25 de março de 2016

Bernie Sanders e o fardo do império

Rob Urie

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Créditos: Juli Hansen / Shutterstock.

Um dos principais desafios para as políticas econômicas de esquerda é que toda a infra-estrutura ocidental foi arquitetada para servir aos objetivos do imperialismo capitalista. Hillary Clinton ou Ted Cruz podem encaixar seus programas nos quadros nacionais e globais do capitalismo militarizado, porque afinal eles se enquadram nestas lógicas e formas de organização. Poucos dos adeptos das campanhas de um ou de outro esperariam, após eleição vitoriosa, que um cenário de justiça econômica de repente prevalecesse, que as guerras por recursos diminuiriam, que a defesa do meio ambiente seria priorizada frente aos ganhos econômicos concentrados ou que a reconciliação racial seria finalmente priorizada.

Em um sentido muito pragmático, a luta se dá entre o otimismo coerente e a sombria resignação diante da ideia de que a morte, a ganância e destruição são fundamentos inexoráveis da existência humana. O pano de fundo institucional não é, em qualquer sentido, um árbitro neutro. É, na verdade, o produto de uma identidade ocidental fundada sobre guerras e conflitos, como se fossem fatos da natureza, ao invés de uma determinação humana. Essa identidade se alimenta do medo fabricado, reflexivamente se opõe à perspectivas sociais alternativas e, com isso, confronta os esforços para forjar um caminho diferente para a humanidade. A escolha política, assim, se estabelece entre trabalhar dentro deste conjunto estabelecido de restrições sociais ou lutar por uma auto-determinação humana que busque nova direção e que provenha de fora do status-quo.

Como dispositivo das relações sociais estabelecidas, a política eleitoral reflete as escolhas que suportam essas relações. Estrategicamente, o momento para o programa de Bernie Sanders seria 2009, não 2016. O sucesso dos poderes estabelecidos, que apenas evidencia a natureza defensiva da identidade ocidental, foi ter evitado um colapso total (seja lá o que isso signifique) depois de 2008. A crise social foi resolvida através de uma recuperação dos mesmos mecanismos que fabricaram a própria crise. A conclusão? Qualquer programa que realmente pretenda produzir mais do que reformas superficiais (que rapidamente se reverteriam nas prerrogativas institucionais existentes) deve enfrentar não apenas as prerrogativas, mas as próprias instituições que fundamentam essas prerrogativas.

Uma das tensões abstratas em evidência é a representação contra a participação, que podem ser entendidas enquanto formatos de democracia concorrentes. Em ambos os casos, é necessário destacar qual a população política de interesse. Hillary Clinton e os republicanos prometem representação competente, enquanto Bernie Sanders oferece um "processo" participativo que alude a uma população mais ampla, embora ainda apenas parcialmente definida. A política econômica que todos pretendem alavancar é um sistema de apadrinhamento que funcione como um artefato de organização “natural” das intersecções entre Estado e economia. E as deficiências de todas estas campanhas giram em torno do seu papel imperial e em como ele se relaciona com determinadas comunidades, de acordo com as concepções apresentadas por cada candidato.

Em termos menos abstratos, quando Hillary Clinton recentemente abordou o AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel) ela sinalizou que representa a pequena comunidade de apoiadores do Estado de Israel, o que apenas mostra sua afinidade com as últimas quatro décadas de política externa norte-americana, com a história imperial ocidental, com o militarismo dos Estados Unidos e com os interesses estreitos da extrema-direita israelense. Clinton está se colocando a frente enquanto representante dos interesses do império, independente se a história vai ou não concordar com ela. Populações significativas de Chicago, de Detroit, da Filadélfia e de outras grandes cidades americanas encontram-se do lado errado deste alcance imperial tanto quanto os palestinos que vivem sob a ocupação israelense. Bernie Sanders atravessa este paradoxo sem explicitamente definir o alcance da sua ”comunidade” imperial.

Este paradoxo é expresso como uma contradição política em torno do que é proposto (e, de forma limitada, realizado) por Sanders, entre as políticas nacionais e sua política externa imperialista. No caso da democrata Hillary Clinton, observamos uma junção entre os interesses da Goldman Sachs e do Bank of America com os de regimes de extrema-direita em todo o mundo, incluindo Israel. Neste contexto, não é coincidência que o democrata Barack Obama tenha orquestrado o maior aumento na venda de armas desde a Segunda Guerra Mundial, além de ter apoiado Wall Street através de garantias e resgates maciços. Assim, temos que os interesses de classe que são debatidos dentro de limites nacionalistas não passam de nacionalismo econômico. E os capitalistas globais se beneficiam do nacionalismo econômico, pois eles mantém os interesses da classe trabalhadora transnacional escondidos atrás de fronteiras artificiais.

Seja ou não “pragmática” a escolha de Bernie Sanders por concorrer pelo partido democrata, tudo depende de quais são seus objetivos finais. É quase um cliché afirmar que o capital internacional prefere ambientes politicamente repressivos a fim de manter trabalhadores enfraquecidos e dependentes. O lado menos óbvio é o pronto fornecimento de clientes para os armamentos militares e técnicas de repressão que o imperialismo oferece. Simplesmente não é possível separar política interna de política externa em um mundo no qual as relações entre economias e Estados são globalizadas. Hillary Clinton é uma dedicada imperialista e os supostos “progressistas” que a apoiam precisam fazer um acordo com o diabo quando tentam dissociar o apoio de Hillary a Wall Street de sua política externa predatória e de suas políticas carcerárias oportunistas (e estruturalmente racistas). O esforço de Bernie Sanders para manter suas opções em aberto não apenas subestima a influência da interrelação entre Estado e poder econômico sobre a política interna, mas também implica notório paradoxo no que tange às suas políticas externas.

