23 de março de 2016

Atentados de Bruxelas: não, senhor Primeiro-Ministro!

Michel Collon

Initiative Communiste

Tradução / Ontem, como muitos habitantes de Bruxelas, passei horas a verificar onde se encontravam amigos e familiares. Quem, por falta de sorte, se encontraria nesse maldito metrô, que eu por vezes também utilizo para ir até ao escritório de Investig’Action? Quem, por falta de sorte, se poderia encontrar perto do Starbucks do aeroporto, onde habitualmente tomo um chá, enquanto espero por um voo? Buscas estas angustiantes, uma vez que, evidentemente, a rede telefônica estava completamente saturada.

Ou seja, como muitos habitantes de Bruxelas, vivi, um dia, o que vivem, desde há vários anos, iraquianos, líbios, sírios, e antes deles viveram os argelinos. Pelo fato de ter ido, várias vezes, a locais bombardeados por ocidentais, sei o que parecem esses pedaços de corpos dilacerados, que nunca mais ninguém poderá abraçar. Vi, nesses locais, a dor daqueles a quem privaram, para sempre, de marido, de mulher, de crianças. 

Como muitos habitantes de Bruxelas, chorei e tinha vontade de bater nos criminosos que atacaram tantos inocentes. Mas nenhum de nós nasce criminoso: tornamo-nos criminosos. E a questão mais importante é a seguinte: como é que eles chegaram a esse ponto? Como é possível negar o valor da vida de tantos inocentes, fazê-los sofrer, aterrorizar, em vez de combater a injustiça que nos ataca a todos? Quem intoxicou estes jovens, quem lhes mostrou o exemplo da violência, quem os afundou no desespero e, sobretudo, quem os armou? Criminosos, é certo, mas não serão eles também, de alguma forma, vítimas (mesmo se este termo pode chocar)? 

Quando ouvi o nosso Primeiro-Ministro, Charles Michel, declarar, numa conferência de imprensa, que os belgas tinham de se unir, e que ele evitava, cuidadosamente, a questão central – “Como é que pudemos chegar a este ponto, quem são os responsáveis?” –, fiquei em cólera contra este homem hipócrita que nos propõe, simplesmente, continuar como antes, precisamente num momento em que a pergunta que todos se fazem é: “Como evitar que isto aconteça novamente? Que política aplicar para pôr fim a esta engrenagem infernal?”. 

Será que vocês, senhores dirigentes, acreditam que a vigilância e a repressão impedirão novos atentados? Alguns de vocês, sim, mas não todos: é impossível. Para tal, é necessário mudar de política. A vossa política. 

Einstein dizia: “Não resolvemos um problema com o modo de pensar que o engendrou”. Com efeito, nunca conseguiremos impedir o terrorismo enquanto não debatermos as suas causas profundas, de forma a pôr em prática uma verdadeira prevenção. 

Senhor Primeiro-Ministro Charles Michel, não lhe agradeço, pois você recusou abordar as questões mais importantes: os Saoud e o Qatar financiaram os terroristas? Sim, tal como o dizem os relatórios dos serviços estadunidenses. Os Estados Unidos criaram a Al-Qaida? Sim, tal como o reconheceu Hillary Clinton. A CIA organizou um campo de treino na Jordânia? Sim, tal como o célebre jornalista estadunidense Hersh o provou. Fabius encorajou o terrorismo quando declarou “A Al-Qaida faz um bom trabalho”? Sim, basta ver o vídeo de Marraquexe, de dezembro de 2012.

E, de uma forma geral, não é verdade que os Estados Unidos sempre utilizaram o terrorismo (dito islâmico), desde Ben Laden, no Afeganistão, em 1979, até à Síria, de hoje em dia, passando pela Bósnia, pelo Kosovo, pelo Cáucaso, pela Argélia, pelo Iraque, pela Líbia e por tantos outros países? Não é verdade que deveríamos criar de urgência uma comissão de inquérito sobre as ligações entre os EUA e o terrorismo, e sobre as causas estratégicas de todos estes dramas? Você, senhor Michel, e a Europa, será que vocês continuarão a seguir Washington como um cachorrinho? Você felicita-se como uma criança quando o Obama lhe telefona. Mas por que razão você, senhor Michel, não denuncia a hipocrisia por detrás destas guerras? Senhor Michel, quando eu penso em todo este sofrimento que poderia ter sido evitado, não lhe agradeço. 

É verdade que você não é o único a não dizer o que deve ser dito.

Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros Didier Reynders, também não tenho nada para lhe agradecer. Você declarou, ontem, que os terroristas atacam o “nosso modo de vida”. Exatamente as mesmas palavras que Geogre W. Bush utilizou no 11 de setembro, antes de atacar o Iraque e o Afeganistão, sob pretextos mentirosos. Senhor Reynders, por que razão você não relembrou a declaração que fez, em abril de 2013, declarando o mérito “destes jovens a quem construiremos, talvez, um monumento, homenageando-os como heróis de uma revolução”? 

Por que razão quando eu o convidei, em junho de 2013, a participar num debate “Jovens na Síria, como impedi-los de partir?”, você recusou o convite? Esta questão não o preocupava? Você não acha que, para “mudar de regime”, como você próprio diz, todos os meios são bons, mesmo o terrorismo? Você não pensou no facto de que, ao encorajá-los a cometer tais atos fora das nossas fronteiras, alguns deles fariam o mesmo aqui? Senhor Reynders, não lhe agradeço. 

