18 de fevereiro de 2016

Por que os americanos pobres estão morrendo muito mais cedo do que os americanos ricos?

Um estudo constata disparidades de longevidade cada vez maiores entre as pessoas nos extremos da escala econômica. Isso significa que pessoas com rendimentos elevados estão colhendo mais e mais dos benefícios da Seguridade Social.

Zoë Carpenter


John Stillwell / PA Wire

Tradução / Para uma mulher pobre nascida nos anos vinte, chegar aos 50 anos de idade era um feito e tanto. Ela teria que superar a difteria, a tuberculose, a ancilostomíase e a poliomielite, para não falar das complicações do parto, que matavam cerca de 800 mulheres a cada 100 mil nascimentos no início daquela década. O uso generalizado da penicilina no tratamento das moléstias infecciosas só aconteceria dali a vinte anos; o Medicaid só seria criado depois de quatro décadas. Se ela passasse dos 50, o mais provável, em média, é que ela vivesse até os 80 anos de idade. E isso parece bom, até você considerar que mulheres mais ricas, nascidas naquele mesmo tempo, viviam cerca de quatro anos a mais.

Em geral, os americanos tornaram-se muito mais saudáveis, desde então, graças a padrões de vida mais elevados, avanços científicos, melhor educação e programas sociais. A expectativa de vida nos EUA atingiu um recorde em 2012. Mas, assim como a prosperidade econômica, os ganhos em saúde não foram igualmente distribuídos entre os diferentes estratos sociais. Em vez disso, eles progressivamente foram desviados para os ricos - e um novo relatório da Brookings Institution indica que as lacunas na expectativa de vida entre ricos e pobres estão se alargando.

Usando dados da Administração da Seguridade Social e outros registros do governo, o relatório compara o tempo de vida das pessoas nascidas em 1920 e em 1940 que compunham os 10% superior e inferior dos assalariados em termos de rendimentos. A conclusão é que os homens ricos nascidos em 1940 poderiam esperar viver 12 anos a mais do que os homens mais pobres, em comparação com uma lacuna de 6 anos entre os homens ricos e pobres nascidos em 1920. A disparidade na expectativa de vida entre as mulheres do topo e da base mais do que duplicou, crescendo de 4 para 10 anos nesse intervalo. Na verdade, as mulheres mais pobres não viram nenhum aumento em sua expectativa de vida. A diferença continuou a crescer entre ricos e pobres nascidos depois de 1950.

O relatório do Brookings "se soma a um crescente conjunto de evidências que apontam haver um fosso cada vez maior entre a saúde dos ricos e dos pobres", disse Steven Woolf, diretor do Center on Society and Health da Virginia Commonwealth University. Não é novidade que o tempo de vida dos americanos dependa da quantidade de recursos de que dispõem. Assim, o que o estudo da Brookings de fato acrescenta são evidências de que o problema está cada vez pior.

Quanto as explicações para como as desigualdades socioeconômicas se traduzem em disparidades na longevidade, "É bastante misterioso", disse Lisa Berkman, diretora do Center for Population and Development Studies de Harvard. Uma das hipóteses advoga que as pessoas de baixa renda tendem a adoecer mais cedo, por exemplo porque não podem se dar ao luxo de viver em regiões menos poluídas; porque não podem se dar ao luxo de adotar e manter comportamentos mais saudáveis; porque não podem pagar pelas mensalidades dos planos de saúde, pelos serviços de saúde em geral e por seus remédios.

Woolf atribui muito da disparidade das taxas de mortalidade ao que ele chama de "condições relacionadas a estresse". As pessoas que vivem em insegurança econômica estão mais propensas a experimentar altos níveis de estresse, que os estudos têm relacionado a expectativas de vida mais curtas e um risco aumentado de morte por acidentes vasculares cerebrais, ataques cardíacos e outras doenças. "Estamos assistindo um aumento dramático no número de mortes derivadas de opióides, seja por analgésicos prescritos, seja por heroína, e também de suicídios, doenças hepáticas e outras condições que se relacionam com a maneira como as pessoas estão lidando, de uma forma doentia, com as tensões a que estão sujeitas em suas vidas diárias, especialmente desde a crise econômica", disse Woolf. O tabagismo, a principal causa de morte evitável, é mais prevalente entre as pessoas de baixa renda.

Berkman associa parte da carga de estresse dos americanos de baixa renda às características do local de trabalho. O corte de 1920 analisada pelos pesquisadores da Brookings teve seus maiores ganhos salariais nos anos 40 e 50, uma época de crescimento econômico e de maior igualdade em todo o espectro da renda. Se por um lado as pessoas de baixa renda nascidas na década de 1940 entraram em um mercado de trabalho menos exigente do ponto de vista físico, por outro lado eles podem ter experimentado uma maior insegurança, à medida que os salários estagnavam, e vivenciado alguma dificuldade em equilibrar trabalho e vida familiar, à medida que mais mulheres entravam para a força de trabalho. Ao contrário de muitos outros países mais robustos em termos de apoio familiar, os Estados Unidos não fizeram muito para acomodar o aumento dos desafios que as mães e pais trabalhadores teriam de enfrentar, Berkman observou. "A segunda dimensão dos riscos ocupacionais é o conjunto de condições de trabalho que são extremamente estressantes", disse ela. "Elas não são tão fisicamente estressantes, mas por certo são socialmente estressantes. Os trabalhadores vivem inseguros e não têm condições para equilibrar questões profissionais e familiares. Precisamos repensar o que saúde e segurança ocupacional significam".

O objetivo do estudo da Brookings foi examinar o impacto redistributivo dos benefícios da Seguridade Social nas lacunas de longevidade entre os estratos sociais. Os autores do relatório perceberam uma disparidade:

(...) Isso significa que os trabalhadores com altos salários tendem a receber pensões por períodos progressivamente mais longos, ao mesmo tempo em que trabalhadores de baixa renda observam pouca melhora na sua expectativa de vida. Essa lacuna, quando avaliada em conjunto com o aumento da idade média de aposentadoria que marca o início de 1990, significa uma diferença entre os benefícios vitalícios recebidos pelos trabalhadores pobres e menos escolarizados e os benefícios recebidos pelos trabalhadores de alta renda e mais qualificados. A disparidade é cada vez maior, em favor dos trabalhadores de alta renda.

Em outras palavras, uma das reformas essencialmente destinada a auxiliar os americanos pobres já não está mais realmente atuando em seu benefício. Berkman sugere a necessidade de uma reforma adaptada aos diferentes grupos de pessoas, sendo que os trabalhos fisicamente mais exigentes, por exemplo, requerem um tipo diferente de segurança na aposentadoria do que aquela destinada às pessoas ricas que estão em bom estado de saúde e são capazes de trabalhar mais tempo.

"É surpreendente que as pessoas não tenham questionado: 'Oh meu deus, o que estamos fazendo?'". Disse Berkman. "O que estamos fazendo com uma parte grande da população do nosso país, talvez quase toda metade mais pobre?"

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