Este problema foi enquadrado por liberais que criticavam o purismo ideológico da esquerda, destacando a importância de um olhar global sobre as relações econômicas. Os tratados comerciais que o establishment democrata têm sido tão eficaz em promulgar servem para proteger seu poder econômico por meio de acordos legais assimétricos, como tribunais de investidores que solidificam patentes e outros mecanismos jurídicos para garantir a extração de renda econômica. Democratas desse establishment argumentam que os tratados beneficiam as corporações “norte-americanas”, partindo do pressuposto de que essas corporações ganham mais explorando o trabalho e os mercados em outros lugares do mundo.

Bancos norte-americanos "criam" dinheiro através de empréstimos, o que os coloca na intermediação da distribuição capitalista e lhes confere controle sobre o que é financiado. A substância "política" desta relação pode ser vista mais diretamente através de programas do FMI como a tomada da Grécia por credores corruptos. Uma estratégia relacionada pode ser observada nas recompras de ações que são financiadas pela dívida. Corporações pedem emprestado a fim de comprar ações que elevam seu preço para que os executivos possam vender seu próprio estoque a um preço superior. Quando a conta chega, os executivos têm os recursos em seus bolsos, enquanto o trabalho é comprimido para pagar a dívida.

Sanders articula sobre as dimensões de classe "nacionais" deste sistema de apadrinhamento, isto é, o Estado como expressão dos interesses capitalistas, mas sem expandir de forma eficaz uma análise do capitalismo global. A criação de um império "mais gentil", deixando intactas as principais alavancas do imperialismo capitalista (como as corporações multinacionais e a atividade bancária capitalista) significa ignorar como elas se tornaram centrais para a economia política ocidental em primeiro lugar. Não foi a natureza que as trouxe. Elas cresceram através da integração do Estado e do poder econômico. Essas relações se tornam mais visíveis no programa de Hillary Clinton, em que se observa um militarismo reforçado combinado com um corporativismo de Estado que se implementa através de um sistema de alianças internacional e garante uma extensa rede de repressão. Os EUA lideram a "comunidade internacional" da repressão carcerária.

A questão de por que esses poderes político-econômicos globais concordariam com a vontade política do eleitorado norte-americano é deixada sem solução. Fica em aberto como Sanders seguiria com seu programa. Em 2009, Barack Obama estava em posição de ressurgir com um estilo New Deal de “gestão” do capitalismo, do tipo que Sanders agora sugere, mas ele dedicou seus esforços a reconstruir o sistema de clientelismo que fundamenta o establishment democrata e reconstruiu a infra-estrutura de base do imperialismo capitalista.

Em contraste com Hillary Clinton e com os candidatos republicanos, Bernie Sanders é a última e melhor esperança de reviver o modelo FDR de New Deal capitalista. O argumento pragmático de tornar progressivamente melhor a vida dos trabalhadores (norte-americanos) ignora soluções mais abrangentes e contempla o coração do programa de Sanders. Com lapsos notáveis como a discriminação racial nas políticas de habitação e de educação, FDR mitigou os entraves econômicos da população nacional, enquanto o imperialismo americano corria solto por cima das vidas de seus súditos imperiais ao redor do globo. Além disso, o amálgama pragmático que FDR estabeleceu exigia marcos históricos como a existência de uma alternativa plausível para o capitalismo (sob a forma de uma robusta União Soviética) e, simultaneamente, uma população norte-americana pronta para levar suas ações até as últimas consequências caso FDR não tivesse tocado as reformas necessárias.

Isto não significa sugerir que Sanders é tão míope que não possa entender, de um modo geral, toda esta situação. No entanto, em contraste com as lendas de um capitalismo mitológico, a realocação de riqueza tem desempenhado um papel de igual ou maior importância na acumulação capitalista do que objetivamente a mera “criação” de riqueza. Aquele capitalismo “fictício” resume “riqueza” a produção econômica através do sistema monetário. Mas os capitalistas norte-americanos sabem já há algum tempo que a rota mais fácil de “aquisição” de riqueza real na forma de produto econômico passa pelo imperialismo econômico apoiado por recursos estatais. Assim, sabe-se que grande parte da generosidade americana "partilhada" que firmou o capitalismo sob o New Deal de Roosevelt só foi possível através de políticas externas imperialistas. O boom econômico do "pós-guerra" se deu em grande parte porque os "vencedores" das Guerras Mundiais passaram a exercer controle sobre os recursos econômicos que antes motivaram as próprias guerras. Nesse sentido, acabar com a cultura do consumo de bens supérfluos é um passo fundamental para unir os interesses de classe para além das fronteiras nacionais.

O programa de Sanders poderia funcionar, mas não tal qual é atualmente concebido. Para seu crédito, Sanders parece se entender mais como um veículo para a re-emergência política da esquerda do que como seu protagonista de fato. A resistência necessária contra o imperialismo capitalista é um movimento mundial dos trabalhadores, que exigiria de Sanders uma abordagem mais ampla das dimensões imperiais de seu programa econômico populista. Não existe a perspectiva de um movimento desse tipo no horizonte. E é improvável qualquer tipo de capitulação voluntária das forças do capitalismo global sem um movimento como tal. Um ponto de partida poderia ser a persistência e o crescimento de um movimento de esquerda global depois que Sanders for derrotado pelo establishment democrata. É interessante notar que a jogada mais inteligente desse establishment seria deixar Sanders vencer e, em seguida, neutralizar seu programa através de "reformas". Mas as probabilidades indicam que não é isso que tende a acontecer.

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