19 de março de 2016

Os zumbis não têm almoços gratuitos

por Krzysztof Rybiński

openDemocracy

Tradução / É uma história que se poderia chamar O retorno dos mortos vivos 6. Um grupo de boas pessoas amontoa-se sobre um telhado, com uma limitada provisão de carne. Uma multidão de zumbis cerca a casa: famintos, loucos, agressivos. O medo espalha-se e corpos entram em colapso; o odor é terrível. Os zumbis cheiram sangue e carne sobre o telhado; eles gritam e começam a subir pelas paredes.

No momento em que se parar de alimentar zumbis eles irão buscá-los e todos nós nos tornaremos mortos vivos. De modo que se continua a alimentá-los na esperança de que na noite seguinte chegue um novo helicóptero que – bem a tempo – possa despejar novos maços de comida para zumbi. É o único meio de sobreviver. Atacar estas criaturas é muito perigoso: quando um zumbi foi destruído, há poucos meses, os restantes ficaram tão raivosos que comeram vivos todos os habitantes da cidade ali próxima.

Esta dança macabra dos zumbis pode ser observada na vida real. As pessoas sentadas no telhado são os contribuintes dos Estados Unidos; os zumbis reunidos em torno são banqueiros a berrarem por mais e mais apoio; o dinheiro dos contribuintes está a transformar-se em comida de zumbi. Os comandantes do telhado dizem: "Temos de alimentá-los ou eles virão buscar-nos, fechando o crédito até ao zero, vendendo todos os ativos mundiais, deprimindo preços ao nível mínimo – e todos nós nos transformaremos em zumbis financeiros. Não há outra opção senão alimentar os zumbis".

E os novos maços continuam a chegar. Ben é um piloto de helicóptero muito qualificado; as suas manobras de mestre lançam sempre novos maços de comida para zumbis, no lugar certo e no momento certo. Ben contratou um novo membro da tripulação, Barack, que chegou com uma ideia nova para manter os banqueiros zumbis afastados da casa: "Vamos alimentá-los muito mais: pode ser que se tiverem comida aos montes venham a transformar-se outra vez em humanos, um por um".

Mas o tempo passou, os banqueiros zumbis foram acompanhados pelos fabricantes de carros zumbis, e com o vírus da morte a propagar-se mais zumbis estão a caminho. Barack é destemido. Com Ben a acenar ao seu lado, ele grita para o grupo sitiado no telhado: "Não importa quantos apareçam, nós os alimentaremos a fim de salvar vocês".

Dois segredos

Agora vem o primeiro de dois grandes segredos. Barack planeja tomar emprestado mais de US$2,5 trilhões do resto do mundo a fim de pagar a comida dos zumbis. Alguém pode ter pensado que os Estados Unidos são o habitat nativo dos banqueiros zumbis, tal como a Romênia é o lar do Drácula: mas agora é o lugar mais seguro sobre a Terra para manter o seu dinheiro. Pelo menos, é isso que dizem a mídia financeira zumbi ("Segurança, Bondade, Transparência, Liquidez, Confiança, Lar, Amor") e escrevem as agências de classificação zumbi ("Super-seguro").

Aqui está o segundo segredo, escondido ou distorcido pelo marketing zumbi: nós, os povos do mundo, continuamos a por dinheiro na pátria dos zumbis. Em 2009, emprestamos ao governo dos Estados Unidos mais de US$2,5 trilhões (quantia equivalente a 5% do PIB global); e uma grande parte deste empréstimo será utilizada para alimentar os zumbis. Nós obtemos 2,5% de juros sobre este empréstimo, quando para os Estados Unidos a única saída desta armadilha zumbi é criar inflação ou o incumprimento (default).

Kenneth Rogoff, antigo economista chefe do FMI, foi cândido na sua coluna Project Syndicate de dezembro de 2008 ao dizer que os bancos centrais deveriam criar inflação na amplitude dos 5% a 6%, com o risco de um breve período de inflação muito mais alta (ele fala em 20%). Agora pode-se ver porque alimentar os zumbis é tão barato para o governo dos EUA: se você tomou emprestado à taxa nominal de 2,5% e a seguir cria inflação de 6% (com um risco de inflação mais elevada) então os que emprestaram perderão parte dos seus empréstimos, e o tomador do empréstimo (Barack) tem um almoço gratuito de zumbi (ou festança da meia noite). Há muito pouco risco de que uma noite o helicóptero de Ben e Barack não apareça e os zumbis subam ao telhado.

O custo verdadeiro

Estou sentado na distante Varsóvia, Polônia, e observo esta dança macabra com preocupação crescente, sob dois aspectos. Primeiro, sem o meu acordo, 5% do meu rendimento deste ano irá para a alimentação de zumbis, ainda que eu esteja consciente de que parte deste empréstimo ao governo dos EUA será perdido, provavelmente devido à inflação mais alta. Segundo, estou ainda mais preocupado quando ao fato de que ao invés de alimentar zumbis podíamos fazer muitas coisas boas com este dinheiro.

Se estamos preocupados acerca da procura mundial, podíamos ajudar a recuperá-la investindo centenas de bilhões de dólares em mercados emergentes. Por exemplo, não estamos de modo algum prestes a atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos em 1990. Algumas medidas – tais como o número de pessoas a viverem na pobreza extrema na África sub-sahariana, ou o número de pessoas infectadas pelo HIV – realmente agravaram-se ao invés de melhorar. Pode-se alimentar um banco zumbi com US$100 bilhões numa noite e ele dá o fora pela manhã, imagine-se quantas escolas, estradas e hospitais poderiam ser construídos em África com US$100 bilhões. Quantos professores podiam ser contratados para ensinar pessoas iletradas em países pobres, quantos salários de médicos podiam se pagar para providenciar cobertura de saúde a milhões de crianças pobres que não têm acesso a um médico. Quanto de bem podia ser feito se os zumbis saltassem apenas um festança da meia noite – e eles continuam a comer todas as noites.

Fiquei muito desapontado quando vi o grande plano de Obama. Promete cuidar de alguns problemas a curto prazo (queda da procura) e a longo prazo (segurança social, custos do medicare, altas emissões de carbono) da economia e sociedade americanas; mas ao mesmo tempo, ao sugar quase todas as poupanças disponíveis no mundo, priva países emergentes de terem acesso a mercados de capitais, com o resultado de que muitos países pobres ou emergentes encontram-se subitamente numa situação em que já não podem tomar empréstimos.

Agora pode-se ver o verdadeiro custo de alimentar zumbis. O custo é que grandes partes do mundo não serão capazes de financiar investimentos necessários, e alguns países em desenvolvimento não serão capazes de pagar a sua fatura alimentar (que aumenta outra vez). Assim, os pobres tornar-se-ão ainda mais pobres. Os zumbis não têm almoços gratuitos.

Será esta a mudança em que acreditamos? Talvez a que os zumbis acreditaram.

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