5 de fevereiro de 2016

Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra

A China é realmente uma ameaça geopolítica para os Estados Unidos e os países limítrofes na região do Pacífico? Apresentamos um trecho do professor Domenico Losurdo que analisa questões relacionadas à chamada "ameaça chinesa".

por Domenico Losurdo


Tradução / O “pivô” é frequentemente apresentado no Ocidente como uma resposta à “ameaça” proveniente de Pequim. Não há dúvida que com a ascensão ou, mais exatamente, com o retorno da China, depois do fim do “século das humilhações”, e com o avanço do processo de maturação da República Popular, o quadro internacional está mudando de modo radical. Em março de 1949 o general estadunidense MacArthur podia constatar satisfeito: “agora o Pacífico tornou-se um lago anglo-saxão” (Kissinger, 2011, p. 125). Dadas as relações de força existentes, os EUA podiam ter esperanças de bloquear com suas intervenções a chegada ao poder do partido comunista e de Mao Tsé-Tung; a esperança tornou-se rapidamente desilusão e em Washington, em meio a furiosas polêmicas, se desencadeava a caça ao responsável pela “perda” do grande país asiático.

O pacífico não era mais em sentido estrito “um lago anglo-saxão” mas, como sabemos, ainda ao cabo da Guerra Fria os Estados Unidos violavam sem dificuldade o espaço aéreo e marítimo chinês. Eram os anos em que a superpotência já solitária buscava consolidar e tornar permanente e inabalável a sua já clara superioridade militar mediante a Revolution in Military Affairs. Esta conhecia o seu batismo de fogo no curso da primeira guerra do Golfo: embora armado em medida não desprezível, o Iraque de Saddam Hussein sofria uma derrota rápida e irreparável. Era um sinal de alarme sobretudo para os países que há pouco se haviam impetuosamente liberado do jugo colonial.

Em Pequim, em junho de 1991, Jiang Zemin (2010, pp. 134, 136 e 591) exprimia a sua preocupação: “Se em todo o caso uma guerra mundial não é iminente, o mundo está bem longe de ser pacífico”; “particularmente preocupante é a Guerra do golfo”. “O papel da tecnologia militar tornou-se uma questão importante”: no que diz respeito à China, em certos setores do aparato militar “o gap se está agravando”. É um conceito reafirmado e melhor definido cinco anos depois: “a aplicação em larga escala de novas e sofisticadas tecnologias está mudando profundamente o mundo no plano não só social e econômico, mas também militar, e está introduzindo mudanças revolucionárias nesta área”.

A ausência da primeira revolução industrial e tecnológica tinha assinalado o início do “século das humilhações”; a ausência da revolução industrial, tecnológica e militar em curso levaria a uma repetição desta tragédia talvez em escala ainda maior. Neste quadro é que devem ser inseridos os esforços desenvolvidos pela China nos últimos anos para reduzir o seu atraso no plano militar.

Ameaça chinesa?

Argumento de fábula política no passado mais recente, a “ameaça chinesa” ganhou subitamente uma dimensão real e concreta em nossos dias? Damos a palavra a um estudioso estadunidense de origem chinesa, autor de um livro publicado por uma instituição de certo modo oficial do país guia do Ocidente (Strategic Studies Institute, U. S. Army War College). Pois bem, nesse estudo podemos ler que, segundo alguns analistas, os mísseis chineses poderiam “obrigar a Marinha estadunidense a operar a uma maior distância da costa [chinesa], ao menos na fase inicial do conflito” (Lai, 2011, p. 217). Sendo assim, se pode entender as amarguras de Washington pelo fato de que o Pacífico não é mais (na sua parte ocidental) “um lago anglo-saxão”, aliás um “lago privado” (DYER, 2014, p. 2), ou não é mais assim tão fácil violar o espaço territorial, aéreo e marítimo do grande país asiático; e todavia seria simplesmente temerário falar de “China Threat” ou do “perigo amarelo”! Atualmente, a marinha militar estadunidense, que goza de uma esmagadora superioridade, “opera a poucas milhas de distância de muitas das mais importantes cidades chinesas” (Dyer, 2014, p. 1). Se isso é sinônimo de “ameaça chinesa”, o que se deveria dizer de uma situação inversa, segundo a qual uma superior marinha militar chinesa tivesse sob controle e ameaça, a poucas milhas de distância, São Francisco e Nova Iorque? Na realidade, nas páginas do Foreign Affairs, o autor do artigo que já conhecemos sobre a capacidade alcançada pelos EUA de lançar um primeiro golpe nuclear, sublinha satisfeito “o passo glacial da modernização das forças nucleares chinesas”: portanto, “as probabilidades de que Pequim adquira no próximo decênio um poder nuclear dissuasor capaz de sobreviver são mínimas [...] Contra a China os Estados Unidos têm hoje uma capacidade de lançar o primeiro ataque e estarão em condições de manter esta capacidade ainda por um decênio ou mais” (Lieber, Press, 2006, pp. 43 e 49-50).

