27 de janeiro de 2016

A Grécia vai trair os palestinos?

Durante 70 anos, a Grécia e a Palestina foram amigas próximas e aliadas. Irão interesses econômicos de curto prazo entre a Grécia e Israel levar os dirigentes gregos a abandonar-nos?

Nabil Sha'ath

Haaretz

Alkis Konstantinidis / Reuters

Tradução / Assentes na experiência comum, em interesses de longo prazo e em princípios morais, as nossas relações com a Grécia vêm de há muito. Não se devia deixar que ganhos econômicos de curto-prazo afetassem esta profunda e preciosa amizade.

Nos últimos 70 anos, as relações entre a Grécia e a Palestina foram de amizade próxima e de aliança política. Parte da nossa origem ancestral pode ser feita remontar à ilha grega de Creta. Erguemos a bandeira da Grécia em todas as nossas igrejas ortodoxas, às quais a maior parte dos nossos cristãos pertencem. Estamos gratos à Grécia pelo seu acolhimento de Yasser Arafat, o nosso dirigente evacuado de Beirute em 1982 depois do longo cerco por Israel.

Como ministro das Relações Exteriores, trabalhei bastante para apoiar a Grécia no mundo árabe e muçulmano, tanto econômica como politicamente. A estreita ligação entre Papandeou e Arafat e entre mim e o seu filho George refletiram uma amizade duradoura entre a Palestina e a Grécia.

Como palestinos, estivemos ao lado da Grécia contra a ocupação turca do norte de Chipre. Na minha qualidade de ministro das Relações Exteriores da Palestina (1994-2005), as minhas instruções foram muito claras: oposição a qualquer reconhecimento de um estado separatista no norte de Chipre, particularmente dentro da Liga Árabe e da Organização da Cooperação Islâmica (OCI), nas quais tínhamos alguma influência moral e política. A amizade era mútua e não se limitava a um partido político particular. Era uma amizade entre povos: gregos e palestinos.

Quando a Grécia aderiu à UE, tornou-se um dos nossos mais próximos aliados dentro da UE, apoiando a nossa busca de uma solução política pacífica e estando ao nosso lado quando Israel violou os seus compromissos, quer continuando a expropriar terra e água, destruindo a faixa de Gaza ou negando-nos o Estado que tínhamos aceitado em 22% da nossa terra-pátria. O nosso aliado grego manteve-se fiel aos princípios e compromissos que nos tinham unido durante 70 anos.

Ultimamente, e lamentavelmente, esta relação começou a mudar. Percebe-se a importância dos interesses econômicos e políticos na formação e alteração das alianças políticas. Hoje, a Grécia e Israel estão ligados por certas questões, incluindo o gás natural, o petróleo, as influências geopolíticas e as crises financeiras.

Compreendemos. Tais ligações entre a Grécia e Israel não são únicas. Contudo, alterações de curto prazo nos interesses econômicos e nas posições políticas não alteram fatos importantes, como o fato de Israel ter ocupado a Palestina e um dos dois países estar a ser avisado para que não se torne num estado de apartheid. As alterações nos interesses econômicos não mudam a lei internacional, a justiça e os direitos humanos.

Vários países, incluindo os BRICS ou a França, têm interesses econômicos e políticos comuns com Israel, mas a sua posição sobre a necessidade de pôr fim ao projeto israelense de assentamentos coloniais e à ocupação militar não mudou.

Foram-nos dadas garantias pelos dirigentes da Grécia de que a sua relação mais próxima com Israel não iria alterar os seus compromissos com a Palestina, nem afetaria as relações históricas com a Palestina e com o mundo árabe/muçulmano em geral.

O apoio do povo grego à Palestina foi reafirmado pela votação de dezembro no parlamento grego, à qual assistiu o presidente Abbas, sobre uma resolução que apelou unanimemente ao governo para o reconhecimento do Estado da Palestina. O governo no entanto recusou aplicar essa resolução.

Em 17 de janeiro, houve um ponto de viragem durante o encontro do Conselho da União Europeia para as Relações Externas. Deu-se uma mudança completa na atividade de pressão diplomática da Grécia dentro da UE e nessa ocasião o ministro grego das Relações Exteriores frustrou muitos dos seus colegas europeus, quase conseguindo introduzir a linha de Israel nas conclusões do documento, tentando suavizar a linguagem sobre os assentamentos coloniais na Palestina ocupada.

Afirmações atribuídas a dirigentes gregos anunciando a sua recusa de aplicação da diretiva da UE sobre a rotulagem de produtos dos colonatos são chocantes, mas foram explicadas e mais tarde corrigidas. Uma declaração do Sr. Tsipras em apoio à pretensão israelita de que toda a Jerusalém era capital histórica do estado de Israel, ignorando os direitos palestinianos, foram ainda mais chocantes. A explicação grega foi de que a referência era histórica e não política. Em Israel e na Palestina, tudo o que é histórico é político. Embora mais tarde um porta-voz grego tenha reiterado o compromisso para um Estado da Palestina independente com Jerusalém oriental como capital, a declaração original não foi retirada. Aguardamos ainda uma explicação.

Notícias sobre posterior cooperação militar entre a Grécia e Israel são igualmente alarmantes para os palestinos.

Não queremos abandonar a nossa amizade com a Grécia, nem queremos assistir a uma mudança nas relações estratégicas que ligam a Grécia ao mundo árabe e muçulmano, em particular o Egito e os países do Golfo.

Estou seguro que a maioria do povo grego partilha dos meus sentimentos sobre essa relação. Não trocamos os nossos compromissos e princípios morais por uma alteração temporária dos interesses econômicos. Esperamos que a Grécia continue comprometida com estes princípios partilhados.

O Dr. Nabil Sha'ath é Comissário das Relações Internacionais da Fatah e antigo ministro das Relações Exteriores palestino (1994-2005).

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