30 de março de 2016

Isto é luta de classes?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Há uma conspiração para impedir que salários subam, ou se trata da boa e velha luta de classes?

Examinem esses gráficos, de um recente relatório do Deutsche Bank e veja o que lhes parece:

(Feeling Underpaid, Zero Hedge)

Ora, o que já se sabe? Por toda parte o cartel global de bancos tem seus tentáculos, e os salários ou andam de lado ou caem.

"Coincidência", você diz?

De modo algum, eu digo. Ou várias cabeças de estado e respectivos bancos centrais sentam-se para coordenar ações, ou as elites ricas assumiram secretamente as alavancas de comando do poder e impuseram seu dogma neoliberal num momento em que ninguém estava vendo. De um modo ou de outro, é fácil ver os efeitos, sobre os salários, de uma "extraordinária acumulação monetária". Absolutamente nada se faz, razão pela qual a inflação permaneceu controlada. Porque, se os salários não aumentam, a inflação permanece baixa, o que dá aos banqueiros centrais o pretexto perfeito para lançar mais um de seus programas QE de trilhão de dólares que cada vez mais enriquecem os amigos escroques que os banqueiros mantêm em Wall Street.

Oba! Mais dinheiro grátis para Wall Street e a classe dos investidores!

Viram como funciona?

E o que acontece com a produtividade? Por que os salários não estão subindo junto com a produtividade?

(What Killed the Middle Class, Zero Hedge)

Parece bastante óbvio que se os salários não sobem com a produtividade, nesse caso o consumo pessoal cai e a economia afundará. Se for esse o caso, então impulsionar os salários deveria ser prioridade máxima para os políticos e governantes democráticos, certo?

Mas não é. A prioridade para a maioria dos políticos é fazer o que mandam seus patrões do setor privado, que pagam pelas campanhas deles e cuidam para que tenham um emprego confortável, quando afinal tiverem completado seus anos de serviço servil. Não é assim que em geral funciona, para esse tipo de chamados "servidores públicos". Eles não fazem as leis que são mandados fazer pelos seus eleitores gatos-gordos? E em seguida, não passam a contar os dias até a próxima recompensa também gorda? Claro que sim.

A questão é que essa política econômica não é pensada para melhorar as condições de vida do povo trabalhador comum. Sequer é pensada para fortalecer a economia. Se fosse assim, haveria algum esforço para contratar mais empregados para empresas públicas, para estimular a atividade econômica, promover o investimento em negócios e fortalecer o crescimento. Seria o remédio óbvio contra a estagnação da economia que se vê hoje, certo? Pois o caso é que Obama fez exatamente o oposto de tudo isso. Cortou o déficit em cerca de três trilhões inteiros de dólares e despachou mais de 500 mil servidores do estado para casa e para as chinelas cor-de-rosa. Resultado, a economia foi contida e já anda à velocidade cortada ao meio há quase uma década. Obrigado por nada, Barry. Não deixe a porta empurrá-lo você para fora.

Agora confiram o gráfico de "destruição de empregos pelo governo", no blog Streetlight:

(Government Job Destruction, Streetlight blog)

E a coisa não fica por aí, porque todo esse infindável apertar de cintos reduziu a demanda de consumo, que já forçou as empresas a reduzir a quantidade de capital que reinvestem nos respectivos negócios. Quer dizer: assim como os salários foram comprimidos em todos os países desenvolvidos e em todo o mundo, também os investimentos foram furiosamente reduzidos praticamente por todo o mundo, eliminando outra fonte crítica de estímulos. Confiram esse clip do Daily Reckoning:

"A divulgação ontem de valores relativos às despesas de capital nacional (capex) foi bem triste de ver. Nos três meses até setembro, o investimento em negócios caiu quase inacreditáveis 9,2%. ... 
À luz dos gastos domésticos, é boa a oportunidade para refletir sobre o que está acontecendo com os Gastos de Capital (capex, de Capital Expenditures) pelo mundo. Assim como a Austrália, todo o mundo enfrenta um grande problema de investimento. E não se vê nem sinal de que as coisas melhorem, não, no curto ou no médio prazo. ... 
Fora dos EUA, é como se todo o mundo decidisse renunciar de vez ao investimento. O investimento em negócios caiu 6% nos EUA; acima de 20% na Europa; 15% na China e Japão. Para o resto do mundo, Austrália inclusive, o capex caiu impressionantes 28%" (Australia’s Capex Collapse is Part of a Global Disease, Daily Reckoning)

Ok, então as empresas não estão investindo em seus negócios porque os salários estão baixos e a demanda está fraca. Isso é realmente um grande negócio?

