18 de fevereiro de 2016

O Partido Democrata perdeu sua alma. É hora de reconquistá-la.

A corrida pela liderança do Comitê Nacional Democrata será uma batalha feroz e importante. Quem quer que ganhe deve transformar o partido em um movimento.

Robert B. Reich

O aparato partidário Democrático está encravado e entrincheirado. Fotografia: Carlos Barria / Reuters

Tradução / Quem será a/o próximo presidente do Comitê Nacional Democrata?

Essa corrida pela liderança tem implicações significantes para o futuro da política ianque. A escolha irá ajudar a determinar como o Partido Democrata responderá às suas derrotas extraordinárias nos últimos anos, terminando com a eleição de Donald Trump.

Você pode achar que essa goleada impressionante faria com que o Partido Democrata se reorganizasse em um partido muito diferente do que o que se tornou – que é essencialmente uma máquina enorme de arrecadação, que reflete os objetivos e valores dos interesses monetários que fazem o volume de suas arrecadações. Não aposte nisso.

Por um lado, muitos interesses não querem que o Partido Democrata mude. A maioria do dinheiro que arrecada acaba nos bolsos de consultores políticos, especialistas de pesquisa, estrategistas, advogados, consultores de propaganda e marqueteiros, muitos dos quais se tornaram ricos por causa da organização atual. Eles naturalmente querem deixar como está. Por outro lado, o aparato do Partido Democrata está entravado e enraizado. Como qualquer burocracia velha, só sabe como fazer o que tem feito há anos. Suas convenções nacionais estaduais e quadrienais são oportunidades para que os informantes encontrem velhos amigos e para que os aspirantes a políticos façam contatos entre os ricos e poderosos. Os informantes e os ricos não vão abrir mão de seu poder e cedê-lo à pessoas de fora e não ricos.

A maioria dos norte-americanos que se chama de Democrata nunca ouve falar do partido a não ser quando ele pede dinheiro, tipicamente por listas de emails e ligações de telefone gravadas nos meses anteriores à eleição. A grande maioria dos Democratas não sabe o nome do presidente do Comitê Nacional Democrata do seu estado. Quase nenhum dos Democratas registrados sabe como se elege seu presidente ou vice Democrata, e, consequentemente, quase nenhum tem influência sobre quem dever ser o próximo presidente do CND.

Eu sou um Democrata há 50 anos – eu até servi em duas administrações Democratas em Washington, incluindo uma passagem pelo gabinete e eu já concorri à nomeação Democrata para governador em um estado – ainda assim, eu nunca votei para a presidência ou vice-presidência do Partido Democrata do meu estado. Isso significa que eu, também, nunca tive nenhuma influência sobre quem seria o presidente do CND. Para dizer a verdade, eu nunca me importei. E isso é parte do problema.

Nem o Barack Obama se importou. Ele basicamente ignorou o CND durante sua presidência, começando sua própria organização chamada Organizing for America. Sua intenção original era reunir apoio para as grandes iniciativas que ele buscava alcançar durante seu mandato, mas se transformou em uma máquina de arrecadação.

Finalmente, a presidência do partido se tornou uma sinecura para os políticos que fazem seu caminho para o topo ou para o fundo do poço, não uma posição de período integral para um organizador profissional. Em 2011, Tim Kaine (que se tornou vice de Hillary na eleição de 2016) deixou a presidência para concorrer, com êxito, para o Senado.

A posição então foi para Debbie Wasserman-Schultz, uma deputada da Flórida que havia compartilhado a aposta de Clinton para nomeação Democrata para a presidência em 2008. Isso gerou acusações na corrida de 2016 de que o CND estava ficando ao lado de Clinton contra Bernie Sanders – acusações embasadas pelo vazamento de emails do CND.

Então o que temos agora é um Partido Democrata que tem sido repudiado nas urnas, liderado por um CND que se tornou irrelevante, e dirigido parcialmente por uma série de informantes políticos. Não tem raízes profundas, capacidade para mobilizar um vasto número de pessoas para tomarem ação a não ser para doarem dinheiro, visibilidade entre eleições e ativismo contínuo.

Se pretende ser relevante para o futuro, o Partido Democrata deve ser capaz de organizar e mobilizar os norte-americanos em oposição ao Partido Republicano de Donald Trump – transformando milhões de pessoas em um exército ativista para resistir pacificamente ao que está prestes a acontecer, fornecendo explicações diárias do que está ocorrendo na administração Trump, junto com tarefas que indivíduos e grupos podem fazer para amenizar seus efeitos prejudiciais.

Deve agrupar as energias e o idealismo dos jovens ao redor da nação que foram conduzidos para a campanha de Sanders por sua promessa de tirar o capital da política; reverter a desigualdade; transformar o sistema de saúde extremamente caro; reverter a mudança climática; finalizar a militarização da nossa polícia e o encarceramento em massa do nosso povo e parar os conflitos intermináveis.

E deve criar uma coalizão multi-étnica e multi-racial da classe trabalhadora, classe media, e os norte-americanos pobres brancos e negros e latinos determinados a reconquistar o controle da economia das mãos de uma oligarquia de magnatas de Wall Street, titãs da corporação e bilionários que a usaram para seu próprio ganho – começando pelo presidente eleito.

Isso significa ajudar a classe trabalhadora branca a entender que foram enganados por Trump por acreditarem que ele é populista, e que suas inseguranças econômicas são fruto de um jogo manipulado e não dos imigrantes, negros, latinos e muçulmanos.

Em outras palavras, para se tornar uma força confiável que ganha eleições e fala sobre o que aflige o país, o Partido Democrata não deve mais representar a classe dominante dos EUA. Deve ser a voz dos despossuídos – que agora são a maioria no país.

O Partido escolherá seu novo presidente logo após o início do ano. Até agora, os concorrentes são Howard Dean, ex-presidente do CND, deputado de Minnesota, Keith Ellison, presidente do Naral Pro-Choice America, Ilyse Hogue, secretário do Trabalho, Tom Perez, ex-governador de Maryland, Martin O’Malley e o presiente do Partido na Carolina do Sul, Jaime Harrison.

Entre agora e ano que vem, haverá uma batalha feroz por trás das câmeras entre eles. Não sei quem vai ganhar, mas eu sei de uma coisa: o partido deve se transformar de uma máquina de arrecadação em um movimento. Isso será difícil, mas não impossível. Os tempos atuais pedem por isso. Se o partido falhar nessa missão, será suplantado por outra organização capaz de cumpri-la.

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