21 de abril de 2016

As primárias (anti)democratas: por um novo partido dos 99%

por Kshama Sawant

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A despeito de uma vitória decisiva na terça-feira, fornecendo uma confirmação a mais de sua provável indicação, em muitos sentidos Hillary Clinton emerge das primárias de Nova York mais desgastada do que a princípio, com seu partido mais dividido.

O que veio a ser chamado de A Batalha de Nova York serviu apenas para expor mais ainda o que milhões de pessoas nos EUA estão começando a perceber dolorosamente – as primárias do Partido Democrata são viciadas em favor dos poderes estabelecidos (o “establishment”).

Uma discussão que se iniciou em torno do sistema “de cima para baixo” de superdelegados e a enorme influência do dinheiro corporativo na política se desenvolveu em uma crescente percepção sobre a natureza geralmente antidemocrática das primárias Democratas e o próprio partido – com todas as suas regras eleitorais antidemocráticas, antecipação dos estados mais conservadores, a inclinação do espaço de disputa interna pelas pressões da grande mídia e o papel antagônico dos líderes do Partido Democrata frente a desafiantes lastreados em movimentos de base, como Sanders.

Mesmo antes da primária de ontem começarem mais de 27% dos Nova Yorkinos (3 milhões de pessoas) foram excluídos por leis eleitorais restritivas, bem como pela remoção de eleitores previamente registrados, identificados como “inativos”. Em uma região do Brooklyn, os responsáveis disseram que 10% daqueles que compareceram para votar descobriram que seus nomes haviam sido removidos. Na comarca em que o Brooklyn se encontra, mais de 125 mil eleitores foram cortados das listas Democratas, levando a uma massiva queda de 14% no número de votantes aptos em um período de 5 meses.

Enquanto isso, em todo o estado de Nova York, os horários de votação foram substancialmente diminuídos em áreas mais favoráveis a Sanders. Se somando a isso tudo, por meio de uma regra da qual dificilmente alguém tinha conhecimento, apenas eleitores que se registraram como Democratas até o último 9 de outubro estiveram aptos a votar. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, se sentiu compelido a comentar: “A percepção que numerosos votantes possam ter sido desfavorecidos mina a integridade do processo eleitoral como um todo, e deve ser corrigida.” O controlador da cidade prometeu “empreender uma auditoria das operações e administração do Conselho Eleitoral”.

Ainda que a margem de 15 pontos da vitória de Clinton seja quase certamente maior do que a soma de irregularidades, é igualmente claro que se independentes e outros equivocadamente excluídos pudessem votar, o desfecho teria sido bem mais apertado e Sanders poderia inclusive ter vencido.

Primárias fechadas como a de Nova York são amplamente desfavoráveis para desafiantes lastreados em movimentos de base, expurgando do processo os milhões de pessoas registradas como independentes que já extraíram suas conclusões sobre o caráter corrupto de ambos partidos.

O poder da grande mídia de Nova York esteve escancarado durante as primárias, na medida em que foi declarada guerra aberta contra Sanders. Mesmo jornais “progressistas” como o New York Daily News vieram à tona, repetidamente imprimindo ataques difamatórios e sensacionalistas na primeira página.

Talvez o mais importante resultado das primárias de Nova York tenha sido não a votação, mas o impacto político da campanha de Sanders nas dezenas de milhares de pessoas ativamente envolvidas ou que o observam de perto nos últimos dias e semanas.

Não apenas Nova York

A mídia corporativa nacional exerceu grande peso em favor de Clinton durante todo o processo das primárias. Primeiramente com um blackout midiático em 2015, enquanto Clinton era pintada como a nomeação inevitável e Trump recebeu mais de 20 vezes mais cobertura midiática. Mas conforme Sanders tornou-se mais nitidamente uma ameaça, os grupos de comunicação de massas passaram a tentar desacreditá-lo. Desde infinitos ataques a suas propostas políticas feitos por proeminentes figuras liberais como Paul Krugman até assaltos como aquele do Washington Post em 1º de março, quando publicaram um artigo anti-Sanders por hora, durante 16 horas seguidas.

As irregularidades eleitorais, inclusive, aumentaram estado após estado. Enquanto algumas foram, sem sombra de dúvidas, exageradas, outras tiveram efeitos bastante reais. No Arizona, onde havia filas de cerca de cinco horas para as votações, muitas pessoas puderam ver seus registros eleitorais serem transferidos de local sem seu prévio conhecimento.

As primárias, como um todo, são fortemente enviesadas em favor dos mais velhos e ricos legalistas partidários. Nacionalmente, menos de 15% dos eleitores aptos irão participar das primárias e caucus Democratas.

