscam-se a sofrer desastre eleitoral de dimensões históricas, em novembro", se indicarem Sanders. De fato, é possível que sofram mesmo desastre histórico, mas não porque o programa de Sanders tenha qualquer coisa a ver com verdadeiro socialismo. O desastre pode vir, isso sim, por causa do frenesi denuncista anticomunista irracional dos Republicanos, ao ponto de as verdadeiras propostas políticas de Sanders tornarem-se irrelevantes. De fato, a irracionalidade da caracterização de Sanders que Krauthammer pode bem ser o primeiro na própria campanha ensandecida de demonização reacionária.

Parte III – Conclusão

A visão ideológica conservadora de Charles Krauthammer é tão absolutamente destrutiva quanto o "populismo etnonacionalista". A realidade é que o conservadorismo de Krauthammer tem sido o farol guia da economia dos EUA desde o início e produziu história de booms e estouros, esses últimos vindo sempre como depressões cada vez mais profundas e prolongadas. Avançou ao longo dos séculos 18, 19, e entrou pelo século 20, culminando na Grande Depressão de 1929. Tão desastroso foi aquele crash, ao lado da concorrência da jovem União Soviética, que afinal os capitalistas mais espertos começaram a pensar, e foram eles que fizeram o esforço para racionalizar o próprio sistema do qual viviam. Nos EUA a coisa apareceu sob a forma do Novo Pacto, o New Deal de Roosevelt. Franklin Roosevelt trouxe a necessária regulação e ampliação do governo para semiestabilizar a economia e garantir um mínimo de segurança ao cidadão comum. As depressões foram reduzidas a recessões periódicas, e a Seguridade Social, o seguro-desemprego e outros programas social de bom senso comum surgiram no processo.

Aí está uma marca da natureza a-histórica da visão de mundo que os conservadores à moda Krauthammer vêm manifestando desde então, enquanto aparentemente esquecem tudo sobre os pecados originais do capitalismo. Só para acrescentar algum molho que torne deglutível o argumento deles, jogam aquela conversa de "liberdade individual" no mercado, ao mesmo tempo em que bombardeiam outras liberdades e direitos como os relacionados à assistência à saúde, à educação, à igualdade de oportunidades e de gêneros e outras liberdades e direitos, como se não fossem parte do mix de que se constitui uma civilização moderna. 


Há algo realmente inumano na perspectiva de Krauthammer. Contudo, não significa que políticos como as Marco Rubio e Chris Christie que pregam essas ideias falidas sejam incapazes de vencer eleições locais, estaduais ou nacionais. Jamais subestime a ignorância e a credulidade de eleitores de mentalidade conservadora.  Para eles, sempre haverá o canto de sereia dos Krauthammer. Vale relembrar como Gilbert Ryle, filósofo britânico, descreveu um político conservador britânico, e que descreve perfeitamente o celebrado pensador conservador americano: "Eles ficam lá, como um farol em pleno oceano, conduzindo com firmeza os navios diretamente para as rochas."

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