31 de março de 2016

A fadiga do desespero

Como a desesperança se tornou entediante

David Graeber


Eleanor Shakespeare

Tradução / É possível ficar entediado com a desesperança?

Há razões para se acreditar que algo assim está começando a acontecer na Grã-Bretanha. Pode chamar de “fadiga do desespero”.

Por quase meio século, a cultura britânica, particularmente à Esquerda, fez do desespero uma forma de arte. Esta é a terra onde “No Future for You” [“Nenhum Futuro para Você”] se tornou o lema de uma geração, e depois de outra, e depois outra. Do desmoronamento de seu império, ao desmoronamento de suas cidades industriais, ao atual desmoronamento de seu Estado de Bem-Estar, o país parecia estar explorando todas as permutações possíveis do desespero: desespero como fúria, desespero como resignação, desespero como humor, desespero como orgulho ou prazer secreto. É quase como se agora o desespero tivesse finalmente se esgotado.

Na superfície, e de longe, a Grã-Bretanha parece estar passando por um dos mais estranhos paroxismos de autodestruição masoquista da história mundial. Desde a vitória dos Conservadores em 2010, primeiro em coalizão com os Liberal-Democratas e agora por conta própria, o governo britânico tem buscado desfazer sistematicamente muito do que torna a vida no país boa e decente. Os líderes conservadores começaram destruindo o uma vez orgulhoso sistema universitário do Reino Unido, enquanto mantinham os olhos na maior fonte de orgulho e dignidade nacional, as garantias de saúde universal do Serviço Nacional de Saúde. Tudo isso está sendo feito em nome de uma doutrina econômica – austeridade, a necessidade imperativa de disciplina fiscal – na qual ninguém acredita genuinamente e cujos resultados quase todos deploram (incluindo o ex-primeiro-ministro David Cameron, que em particular tem denunciado o declínio de seus serviços públicos locais), em resposta a uma crise existencial que não existe.

Como isso aconteceu? Parece que toda a classe política ficou presa na narrativa bizarramente bem sucedida que varreu o caminho dos conservadores para o poder após o colapso de 2008 e que ainda os sustenta muito depois de suas conseqüências ultrapassarem qualquer nível de humanidade ou de senso comum.

Ópera do crescimento e do colapso

Praticamente todos os principais governos foram chutados do poder após o colapso, e a aparência política do governo em questão determinou em grande parte a narrativa popular sobre o que causou a crise. Nos Estados Unidos, foi culpa de George W. Bush, de modo que o ônus popular caiu sobre os CEOs e gestores de fundos hedge [10] que Bush costumava se referir, em eventos de arrecadação de campanha, como sua “base”. Nenhum deles foi processado, mas a maioria dos estadunidenses sentiu fortemente que eles deveriam ter sido. No Reino Unido, onde o Partido Trabalhista de Gordon Brown estava sentado em Downing Street [11], todo mundo aceitou a narrativa da oposição de que a crise britânica resultou de gastos sociais irresponsáveis ​​e déficits governamentais. Na verdade, os Tories descobriram que apelar para uma retórica de sacrifício compartilhado, aperto do cinto e até mesmo sofrimento coletivo ressoou no público britânico. Isso foi talvez mais verdadeiro entre os eleitores da classe trabalhadora. Agora quase totalmente despojados de qualquer sentido de comunidade, vizinhança ou solidariedade no local de trabalho por décadas de engenharia social de Direita, eles viam os tempos difíceis e o racionamento da Segunda Guerra Mundial como a última vez em que os britânicos haviam agido com um propósito comum genuíno.

Os efeitos sociais dos cortes nos gastos – todos visando ostensivamente a redução da dívida supostamente catastrófica pairando sobre o governo – foram devastadores. As universidades britânicas, que há não tantos anos atrás (como na maioria da Europa) eram totalmente gratuitas, passaram a estar entre as mais caras do mundo. A habitação social foi saqueada, subsídios foram cortados, e a ocupação de propriedades residenciais foi tornada ilegal exatamente no momento em que dezenas de milhares estavam sendo “deslocadas” de seus lares. Ser pobre agora significa ser infinitamente avaliado, monitorado e pesquisado, e quase invariavelmente ser considerado um fracasso. Ninguém sabe de verdade quantos milhares de pessoas morreram como resultado da queda-livre no suporte dado pelo governo, mas para termos apenas uma ideia: entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2014, o Departamento de Trabalho e Pensões informou que 2.380 britânicos anteriormente recebendo o suporte de deficiência foram encontrados mortos não mais do que seis semanas depois de receberem a notificação de que estavam tendo seus benefícios cortados porque tinham sido avaliados como estando “aptos para trabalhar”.

