14 de março de 2016

A odiosa presidência de Bill Clinton: Thomas Frank sobre a história real dos anos 1990

Thomas Frank


Foto: Susan Walsh/AP.

Extraído do novo livro de Thomas Frank, "Escuta, Liberal"

Tradução / Todos se lembram dos anos da presidência de Bill Clinton como bons tempos. A economia estava crescendo, o mercado de ações estava crescendo, e o clima era contagiante. Você se senti bem sobre isso... mesmo se você não possuísse uma única ação.

E ainda: O que Clinton realmente fez nos oito anos durante os quais viveu na Avenida Pennsylvania? Enquanto escrevia esse livro, eu periodicamente perguntava a meus amigos progressistas avançados se recordavam de leis progressistas que tivessem sido aprovadas, que altas políticas Clinton promoveu – quero dizer: as coisas boas que Bill Clinton teria feito durante sua presidência. Por que, pensava eu, tantos acreditam tão piamente que esse homem teria sido presidente tão excepcional? – à parte, claro, o óbvio charme pessoal.

Nunca foi pergunta fácil de responder, para os meus amigos avançados. Quase todos lembraram que Clinton aumentou uma vez o salário mínimo e expandiu o Earned Income Tax Credit. Equilibrou o orçamento. Garantiu modesto aumento de impostos a serem pagos pelos ricos. E propôs um plano nacional de saúde, embora não tenha ido muito longe e, de fato, foi plano tão mal concebido que poderia ser útil como modelo de como não pôr em andamento grandes iniciativas políticas.

Tirando isso, ninguém se lembrava de coisa alguma. Ninguém jamais conseguiu pensar em evento em que o clintonismo se erguesse sobre princípios. Fato é que estamos falando do sujeito que, um dia, encomendou pesquisa de opinião pública para decidir onde passaria as férias. Toda a presidência de Bill Clinton girou em torno de doações para campanhas eleitorais, não em torno de valor pessoal – e basta dizer que o homem alugava o Quarto de Lincoln, santo Deus, e no final de seus dias na presidência ainda apareceu para vender um perdão presidencial.

É fácil lembrar as razões oficiais, consensuais, pelas quais se espera que todos admirem Bill Clinton – as realizações que o inevitável filme biográfico by Spielberg com certeza ilustrará com vislumbres pessoais comoventes e delirantes. Primeiro, foi a economia, que se deu realmente bem enquanto ele presidiu os EUA. Tão bem que tivemos algo bem próximo de pleno emprego por vários anos, com o [índice] DOW sempre à altura dos 10 mil pontos e o Nasdaq subindo praticamente na vertical – tempos de prosperidade que já parecem inconcebíveis, inacreditáveis, se vistos do ponto ao qual caímos hoje. Sim, a bolha rebentou logo depois que ele deixou o governo, mas e daí? Com certeza, aqueles anos gloriosos de Wall Street são como coringa que dá jeito em qualquer mão de cartas disparatadas.

A outra grande fonte do mito Clinton é a vendetta insana que os Republicanos moveram contra ele – e que seu ex-assessor Sidney Blumenthal chamou de "Guerras Clinton". Os ataques começaram logo que Clinton deixou o governo – o pseudo escândalo de Whitewater realmente foi primeira página do The New York Times em 1992 – e as Guerras Clinton foram tão violentamente injustas que é praticamente impossível não se pôr ao lado da vítima. Os inimigos de Clinton gastaram milhões no Arkansas, à procura de antigas amantes e namoradas. O Congresso realmente cassou o cara por mentir sobre um boquete.

Para muitos dos autores que examinaram os governos Clinton, as Guerras Clinton eclipsaram tudo. Por exemplo, tome Carl Bernstein, jornalista prestigiado que escreveu biografia cuidadosamente pesquisada de Hillary Clinton, esposa de Bill e "co-presidenta". Tantas das páginas que Bernstein dedica aos anos do casal na Casa Branca são carregadas de detalhes sobre Vince Foster e o Gabinete de Viagens e os Conselhos Independentes e Grandes Juris e falta de registros de gastos e despesas, que Bernstein acaba por relegar os feitos reais de Bill Clinton como presidente a uma ou outra rápida referência em parágrafos perdidos aqui e ali.