Senhora Milquet, também não lhe agradeço absolutamente nada. Você era Ministra do Interior nessa época. Também você recusou participar naquele debate, apesar da nossa insistência, mudando constantemente o pretexto! Desde então, você não diz nada. Incomodada pelo facto de se ter feito de surda face aos gritos de aflição de mães angustiadas que viam os seus filhos – eram, de facto, miúdos de 16, 17 e 18 anos – partir para o inferno, sem que a Bélgica fizesse o que quer que fosse para o impedir. Você não tem remorsos, vendo o que aconteceu? Senhora Milquet, não lhe agradeço. 

Não acham que é o momento de abrir um grande debate sobre as consequências da política internacional levada a cabo pela Bélgica, desde há vários anos? 

1. A Europa deve continuar a seguir os Estados Unidos e a sua política que põe o Médio Oriente a ferro e sangue? 

2. A Bélgica deve continuar a apoiar a violência de Israel, recusando, assim, o respeito pelo direito internacional e continuando a tratar de “antissemitas” os jovens que apoiam os direitos dos palestinos? 

3. Será que a Bélgica deve continuar a curvar-se perante os petrodólares dos Saoud (roubados aos povos árabes, e sem que o dinheiro do petróleo e do gaz fossem utilizados para combater a pobreza, como é feito na América latina), quando toda a gente sabe que esses mesmos Saoud financiam a intoxicação dos jovens espíritos através de uma versão envenenada e falsificada do Islão? 

4. Como justificar a recusa do direito de asilo às vítimas das “nossas” guerras no Iraque, na Síria e no Afeganistão? 

5. Quando é que, finalmente, será aberto o dossier sobre a intervenção “humanitária” na Líbia, onde a NATO se aliou à Al-Qaida para destruir Kadhafi, violando a Carta da ONU, a qual interdita este gênero de práticas (com a consequência que podemos ver hoje em dia: a Líbia transformada em lar do terrorismo internacional)? 

Será que não deveríamos abrir, ao mesmo tempo, um grande debate sobre as consequências da política social – ou melhor, antissocial –, levada a cabo pelos governos belgas, desde há vários anos? 

1. Será possível continuar a destruir incessantemente os orçamentos escolares, fabricando escolas-parques de estacionamento, não formando adequadamente os professores e não fornecendo os meios necessário às escolas para fazer face a tantas questões complexas sobre o mundo de hoje em dia?

2. Será possível continuar a destruir incessantemente os orçamentos das prisões e da reinserção (o que tem como consequência que pequenos delinquentes se tornem grandes delinquentes irrecuperáveis)?

3. Será possível continuar a destruir incessantemente os orçamentos dos meios de comunicação audiovisuais públicos (o que tem como consequência o facto de os jornalistas não terem tempo para aprofundar os temas sobre os quais trabalham – confidências estas recebidas do interior da RTBF –, ficando condenados ao reino do copiar-colar e da fast information [informação rápida]? Facto este, aliás, que empurra jovens, desconfiados, para teorias do complot, ou, ainda pior, para pregadores fanáticos e para recrutadores sem escrúpulos?

4. Será possível continuar a entregar presentes aos bancos e às multinacionais, que praticamente não pagam impostos, e a levar o deficit para as comunas3, cujos responsáveis são privados dos meios necessários para ajudar os jovens? Não é desta forma que se produzem comunas de desespero como Molenbeek (pensemos não apenas em Molenbeek, mas igualmente em Vilvorde, Verviers, Anvers, e não esqueçamos que os “eurojihadistas” provêm de numerosos países europeus)?

5. Tendo em conta tudo isto, será que nos devemos surpreender pelo facto de tantos jovens (que, quando eram assinalados à polícia, muito frequentemente pais e educadores diziam: “Que eles partam para a Síria! O que nós não queremos é que eles voltem para cá!”) caírem entre as mãos de recrutadores profissionais?

6. Tendo em conta tudo isto, será que vocês, senhores dirigentes, têm o direito de estar surpreendidos pelos atentados de Paris e de Bruxelas, quando antes o alarme já tinha sido dado e todos vocês recusaram ouvir aqueles que estavam dando o alarme? Ontem, os pais temeram pelos seus filhos. Hoje, todos nós nos interrogamos sobre a educação que é necessário dar aos nossos filhos neste mundo, cada vez mais violento. Será que vamos conseguir oferecer-lhes uma educação e um futuro? Amanhã, que cidade será atacada? O crescimento do ódio e do medo, tendo como alvo os muçulmanos, faz o jogo da extrema-direita. É isso, senhores dirigentes, que vocês querem? 

Concluamos. Os atentados não constituem uma fatalidade, antes sendo o resultado de uma política conduzida por Washington, depois por Londres e por Paris. Bruxelas sempre a seguiu servilmente. Senhores dirigentes, vocês são todos corresponsáveis. Será que temos o direito de debater – em “democracia” – ou vocês vão, uma e outra vez, utilizar pressões para que os meios de comunicação se silenciem?

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