Uma razão pela qual isso pode ter acontecido é que não tem havido praticamente nenhum debate público sobre a austeridade em si. Por exemplo, nunca um grande portal de notícias de TV recebeu um painel de economistas para discutir se a dívida pública era realmente a causa da crise econômica, ou para debater o que seria uma resposta mais apropriada: se a austeridade no estilo europeu ou o estímulo fiscal no estilo Obama. As únicas questões eram qual deveria ser o tamanho do corte no orçamento e onde os cortes deveriam incidir. [14] Esta confiante narrativa dos Tories reinou inconteste desde os golpes mais rudes no Daily Mail até a mais esculpida eminência da BBC (supostamente socialista), e todas as figuras de autoridade pública se agarraram a ela mesmo depois que os efeitos imediatos dos cortes se mostraram espetacularmente ineficazes. Mesmo quando o “duplo mergulho” virou “mergulho triplo” [15] e o ministro da fazenda dos Tories, George Osborne, dobrou suas apostas, ao fazer promessas cada vez mais estranhas (que todos os futuros governos gerariam um excedente, que a Grã-Bretanha eliminaria completamente sua dívida nacional, etc. [16]), quase nenhum grande “especialista” político, editorialista, ou o comentador de TV quebrou as fileiras. E quando, após anos de miséria abjeta, a economia, inevitavelmente, começou a se agitar um pouquinho, todos proclamaram instantaneamente que Osborne havia sido vingado.

Este consenso, estranhamente, não tem nada a ver com as opiniões dos economistas profissionais. Quase todos os economistas britânicos entendiam que os déficits crescentes de 2008 e 2009 foram causados pela crise bancária, e não o contrário. Da mesma forma, qualquer pessoa que prestasse atenção sabia que os cortes dos serviços públicos para “economizar dinheiro” reduziam a atividade econômica e, assim, as receitas fiscais do governo – e que, portanto, tinham na verdade o efeito de aumentar, não diminuir os déficits. A maioria também entendia que os déficits não eram realmente um problema tão grande, para começo de conversa. Mas mesmo a opinião de economistas conhecidos foi, de repente, excluída do debate público. Chegando em 2012, mesmo o FMI estava emitindo declarações pedindo aos Tories que soltassem a mão. Mas você nunca aprenderia nada disso no Times, no Observer ou na BBC.

Como pode que esse desafio completo à realidade tenha se mantido em um país com uma imprensa formalmente livre e uma população altamente educada? Até certo ponto, é o conhecido “efeito bolha”. Políticos, jornalistas, lobistas, CEOs e burocratas corporativos raramente falam com alguém além de seus pares. Eles constituem um universo intelectual à parte. Dentro deste universo, as políticas econômicas são projetadas principalmente para a comercialização política; a ciência econômica existe em grande parte para fornecer diagramas e equações impressionantes para vendê-las. Frases projetadas em think tanks e grupos focais (“mercados livres”, “criadores de riqueza”, “responsabilidade pessoal”, “sacrifício compartilhado”) são repetidas como encantamentos até que tudo pareça tanto com um senso comum impensado que ninguém nem mesmo chegue a perguntar o que a imagem resultante tem a ver com a realidade social. É verdade, a lógica da bolha só pode ser mantida por uma certa ignorância ilustrada de como a economia realmente funciona. Uma pesquisa de 2014 descobriu, por exemplo, que 90% dos deputados com mandato, com todos os seus inúmeros debates sobre a necessidade de economizar dinheiro, não sabiam de onde o dinheiro vem. (Eles achavam que ele era criado pela Royal Mint.)

O efeito de bolha não é exclusivo da Grã-Bretanha, é claro. O debate político nos Estados Unidos, no Japão ou na Alemanha funciona da mesma maneira. Mas na Grã-Bretanha, as coisas chegaram tão longe que estamos começando a ver um clássico efeito de reforço do tipo “Grande Mentira”. Quando a realidade consensual se torna tão completamente divorciada da realidade realmente existente, quando tantas pessoas inocentes têm sofrido como resultado, e quando qualquer um que aponte isso seja denunciado, de forma consistente e agressiva, como um terra-planista-com-papel-alumínio-na-cabeça (ou um trotskista), quebrar as fileiras significaria admitir que os lunáticos estavam certos. E não há nada que a mídia estabelecida seja mais relutante em fazer.

