2 de março de 2016

A vingança das classes baixas e a ascensão do fascismo americano

Chris Hedges


Créditos: Andrew Harnik/AP.

Tradução / As elites de formação universitária executaram, em nome das corporações, o assalto neoliberal sobre os trabalhadores pobres. Agora elas estão sendo levados a pagar. Sua hipocrisia – encarnada em políticos tais Bill e Hillary Clinton e Barack Obama – teve êxito durante décadas. Os membros dessas elites, muitos dos quais estudaram nas grandes universidades da Costa Leste, falaram a língua de valores – civilidade, inclusão, condenação do racismo e intolerância abertos, preocupação com a classe média – enquanto enfiavam uma faca nas costas das classes empobrecidas, para alegria de seus chefes nas grandes corporações. Esse jogo pode estar no fim.

Dezenas de milhões de americanos, especialmente de brancos das classes trabalhadoras, estão enfurecidos com razão, diante do que foi feito para eles, suas famílias e suas comunidades. Eles se levantaram contra as políticas neoliberais e o politicamente correto que lhes são impostos pelas elites com formação superior dos dois partidos políticos. Os brancos das classes trabalhadoras estão abraçando um fascismo americano.

Esses americanos desejam um tipo particular de liberdade – a liberdade de odiar. Desejam a liberdade de usar palavras como “nigger”, “kike”, “spic”, “chink”, “raghead” e “fag”. Querem a liberdade de ter inimigos, de atacar fisicamente muçulmanos, trabalhores ilegais, afro-americanos, homossexuais e qualquer um que se atreva a criticar seu fascismo enrustido. Querem a liberdade para celebrar figuras e movimentos históricos que as elites com educação universitária condenam, incluindo a Ku Klux Klan e Confederação. Desejam a liberdade para ridicularizar e desprezar intelectuais, ideias, ciência e cultura. Querem a liberdade de silenciar aqueles que vêm dizendo a eles como se comportar. E desejam a liberdade para regozijar-se em hipermasculinidade, racismo, sexismo e patriarcalismo branco. Esses são os sentimentos nucleares do fascismo. Esses sentimentos são engendrados pelo colapso do Estado liberal.

Os democratas estão jogando um jogo muito perigoso, ao ungir Hillary Clinton como sua candidata à presidência. Ela simboliza a hipocrisiadas elites com formação superior, aquelas que falam a suave linguagem de sinto-sua-dor de homens e mulheres comuns, que brandem a bíblia do politicamente correto, enquanto entregam os pobres e a classe trabalhadora ao poder corporativo.

Os republicanos, energizados pela versão americana de astro real do Duce, Donald Trump, têm atraído eleitores – especialmente novos eleitores – enquanto os democratas estão bem abaixo do comparecimento às prévias que obtiveram em 2008. Na votação de terça-feira, 5,6 milhões de votos foram dados aos democratas, enquanto 8,3 milhões foram para os republicanos. Esses números são virtualmente opostos aos de 2008 – 8,2 milhões para os democratas e cerca de 5 milhões para os republicanos.

Richard Rorty, em seu último livro, Achieving Our Country (Conquistando nosso país, em tradução livre), escrito em 1998, advertiu para onde caminhava nossa nação pós industrial.

“Vários autores de política socioeconômica avisaram que as velhas democracias industrializadas estavam se dirigindo a um período tipo Weimar, daqueles em que movimentos populistas têm a probabilidade de derrubar governos constitucionais. Edward Luttwak, por exemplo, sugeriu que o fascismo pode ser o futuro dos Estados Unidos. O foco do seu livro The Endangered American Dream (O Sonho Americano em Perigo, em tradução livre) é que membros de sindicatos de trabalhadores e trabalhadores não especializados desorganizados irão, mais cedo ou mais tarde, dar-se conta de que seu governo não está sequer tentando evitar que os salários afundem ou que os empregos sejam exportados. Mais ou menos ao mesmo tempo, eles perceberão que trabalhadores suburbanos de colarinho branco – eles próprios desesperadamente temerosos de ser rebaixados – não vão aceitar tributos para prover benefícios para mais ninguém. 
A esta altura, algo irá romper-se. O eleitorado que não pertence às elites decidirá que o sistema fracassou e começará a procurar um homem forte em quem votar – alguém que deseje assegurar que, uma vez eleito, os burocratas presunçosos, advogados ardilosos, vendedores de ações superassalariados e professores pós modernistas não estarão mais dando as cartas. Um cenário como aquele do romance It Can’t Happen Here (Isso não Pode Acontecer Aqui, em tradução livre) pode então acontecer. Pois uma vez que um homem forte assuma o poder, ninguém pode prever o que acontecerá. Em 1932, a maioria das previsões feitas sobre o que aconteceria se Hindenburg nomeasse Hitler chanceler eram incrivelmente hiper-otimistas. 
Uma coisa que muito provavelmente acontecerá é que os ganhos acumulados nos últimos quarenta anos pelos americanos negros e latinos, e pelos homossexuais, serão varridos. O desprezo jocoso pelas mulheres voltará à moda. As palavras “nigger” e “kike” serão novamente ouvidas nos locais de trabalho. Todo o sadismo que a esquerda acadêmica tentou tornar inaceitável para seus estudantes voltará numa enchente. Todo o ressentimento que os americanos pouco educados sentem por ter seu comportamento ditado pelos graduados em universidades encontrará um escape.”