As Guerras Clinton são o material de que é feita a política; e Bill Clinton venceu todas aquelas guerras. A direita farisaica, preconceituosa, tola rugiu contra ele sem parar, e ele superou tudo. Desafiou os republicanos e conseguiu se reeleger, mesmo depois que seu partido perdera o controle do Congresso. Conseguiu dobrar os republicanos nas guerras pelo orçamento de 1995 e 1996 e convenceu o público a culpar seus inimigos pelo trancamento do governo.

Bonanza econômica e vitória nas Guerras Clinton: dois fatores suficientes para garantir ao homem assento seguro entre os imortais. De fato, antes do crash de 2008, meus concidadãos washingtonianos tendiam a ver o governo Clinton como triunfo evidente. Daquele jeito era e sempre seria uma bem-sucedida presidência de democrata. Era o modelo. Fazer como Clinton fizera era avançar pela trilha claramente demarcada da sabedoria.

Mas hoje já não é assim tão garantido que alguém, consultado, ainda avalie como heroica a presidência de Clinton. Depois que eclodiu a bolha dot.com em 2000, os escândalos de empresas no período Enron e o colapso do mercado imobiliário, nossa visão geral sobre os prósperos anos 90 mudou bastante. Agora, o que todos recordamos é que foi o governo de Bill Clinton quem liberou os derivativos de qualquer tipo de controle; idem para as empresas telecom, e quem enterrou todas as leis que havia nos EUA que ainda regulavam a atividade bancária. Foi ele quem empurrou o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) goela abaixo do Congresso e quem ensinou ao mundo que o modo certo para responder a uma recessão é "quitar" a dívida pública. Encarceramento em massa e rejeição das instituições do Estado do Bem-estar, mais duas das principais realizações de Clinton, são os pilares do estado de disciplina e vigilância que tornou tão terrivelmente miserável a vida dos americanos mais pobres. E Clinton também teria dado mordida gigante na Seguridade Social, se o escândalo sexual que o ligou para sempre a Monica Lewinsky não o tivesse impedido. Se se toma a desigualdade como medida, o governo Clinton mostra sua mais face mais odiosa, sem nada de heroico.

***

Há quem pretenda que seria injusto criticar o presidente Clinton por essas dificuldades. Quando ele estava ativo, lembram alguns, cada uma das iniciativas que listei acima eram assunto em torno dos quais havia consenso quase universal. No coeso pequeno grupo de profissionais credenciados que dominaram o governo Clinton e a cidade na qual trabalhavam, praticamente todos concordam nesse ponto. Em cada campo, pairava um sentimento de inevitabilidade e até de obviedade, como se essas ideias respondessem como respostas incontroversas a demandas da própria história. A globalização queria que essas coisas acontecessem. A tecnologia queria que acontecessem. O futuro queria que acontecessem. Naturalmente, a classe profissional queria que elas acontecem, também.

O termo que Clinton gostava de usar para resumir esse senso de inevitabilidade era "mudança". É palavra, sim, obviamente, velha conhecida e favorita dos políticos da esquerda; e significa que "Nós, o Povo" temos poder para modelar o mundo à nossa volta. É palavra carregada de esperanças.

Mas quando Clinton disse em um discurso sobre o livre comércio em 1993, que

"A mudança está acima de nós. Não podemos fazer nada sobre isso."

ele estava consagrando a ideia oposta, como o credo progressivo. Mudança passava a ser uma força externa da qual não se pode escapar e a qual não se pode controlar; era uma realidade que limitava o que se poderia fazer politicamente e que, de fato, já tomara, por nós, muitas das nossas decisões políticas. O papel de "Nós, o Povo" não mais seria o de promover mudanças, mas o de render-se, totalmente submisso ao domínio da mudança. Claro que Clinton tratou de descrever essa coisa majestosa, a tal "mudança", numa referência a uma força da natureza: "uma nova economia global de inovação constante e comunicação instantânea que rasga nosso mundo como novo rio, oferecendo ao mesmo tempo poder e novas aberturas ao povo e às nações que vivem ao longo de seu curso."

Clinton falava de mudança assim como outros políticos falariam sobre Deus ou a Divina Providência; nós tínhamos chance de alcançar o sucesso, disse ele certa vez, "se fizermos da mudança, nossa amiga". A mudança era inconstante e inescrupulosa, motor não movido fazendo isso ou aquilo, como só ela entendia que fosse necessário e adequado fazer. Nossa tarefa – ou, mais acuradamente, a sua tarefa, cidadão de classe média – era agir conforme os desejos dela, "ajustar-se à mudança", como o presidente disse, falando sobre o acordo NAFTA.