Mas como explicar então os conflitos em torno de algumas ilhas localizadas no Mar Chinês Oriental e no Mar Chinês Meridional? Retomamos a leitura do estudo publicado pelo Strategic Studies Institute: “A China tem uma longa história de pescadores que pescavam nestas águas assim como de reivindicações oficiais destas ilhas. Presumivelmente, os chineses primeiro deram a elas um nome, as utilizaram como pontos de referência para a navegação, tentaram designá-las como território chinês colocando-as sob jurisdição das províncias costeiras meridionais e definindo-as como tais sobre um mapa. Por séculos os chineses deram como certo que este certificado histórico (historical reach) estabelecia a sua propriedade sobre estas ilhas e suas águas circundantes” (Lai, 2011, p. 127).

Intervieram depois o declínio da China e o expansionismo colonial: “nos anos 30 os franceses tomaram posse das ilhas Paracelso (Xisha em chinês) e Spratly (Nansha em chinês) de modo a expandir o alcance do seu protetorado colonial”, enquanto “durante a segunda guerra mundial o Japão assume o controle de todas as ilhas do Mar Chinês Meridional” (Lai, 2011, p. 128). Com a Declaração do Cairo (1943) e a proclamação de Potsdam (1945) o Japão se empenhava a restituir todos os territórios que “havia roubado”. Mas, depois da eclosão da Guerra Fria, à Conferencia de Paz de Paz de São Francisco não foram convidadas nem a República popular chinesa nem a República chinesa (Taiwan); o Japão, aliado aos EUA, podia assim reter as ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses).

Elas deveriam ter sido restituídas, mas nas novas circunstâncias eram de grande utilidade, funcionando como uma pistola apontada contra o inimigo saído de uma grande revolução anticolonial e inspirador na Ásia de uma ulterior onda de revoluções anticoloniais. Dava prova de precaução o primeiro ministro Zhou Enlai, que às vésperas da conferência condenava os EUA pelo fato “de privar a China do seu direito a recuperar os territórios perdidos” e “de lançar um tratado para a guerra, não para a paz, no Pacífico Ocidental” (Lai, 2011, p. 129).

Vale a pena notar que em relação às ilhas contestadas a República popular chinesa não assume uma posição diversa daquela da República da China (Taiwan). Aliás, esta última tem dado prova de maior firmeza, a julgar pela fonte estadunidense mais vezes citada: “Em 1946, o governo da República da China enviou navios de guerra para ‘recuperar’ as ilhas Paracelso e Spratly. Em um mundo que enfatizava o controle de fato mais que as reivindicações históricas, a China teria podido manter ali as suas tropas a fim de exercer o controle de fato sobre aqueles territórios e afirmar resoluta e incontestavelmente a posse daquelas ilhas. Por ter deixado de fazer isso e ter negligenciado por decênios as ilhas do Mar Chinês Meridional os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) devem eles próprios se penitenciar (...) Os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) gastaram todo o seu tempo e todas as suas energias jogando os chineses uns contra os outros em ‘perpétuas revoluções e lutas de classe’, enquanto deixavam abandonados os territórios contestados em mar aberto” (Lai, 2011, p. 130).

Pequim x Tóquio

Particularmente intratável é o conflito entre China e Japão, mas é este último a tê-lo provocado. Essa verdade emerge das próprias análises dos jornalistas e estudiosos ocidentais: é “razoável” a reivindicação avançada por Pequim acerca da ilha Diaoyu (ou Senkaku); e se trata de uma reivindicação levada adiante por toda a nação chinesa, que aliás reprova os seus governantes por assumirem um comportamento “muito conciliador e mole” (Kristof, 2013). Não obstante isso – sublinha um sociólogo britânico – a China se contentaria em definir como “contestada” a propriedade daquelas ilhas, postergando a solução do problema às futuras gerações. Se trata de uma proposta já avançada em seu tempo por Zhou Enlai e inicialmente aceita pelo Japão, que agora ao contrário a rejeita secamente. É uma “loucura” que se explica com a onda chauvinista que sacode o país (Dore, 2013). Trata-se de uma nação – vale acrescentar – que tem dificuldade de fazer as contas com o seu passado. Em 1965, enquanto se desencadeava a agressão contra o Vietnã, o primeiro ministro japonês Eisaku Sato solicitava ao secretário estadunidense para a defesa, Robert McNamara, que fizesse recurso à arma nuclear no caso de guerra contra a China, culpada por ajudar o Vietnã (International Herald Tribunne 2008). Nos nossos dias, encorajado pelo apoio dos EUA e pelo “pivô” antichinês por ele encenado, o governo japonês se obstina em um negacionismo que, em razão do seu radicalismo, termina por inquietar até mesmo Washington. De qualquer modo, em tudo pretensiosa se revela a palavra de ordem da “China Threat” (ou do “perigo amarelo”): na realidade, ela é uma completa deformação da verdade. O fato é que não podemos considerar definitivamente concluída a luta de liberação nacional que presidiu o nascimento da República popular chinesa. Não se trata só de Taiwan. Ecoam insistentes as vozes que preveem ou desejam para o grande país asiático um fim análogo àquele que sofreu a União Soviética ou a Iugoslávia: “uma nova fragmentação da China é o desfecho mais provável” – anunciava um livro de sucesso publicado em Nova Iorque no ano mesmo da implosão do país derrotado no curso da Guerra Fria (Friedman, Lebard, 1991).