O divórcio entre consenso e realidade se tornou tão extremo e impraticável que até mesmo os tecnocratas encarregados de executar o sistema começaram a gritar falta. Em 2014, o Banco da Inglaterra – seus economistas aparentemente esgotados por terem de implementar políticas econômicas em um mundo inventado e de ponta cabeça, projetado apenas para beneficiar os ricos – emitiu um relatório sobre “Criação de Dinheiro na Economia Moderna” que efetivamente destruía toda a base teórica para a austeridade. O dinheiro, eles observaram, não é criado pelos governos, nem mesmo pelos bancos centrais, que devem ter cuidado para não fazer muito disso para que não iniciem inflação; é na verdade criado por bancos privados quando fazem empréstimos. Sem dívidas, não haveria dinheiro. Os economistas heterodoxos pós-keynesianos, regularmente denunciados como uma franja lunática por aqueles comentadores dispostos a reconhecer sua existência, estavam certos.

Nenhum grande veículo de notícias considerou isso uma história digna de repercussão; os políticos continuaram a pregar seus contos de moralidade sobre os males da dívida exatamente como antes.
Nada Além de Classe

Então, qual é a base real da economia britânica? Ela é, afinal de contas, a quinta maior do mundo.

É importante lembrar que, apesar de muita retórica em contrário, a economia do Reino Unido, como as de outros países ricos, é em grande medida auto-sustentável. Ainda existem fazendas, fábricas, minas, áreas de pesca e oficinas artesanais, que continuam a atender a maioria das necessidades materiais do país. Muito do sentimento de que a Grã-Bretanha se desindustrializou é devido ao declínio das fábricas gigantes de meados do século XX. Mas estas sempre foram uma anomalia: desde o auge da Revolução Industrial até a era vitoriana, quando a Grã-Bretanha liderava o mundo na produção e na inovação tecnológica, a economia era dominada por uma combinação de altas finanças e pequenas empresas familiares – muito como é hoje.

Ainda assim, em muitos aspectos a Grã-Bretanha se assemelha a uma economia imperial: enquanto exporta maquinário, produtos farmacêuticos, plásticos, gasolina e toda uma variedade de produtos artesanais de alta-qualidade, em termos materiais totais, ela recebe muito, muito além do que envia para outros países. Então, devemos fazer uma pergunta simples: por que outros países continuam a enviar suas coisas para a Grã-Bretanha? Como é que a ilha consegue levar muito mais do resto do mundo do que lhes dá em troca?

A resposta convencional é, claro, “serviços financeiros”. A economia do Reino Unido agora gira em torno de seu centro financeiro, a City de Londres, cujas maiores empresas desempenham um papel enorme na coordenação do comércio internacional. As vantagens da City são, em parte, apenas aquelas do fuso-horário do meridiano de Greenwich: um bilionário no Catar ou Mumbai pode fazer uma chamada para seu corretor em Londres com apenas algumas horas de diferença; em Nova York, ainda mais na Califórnia, é provável que seja o meio da noite. Além disso, o mesmo bilionário pode falar com um corretor com um sotaque familiar e reconfortante de Oxbridge, dando-lhe a sensação agradável de ter agora o neto das ex-autoridades coloniais de seu país à sua disposição.

Certamente há algo de verdade nisso. Mas não pode ser toda a explicação. A escala é simplesmente grande demais. As pessoas no Brasil ou na Coréia realmente enviam inúmeros navios com contêineres cheios de aço, carros ou computadores para a Grã-Bretanha porque estão encantados com os acentos de Oxbridge ou impressionados com suas habilidades com a papelada? Porque a papelada, afinal de contas, é tudo o que os “serviços financeiros”, em última instância, são, e há muitas pessoas no Brasil e na Coréia que são extremamente boas em lidar com papelada também.

