20 de março de 2016

Uma guerra mundial começou. Quebre o silêncio

Versão editada de um discurso de John Pilger na Universidade de Sydney, intitulado "Uma guerra mundial começou".

John Pilger

The films and journalism of John Pilger

Estou filmando nas Ilhas Marshall, que ficam ao norte da Austrália, no meio do Oceano Pacífico. Toda vez que digo a alguém por onde andei, perguntam, “Onde é isso?” Se dou uma pista referindo-me a “Bikini”, perguntam: “Você quer dizer o maiô?”

Poucos parecem saber que o maiô tipo biquíni foi chamado assim em referência às explosões nucleares que destruíram a Ilha Bikini. Sessenta e seis dispositivos nucleares foram detonados pelos Estados Unidos nas Ilhas Marshall entre 1946 e 1958 – o equivalente a 1,6 bombas de Hiroshima a cada dia, durante doze anos.

Bikini está hoje em silêncio, contaminada e com mutações. Palmeiras crescem numa estranha formação de grade. Nada se move. Não há pássaros. As lápides no cemitério velho ainda contêm radiação. Meus sapatos acusaram “inseguro” num medidor Geiger.

De pé na praia, observei o verde-esmeralda do Pacífico cair num vasto buraco negro. É a cratera deixada pela bomba de hidrogênio que chamaram de “Bravo”. A explosão envenenou as pessoas e o meio ambiente ao longo de centenas de quilômetros, talvez para sempre.

Em minha viagem de volta, parei no aeroporto de Honolulu e uma revista americana denominada Women’s Health (“Saúde da Mulher”) me chamou a atenção. Na capa havia uma mulher sorridente, vestida com um biquíni, com a chamada: “Você também pode ter um corpo de biquíni.” Alguns dias antes, nas Ilhas Marshall, eu havia entrevistado mulheres que tinham “corpos de biquíni” muito diferentes; haviam sofrido câncer da tireoide e outros tipos de câncer que podem matar.

Ao contrário da mulher sorridente da revista, todas estavam empobrecidas: vítimas e cobaias de uma superpotência voraz que é hoje mais perigosa do que nunca.

Falo dessa experiência como um alerta e para interromper uma distração que vem consumindo tantos de nós. O fundador da propaganda moderna, Edward Bernays, descreveu esse fenômeno como “a manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões” das sociedades democráticas. Ele a chamava de “governo invisível”.

Quantas pessoas estão conscientes de que uma guerra mundial começou? No momento, é uma guerra de propaganda, de mentiras e distração, mas isso pode mudar instantaneamente à primeira ordem errada, ao primeiro míssil.

Em 2009, o presidente Obama esteve diante de uma multidão entusiasmada no centro de Praga, coração da Europa. Ele prometeu tornar “o mundo livre de armas nucleares”. A audiência aplaudiu e muitas pessoas choraram. Uma torrente de banalidades circulou pela mídia. Obama foi em seguida escolhido para o Prêmio Nobel da Paz.

Era tudo falso. Ele estava mentindo.

O governo Obama fabricou mais armas nucleares, mais ogivas nucleares, mais mísseis portadores de armas nucleares, mais fábricas nucleares. Os gastos com ogivas nucleares sozinhos aumentaram mais sob Obama do que sob qualquer outro presidente americano. O custo, em trinta anos, é de mais de US $ 1 trilhão.

Há planos para construir uma mini bomba nuclear. É conhecida como o B61 Modelo 12. Nunca houve nada como isso. O general James Cartwright, um ex-vice-presidente do Estado-Maior Conjunto disse: “Ao reduzi-la, [tornamos o uso dessa arma nuclear] mais imaginável.”

Nos últimos dezoito meses, o maior deslocamento de forças militares desde a Segunda Guerra Mundial está acontecendo – liderado pelos Estados Unidos – ao longo da fronteira oeste da Rússia. Desde que Hitler invadiu a União Soviética, nunca a Rússia foi tão pressionada por tal demonstração de presença militar.

A Ucrânia – antes parte da União Soviética – tornou-se um parque temático da CIA. Tendo orquestrado um golpe em Kiev, Washington efetivamente controla um regime que é vizinho e hostil à Rússia: um regime, podre com nazistas, literalmente. Parlamentares destacados da Ucrânia são descendentes políticos dos notórios grupos OUN e UPA, fascistas. Enaltecem Hitler abertamente e pedem a perseguição e expulsão da minoria de língua russa. Isso raramente é notícia no Ocidente; ou, quando aparece, vem com sentido invertido, para suprimir a verdade.

