23 de março de 2016

Você pode descobrir o que significa este gráfico?

O que você acha que significa esse gráfico?

Mike Whitney

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

(The post-recession economy is worse than we thought, Fortune)

Significa a economia dos EUA está no meio da pior recuperação desde a II Guerra Mundial.

"Mas como pode ser isso", você pergunta? "Afinal de contas, o Fed não garantiu juros zero durante sete anos, ao mesmo tempo em que abastecia todo o sistema financeiro com mais de $4 trilhões?"

Sim, com certeza fizeram tudo isso, mas o tal estímulo monetário deles não conseguiu arrancar a economia das mais lentas calmarias, ou produzir a recuperação robusta que nos prometeram. Em vez disso, o PIB dos EUA despencou a abissais 2,2% desde 2009, o que é muito abaixo da média de 3,6% dos 60 anos anteriores. Resumo da ópera: Não há chance de a economia sair dessa estagnação de longo prazo, a menos que os políticos mudem dramaticamente de abordagem. Aqui está um instantâneo da obra do Fed de um artigo na revista Fortune. Dê uma olhada:


Fortune:

"Como se pode ver, as revisões mostram em geral número sempre mais anêmico de crescimento pós-recessão; mais anêmico do que supúnhamos. A partir de 2011 até o ano passado, a economia dos EUA, em média, cresceu apenas 2% a.a., muito abaixo de sua média de crescimento pós-guerra, de 3%." (A economia pós-recessão é pior do que pensávamos, Fortune)

É difícil de acreditar, não é? É difícil acreditar que o Fed pode despejar mais de $ 4 trilhões de euros no sistema financeiro e não chegar a atingir sua meta de inflação de 2%? Como isso é possível? Pensei que mais dinheiro significava mais inflação? Eu estava errado?

Sim e não. Vejam bem: as políticas do Fed realmente criaram inflação, mas não o tipo de inflação que estimula a atividade. O que o Fed criou foi inflação dos ativos [asset inflation], fez subir os preços de ações e papéis que eventualmente levou à instabilidade financeira e a dolorosos períodos de ajuste. O índice S&P mais do que dobrou desde 2009, e o Dow Jones realmente triplicou.

Preços de ações subiram à estratosfera, e os especuladores de Wall Street praticaram verdadeiro massacre. Só operadores panacas não se beneficiaram das políticas do Fed, porque nem um vintém do dinheiro gotejou para baixo, até a economia real, onde poderia ter feito algum bem. Em vez disso, está tudo preso dentro do sistema financeiro, onde inflou bolhas gigantescas, uma depois de outra.

Aqui está o que é a operação do Fed de injetar dinheiro no papel:

Fonte: MarketOracle.co.uk

Estão vendo como a linha preta salta rumo à estratosfera a cada nova rodada de Alívio Quantitativo (AQ)? É assim que funciona essa política. Os ricos cada vez mais ricos, enquanto os trabalhadores tentam sobreviver com menos horas, salários sempre mais miseráveis, saúde cada vez mais cara e zero de poupança para a aposentadoria. Alguém ainda se surpreende por Bernie Sanders ter incendiado as massas?

Agora, se você olhar de perto o gráfico, você verá que o Fed parou de bombear dinheiro no sistema, em outubro de 2014, cerca de um ano e meio atrás. Desde aquela época, as ações subiram gradualmente, o que sugere que os preços atuais refletem com precisão fortes fundamentos subjacentes. Mas será que alguém realmente acredita nisso?

Não, não realmente. Todo mundo pensa que as ações estão em uma bolha. Na verdade, o Fed nem pode falar de "apertar", sem lançar os mercados ladeira abaixo. Por exemplo, em dezembro – depois de meses avisando sobre uma intenção de elevar os juros em reles 25 pontos base – o Fed subiu os juros para 0,5%, 1 pp abaixo da inflação atual (o que significa que o Fed está de fato subsidiando empréstimos). Pois mesmo assim, os mercados entraram em crise coronária grave, que pôs as ações a tropeçar e despencar, no pior começo de ano de toda a história.

Por quê?