Outro argumento, comum nos círculos esquerdistas, é que a Grã-Bretanha está apenas colhendo os benefícios da sua posição como leal tenente do império norte-americano. O “sistema financeiro” patrocinado pelos EUA é, conforme economistas como Michael Hudson tem argumentado, em grande parte um sistema de extorsão, um meio de extrair algo que, se não for idêntico, então é muito parecido com um tributo imperial sobre o resto do mundo. A Grã-Bretanha, assim entendida, poderia então ser vista como facilitando o processo dentro de seus próprios antigos territórios imperiais – talvez com um olho encoberto para lançar suas fidelidades para a China e a Índia, quando chegar o momento delas. Sem dúvida há algo de verdade nisso também, mas, de novo, dificilmente é a explicação completa. No Reino Unido, a “finança” está baseada acima de tudo no setor imobiliário, e a bolha imobiliária que sustenta a City se sustenta no fato de que praticamente todos os bilionários do mundo sentem que precisam manter pelo menos um apartamento, e frequentemente uma casa maior, em uma parte elegante de Londres. Por quê? Há muitas outras cidades modernas e bem equipadas no mundo, a maioria das quais possuem um clima decididamente mais aprazível. No entanto, ainda mais do que, digamos, Nova York ou São Francisco, o setor imobiliário de Londres se tornou algo como os títulos do Tesouro dos EUA, uma moeda básica dos ricos internacionais.

É quando se faz perguntas como essas que a economia e a política se tornam indistinguíveis. Aqueles que têm investigado a situação acham que o apelo de Londres – e, por extensão, da Grã-Bretanha – depende de dois fatores. Em primeiro lugar, oligarcas russos ou princesas sauditas sabem que podem obter praticamente tudo o que quiserem em Londres, desde candelabros antigos e dispositivos de espionagem de alta tecnologia, até babás no estilo Mary Poppins para seus filhos, lagostas frescas entregues de bicicleta ainda de madrugada, e toda variedade concebível de serviços sexuais, música e comidas exóticos. Além disso, tudo será entregue por uma população de classe trabalhadora alegre, criativa e subserviente que, com base em séculos de tradição, sabe exatamente como ser serviçais. O segundo fator é a segurança. Se alguém é um novo rico, magnata da construção civil ou um comerciante de diamantes de Hong Kong, Deli ou Bahrein, estará bem consciente de que em casa algo ainda pode dar terrivelmente errado: uma revolução, uma reviravolta súbita das políticas do governo, expropriação, agitação violenta. Nada disso poderia acontecer em Notting Hill ou Chelsea. Qualquer mudança política que afetaria significativamente os mais ricos foi efetivamente retirada da mesa desde a Revolução Gloriosa de 1688.

Em outras palavras, a histórica derrota e humilhação das classes trabalhadoras britânicas é agora o principal produto de exportação da ilha. Ao organizar toda a economia em torno da bolha imobiliária resultante, os Tories asseguraram que a maior parte da população britânica saiba, pelo menos em algum nível tácito, que é precisamente o apelo global do sistema inglês de classes – indo até (e incluindo) o sorriso desdenhoso dos graduados da Oxbridge no parlamento abafando risos com a remoção iminente dos benefícios da habitação – que está mantendo o fluxo de tênis esportivos, de cerveja e de eletrônicos de consumo acessíveis para o país. É um dilema impossível. Não é surpreendente, então, que tantos se voltem para os cínicos populistas de direita como o UKIP, que manipulam a indignação resultante ao fomentar a fúria contra trabalhadores poloneses de construção civil em vez de oligarcas russos, contra motoristas de Bangladesh em vez de príncipes do Qatar, contra porteiros das Índias Ocidentais em vez de magnatas brasileiros do aço.

Este marketing da subordinação de classe é a essência da estratégia econômica Tory. A indústria pode ser derrotada e o sistema universitário se tornar (novamente) um parquinho para os ricos, mas mesmo que isso leve a um colapso da tecnologia e da economia do conhecimento, o resultado final apenas selará mais firmemente o sistema de classes que produz políticos Tory: a Inglaterra literalmente não terá nada mais para vender.

As políticas do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair (que, apesar de ser financiado por uma base de classe trabalhadora, representava essencialmente a sensibilidade das classes de profissionais liberais), tentaram forjar uma visão alternativa. Para os Blairistas, o futuro do Reino Unido estava no que eles chamavam de “indústrias criativas”. O Reino Unido não havia, regularmente desde os anos sessenta, produzido ondas de música e cultura juvenil popular que haviam varrido o mundo, trazendo bilhões em receita direta e indireta? Pode ter parecido uma jogada plausível na década de noventa, mas fracassou porque os Blairistas estavam operando com uma compreensão completamente falsa de onde a criatividade cultural vem.

