21 de março de 2016

Como as Olimpíadas do Rio podem consolidar um golpe no Brasil

Escândalos envolvendo a elite do país não estão tocando as Olimpíadas de 2016. Isso pode muito bem ser proposital

Dave Zirin


Charles Dharapak / AFP Photo / Pool

Tradução / Há uma narrativa midiática febril sendo contada atualmente a respeito do Brasil: uma narrativa com duas histórias existindo no mesmo lugar, que ainda assim são tratadas como dramas paralelos. Uma aborda a confusão de corrupção envolvendo a estatal de petróleo, e é conhecida como o Escândalo da Petrobras ou Operação Lava Jato. Essa investigação, ao lado de um inquérito sobre manipulação ilegal do orçamento público, ameaça derrubar o governo da presidente Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores (PT), governo que comandou a maior nação da América Latina pelos últimos 12 anos. Apesar de existirem evidências de centenas de milhões em propinas, envolvendo cada ator do sistema político, a mídia e as investigações fecharam o foco no PT.

A outra narrativa envolve uma expectativa sobre como o Rio de Janeiro vai sediar as Olimpíadas dado o nível do tumulto, sem mencionar como a cidade vai lidar com as construções inacabadas, a água fétida e o medo do zika vírus.

Ainda assim, a história que nós estamos deixando passar é sobre como essas narrativas podem se conectar e assim construir o apoio necessário para o que o jornalista morador do Rio de Janeiro Glenn Greenwald chamou de “golpe judicial”, organizado por uma classe dominante totalmente corrupta, que derrubaria o Partido dos Trabalhadores e colocaria um novo governo, de direita, no poder. A verdadeira história pode ser sobre como as investigações focaram intensamente na Operação Lava Jato e escândalos de corrupção e não nas Olimpíadas, mesmo com as duas coisas ligadas aos mesmos monopólios mercenários de construção. Pode ser que isso ocorra porque qualquer investigação sobre as corrupções nas Olimpíadas estariam centradas em um partido político diferente, que agora espera nos flancos para tomar o poder. Trata-se de um grupo de centro chamado Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), ao qual pertencem o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador, Luiz Fernando Pezão. Eles dominam o Rio. Como Theresa Williamson, diretora da ONG Catalytic Communites, disse “As Olimpíadas foram organizadas por uma coalizão municipal/estadual que mal inclui o PT”.

Para entender por que isso está acontecendo agora, por que a direita se sente tão confiante, e como o Partido dos Trabalhadores abriu a porta para os seus inimigos, é preciso começar pela presidência do outrora pobre jovem trabalhador fabril, Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2011, Lula deixou o cargo depois de dois mandatos, nas palavras do presidente Obama, como o “político mais popular do planeta”. Suas taxas de aprovação eram guiadas por uma economia que crescia 10% ao ano devido a investimentos internacionais maciços no mercado de ações brasileiro, o confisco de Lula de terras de nativos para o desenvolvimento, e a expansão da perfuração de petróleo. Esse modelo neoliberal conduzido por um herói popular da esquerda inspirou os economistas a chamarem Lula de “O presidente preferido do FMI”. O Financial Times estava tão embasbacado que chegou a sugerir que ele fosse indicado para dirigir o Banco Mundial. Isso era difícil de engolir para muitos dos seus apoiadores, especialmente os milhares que foram expulsos do Partido dos Trabalhadores por perturbar essa agenda. Ainda assim, Lula manteve uma base de apoio poderosa ao investir as divisas do mercado de ações em programas de combate à pobreza e no aumento do salário mínimo, o que garantiu mudanças reais nos altos níveis de pobreza e desigualdade do Brasil. Lula também usou sua influência para passar leis que empoderavam o judiciário no combate a uma corrupção endêmica e duradoura das classes dominantes brasileiras – leis que são usadas hoje contra o Partido dos Trabalhadores.

O auge do milagre de Lula era assegurar que tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas seriam sediadas pelo Brasil em sequência, em 2014 e 2016. As Olimpíadas em particular foram tratadas como uma grande conquista de um país que por muito tempo se sentiu desrespeitado no cenário internacional. Sobre sediar os jogos, Lula disse, “Hoje eu me senti mais orgulhoso de ser brasileiro do que em qualquer outro dia. Hoje foi o dia que o Brasil ganhou sua cidadania internacional. Hoje foi o dia que nós superamos os últimos vestígios de preconceito contra nós. Eu acho que este é um dia para comemorar porque o Brasil deixou pra trás sua condição de país de terceiro mundo e conquistou a posição de país de primeiro mundo. Hoje nós conquistamos o respeito. O mundo finalmente reconheceu que é a vez do Brasil”.