Porque todo mundo sabe que os preços são falsos. A conversa de juros zero e Alívio Quantitativo é, toda ela, fiada, toda, conversa fiada do começo ao fim. E ainda não chegamos ao fundo do fundo do poço, motivo pelo qual o Fed está tão preocupado, porque, se o mercado dá uma reviravolta sem aviso, e as ações começarem a cair, ninguém sabe até onde a coisa irá. É possível que se veja o Crash do Século em apenas poucas semanas. Ninguém realmente sabe ou pode prever com razoável certeza.

Há um excelente artigo em Yahoo, publicado há poucas semanas, intitulado O Fed causou 93% do movimento de todo o mercado de ações desde 2008.

De acordo com o economista-analista Brian Barnier, as ações subiram para níveis estratosféricos, porque, "o Fed inundou o mercado financeiro com dólares comprando títulos."

Ok, mas, se o Fed é responsável por 93% de todo o movimento, nesse caso até onde as ações terão de cair, antes de os preços refletirem fundamentos?

Verdade é que terão de cair muito, muito, mais fundo do que qualquer um sequer tenta prever. Essa é a razão pela qual o Fed NÃO VENDEU e provavelmente NÃO VENDERÁ nem um centavo dos seus $4,5 trilhões de ativos que atualmente aparecem no balanço do banco. Tremem de medo de que os investidores vejam na venda um sinal de que o Fed está pondo fim ao apoio que dá aos mercados, o que disparará o mais vicioso pânico de venda. Em outras palavras, o Fed permanecerá condenado a um balanço doentiamente inchado até o Juízo Final, talvez ainda adiante.

Mas vamos voltar à nossa pergunta original: Por que as ações continuaram a subir ainda mais quando o Fed parou suas operações de bombeamento de dinheiro por volta de 2014?

Resposta: recompras de ações.

Vejam esse gráfico que encontrei no blog Contra Corner de David Stockman. Ajuda a ilustrar o modo como as ações estão subindo, não por fundamentos sólidos, mas porque executivos bigshots de grandes empresas têm tomado empréstimos pesados do mercado de ações, para recomprar suas próprias ações. É isso, altos executivos de empresas endividam-se para comprar ações das próprias empresas, o que faz engordar os lucros e os bônus que recebem sobre lucros da empresa. É manipulação grosseira, mas tudo perfeitamente legal. Confiram:

(Chart Of The Day: The Perfect Correlation — Stock Buybacks And The S&P 500 Since 2010, Contra Corner)

Isso é que faz o mercado subir. Não os números falsos do emprego, não a fantasia da recuperação do mercado imobiliário, e, com certeza, tampouco alguma confiança na recuperação lenta de Yellen do Fed. É tudo baseado em dinheiro barato, engenharia financeira e fraude. Isso é o mercado de ações hoje em poucas palavras.

Agora, dê uma olhada neste choque de Bloomberg:

"As empresas que compõem o índice Standard & Poor, das 500 maiores, estão posicionadas para recomprar $165 bilhões de ações nesse trimestre, aproximando-se do recorde alcançado em 2007." (Só um comprador mantém vivo o mercado em alta das 500 de S&P, Bloomberg)

$165 bilhões de ações nesse trimestre traduzem-se em $660 bilhões/ano. É uma enxurrada de dinheiro, suficiente para manter o mercado em alta, até que investidores individuais [retail investors] resolvam encerrar o expediente e cair fora. E os investidores individuais estão caindo fora. Segundo relatório recente do Bank of America (publicado em Zero Hedge):

"Clientes do Bank of America Merrill Lynch (BofAML) foram vendedores líquidos de ações dos EUA pela 7ª semana consecutiva (...) Fundos hedge e clientes privados também foram vendedores líquidos (...).

Resumo do Bank of America: "clientes não acreditam no rally [subida crescente], continuam a vender ações dos EUA" e estão vendendo especificamente para corporações cuja atividade de recompra se aproxima do recorde máximo de todos os tempos: "recompras por clientes corporativos aceleraram pela terceira semana consecutiva para o seu nível mais alto em seis meses, e também estão acima dos níveis desse momento do ano passado." (Buyback blackout period starts monday: Is this the catalyst that ends the S&P rally?, Zero Hedge)

VENDER. VENDER. VENDER. É como se o único agente que não está correndo para a saída são os honchos das grandes empresas, que querem mais uma última grande recompensa, antes que o mercado entre em clima de "nosso-caso-está-na-hora-de-acabar", Sayonara. Aqui está mais de Bloomberg:

"Recompras corporativas são a única exigência de participações societárias neste mercado", David Kostin, o estrategista-chefe de equidade dos EUA no Goldman Sachs Group Inc., disse em 23 de fevereiro entrevista à Bloomberg Television." (Bloomberg)

"A única exigência"? Quer dizer que o único a comprar essas ações de baixa qualidade são as empresas lançadoras das ações?