Eles ingenuamente assumiram que a criatividade era basicamente um fenômeno de classe média, o produto de pessoas como eles próprios. De fato, quase tudo que vale a pena vindo da cultura britânica durante o século passado, desde o music hall, até os kebabs de rua, a comédia de stand-up, o rock and roll e a cena rave, tem sido principalmente fenômenos da classe trabalhadora. Essencialmente, essas eram as coisas que a classe trabalhadora criava quando não estavam trabalhando “de verdade”. O surgimento da cultura popular britânica dos anos sessenta foi inteiramente um produto do Estado de Bem-Estar Social do Reino Unido, à época muito generoso. Há uma razão para que, nas gírias das rimas Cockney, a palavra para o “seguro desemprego” seja “rock and roll” (“he got the sack, he’s on the rock ‘n’ roll again” [“ele foi mandado pra rua, está na base do rock ‘n’ roll novamente”): uma proporção surpreendente de grandes bandas que mais tarde varreriam o mundo passaram pelo menos alguns dos seus anos formativos no auxílio-desemprego. Os Blairistas foram estúpidos o suficiente para combinar a promoção de sua “Cool Britannia” [“Bretanha Descolada”] com reformas maciças no sistema de bem-estar social, o que efetivamente assegurava que o projeto todo desabasse espetacularmente, uma vez que forçaram que praticamente qualquer um com o potencial para se tornar o próximo John Lennon passasse o resto de suas vidas empilhando caixas na Tesco local como parte das novas condições para receber os programas de bem-estar.

No final, tudo o que os Blairistas conseguiram produzir foi um setor de marketing de nível mundial (já que é nisso que pessoas da classe média são realmente boas); tirando isso, eles não teriam nada mais para exibir para si mesmos.

O retorno do futuro

Tudo isso pode parecer irremediavelmente sombrio. Ainda mais surpreendente, então, que a principal reação à esquerda, começando timidamente com o movimento estudantil de 2010 e agora explodindo em todos os lugares, esteja sendo uma onda de otimismo quase insolente e um retorno (reconhecidamente hesitante) a visões utópicas. É por isso que comecei a falar de “fadiga do desespero”. Há uma percepção – ainda pequena, mas crescente – de que se a Grã-Bretanha vier a voltar a entrar para a história, se for existir qualquer tipo de visão grande e positiva para o seu futuro, essa visão só pode vir da esquerda.

Ao fim e ao cabo, as visões dos Tories e do Novo Trabalhismo não são visões de verdade. De fato, no tempo de Thatcher e, até certo ponto mesmo no de Tony Blair, os reformadores de mercado deram um jeito de se apresentarem, de certo modo, como os verdadeiros revolucionários. Não mais. O mesmo tipo de apoio insincero é dado à idéia de que os entusiastas do mercado são jovens, entusiasmados e expertos em tecnologia, e que aqueles que defendem os restos do Estado de Bem-Estar Social são um bando de velhos amargos que se queixam no pub. Este simulacro também está se tornando cada vez mais vazio. Tendo estabelecido sua realidade consensual, a única coisa que sobrou para as classes políticas é defendê-la. Todos sabem que os Conservadores mantém as rédeas precisamente porque conseguiram convencer o público de que são conservadores; sua “competência” fabulosa se resume ao argumento de que só eles conseguiriam manter as coisas juntas, mais ou menos como existem atualmente, antes do advento de alguma catástrofe inevitável, cujos contornos precisos não podemos saber.

Enquanto isso, nas ruas e nos municípios, a Grã-Bretanha está sofrendo uma mudança radical, um verdadeiro florescimento da resistência. É muito difícil conhecer a sua escala real porque, ao contrário do que aconteceu em gerações anteriores, a mídia se recusa a falar sobre isso. Talvez porque quando eles falam, os resultados raramente são o que esperavam. Em 9 de maio de 2015, o dia após a vitória da eleição Tory ser declarada, antes que a inevitável nova rodada de cortes pudesse ser anunciada, houve uma pequena revolta na frente dos escritórios do primeiro ministro em 10 Downing Street. Centenas de estudantes ativistas enfrentaram a polícia; vários deles, sendo socados e chutados por oficiais uniformizados, realmente revidaram; bombas de tinta foram jogadas, chamas começaram e o memorial das Mulheres da Segunda Guerra Mundial foi pintado com o slogan familiar “Fuck Tory Scum” [“Foda-se a Escória Tory”]. Os editores do tablóide de Direita, o Daily Mail, decidiram que o clima público era tal que seria possível reportar isso, e publicaram uma enorme tiragem com imagens impressionantes sob a manchete “Anarchist Mob Planning Summer of Thuggery” [algo como “Gentalha Anarquista Planejando Verão de Baderna”]. Dentro de vinte e quatro horas eles ficaram horrorizados ao descobrir que na seção de comentários, a opinião entre seus próprios leitores estava em algo como cinco contra um à favor da baderna anarquista. Mesmo a “profanação” do memorial não escandalizou tanto quanto imaginavam. Afinal, a maioria dos britânicos está bem ciente de que a primeira coisa que os veteranos fizeram, ao retornar da guerra, foi expulsar o governo Tory de Churchill e votar em um que prometeu presidir a criação de um moderno Estado de Bem-Estar Social, precisamente o trabalho que os inquilinos atuais da Downing Street estão tentando desmantelar. Os manifestantes estavam simplesmente defendendo o legado desses veteranos e anunciando o que eles, se vivos, provavelmente diriam.