A primeira vez que sintonizei e dei-me conta de alguma versão dessa conversa de inevitabilidade aconteceu em 1993, durante a luta em torno do acordo NAFTA. O acordo havia sido negociado pelo presidente anterior, George H. W. Bush, mas a maioria democrata no Congresso rejeitara a versão original do tratado, forçando os partidos a reiniciarem as discussões. Como aconteceu em tantas outras das realizações da era Clinton, foi preciso um presidente democrata associado aos republicanos no Congresso, para conseguir aprovar essa pedra fundamental do neoliberalismo.

Segundo o próprio presidente, a questão do acordo seria simples: "O [acordo de livre comércio] NAFTA derrubará barreiras que impeçam o comércio" – disse Clinton ao assinar o acordo. – "Criará a maior zona de livre comércio do mundo e criará 200 mil empregos nesse país, só em 1995." Todo o lobby que trabalhou a favor do tratado foi engalanado sob o mesmo slogan de "NAFTA – Exportações. Melhores empregos. Melhores salários."

Mas o que vendeu o NAFTA de modo algum foi o pensamento racional. Para vender o NAFTA Clinton fez uso de um simulacro de razão: pitadas de inevitabilidade divina, invocada no idioma da autoconfiança dos especialistas: "Ninguém pode deter a mudança global" – disse ele no discurso na solenidade de assinatura do Tratado.

A frase que mais bem expressava o sentimento foi: "Não tem mistério". Lee Iacocca dizia e repetia num comercial de TV pró-NAFTA, e em pouco tempo a expressão estava em todas as bocas. A frase fazia ecoar exatamente as notas certas de simplicidade, combinada com máxima obviedade. A globalização era irresistível, rezava a lógica clintoniana, e o livre comércio sempre seria, em todos os casos, coisa boa. Coisa tão boa, que nem precisava ser muito explicada: todos sabiam, todos logo viam, todos concordavam.

Mas havia quem se opusesse ao NAFTA, como os sindicatos de trabalhadores, por exemplo, e Ross Perot, e a maioria dos democratas na Câmara de Representantes. O tratado não era coisa simples nem clara: eram 2 mil páginas e, segundo repórteres que realmente leram tudo, o objetivo era acabar com tarifas e tornar o México mais seguro para investimentos de empresas dos EUA – o que significava: poder mudar para lá fábricas e empregos, sem medo de que as propriedades americanas viessem a ser expropriadas, produzir lá e, em seguida, importar para casa o que as empresas americanas produziriam no México.

Uma das razões pelas quais o Tratado era coisa totalmente "sem mistério" para seus apoiadores é que o NAFTA foi fenômeno tão escandalosamente de classe, como jamais aparecerá outro nesse país. Ele "se resume à divisão mais antiga de todas", Dirk Johnson escreveu no The New York Times em 1993: "os ricos contra os pobres, ou mais precisamente, aqueles que têm só um pouco." O economista de esquerda Jeff Faux contou até como um lobbyista pró-NAFTA tentou fazê-lo mudar de ideia, lembrando-o de que Carlos Salinas, então presidente do México, "foi de Harvard. É dos nossos."

Aquele apelo à unidade de classe dá boa pista do que, afinal de contas, é o clintonismo. Para proprietários e acionistas, que veem diminuir os custos do trabalho, ao mesmo tempo em que tiram vantagem do trabalho desorganizado e das leis frouxas de preservação do meio ambiente no México, o Tratado NAFTA soava como promessa de ganhos fantásticos. Para os trabalhadores americanos, ameaçava-os de morte, e despejava pelo ralo o poder que tivessem e portanto, claro, também qualquer esperança de melhores salários. Quanto à massa de profissionais liberais das áreas de administração e gerência, gente que não estava diretamente ameaçada pelo Tratado, ter e expor opiniões sobre o NAFTA, era aplicadamente lamber-botas dos especialistas da hora – naquele casos, economistas, 283 dos quais assinaram um documento no qual afirmavam que o Tratado NAFTA "vai ser um valor positivo para os Estados Unidos, tanto em termos de criação de emprego como crescimento econômico global."