O povo trabalhador têm vislumbrado o caráter pró-corporações da própria liderança do Partido Democrata “em tela cheia”. Não é nenhum acidente que quando o senador Democrata Jeff Merkley veio à tona endossar Bernie Sanders, na última semana, ele foi o primeiro de todos os senadores a fazê-lo. A fins de comparação, 40 senadores já declararam seu apoio a Hillary, bem como 166 deputados. Para esses poderes estabelecidos, o chamado de Sanders por uma revolução política contra os bilionários e ricos doadores de campanhas é totalmente inaceitável. Essa liderança Democrata tem suas bases na troca de favores e no tráfico de influência entre posições eleitas e lucrativas carreiras corporativas de lobistas. Enquanto isso, valem-se de seu peso e influência para manter lideranças sindicais e religiosas na linha.

Adicione-se a isso o poder combinado dos SuperPACs de Wall Street e você terá uma primária e um partido político que constituem terreno hostil para um candidato dos 99%.

Um fato simples revela o caráter fraudulento do sistema: pesquisas nacionais de opinião constantemente mostram que Bernie Sanders goza, de longe, do maior favoritismo em comparação com todos outros candidatos presidenciais e derrota qualquer candidato Republicano em um enfrentamento direto. Ainda assim, ele será muito provavelmente eliminado antes das eleições gerais, se ele jogar pelas regras do sistema bipartidário.

Uma oportunidade histórica

Estamos adentrando o que é provavelmente o momento mais favorável na história dos EUA para que seja lançado um novo partido de esquerda. A confiança da população em ambos os maiores partidos, na mídia comercial e em todas as principais instituições que apoiam o capitalismo estadunidense está colapsando. Oito anos depois da Grande Recessão, com a maior parte dos trabalhadores ainda sofrendo a despeito da recuperação de Wall Street, toda a raiva e descontentamento acumulado está se expressando em uma amarga revolta contra os grandes líderes Democratas e Republicanos.

Esse é o contexto para a dramática ascensão de Bernie Sanders, que tem feito, por qualquer medida, a mais forte campanha claramente de esquerda na história dos EUA desde Eugene Debs (ainda que Debs, que foi candidato pelo Partido Socialista, fosse nítido a respeito da dominância das corporações estadunidenses sobre o Partido Democrata e não tivesse cometido o erro fundamental de concorrer no interior deste partido). Começando sua campanha sem qualquer reconhecimento, batendo os 3% de intenção de votos e sem qualquer figura eleita se relevo nacional o apoiando, Bernie ganhou mais votos, mais primárias estaduais, levantou mais recursos financeiros e mobilizou mais voluntários do que qualquer competidor de esquerda comparável na história do Partido Democrata.

Ele fez tudo isso sobre uma plataforma genuinamente de esquerda, recusando doações das corporações, abraçando o título de socialista e fazendo do chamado por “uma revolução política contra a classe dos bilionários” seu principal slogan.

Mesmo pelos parâmetros da política tradicional, a força da campanha de Sanders é de tirar o fôlego. Clinton começou a eleição com o que, no papel, parecia ser feito para constar entra as mais formidáveis máquinas eleitorais corporativas jamais montadas. Ainda assim, nos últimos três meses, com doações de, em média, $27, Sanders tem explorado sua crescente base de pequenos doadores – agora com mais de dois milhões de pessoas – para arrecadar substancialmente mais que Clinton. Apenas em março, Sanders arrecadou $44 milhões, enquanto Clinton apenas $29.5 milhões.

Há apenas um ano atrás, todos os tradicionais eruditos de respeito ainda vendiam o mito de que nenhum candidato que recusasse contribuições corporativas seria eleitoralmente viável, muito menos um candidato se autodenominando socialista! Essa ideia está agora morta.

Ninguém pode negar o potencial da construção de um partido político de esquerda nacionalmente viável, completamente independente do dinheiro corporativo, erguendo bandeiras de políticas francamente de esquerda e em favor da classe trabalhadora. A única questão remanescente é uma quanto à liderança: irá Sanders tomar a iniciativa e, se não, irão as forças por trás dele erguer tal organização?

Um Novo Partido

“Eu acredito que nós precisamos pensar com bastante seriedade, particularmente os camaradas de cor e progressistas, sobre construir ou um novo partido ou um novo movimento...”.

Essas foram as palavras de Michelle Alexander, estimada autora de “O Novo Jim Crow”, falando a Chris Hayes na MSNBC em 1º de abril. Três dias depois, escrevendo ao New York Daily News, o jornal em quarto lugar entre os de maior circulação no país, a coluna de Shaun King começou com a citação acima, acrescentando:

“Eu não apenas concordo como Alexander, mas quero dar um passo em frente – eu penso que isso já está acontecendo diante de nossos olhos. Progressistas políticos ao redor de todo o país, no apoio à candidatura de Bernie Sanders, estão rejeitando completamente o Partido Democrata... nós deveríamos formas nosso próprio partido político, no qual sejamos firme e corajosamente contra a pena de morte, onde sejamos por um salário mínimo digno em todo o país, onde sejamos pela completa reforma do sistema penal, onde sejamos por reformas radicais que protejam o meio-ambiente e freiem o aquecimento global, onde sejamos pela erradicação dos grandes lucros na política, onde nós queiramos verdadeiramente tratar a saúde e a educação para todos como um direito e não um privilégio.”