Entre ocupações de estudantes, ocupações habitacionais, ações de rua e um ressurgimento do sindicalismo radical, tem havido um aumento da resistência sem precedentes. Mas ainda mais importante, isso começou, mesmo que de forma hesitante, a assumir um espírito muito diferente das ações desesperadas e de retaguarda dos anos anteriores. Afinal, até mesmo as lendárias revoltas do “imposto de votação” que desalojaram Thatcher eram ou apontavam para o passado ou eram, alternadamente, amargos e niilistas. Os slogans de Guerra de Classes (“The Royal Question: Hanging ou Shooting?” [algo como “a questão da realeza: enforcamento ou fuzilamento?”]) eram talvez provocadores, mas dificilmente utópicos.

É aqui que entra a noção de fadiga do desespero.

Pode-se argumentar que seus inícios já estavam visíveis na cultura popular. Testemunham o surgimento da escola socialista escocesa de ficção científica, que, após o distopianismo implacável dos anos setenta, oitenta e noventa [25], liderou o caminho para uma tendência mais ampla, ao brincar com futuros redentores uma vez mais. Depois, havia Steampunk [algo como “punk-à-vapor”], certamente a mais peculiar das tendências de contra-cultura, uma espécie de futurismo vitoriano desajeitado, cheio de computadores e aeronaves alimentados a vapor, ciborgues de cartola, cidades flutuantes alimentadas por bobinas Tesla e uma infinita variedade de tecnologias que nunca apareceram realmente. Lembro de assistir a uma conferência acadêmica sobre o assunto e me perguntar: “Ok, eu entendo a parte do vapor, é óbvia, mas... O que exatamente isso tem a ver com o punk?” E então me caiu a ficha. Não há futuro! A era vitoriana foi a última vez que a maioria das pessoas neste país acreditou genuinamente em um futuro tecnológico que levaria a um mundo não apenas mais próspero e igualitário, mas na verdade mais divertido e emocionante do que o deles. Então, é claro, veio a Primeira Guerra Mundial, e descobrimos como seria o século XX, com a sua alternância monótona de terror e tédio nas trincheiras. O que é o Steampunk se não uma maneira de dizer: “não podemos simplesmente voltar atrás, ignorar todo o século passado como um pesadelo e começar de novo?”

Não é este o momento necessário de formatar antes de tentarmos imaginar com o que um século XXI genuinamente revolucionário poderia se parecer?

Em frente para o corbofuturismo

Os primeiros movimentos vieram, de forma apropriada, da Escócia, onde, em 2015, o Partido Nacional Escocês virtualmente varreu os assentos parlamentares possíveis, concorrendo sobre uma plataforma explicitamente socialista e anti-austeridade e surrando um Partido Trabalhista morno sem vontade de desafiar fundamentalmente a agenda Conservadora (basicamente, ninguém na Escócia vota Tory). Mas o verdadeiro terremoto ocorreu alguns meses depois, com a ascensão aparentemente inexplicável de Jeremy Corbyn e seu “chanceler à sombra”, John McDonnell, à chefia do próprio Partido Trabalhista em Westminster. Aos olhos de uma absolutamente e incondicionalmente hostil à nova equipe dos Trabalhistas – mesmo veículos ostensivamente de Esquerda como o Guardian -o sucesso deles é em si mesmo um produto de desespero político: aqueles velhos reclamões dos pubs desistiram até mesmo de tentar ganhar eleições e cuspiram na cara de todo o sistema ao eleger um deles. E isso é verdade; a nova liderança trabalhista é constituída por radicais genuínos. Corbyn e McDonnell representam a ala militante do Partido Trabalhista – até recentemente, uma facção de fato muito pequena, composta na melhor das hipóteses de uma meia dúzia de deputados. Eles têm sido apoiadores regulares e até participantes das mobilizações de rua.