É isso mesmo, e você pode culpar por tudo isso aquelas pessoas simpáticas no Fed. Não fossem a taxa zero de juros e os $4 trilhões de Alívio Quantitativo do Fed, essa derradeira onda suicida de especulação jamais teria acontecido. Vamos encarar: se os juros fossem normais, os executivos espertalhões não conseguiriam tomar dinheiro emprestado para pagar pelas próprias ações. Seria caro demais e, portanto, o problema nem existiria. Dinheiro barato cria bolhas, e o produtor nº 1 de dinheiro barato no planeta hoje, você já adivinhou, é Janet "Em Pânico" Yellen.

Então, qual é o objetivo final aqui, o que é que o Fed realmente está tentando alcançar? Certamente, depois de sete anos fazendo a mesma coisa uma e outra vez, o Fed não está esperando um resultado diferente, não é?

Não, claro que não. Afinal, o Fed não é louco, está longe disso. O Fed sabe exatamente o que está fazendo. Sabe que essa política monetária está "tocando uma corda" que não terá impacto algum no emprego, nos investimentos ou no crescimento, assim como sabem que o Alívio Quantitativo não fará subir a inflação, enquanto os salários permanecerem baixos. Eles sabem disso, porque já viram acontecer exatamente esse cenário & resultados em todos os países em que usaram esse combo de dinheiro fácil e austeridade. Não esqueçam que a gangue dos Bancos Centrais implementou esse mesmo programa no Reino Unido, União Europeia, Japão e EUA. Em todos os casos, a classe política pôs freios no crescimento (cortando os gastos do governo) ao mesmo tempo em que os Bancos Centrais bombeavam trilhões no sistema financeiro.

E o resultado sempre foi exatamente o que se podia esperar: os investidores chafurdando em bilhões, enquanto a economia definha e entra em coma. Que outra prova ainda seria necessária?

Como já dissemos, esse fenômeno tampouco é limitado à América. É uma reestruturação das economias ocidentais dominantes, que se querem bem distantes de qualquer modelo democrático no qual representantes do povo e governo eleitos definem as políticas. A nova ordem representa mudanças básicas na economia política, uma economia que agora serve aos interesses exclusivos do 1% de cima. Bem-vindo ao Admirável Mundo Novo do Fed.

A chave aqui para as elites do estado-profundo – que controlam todo o apparatus por trás da cortina de fumaça dos bancos centrais – é a inflação. Enquanto a inflação permanecer baixa, os bancos centrais podem continuar a canalizar mais riqueza para os magnatas do andar de cima. Por isso a economia não pode crescer, porque se a economia crescer depressa demais, e mais pessoas conseguirem trabalho, nesse caso as pressões salariais aumentam, o que obrigaria os Bancos Centrais a aumentarem as taxas de juros.

As elites não podem permitir que aconteça, porque taxas mais altas de juros ameaçam sabotar a boa vida do dinheiro fácil sem esforço algum. Então a economia tem de ser estrangulada com muita austeridade, para que os uber-ricos possam sempre arrancar mais lucros para eles mesmos. É por isso que a economia vai ficar atolada na crise por todo futuro previsível. Essa é a política.

Este é o motivo oculto por trás de austeridade. Não tem nada a ver com a preocupação persistente sobre a dívida federal ou déficits esbugalhados. Isso é bobagem. Trata-se de conter a inflação, de modo que os oligarcas obtenham um pedaço maior do bolo. Fim da história.

Como dissemos anteriormente, o Fed sabe exatamente o que está fazendo, assim como todos os Bancos Centrais sabem o que estão fazendo. Isso não é difícil de entender. É um plano bastante simples, mas tortuoso para reestruturar a economia de modo que punhado de plutocratas obscenamente-ricos acabem controlando tudo. Esse é o objetivo principal. Eles querem tudo.

Então, como podemos mudar isso?

Infelizmente, é onde estou preso.

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