As predições das pessoas que se opunham ao Tratado acabaram por se revelar muito mais próximas do que afinal realmente aconteceu, do que os róseos cenários inventados pelos tais 283 economistas e o vitorioso presidente Clinton. O Tratado NAFTA foi concebido, sim, para encorajar exportações para o México; mas o que aconteceu foi o oposto disso, e em números gigantes. Esperava-se que o NAFTA criaria empregos; segundo estudo de 2010, foram fechados quase 700 mil postos de trabalho nos EUA, por efeito direto do Tratado. E, como se temia, o Tratado deu a uma classe nos EUA enorme poder para alavancar-se à custa da outra: cada vez que empregados começavam a organizar-se, os empregadores ameaçavam mudar as operações para o México. Número surpreendente deles, aliás, muito maior do que antes do NAFTA – fizeram realmente o que todos passaram a viver de ameaçar.

O México tampouco se saiu muito melhor. Nas décadas antes do NAFTA, a economia mexicana crescera rapidamente; depois de implantado o NAFTA, o México conheceu um dos mais baixos crescimentos dentre todos os países latino-americanos, apesar de tudo que passou a produzir e exportar para os EUA. A taxa de pobreza dos mexicanos mudou praticamente nada; mesmo quando outros países na região alcançavam progressos consideráveis. Uma das razões para tudo isso é o efeito previsivelmente destrutivo que o livre comércio com o agronegócio americano teve sobre o destino de milhões de famílias mexicanas que viviam das próprias terras.

Esses resultados jamais chegaram realmente a abalar o arrogante consenso do "não tem mistério". Em vez disso, a expressão volta sempre que estão em discussão novos acordos comerciais. Durante o debate, em 1997, sobre a "tramitação rápida" para limitar a ação do Congresso nas negociações comerciais dos EUA, Al From, fundador do Conselho da Liderança Democrata, declarou, cheio de confiança, que "apoiar a tramitação rápida não tem mistério". Para alguns, tratados de livre comércio são tão óbvia e evidentemente ótimos, que podem ser apoiados mesmo sem que o apoiador tenha qualquer ideia, vaga que fosse, do que apoia. Thomas Friedman, por exemplo, influente colunista do New York Times, ainda pensava exatamente o mesmo que antes, mesmo quando se debatia outro tratado completamente diferente. "Escrevi coluna em apoio ao CAFTA, Caribbean Free Trade Initiative [Tratado de Livre Comércio do Caribe]", disse ele a Tim Russert em 2006. "Nem sabia o que havia no Tratado. Só li duas palavras: livre comércio."

Vinte anos depois, persiste a mesma funda divisão de classes sobre o mesmo assunto. Segundo pesquisa de 2014 sobre posições quanto ao Tratado NAFTA depois de duas décadas, a opinião pública permanece dividida. Mas entre profissionais liberais – os liberais em geral – a posição a favor não mudou. Ter certeza e declarar que tratados de livre comércio são sempre bons e recomendáveis – mesmo quando se saiba empiricamente que não são – parece ter se tornado um distintivo de pertencimento para os acadêmicos.

***

Um dos dramas mais esquisitos de toda a literatura sobre Clinton, em retrospecto, foi o suposto mistério que envolveria a identidade política de Bill, em mutação. Como adolescente ainda sem idade para assistir filmes pornô, Bill-boy presidente perambulava de porta em porta, tentando uma e outra política, até que finalmente aprendeu a ser o que lhe ditava a própria alma e pôs-se de joelhos ante o altar da ortodoxia consensual. Fez campanha de candidato populista, tentou acabar com a discriminação anti-gays nas forças armadas, e então, de repente, inventa o livre comércio nu e cru e desregula as telecomunicações. Quem era esse cara, realmente?

Como essa questão perturbava os amigos e conselheiros do presidente! Havia uma "disputa pela alma de Bill Clinton," disse seu assessor David Gergen pouco depois de os republicanos ganharem o Congresso em 1994. Um mês mais tarde, o pessoal de imprensa de Clinton (para citar a expressão cômica que o Washington Post publicou) acabou obrigado a afirmar enfaticamente "que Clinton sabe muito bem quem é como presidente e tem ideia, sim, de para onde quer ir."