Trazidas aos dias de hoje, essas palavras têm um ar de tragédia. A Copa do Mundo foi recebida com protestos de larga escala, arraigados na percepção da população de que se estava construindo grandes e desnecessários estádios enquanto necessidades básicas como saúde e educação eram ignoradas, ao mesmo tempo em que a economia estagnava. Essas manifestações tinham origens políticas variadas dependendo da região: algumas eram de direita e clamavam abertamente por intervenção militar; outras eram conduzidas por socialistas e ex-membros do Partido dos Trabalhadores. Majoritariamente, os manifestantes era jovens de classe média. Agora, com o preço do petróleo em baixa e a economia brasileira em queda livre, diminuindo 4% já este ano, as forças políticas de direita e o grande capital enxergam este como o momento para atacar, apreendendo Lula em sua própria casa e o conduzindo até o quartel da polícia para interrogatório. O mercado de ações brasileiro na verdade subiu com a notícia de sua detenção; seu status como o líder preferido do FMI claramente é algo do passado.

O ativista socialista morador de São Paulo, Dylan Stillwood resumiu:

“Até agora, Dilma passou todo o seu segundo mandato tentando desesperadamente apaziguar cada facção da classe dominante e da direita institucional. Esse esforço por uma aliança falhou. Por muito tempo, o governo do PT consistiu em um pacto onde os investidores lucravam muito e as ruas permaneciam em silêncio graças às reformas progressivas e a noção geral de que a esquerda estava no poder. Esse modelo foi um estrondoso sucesso durante uma década. Localmente, seus maiores parceiros no crime eram as indústrias pesadas, prestadoras de serviços para o estado, especialmente as quatro gigantes da construção – Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – além de grandes empresas privadas ou de economia mista e a Petrobras. Elas exibiam seus bebês: grandes projetos como a represa de Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco, e a Copa do Mundo e as Olimpíadas deveria consagrar mundialmente sua glória. Tudo isso está arruinado e o pacto terminado. O sistema está em crise, econômica e politicamente, e o PT já não serve a nenhum propósito para o grande capital. Fazer deles um bode expiatório é um conveniente grito de guerra para um novo movimento de direita.”

O Partido dos Trabalhadores não está atraindo milhões de defensores às ruas, em parte porque há uma insatisfação em massa com o status quo, e em parte porque a Copa do Mundo e as Olimpíadas evidenciaram as dificuldades e simbolizaram um governo lamentavelmente desconectado da realidade. Ainda assim, o que tem sido mais crítico para a falta de apoio ao Partido dos Trabalhadores é a inabilidade da presidente Dilma de cumprir suas promessas de campanha, que envolviam expandir os gastos sociais e as liberdades civis. Ao invés disso, como Sean Purdy, um professor na Universidade de São Paulo, escreveu na revista Jacobin, Dilma fez o caminho inverso, e aprovou “cortes maciços no sistema de saúde, educação, bem estar social e fundos de pensão, junto com uma lei anti-terrorismo que pode criminalizar o contraditório e os movimentos sociais”.

Como resultado, agora 68% do país quer que Dilma seja impedida ou renuncie do cargo. Mas o que está aguardando nos flancos é muito sombrio, muito assustador, e está se organizando. Sim, a própria lei anticorrupção assinada por Lula está sendo usada contra o PT e pode acabar sendo usada para aprisionar o próprio Lula, e sim, o homem está longe de ser o santo dos sonhos dos seus cada vez mais escassos apoiadores. Ainda assim, essa é apenas uma frente de ataque. A investigação foi combinada com uma ofensiva coordenada pelo maior grupo de mídia do país, a fábrica de ideias de direita, Rede Globo. Essa Fox News bombada incitou demonstrações maciças de insatisfação. Os protestos ocorridos na semana passada levaram milhões de pessoas às ruas. Chuck Todd, da NBC, tuitou uma foto com a legenda “O povo versus a presidente”. Mas que povo? As manifestações decididamente tiveram um caráter direitista e militarista. Sim, muitos nas ruas são alimentados por ideias de corrupção na política. Mas muitos outros estão abertamente chamando por uma intervenção militar. Em um país onde isso era uma realidade poucas décadas atrás, é uma ameaça perigosa.

A direita está tentando tirar vantagem da atmosfera para criar um tipo de Estado que tem mais em comum economicamente com o febril sonho neoliberal de Pinochet no Chile do que com o atual estado de bem estar social, por mais que falho. Isso é visto em uma das organizações que estão no coração dos protestos, o Movimento Brasil Livre. Como a jornalista freelancer moradora do Rio de Janeiro, Catherine Osborn, reportou, esse grupo “foi fundado por membros e ex-membros de outro grupo que estava se espalhando depressa no país: o Estudantes Pela Liberdade”. Eles “são favoráveis à redução de gastos públicos, privatização de companhias estatais e diminuição da regulação do estado”. E recebeu financiamento do bilionário de direita norte-americano Charles Koch. Essa familiaridade com Koch nos protestos foi exemplificada em uma foto viral de dois manifestantes, uma mulher branca e um homem, marchando com seu cachorro de raça enquanto sua babá, negra, empurrava o carrinho do bebê atrás deles. O papel das Olimpíadas no clima político para o impeachment é crítico. Primeiro e principalmente, há suficientes histórias sinistras de propinas, subornos e desvios rondando esses Jogos Olímpicos para manter o judiciário brasileiro ocupado pela próxima década. O magnata da construção Marcelo Odebrecht, cuja companhia familiar ajudou a construir muitas das instalações da Copa do Mundo e das Olimpíadas, foi sentenciado a 19 anos de prisão. Ainda assim, sua condenação foi por seu envolvimento com o escândalo da Petrobras e o caso não chegou nem perto da criminalidade e corrupção da Odebrecht nas Olimpíadas.