Não estou me referindo aqui apenas a falar em comícios. Posso dar meu testemunho pessoal. Quando, no verão de 2014, os ativistas do movimento “Pessoas Com Deficiência Contra os Cortes” estavam se acorrentando no “gramado do santuário” na Abadia de Westminster em uma tentativa vã de chamar a atenção da mídia para o fechamento do Fundo de Vida Independente, o que resultaria na morte de ainda mais pessoas com deficiências, McDonnell e eu fazíamos parte da equipe que levava baterias sobressalentes para as suas cadeiras de rodas. Tanto McDonnell como Corbyn apoiam abertamente uma filosofia que insiste em que a mudança social nunca pode vir só da política eleitoral, mas apenas de uma combinação de mobilização política, organização sindical e, como McDonnell colocou uma vez, carinhosamente, “o que antigamente costumávamos chamar de “insurreição”, embora hoje em dia a chamemos polidamente de ‘ação direta’”. Dá para imaginar o horror que se seguiu dentro do establishment político quando essas pessoas foram repentinamente catapultadas para cargos de liderança dentro de um dos dois principais partidos do país. Do ponto de vista deles, não é como se Bernie Sanders assumisse o Partido Democrata. É mais como se tivesse sido anexado por uma combinação de Noam Chomsky com Abbie Hoffman.

Como isso aconteceu? No sentido imediato, a ascensão de Corbyn foi precisamente um produto da estranha bolha conceitual em que a classe política britânica opera. Os picaretas Blairistas que dominam o Partido Trabalhista estavam dispostos a quebrar qualquer poder remanescente dos sindicatos e estavam tão convencidos de que seu senso comum fabricado era, de fato, realmente comum a todo mundo, que decidiram que a melhor maneira de fazer isso seria mudar as regras e permitir que o líder do partido fosse eleito pelo voto popular. Parece nunca ter lhes ocorrido que uma porcentagem significativa de membros de um partido político ainda ostensivamente de esquerda pudesse realmente responder positivamente a valores de esquerda. Na sequência da vitória Tory, McDonnell, pelo menos assim diz a história, conseguiu convencer um número suficiente de deputados Blairistas a apoiar um candidato de esquerda radical à chefia do partido para “ampliar o debate”, o que seria equilibrado do outro lado pela sua própria candidata de Direita pró-negócios, Liz Kendall – uma das favoritas dos “especialistas” ingleses, notoriamente sem-noção. Então, os mesmos delegados assistiram, de queixo-caído, Corbyn obter 59,5% dos votos em uma disputa entre quatro candidatos, o resultado mais avassalador já conquistado por qualquer candidato a lídera trabalhista. (Kendall ficou em último lugar, com 4,5%).

Em um nível, os “especialistas” provavelmente estavam certos: a Corbynmaniaera apenas uma maneira de mandar um foda-se para o establishment. O apelo do sujeito reside em grande parte em uma completa ausência de carisma convencional. Corbyn não tem nenhum talento retórico. Ele simplesmente diz o que pensa. Em um campo político tão corrupto que muitas vezes parece que o espectro moral para as figuras públicas vai mais ou menos do cínico calculista até o molestador infantil, a idéia de que um homem genuinamente honesto poderia concorrer com sucesso para cargos públicos foi uma espécie de revelação. Corbyn está enraizado na tradição socialista, mas lhe faltava qualquer ideologia ou agenda específica. Votar nele era simplesmente votar em um conjunto de valores. Aqueles que o apoiavam sabiam que só depois das eleições começaria o verdadeiro trabalho, de descobrir como (ou mesmo, se) seria possível para políticos e ativistas de rua sinergizar seus esforços sem cooptar ou destruir uns aos outros; que tipo de modelo econômico a esquerda poderia contrapor ao marketing da subordinação de classe dos Conservadores; e como seria a cara de uma “nova política” baseada na participação popular na tomada de decisões. Isso ainda está em disputa, e todo o projeto pode muito bem acabar naufragando terrivelmente, deixando a esquerda totalmente derrotada por muitos anos por vir. Certamente, toda a mídia e o establishment do partido deixaram claro que estão dispostos a fazer quase qualquer coisa para reverter os resultados da eleição de liderança. Mas três coisas dão razão para a esperança.