A oscilante identidade política de Clinton e seu ir-e-vir absorveu completamente admiradores e biógrafos, muitos dos quais optaram por falar não de vacilação, mas de busca: Bill Clinton tinha de provar, a ele mesmo e ao país, que era genuíno neo-democrata. Tinha de ganhar maturidade presidencial. E o modo que conhecia para fazer tal coisa era causando danos, não raras vezes insultando pesadamente grupos de democratas que representavam as tradições de igualitarismo mais caras ao partido. Quando chegasse 'lá', todos saberíamos que o New Deal estava realmente morto. Podíamos ter certeza.

Essa ideia chegou a ser tão cara entre os neo-democratas, que inventaram até um nome-signo para ela: a equipe de campanha de Clinton chamava a coisa de estratégia de "contra-agenda". Na campanha de 1992, como que para compensar o dano que lhe causara a discussão no campo econômico, Clinton até confrontou e deliberadamente antagonizou alguns elementos da base tradicional do próprio Partido Democrata, para assegurar aos eleitores que nenhum "grupo de interesse" daria palpites numa Casa Branca neo-democrata. Quanto aos tais grupos de interesses propriamente ditos, Clinton sempre soube que podia insultá-los à vontade, impunemente, porque não tinham para onde correr, na tão estimada lógica do centrismo democrata.

O alvo mais famoso da estratégia de "contra-agenda" de Clinton foi o líder de movimentos pelos direitos civis Jesse Jackson, a nêmese dos centristas do partido, e encarnação da política que o Conselho da Liderança Democrata fora criado para extinguir. Em reunião em 1992 da Rainbow Coalition [Coalizão Arco-íris] de Jackson, com Jackson sentado à sua esquerda, Clinton pôs-se a criticar em termos ferozes uma controvertida rapper, Sister Souljah, que falara à reunião na véspera. As exatas circunstâncias dos insultos de Clinton perderam-se no mar da História, mas os insultos, eles mesmos, entraram para os anais da política democrata como golpe de gênio, exemplo de o que os neo-democratas deveriam fazer sempre, para disciplinar a base do partido.

Depois da posse, com Clinton já na Casa Branca, a estratégia de "contra-agenda" converteu-se, de tática de campanha, em filosofia de governo. Num seminário, nos primeiros dias do novo governo, a principal assessora política de Bill, Hillary Clinton, deu instruções aos funcionários da Casa Branca, sobre como a coisa seria feita. Como Carl Bernstein descreve a cena, Hillary anunciou que a opinião pública teria de ser induzida a compreender que Bill levava os americanos numa "jornada"; que Bill tinha uma "visão" de tudo que o governo estava fazendo, uma "história" que separava o bem, do mal. O modo para dramatizar a tal "história", a primeira-dama continuou (na narrativa de Bernstein), era chegar e imediatamente arranjar briga com qualquer apoiador democrata.

"Você já logo mostra ao pessoal quais as coisas pelas quais você está disposto a lutar – disse Hillary –, quando combate contra os seus amigos. Foi como se dissesse claramente, nesse contexto: quando você converte amigos em inimigos."

O Tratado NAFTA seria o primeiro grande teste dessa teoria da presidência, com Clinton desafiando não só o trabalho organizado, mas grande parte de seu próprio partido no Congresso. Num sentido, conseguiu o que queria. Para os neo-democratas e para grande parte da mídia, o NAFTA foi "o mais alto momento" de Clinton, sua "mais firme ação", coisa que só um He-man presidente faria, super-homem capaz de, simultaneamente, defender o capital e o trabalho e assim provar ao mundo que não se deixava prender pelo tradicionalismo dos interesses democratas.

Mas havia também uma importante diferença. O tratado NAFTA nada tinha de simbolismo. Ao impor o Tratado como impôs, Clinton não apenas insultou eleitorado importante, como já fizera com Jesse Jackson e Sister Souljah. Com o NAFTA Clinton se tornou ativo autor da ruína daquele eleitorado importante. Contribuiu ativamente para destruir o poder econômico do trabalho nos EUA. Fez o que pôde para destruir o principal aliado de seu partido, para assegurar que o trabalho seria doravante tão fraco, nos EUA, que nunca mais conseguiria se organizar como força política. Clinton presidente tornou materialmente muito piores todos os problemas dos trabalhadores americanos.