Sim, é um grande negócio, porque há tantas e tantas fontes de gasto na economia, e quando empresas, governos e consumidores reduzem seus gastos, ao mesmo tempo, a economia retarda a um rastejamento e permanece assim até que algo mude. Infelizmente, nada mudou e é por isso que o PIB ainda está oscilando em torno de 2 por cento oito anos após o Lehman Brothers explodir.

Mas por que? Será que os formuladores de políticas de repente esqueceram como a economia funciona ou o que alavancas fiscal puxar para o arranque do crescimento?

Claro que não. Todos eles simplesmente se recusam a fazer o que tem de ser feito. Em vez de tentar avançar, o Congresso usou a crise para delegar todo o controle do sistema aos bancos centrais e aos seus corretores e agentes operantes no estado profundo. Agora, para qualquer lado que você olhe, só se veem políticos sentados esfregando as mãos, enquanto o BC dita a política. É uma loucura. É como uma mudança de regime, sem todo o sangue.

E como é que este golpe de Estado afeta o povo trabalhador?

Tem sido terrível. Enquanto o preço das ações quase triplicou e os especuladores passaram a mão em trilhões, a renda familiar média caiu mais de 7,2%, rendas despencam, salários são achatados cada vez mais e as pessoas mal se seguram pendurados, agarrados aos próprios cabelos.

Você sabia que 85 por cento dos americanos dizem que é mais difícil manter um padrão de vida de classe média hoje do que era há 10 anos atrás? (Pew Research Center) Ou que "77 por cento de todos os americanos vivem de salário em salário, pelo menos por algum tempo", ou que "um em cada quatro trabalhadores nos EUA levam para casa salários iguais ou abaixo do nível de pobreza federal", ou que "47 milhões de americanos vivem de cupons de alimentos", ou que "40,4% da força de trabalho dos EUA é hoje composta por trabalhadores temporários", principalmente trabalhadores contratados e de trabalho a tempo parcial?

Seja como for, vocês entenderam o quadro geral. Pagar as contas e chegar ao fim do mês é a cada dia mais e mais difícil. Mas por que elites ricas apoiariam políticas tão obviamente destrutivas para os trabalhadores e para a economia como um todo?

Por dinheiro, é por isso. Muito dinheiro. Confira:

"Entre 2009 e 2012, segundo dados atualizados de Emmanuel Saez (...) o 1% viu a própria renda real aumentar 34,7%, enquanto os 99% só a viram crescer 0,8%, o que significa que o 1% capturou 91% de toda a renda real ... 
A renda do trabalho continua sendo arrochada. Os salários cresceram apenas 1,7 por cento no ano passado, o ritmo mais lento desde pelo menos a década de 1960. Não porque os trabalhadores americanos estejam ficando frouxos. Nessa mesma década inteira de salários estagnados ou encolhendo, a produtividade do trabalhador americano aumentou quase 25%. 
Ao mesmo tempo, o mercado de ações vem atingindo níveis recordes, o que na maior parte ajuda os ricos que têm muito mais probabilidade de possuir ações, agravando a desigualdade de renda. Os lucros das empresas também atingiram recordes e aumentaram os salários dos executivos, sem escorrer para os trabalhadores." (The 1 Percent Have Gotten All The Income Gains From The Recovery, Think Progress)

Mas pode ter um grande engano, não poderia? Quer dizer, talvez os bancos centrais realmente não sabiam que as suas políticas iriam funcionar da maneira que funcionaram.

Fala sério. Você realmente acha que esta infindável cachoeira de dinheiro para cima até os magnatas super-ricos ("95% dos ganhos de renda entre 2009-2012 foi para o top 1% da população") é um erro, que é apenas a consequência não intencional de bem-intencionadas políticas monetárias que foram projetadas para estimular empréstimos e reforçar o crescimento, mas, por puro acaso, saiu pela culatra e desencadeou a maior redistribuição de riqueza para vorazes plutocratas não fazem nada na história?

É isso que você acha?

Você não precisa ser Leon Trotsky para descobrir o que realmente está acontecendo aqui. Heck, mesmo Warren Buffett acertou em cheio quando disse: "Não há guerra de classe, tudo bem, mas é a minha classe, a classe rica, que esta a... ganhar."

Tens razão, Warren.

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