13 de fevereiro de 2016

Torna-se cada vez mais claro quem são os vencedores e os perdedores desta guerra

Patrick Cockburn

Tradução / Numa fase inicial da guerra na Síria, um funcionário iraquiano foi ver um comandante da OTAN. "Qual é a diferença entre o que está acontecendo na Síria e na Líbia [onde Muammar Gaddafi tinha acabado de ser derrubado]?", perguntou. A resposta do general da OTAN foi simples e decidida. "A Rússia está de volta", disse ele.

O ressurgimento da Rússia como grande superpotência foi evidente a 12 de fevereiro, em Munique, quando o Secretário de Estado americano John Kerry e o Ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov anunciaram um plano para a entrega de ajuda a cidades sírias sob cerco e para um “cessar das hostilidades”, a que se seguiria um cessar-fogo mais formal. A Rússia e os EUA têm poder para fazer com que as coisas aconteçam na Síria, não é um poder absoluto, mas é superior ao de quaisquer outros.

O anúncio foi recebido com grande ceticismo pela mídia e pelos diplomatas, que rapidamente apontaram as muitas lacunas no acordo e as muitas coisas que poderiam correr mal. Mas as dúvidas poderão ser exageradas porque os desenvolvimentos militares e diplomáticos na Síria reforçam-se entre si. A intervenção militar russa significa que o Presidente Bashar al-Assad não vai perder a guerra e é difícil antever o que poderão as forças de oposição sírias fazer isoladamente para travar o exército sírio apoiado pela Rússia e em coligação com um eixo da Shia liderado pelo Irã. O Presidente Bashar al-Assad afirma que quer a vitória, mas que é improvável que os EUA e os seus aliados na região aceitem uma derrota total.

O envolvimento crescente da Rússia e do Irã na guerra não é surpreendente. Foi claro, desde meados de 2012, que a Rússia e o eixo da Shia não iriam deixar o Presidente Bashar al-Assad ser derrubado e iriam contrariar qualquer escalada por parte da Turquia, da Arábia Saudita e dos poderes sunitas. Isto aconteceu no ano passado, quando uma ofensiva dos rebeldes do Estado não-Islâmico sírio (o ISIS), liderados pelos filiados da al-Qaeda, al-Nusra e Ashar al-Sham conquistou uma série de vitórias militares na província de Idlib no norte da Síria. O seu sucesso provocou a intervenção militar russa a 30 de setembro, a qual mudou o equilíbrio de forças na guerra a favor de Assad num grau que apenas poderia ser revertido pela intervenção direta do exército turco.

Mas começa a tornar-se tarde mesmo para uma ação destas. A 2 de fevereiro, o Exército sírio, apoiado por dois fortes raides aéreos russos, cortou a estrada entre Aleppo e a Turquia. Os governos russo e sírio estão perto de fechar o norte da Síria à Turquia numa aliança tácita com os curdos sírios, que têm avançado do Leste. Estes são momentos cruciais da guerra, num momento em que a Turquia e a Arábia Saudita debatem a intervenção militar.

Uma característica marcante da ofensiva russa-síria-iraniana é a resposta silenciosa, até agora, por parte dos EUA e dos seus aliados.

A Arábia Saudita e a Turquia já não mantêm a influência sobre a política do Ocidente na guerra como aconteceu antes, quando se assumiu que os seus aliados e satélites sírios iriam ganhar e Assad seria deposto. Não apenas isto não aconteceu, como a ascensão do ISIS em 2014 e as suas vitórias retumbantes no Iraque e na Síria mostraram que não se poderia deixar a guerra síria agravar-se. A esperança, por parte dos poderes ocidentais, de que a crise poderia ser contida, foi destruída no ano passado por dois acontecimentos: as grandes vagas migratórias vindas da Síria e do Iraque a caminho da Europa ocidental, e o massacre de 130 pessoas pelos atiradores do ISIS e pelos homens-bombas em Paris a 13 de novembro.