Claro que há quem veja essa ação calamitosa como excelente, briosa, como muitos neo-democratas viram, porque entendem as lutas dos trabalhadores como clichês de tempos da Depressão, que já lhes causam náusea, de tanto ouvir. Mas, se você vê em cada trabalhador um ser humano – e ser humano que votara e ajudara a eleger Clinton à presidência – o Tratado NAFTA começou logo a aparecer como traição em grande escala. Até hoje, a lição do NAFTA de Bill Clinton brilha como farol de locomotiva que se aproxima pelo túnel em alta velocidade: esses Democratas afluentes pouco ou nada têm a ver com desigualdade social; só como slogan de campanha eleitoral.

Os trabalhadores foram a primeira grande baixa que Bill Clinton sofreu, na construção de sua nova identidade como neo-democrata. Outras baixas viriam. Os dois grandes marcos foram duas realizações do primeiro mandato: o ataque ao crime organizado de 1994 e a medida de reforma da assistência à saúde, de 1996. Duas ações concebidas para deslocar tradicionais questões republicanas e para demonstrar que Clinton era independente dos tais ditos "interesses especiais".

Em 1992, Clinton havia suspendido o roteiro de campanha e retornara ao Arkansas, para estar fisicamente presente quando o estado se preparava para executar um condenado, Ricky Ray Rector, assassino condenado, portador de grave retardo mental e incapaz de entender o que acontecia com ele, ou por quê. O plano de Clinton era mostrar-se durão. Executor de bandidos, e escapar assim ao destino de Michael Dukakis, cuja campanha presidencial fracassou depois de uma onda de spots de TV que o pintavam como fraco, incapaz de manter perigosos negros assassinos atrás das grades. Nas exatas palavras de Christopher Hitchens, Rector foi "sacrifício humano" praticado ante a ambição presidencial de Clinton.

O mesmo raciocínio que levou Clinton a fazer da execução de Rector um ritual para subornar os deuses eleitorais levou-o também, em 1994, a propor e depois assinar e tornar vigente a mais escandalosa lei de estado-policial que os EUA jamais viram no pós-guerra. Dentre outras coisas, a lei abriu caminho para a construção de incontáveis novas prisões; estabeleceu mais de 100 novas circunstâncias contra sentenças mínimas; passou a permitir que procuradores acusassem adolescentes de 13 anos como adultos em vários casos; e forçou os Estados a reduzir os casos de liberdade condicional. Aumentou o número de casos federais em que se aplica a pena de morte, de três, para 60, incluindo algumas em que não há crime de morte – e, isso, dentro de um partido que, em 1972, incluíra em sua plataforma eleitoral a abolição da pena capital nos EUA.

Foram os anos dos "três golpes", "sentença-verdade" ou "tolerância zero", e os assessores de Clinton falavam do aumento do encarceramento como "subir a aposta", como se estivessem num jogo de pôquer com os republicanos. Vencer aquele pôquer era motivo para os democratas jactarem-se. Como disse Joe Biden, então senador democrata por Delaware, durante a discussão da lei:

"A ala liberal do Partido Democrata é favorável agora a 60 novas penas de morte. Eis o que essa lei faz. A ala liberal dos democratas aumentou as penas em 70 casos (...) A ala liberal dos democratas quer mais 100 mil policiais. A ala liberal do Partido Democrata quer ver construídas 125 mil novas celas em prisões federais."

Nada disso acontecia porque tivesse havido algum aumento no número de crimes – o crime violento já subira muito várias vezes em anos anteriores –, mas, sim, para Clinton mostrar-se super durão. "Um dos modos como Bill Clinton se autodefine como democrata diferente é a dura posição que adota contra o crime" – disse o senador Joe Lieberman quando da aprovação da lei. – "Aí está promessa que ele fez e cumpriu."

Em fecho não menos horrendo, que foi adiado por cerca de um ano, há ainda a lei de 94 que permitiu que o presidente Clinton, pessoalmente, decidisse o destino da disparidade que havia em sentenças por uso de crack e de cocaína em pó. O crack era tido como a praga planetária – e 88% dos presos por crack eram negros; e a cocaína, apesar de ser praticamente a mesma coisa, era vista como 'crime menor', droga de executivos ricos. A aplicação de penas de décadas no caso do crack e nenhuma pena no caso da cocaína sempre foi ação racista e cruelmente insana. Pois Clinton fez tudo que estava ao alcance dele para que nada mudasse também nessa desigualdade. Provavelmente, jamais conheceremos o número exato de norte-americanos negros jovens que, por uso, venda ou porte de crack, pagaram com muitos anos de vida, para garantir a cocaína dos brancos ricos e fazer avançar a carreira política de Bill Clinton. Que mil Ricky Ray Rectors fritem na cadeira elétrica, mas, Deus, reeleja Bill. 