Na Letônia, Lituânia e Estônia – vizinhas da Rússia – os militares americanos estão posicionando tropas de combate, tanques, armamento pesado. Essa provocação extrema contra o segundo poder nuclear do mundo é assistida em silêncio pelo Ocidente.

O que torna a perspectiva de uma guerra nuclear ainda mais perigosa é uma campanha paralela contra a China. Dificilmente se passa um dia sem que a China não seja elevada ao status de “ameaça”. De acordo com o almirante Harry Harris, comandante das forças americanas no Pacífico, a China está “levantando um grande muro de areia no Sul do Mar da China”.

Ele se refere à construção, pela China, de pistas de pouso nas Ilhas Spratly, que são objeto de disputa com as Filipinas – uma disputa não prioritária até que Washington pressionou e subornou o governo de Manila e o Pentágono lançou uma campanha de propaganda denominada “liberdade de navegação”.

O que isso significa, de fato? Significa liberdade para os navios de guerra americanos patrulharem e dominarem as águas costeiras da China. Tente imaginar a reação dos Estados Unidos se navios de guerra fizessem o mesmo no litoral da Califórnia.

Fiz um filme chamado The War You Don’t See (A Guerra que você não vê), no qual entrevistei importantes jornalistas nos Estados Unidos e Reino Unido: repórteres como Dan Rather da CBS, Rageh Omar da BBC, David Rose do Observer.

Todos disseram que, se os jornalistas e as emissoras de TV tivessem feito seu trabalho e questionado a propaganda de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa; se as mentiras e George W. Bush e Tony Blair não tivessem sido amplificadas e ecoadas por jornalistas, a invasão do Iraque em 2003 poderia não ter acontecido. Centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas hoje.

A propaganda que está cimentando o caminho para uma guerra contra a Rússia e/ou China não é diferente, em princípio. Que eu saiba, nenhum jornalista “convencional” no Ocidente – o equivalente a Dan Rather, digamos – questiona por que a China está construindo pistas de pouso no Sul do Mar da China.

A resposta deve ser o óbvio ululante. Os Estados Unidos estão cercando a China com uma rede de bases, com mísseis balísticos, grupos de combate, bombardeiros nucleares armados.

O arco letal estende-se da Austrália às ilhas do Pacífico, às Marianas e às Marshalls e Guam; até as Filipinas, Tailândia, Okinawa, Coreia; e cruza a Eurásia até o Afeganistão e a Índia. Os Estados Unidos penduraram uma corda no pescoço da China. Isso não é notícia. Silêncio na mídia; guerra midiática.

Em 2015, em segredo absoluto, os Estados Unidos e a Austrália armaram o maior exercício militar ar-mar único da história recente, conhecido como Sabre Talismã. Seu objetivo era ensaiar um plano de batalha ar-mar, bloqueando rotas marítimas, como o Estreito de Málaca e o Estreito Lombok, que poderia cortar o acesso da China ao petróleo, gás e outras matérias primas vitais do Oriente Médio e da África.

No circo conhecido como campanha presidencial norte-americana, Donald Trump está sendo apresentado como um lunático, um fascista. Ele é odioso, com certeza; mas ele é também uma figura odiada pela mídia. Isso por si só deveria despertar nosso ceticismo.

A visão de Trump sobre migração é grotesca, mas não mais grotesca do que a de David Cameron. O Grande Deportador dos EUA não é Trump, mas o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama.

De acordo com um destacado comentarista liberal, Trump está “liberando as forças sombrias da violência” nos Estados Unidos. Liberando-as? Este é o país onde as crianças atiram em suas mães e a polícia trava uma guerra assassina contra negros. Este é o país que atacou e tentou derrubar mais de cinquenta governos, muitos deles democracias, e bombardeou desde a Ásia até o Oriente Médio, causando a morte e a expropriação de milhões de pessoas.

Nenhum país pode igualar tal recorde de violência sistêmica. A maioria das guerras norte-americanas (quase todas contra países indefesos) foram lançadas não por presidentes republicanos, mas por democratas liberais: Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton Obama.