O acordo de Munique foi uma má notícia para o ISIS. A pretensão do Ocidente de que os russos não estariam a lutar contra o ISIS mas antes concentrados em eliminar uma oposição misteriosa “moderada”, que representaria uma grande ameaça para Assad, foi sempre uma espécie de slogan de propaganda. Na verdade, a aviação russa atacou grupos da oposição armados que ameaçavam Assad. Estes eram fundamentalmente al-Nusra e Ashar al-Sham no noroeste, Jaish al-Islam perto de Damasco e o Estado Islâmico, mais para Leste.

Foi um mito conveniente para a oposição síria e os seus apoiadores estrangeiros afirmar que nem o exército sírio nem os russos combatiam o ISIS. “Os russos dizem que querem destruir o Daesh [ISIS], mas não estão a bombardear o Daesh, estão a bombardear a oposição moderada”, disse o Secretário do Exterior Philip Hammond, que mantém uma crença comovente na existência de uma poderosa facção moderada.

Na verdade, o exército sírio, agora apoiado pela força aérea russa, vem de há muito confrontando o ISIS no centro da Síria, apesar de que, geralmente, sem grande sucesso. O ISIS revelou vídeos revoltantes mostrando soldados sírios a serem fuzilados ou decapitados.

O próprio ISIS é uma fonte preferível ao Sr. Hammond, quanto a quem são aqueles que acredita estar a combater em defesa do seu autoproclamado califado, como mostram os seus números relativos às “operações de martírio”, ou os atentados suicidas levados a cabo em Janeiro. No Instagram, reclama 85 ataques nesse mês, dos quais 47 sob a forma de carros-bomba, e 38 por indivíduos com cintos explosivos. O maior número destes ataques foi dirigido contra o exército iraquiano, que foi o alvo em 54 deles, dos quais 28 em carros-bomba e 26 com cintos explosivos. Mas o segundo maior número de ataques foi o exército sírio, que foi o alvo de 18 com carros-bomba e 11 com cintos explosivos.

O ISIS começa agora a vacilar, embora ainda esteja muito longe da derrota. Está mais vulnerável na Síria do que no Iraque, porque nasceu da Guerra do Iraque depois da invasão de 2003 e os seus líderes são sobretudo iraquianos. No Iraque, dominam a oposição armada sunita ao governo e os curdos, enquanto na Síria é apenas um de vários movimentos de oposição, embora seja o mais poderoso. O pico do seu sucesso foi em 2014, quando capturaram Mosul, e normalmente atacaram o alvo mais fraco. Mas hoje já não podem obter mais vitórias fáceis. Enfrentam quatro inimigos: o exército iraquiano, o exército sírio, os curdos iraquianos e os curdos sírios, sendo que todos eles estão a receber um forte apoio aéreo, dos EUA ou da Rússia, o que muito multiplica o seu poder de fogo.

A guerra está longe de ter acabado, mas torna-se mais claro quem serão os vencedores e os vencidos. Não haverá uma mudança radical de regime em Damasco. A oposição árabe sunita não conseguiu chegar ao poder na Síria e está à defesa no Iraque. Os curdos em ambos os países são política e militarmente mais poderosos do que nunca, porque são adversários eficazes do ISIS, mas, uma vez que este seja derrotado, temem ser marginalizados.

O ISIS está confinado a um califado cada vez mais isolado e pesadamente bombardeado, mas pode bem mostrar que ainda é um poder a temer, levando a cabo atrocidades extraordinárias, como rebentar com um avião russo com uma bomba, ou o massacre em Paris no ano passado.

Os poderes regionais como a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar falharam na derrubada de Assad, e não atingiram nenhum dos seus objetivos nesta guerra. O Irã e a coligação da Shia que aquele lidera foram muito mais bem-sucedidos. Apesar da política cautelosa do Presidente Obama ser muitas vezes criticada, ele não sofreu verdadeiras derrotas. Quando a Rússia entrou na guerra na Síria há quatro meses, os especialistas afirmaram que se arrependeria, mas, em vez disso, tornou-se fundamental na decisão sobre quem ganhará a guerra.

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