Williamson da Catalytic Communities disse “As Olimpíadas se encaixam como uma luva no Rio devido ao potencial de corrupção combinado com os interesses convergentes da especulação imobiliária e de construção civil – os que mais têm a ganhar com os jogos. Nós todos sabíamos desde o começo que o Rio seria capaz de realizar os jogos. Eles simplesmente deixariam o trabalho para a última hora e assim sairiam impunes de ter superfaturado os custos. O fato de que a Odebrecht tenha sido implicada em um escândalo de corrupção de nível nacional e ainda assim esteja construindo a Cidade Olímpica é um sinal de quão longos são os seus tentáculos e quão difundida é a corrupção, e no final das contas está tudo conectado”.

Alguém seria realmente capaz de acreditar que a Odebrecht agiu de maneira corrupta no que diz respeito ao petróleo, mas se manteve íntegra nas Olimpíadas. A única diferença entre a Petrobras e as Olimpíadas é que o pagamento de propinas e lavagem de dinheiro na Petrobras aconteceram principalmente sob os olhos do PT, enquanto que os lances nas Olimpíadas são organizadas pelo PMDB. Ou, como Williamson disse, “As Olimpíadas foram organizadas por uma coalizão municipal/estadual que mal inclui o PT”.

Paes e Pezão do PMDB supervisionaram um processo onde consórcios ou empresas imobiliárias, como a Rio Mais, que inclui a Odebrecht e também a Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken, davam lances para construir as instalações das Olimpíadas. Paes e Pezão ignoraram as organizações de esquerda e ONGs do Rio de Janeiro que falavam contra esses consórcios. Eles demonstraram, debateram e até desenharam planos alternativos para combater esses consórcios. O que eles escolheram manter foi tanto os custos artificialmente inflados devido à ausência de oferta competitiva, quanto a conspiração para realocar a população do Rio em favor da especulação imobiliária. Como Chirs Gaffney, um jornalista e ativista que há anos mora no Rio de Janeiro disse, “O complexo industrial de construção no Brasil é comparável ao complexo industrial militar dos Estados Unidos. Ao invés de Halliburton e o Grupo Carlyle, o Brasil tem a Odebrecht e as demais empresas”. O chefe de polícia de Curitiba, Igor Romário de Paula, disse à Reuters Brasil em novembro que as investigações da Lava Jato iriam chegar aos contratos das Olimpíadas. Mas até agora não há nenhuma evidência de alguém no judiciário fazendo essa conexão óbvia.

Inúmeras fontes também disseram que há uma crença muito difundida de que se Dilma for impedida e deposta, quaisquer investigações – independentemente de quão superficiais – sobre as Olimpíadas desapareceriam num passe de mágica. E adivinhem quem ficaria no poder caso o Partido dos Trabalhadores fosse derrubado pelo escândalo da Petrobras e manipulação do orçamento. Música dramática: o PMDB. O PMDB é o maior partido político do Brasil e tem feito parte da coalizão de todos os governos desde a ditadura, fosse de esquerda ou de direita. Nas eleições, Lula fez campanha para Pezão e Paes. O vice-presidente, Michel Temer, é membro do PMDB. Como Stillwood disse, “Esse é o exemplo mais dramático das cínicas alianças do PT voltando para morder com força seus traseiros”.

E aqui está como as Olimpíadas poderia levar a um golpe judicial no Brasil. Se o governo Dilma cair e os jogos correrem suavemente, isso iria contribuir para a imagem – em última instância desmerecida – que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, está tentando cultivar, de competente gestor pró-negócios, que faz o trem andar no horário. Essa narrativa ignora como as Olimpíadas foram organizadas às custas dos mais pobres. Ela ignora a brutal dívida, o reassentamento e a militarização que cercou os Jogos. Esses fatos vão ser esquecidos para criar uma narrativa contrária, de um país purificado pela glória de sediar com sucesso as Olimpíadas. Essa é uma narrativa que vai emocionar os espectadores, alimentar o nacionalismo brasileiro, satisfazer os investidores estrangeiros e fazer os irmão Koch acenderem seus charutos. Ignorado será que a chama da tocha olímpica pode também incendiar a frágil democracia brasileira.

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