Infelizmente para Bill Clinton, construir o maior gulag do planeta não bastou para comprovar aos olhos de muitos o quanto ele realmente jamais dera qualquer importância à vida de pobres. A direita, de fato, até zombou da lei dos crimes, de 94, como espécie de presente aos pobres. Ele teria que fazer mais.

***

Historiadores da presidência Clinton em geral deixam de lado o frenesi de punições em que o país viveu, por obra dele, em meados dos anos 90. Difícil, mesmo, ver o que se passava, se você analisa aqueles anos sob a lente da perseguição que Clinton teria sofrido, por forças da direita. Os que reconhecem a parte de Clinton no Grande Encarceramento, ou o apresentam como grande sucesso na luta contra o crime – o que jamais foi –, ou descrevem a coisa no tom sempre superficial típico de Washington: Clinton conseguiu aprovar ótima lei, mesmo em Congresso adverso, o que provou que pode ser líder bipartidário efetivo.

Além do mais, em termos retóricos, Bill Clinton sempre se apresentara como firme opositor do encarceramento em massa. Em 1991, disse que achava horrível que "somos hoje a nação número 1 do mundo em percentagem de gente que metemos nas prisões". Em 1995, apenas duas semanas antes de assinar a lei do crack versus cocaína, Clinton declarou que

"os negros têm razão de pensar que há algo muito errado (...) se há mais homens afro-norte-americano em nosso sistema prisional que nas nossas universidades; se um, de cada três afro-norte-americanos, homem, na casa dos 20 anos, está preso, em condicional ou de algum outro modo sob a supervisão do sistema prisional."

Em entrevista à revista Rolling Stone em 2000, Clinton disse que "as disparidades são inconcebíveis entre crack e cocaína. Tentei mudar isso". Em 2008, disse que lamentava a lei crack/cocaína. E então, quando todos os demais candidatos puseram-se a criticar a reforma do sistema prisional, em 2015, novamente pediu desculpas. Da segunda vez, disse que a lei dos crimes, de 1994, foi "exagerada", como se dissesse que, na verdade, não tivera a intenção de meter tanta gente na cadeia.

Talvez seja suficiente. Talvez baste para livrar Clinton da forca, no dia em que, algum dia, uma Futura Comissão de Verdade e Reconciliação afinal se ponha a calcular as culpas e as penas pelas políticas de destruir uma geração inteira, daqueles anos neoliberais.

Mas duvido muito. Algum dia nós compreenderemos que a histeria punitiva de meados dos anos 90 nada teve de acaso, ou acidental: aquele frenesi de punir e prender foi essencial ao clintonismo. Tomado o frenesi punitivo, em conjunto com o Tratado NAFTA, com a reforma da assistência aos mais pobres, com seu plano para privatizar a seguridade social e, claro, somado também com a ação de liberalização de grandes bancos e empresas de telecomunicações, tudo combina perfeitamente, tudo se encaixa dentro do quadro neoliberal que aprofunda a divisão em classes da sociedade dos EUA. Clinton simplesmente tratou grupos diferentes de americanos de modos radicalmente opostos: uns, ele logo encarcerou e esmagou sob o punho pesado do Estado; outros, entregou de mãos atadas ao poder empresarial que vive de arruinar o trabalho organizado e os trabalhadores; e outros foram premiados, receberam resgates, desregulações, e a mais ensandecida orgia a favor do tal "Pense Diferente", da mudança, da inovação.

Para uns, resgates, para outros, "tolerância zero". Porque não há contradição alguma entre essas coisas. Leniência, conivência e perdão, além da mais festiva criatividade e "mudança", para os banqueiros de Wall Street; enquanto o outro grupo é castigado com a fúria de praga bíblica: são coisas que se encaixam perfeitamente, sem tropeços. De fato, para que o primeiro grupo possa receber cada vez mais e mais, é indispensável que o segundo seja gradualmente empurrado para baixo, cada vez mais e mais, para o inferno. Quando se toma o clintonismo em conjunto, a coisa faz perfeito sentido, e o sentido que faz tem a ver com classes sociais. O que os pobres recebem em disciplinamento violento é o que os profissionais recebem em indulgência infinita.

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