Primeiro, se um realinhamento geral da política britânica realmente estivesse acontecendo, provavelmente se pareceria com isso. O papel do Banco da Inglaterra é crucial aqui: eles sempre se viram como meio que seguindo à frente dos outros. Entre meados e o final dos anos setenta, o abraço repentino e inesperado do Banco da Inglaterra de modelos econômicos monetaristas abriu o caminho para a revolução thatcherista; e Thatcher, devemos lembrar, era considerada uma insurgente ultrajante dentro de seu próprio partido na época, como Corbyn é considerado agora. Portanto, é possível que um estranho paralelismo estranho esteja em operação.

Em segundo lugar, a nova liderança Trabalhista tem uma rota bastante clara para o poder. A economia atual do Reino Unido está baseada em uma bolha imobiliária mantida artificialmente, e as bolhas invariavelmente estouram. Os Trabalhistas têm quatro anos antes das próximas eleições. A chance de não haver algum tipo de crise econômica nesses quatro anos é infinitesimal. Para os Corbynistas, a tarefa é dupla: primeiro, criar uma narrativa sobre os perigos da dívida privada da mesma maneira que os Tories fizeram sobre a dívida pública, para que os Conservadores sejam firmemente marcados com a culpa (mais fácil, talvez – ou talvez não – porque essa narrativa realmente será verdadeira); e segundo, e mais difícil, permanecer na liderança do Partido Trabalhista, resistindo a qualquer golpe interno dos Blairistas, até que a crise inevitável ocorra.

Finalmente, o próprio fato de que Corbyn tenha algo de tabula rasa inspirou uma investida de visões em disputa, uma concatenação ardente de novos modelos econômicos e políticos disputando por atenção, o que tem começado a revelar quão ricas e diversas podem ser, na verdade, as visões de futuro possível na esquerda. Não é apenas a chegada previsível dos luminares da economia para compor a corte do novo chanceler à sombra – todo mundo, de Joseph Stiglitz e Ann Pettifor, passando por Yanis Varoufakis e Thomas Piketty. Idéias verdadeiramente radicais estão sendo debatidas e propostas. A esquerda deveria perseguir o “aceleracionismo”, forçando as contradições do capitalismo para a frente com um rápido crescimento e desenvolvimento, ou deveria visar uma mudança total de valores e um decrescimento radical? Ou deveríamos avançar na direção do que a Novara, a iniciativa de mídia que emergiu do movimento estudantil de 2010, começou a se referir alegremente como FALC – ou “Fully Automated Luxury Communism” [“Comunismo Luxuriante Totalmente Automatizado”] – encorajando tecnologias como a impressão 3D para buscar um mundo de replicadores no estilo Star Trek onde tudo é grátis? O Banco Central deveria implantar “flexibilização quantitativa para as pessoas”, ou uma política de Renda Cidadã Universal, ou deveríamos seguir o caminho da Teoria Monetária Moderna e de garantias universais de emprego?

Tudo isso está sendo realizado com o conhecimento de que os paradigmas econômicos existentes – mesmo na medida em que não estejam simplesmente sendo mobilizados para justificar políticas projetadas com propósitos puramente políticos – não são mais relevantes para os problemas que a humanidade enfrenta na realidade, na Grã-Bretanha ou em qualquer outro lugar. É verdade, a maioria dos economistas da linha dominante são capazes de ver através de absurdos óbvios, como as justificativas propostas para a austeridade fiscal. Mas a disciplina ainda está tentando resolver o que é essencialmente um problema do século XIX: como alocar recursos escassos de forma a otimizar a produtividade para atender a crescente demanda dos consumidores.

Os problemas do século XXI provavelmente serão totalmente diferentes: como, em um mundo de produtividade potencialmente disparando até o céu e de demanda decrescente por mão-de-obra, será possível manter uma distribuição equitativa sem, ao mesmo tempo, destruir a Terra? O Reino Unido poderia ser o pioneiro para uma tal nova configuração econômica? A nova liderança Trabalhista está fazendo os movimentos iniciais: exigindo novos modelos econômicos (“socialismo com um iPad“) e buscando aliados potenciais na indústria de alta tecnologia. Se realmente estamos caminhando para um futuro de produção descentralizada, em pequena escala, de alta tecnologia e robotizada, é bem possível que as tradições peculiares do Reino Unido da pequena empresa e da ciência amadora – o que nunca a tornou particularmente suscetível aos gigantes conglomerados burocratizados que se desenvolveram tão bem nos Estados Unidos e na Alemanha, nas suas manifestações capitalistas ou socialistas – pode se revelar incomumente apta. É tudo uma aposta colossal. Mas é assim que são as mudanças históricas.

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