Abordando a mesma questão de um ponto de vista politicamente oposto, a coluna de Paul Krugman no New York Tribune, no dia 8 de abril, ecoou a percepção de Shaun King de que um novo partido já está emergindo “diante de nossos olhos”. Krugman avisa Bernie para abaixar o tom de seus ataques em Clinton ou arriscar uma ruptura mais profunda no Partido Democrata, arrogantemente perguntando: “Estará o Sr. Sanders se posicionando em adesão à massa do “Bernie ou ruptura”? Se não, o que ele pensa que está fazendo?”

Tanto Krugman quanto King estão certos. Quanto mais forte se torna a “revolução política contra a classe bilionária” de Sanders, mais cresce a ameaça de que se rompa com a camisa de força imposta pelo Partido Democrata, o qual, ao fim, é completamente dominado pelos grandes negócios.

É por isso que a minha organização, a Alternativa Socialista, e o #Movement4Bernie estão promovendo um abaixo assinado que solicita a Bernie que continue concorrendo até novembro como um independente ou na chapa do Partido Verde com Jill Stein, se ele for bloqueado no processo viciado de primária, e que convoque uma conferência para discutir o lançamento de um novo partido dos 99%.

Se há preocupações com ajudar a eleger um Republicano, não há qualquer razão pela qual Bernie não deva ao menos concorrer nos mais de 40 estados nos quais é absolutamente claro que a candidatura Democrata ou Republicana irá ganhar, enquanto não coloca seu nome à votação nos 5 ou 10 estados onde a votação será mais apertada, “estados oscilantes”. Isso poderia ainda assim permitir uma campanha histórica, se ligada com a construção de um novo partido para os 99% e lançar as fundações para um permanente movimento político de massas que lance centenas de candidatos de esquerda para todos os níveis do governo, independentes do dinheiro corporativo.

Por outro lado, se, a despeito de todos os truques sujos contra ele, Sanders seguir leal ao Partido Democrata e apoiar Clinton nas eleições gerais, isso significaria uma grande desmoralização e desorganização de nosso movimento. Sim, precisamos de uma estratégia para fazer recuar a ala direita Republicana, mas colapsando o movimento antissistema por trás de Sanders no interior da campanha de Clinton – uma falsa unidade com a candidata de Wall Street e dos poderes estabelecidos – deixa o campo aberto para que populistas de direita como Trump ou Cruz expandam sua base.

Se Sanders escolher tal caminho, continuar a revolução política significará que sandernistas deverão mover-se ousadamente para além de Bernie.

Uma campanha presidencial independente

É hora de romper com as regras. Uma agressiva campanha independente para a presidência por Bernie Sanders, ligada à construção de um novo partido de massas para os 99%, poderia transformar dramaticamente a política nos EUA. Bernie não precisaria ganhar as eleições para forçar uma decisiva guinada à esquerda na sociedade estadunidense. Mesmo registrar uma votação de 10 ou 15 milhões por um novo partido (e existe potencial para obter uma votação ainda maior) poderia significar um golpe que abale as estruturas do monopólio político dos dois partidos do capitalismo estadunidense.

Ao redor do mundo, onde os trabalhadores conquistaram reformas de grande alcance, como um sistema de saúde financiado publicamente ou educação gratuita ou licença maternidade e paternidade remunerada, isso foi feito através da formação de partidos de massas dos trabalhadores. No Canada, por exemplo, os sindicatos lançaram o Novo Partido Democrata tendo a saúde pública como sua demanda central. Eles obtiveram menos de 15% dos votos, e foram acusados de inclinar a votação em favor dos conservadores. Mas, para bloquear o crescimento do Novo Partido Democrata, este governo conservador garantiu aos trabalhadores canadenses sua principal demanda – e assim nasceu o sistema de saúde pública canadense.

Por outro lado, se Sanders retirar sua candidatura e apoiar Clinton após as primárias, o Partido Democrata estará livre para guinar à direita nas eleições gerais, confiando no medo da vitória Republicana para manter o apoio de sua base progressista.

As apostas são simplesmente altas demais para deixar este momento escapar por nossos dedos. O capitalismo está mergulhando a humanidade em uma catástrofe social e ecológica. A campanha de Bernie mostra que é possível uma reação viável. O que falta é uma estratégia para sustentar e fazer crescer nosso movimento. Agora é a hora de uma ação ousada para construir uma alternativa política combativa da classe trabalhadora – um partido para os milhões, não para os milionários.

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