A hipótese da desintegração

A partir de então, nos EUA e nos países que com ele formam aliança, se multiplicaram as tomadas de posição de analistas, estrategistas, políticos, homens de Estado que previam ou invocavam a “fragmentação do colosso chinês”, o seu desmembramento em “sete chinas” ou em “muitas Taiwans”. O ideal seria proceder a uma “desintegração do interior” (desintegration from within). Em todo caso Washington é chamada a “afrontar de maneira mais coerente a futura fragmentação da China”. Estamos em presença de uma campanha que se move em várias frentes: dá o que pensar o prêmio conferido pelo Los Angeles Times a um livro que invoca o retorno à China da dinastia Ming (que teve o seu fim em 1644), com a exclusão consequentemente do Tibet, de Xinjiang, da Mongólia interior e da Manchúria. Mas, obviamente, o autor aqui citado tem em mira só a República popular chinesa: assim, junto a séculos de história, deveria ser posta em discussão uma parte bastante considerável (mais ou menos a metade) do seu atual território. Ainda além vai um outro livro aclamado no Ocidente (Ross Terril, 2003, The New Chinese Empire And What It Means for the United States): se deve contrastar o governo de Pequim também a propósito da “invenção de uma única etnia de chineses Han”; na realidade no seu interior subsistem notáveis diferenças no que diz respeito a esta mesma língua, e portanto...

Às vezes, o desejo de se livrar de um potencial concorrente prefere se camuflar de previsão histórica: “Alguns experts têm mesmo profetizado o repetir-se de um daqueles ciclos históricos em que se assistiu ao desmembramento do país, que faria desvanecer os sonhos de grandeza da China” (Brzezinski, 1998, p. 218).

Qualquer que seja a linguagem utilizada, estamos diante de um objetivo perseguido independentemente da política posta em prática pelo governo de Pequim no plano nacional e internacional: em 1999, o ano do bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, um expoente de relevo da administração estadunidense declarava que, só por sua “dimensão”, a China constituía um problema ou uma potencial ameaça (Richardson, 1999). Não admira então que, ao receber o Prêmio pela Paz dos livreiros alemães, o “dissidente” chinês Liao Yiwu tenha pronunciado um discurso cuja palavra de ordem, em relação ao seu país, era: “Este Império deve acabar em pedaços” (auseinanderbrechen) (Köckritz, 2012). Como se vê, o desmembramento da China, uma vez alcançado, seria considerado uma contribuição à causa da paz! Resta o fato que é o país para o qual se projeta, ou se invoca ou se sonha o desmembramento, aquele que está realmente sendo ameaçado.

Referências

Brzezinski, Z. K. (1998). La grande sacchiera. Longanesi, Milano.

Dyer, G. (2014) US vs. china: is this the new cold war, in Financial Times, 22-23 febbraio, pp. 1-2.

Dore, R. (2013) Isole conteste, ecco perchè Tokyo sbaglia, in La Lettura, suplemento al “Corriere della Sera”, 8 dicembre., p. 5.

Friedman, G. Lebard, M. (1991) The Coming War with Japan. St. Martin Press, New York.

Kinssinger, H. (2011) On China. The Peguim Press, New York.

Kristof, N. D. (2011) Bahrain pulls a Qaddafi, in: International Herald Tribune, 18 marzo, p. 7.

Köcritz, A. (2012) Zwei gute Störer, in Die Zeit, 14 marzo, p. 53.

Lai, D. (2011) The Unite States and China in Power Transition. Strategic Studies Institute, Carlisle, p. 9.

Lieber, K. A., Press, D. G. (2006) The Rise of U. S. Nuclear primacy in “Foreign Affairs”, marzo-aprile, pp. 42-54.

Richardson, M. (1999) Asia Looks to Zhu for Sing of Backing Off On Spratlys, in: International Herald Tribune, 22 novembre, p. 5.

Zemin, J. (2010) Selected Works, I, Foreign Languages Press, Beinjing.

Nenhum comentário:

Postar um comentário