Em 1947, uma série de diretivas do Conselho de Segurança Nacional descrevia o objetivo primordial da política externa norte-americana como “um mundo substancialmente feito à sua própria imagem [dos Estados Unidos]”. A ideologia era o americanismo messiânico. Éramos todos americanos. Ou não. Os hereges deviam ser convertidos, subvertidos, subornados, difamados ou esmagados.

Donald Trump é um sintoma disso, mas é também um dissidente. Ele diz que a invasão do Iraque foi um crime; ele não quer começar uma guerra com a Rússia e a China. O perigo para nós não é Trump, mas Hillary Clinton. Ela não é dissidente. Ela corporifica a resiliência e a violência de um sistema cujo famoso “excepcionalismo” é totalitário com uma face liberal ocasional.

À medida em que o dia da eleição presidencial se aproximar, Hillary será saudada como a primeira presidente mulher, independentemente de seus crimes e mentiras – assim como Barack Obama foi elogiado como o primeiro presidente negro e os liberais engoliram seu absurdo sobre “esperança”. E a baba continua.

Descrito por Owen Jones, colunista do Guardian, como “engraçado, charmoso, com um charme que supera praticamente todos os outros políticos,” Obama enviou outro dia drones para abater 150 pessoas na Somália. De acordo com o New York Times, ele mata as pessoas geralmente às terças-feiras, quando lhe é entregue uma lista de candidatos à morte por drones. Tão cool.

Na campanha presidencial de 2008, Hillary Clinton ameaçou “destruir totalmente” o Irã com armas nucleares. Como secretária de Estado de Obama, ela participou na derrubada do governo democrático de Honduras. Sua contribuição para a destruição da Líbia em 2011 foi quase alegre. Quando o líder líbio, coronel Kaddafi, foi publicamente sodomizado com uma faca – um assassinato possibilitado pela logística norte-americana – Clinton exultou com sua morte: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu.”

Um dos mais próximos aliados de Clinton é Madeleine Albright, ex-secretária de Estado, que criticou as jovens por não apoiar “Hillary”. Essa é a mesma Madeleine Albright que celebrou infamemente na TV a morte de meio milhão de crianças iraquianas como “compensadora”.

Entre os maiores apoiadores de Hillary, estão o lobby de Israel e as fábricas de armamentos que atiçam a violência no Oriente Médio. Ela e seu marido receberam uma fortuna de Wall Street. E, além disso, ela está para ser proclamada a candidata mulher, a que supostamente livra o país do mal Trump, o demônio oficial. Entre seus apoiadores, estão feministas notáveis: as seguidoras de Gloria Steinem nos Estados Unidos e de Anne Summers na Austrália.

Uma geração atrás, um culto pós-moderno agora conhecido como “política de identidade” impediu que muita gente inteligente e de mente liberal examinasse as causas e indivíduos que apoiavam – tais como a falsificação de Obama e Clinton; tais como o movimento Syriza na Grécia, falsamente progressista, que traiu o povo desse país e aliou-se com os seus inimigos.

O autocentramento, uma espécie e “eu-zismo” tornou-se o novo zeitgeist nas sociedades ocidentais privilegiadas e assinalou o fim dos grandes movimentos coletivos contra a guerra, a injustiça social, a desigualdade, o racismo e o sexismo.

Hoje, o longo sono pode ter chegado ao fim. Os jovens estão se mexendo novamente. Gradualmente. Os milhares no Reino Unido que apoiaram Jeremy Corbyn como líder trabalhista fazem parte desse despertar – como aqueles que se reuniram para apoiar o senador Bernie Sanders.

No Reino Unido, semana passada, o mais próximo aliado de Jeremy Corbyn, John McDonnell, comprometeu um governo trabalhista a pagar as dívidas dos bancos de pirataria e, na verdade, manter a chamada austeridade.

Nos Estados Unidos, Bernie Sanders prometeu apoiar Clinton se ou quando ela for escolhida candidata. Além disso, ele votou pelo uso de violência contra países quando considerar que é “certo”. Diz que Obama fez um “grande trabalho”.

O que aconteceu com a grande tradição de ação popular direta, desatrelada dos partidos? Onde estão a coragem, imaginação e compromisso necessários para começar a longa jornada para um mundo melhor, mais justo e pacífico? Onde estão os dissidentes nas artes, cinema, teatro, literatura?

Onde estão aqueles que vão quebrar o silêncio? Ou estamos esperando até que o primeiro míssil nuclear seja disparado?

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