Os movimentos fascistas não construíram sua base com quem é ativo politicamente, mas com os politicamente inativos – os “perdedores” que sentem, em geral corretamente, que não têm voz ou papel a desempenhar no establishment político. O sociólogo Émile Durkheim alertou que a privação de direitos de uma classe de pessoas das estruturas da sociedade produz um estado de “anomia” – uma “condição na qual a sociedade oferece pouca direção moral aos indivíduos.” Aqueles capturados nesta “anomia”, escreveu ele, são presas fáceis da propaganda e movimentos de massa conduzidos pela emoção. Hannah Arendt, ecoando Durkheim, observou que “a característica principal do homem das massas não é brutalidade e atraso, mas seu isolamento e falta de relações sociais normais”.

No fascismo, os desqualificados e desengajados politicamente, ignorados e injuriados pelo establishment, descobrem uma voz e um senso de empoderamento.

Como Arendt observou, os movimentos fascista e comunista na Europa nos anos 1930 “... recrutaram seus membros junto à massa de pessoas aparentemente indiferentes, das quais todos os outros partidos haviam desistido por serem muito apáticos ou muito estúpidos para merecer sua atenção. O resultado foi que a maioria de seus membros consistiu de pessoas que nunca haviam aparecido antes na cena política. Isso permitiu a introdução de métodos inteiramente novos na propaganda política, e indiferença aos argumentos dos opositores políticos. Esses movimentos não apenas se colocaram de fora e contra o sistema de partidos políticos como um todo; eles foram capazes de uma associação que nunca havia sido alcançada e que nunca foi desfeita pelo sistema partidário. Eles não precisavam refutar os argumentos dos opositores e preferiam, consistentemente, métodos que terminavam em morte, em vez de persuasão, que difundiam terror em vez de convicção. Apresentavam invariavelmente a discórdia como algo que tinha em fontes profundamente naturais, sociais ou psicológicas, além do controle do indivíduo e portanto além do controle da razão. Isso teria sido uma lacuna caso eles tivessem entrado em debate com os demais partidos e ideias; mas não quando atraíam pessoas com razões para ser igualmente hostis com relação a todos os partidos.”

O fascismo apoia-se e avança graças à apatia daqueles que estão cansados de ser enrolados e enganados por um establishment liberal falido, que apresenta como única razão para votar em um político, ou apoiar um partido, a necessidade de eleger o menos pior. Isso, para muitos eleitores, é o máximo que Hillary Clinton pode oferecer.

O fascismo expressa-se por símbolos religiosos e nacionais reconfortantes, razão pela qual ele se manifesta em formas e variedades diversas. O fascismo italiano, que buscou no passado a glória do Império Romano, por exemplo, nunca compartilhou o amor dos nazistas pelos mitos teutônicos e nórdicos. O fascismo americano também buscará no passado credos, narrativas e símbolos patrióticos tradicionais.

Robert Paxton escreveu em A Anatomia do Fascismo:

“O linguajar e os símbolos de um autêntico fascismo americano não teriam, é claro, muito a ver com os modelos europeus originais. Teriam de ser tão familiares e encorajadores para os americanos sinceros como a linguagem e os símbolos dos fascismos originais o foram para muitos italianos e alemães, segundo sugeriu [George] Orwell. Um fascismo americano não terá suásticas, mas listras e estrelas (ou estrelas e barras de ferro...), além de cruzes cristãs. Não terá saudações fascistas, mas declamações, em massa, da promessa de fidelidade ao país. Estes símbolos não contêm em si mesmos, é claro, nenhum sopro de fascismo, mas um fascismo americano os transformaria em teste obrigatório para a detecção do inimigo interno.”

O fascismo tem a ver com um líder inspirado e aparentemente forte, que promete renovação moral, restauração da glória e vingança. Tem a ver com a substituição do debate racional pela experiência sensorial. É por isso que as mentiras, meias mentiras e invenções de Trump não perturbam seus seguidores. Os fascistas transformam a política, como notou o filósofo e crítico cultural Walter Benjamin, em estética. E a estética suprema, para os fascistas, dizia Benjamin, é a guerra.

Paxton assinala a ideologia amorfa que caracteriza os movimentos fascistas.

“O fascismo não se apoiou na verdade de sua doutrina, mas na união mística do líder com o destino histórico de seu povo (uma noção relacionada às ideias românticas de florescimento nacional e de gênio artístico ou espiritual de indivíduos), ainda que o próprio fascismo negasse a exaltação romântica da criatividade pessoal. O líder fascista desejava reunir seu povo numa esfera mais alta de política que seria experimentada por meio dos sentidos: o calor de pertencer a uma raça, agora consciente por inteiro de sua identidade, destino histórico e poder; a excitação de participar de uma onda de sentimentos compartilhados, e de sacrificar seus pequenos interesses pelo bem do grupo; e a emoção de dominar.”

Só resta uma saída para interromper o ímpeto ao fascismo amalgamado em torno de Trump. É construir, tão rápido quanto possível, movimentos ou partidos que declarem guerra ao poder das corporações, envolvam-se em atos persistentes de desobediência civil e busquem reintegrar os desprotegidos – os “perdedores” – na vida política e econômica do país. Este movimento nunca partirá do Partido Democrata. Se Hillary vencer, na disputa final, Trump pode desaparecer, mas os sentimentos fascistas irão se expandir. Outro Trump, talvez mais torpe, será vomitado das entranhas de um sistema político decadente. Estamos lutando por nossa sobrevivência política. O poder corporativo e as elites já provocaram enorme dano à democracia. Quanto mais esta elite, que supervisionou a desmontagem do país em nome das corporações – que acreditam, assim como Leslie Moonves, diretor-executivo da CBS, que Trump pode ser até péssimo para a América, mas pelo menos ampliará os lucros das grandes empresas – permanecer no comando, pior vai ficar.

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