11 de abril de 2016

Moby Prince, a pista dos EUA

Há 25 anos, membros da família estão pedindo em vão a verdade. Depois de três investigações e dois processos

Manlio Dinucci

Il Manifesto

"Mayday, Mayday, Moby Prince, nós estamos em colisão, e pegamos fogo! Necessitamos de ajuda!": esta foi a dramática mensagem transmitida há 25 anos às 22:25:27 de 10 de abril de 1991, pela balsa Moby Prince, que se chocou, no ancoradouro do porto de Livorno, com o petroleiro Agip Abruzzo. O pedido de ajuda não foi escutado: morreram 140 pessoas, depois de terem esperado socorro em vão, durante horas. A demanda por justiça também não foi ouvida: há 25 anos, as famílias buscam em vão a verdade. Após três investigações e dois processos. Contudo, a verdade emerge imperiosamente dos fatos. Naquela noite, havia no ancoradouro de Livorno um intenso tráfego de navios militares e militarizados dos Estados Unidos, que traziam de volta à base estadunidense de Camp Darby (limítrofe ao porto) uma parte das armas utilizadas na primeira guerra do Golfo. Havia também outros misteriosos navios. O Gallant II (codinome Theresa), navio estaduNidense militarizado que, imediatamente após o acidente, deixa precipitadamente o ancoradouro de Livorno.

O 21 Oktoobar II da empresa Shifco, cuja frota, doada pela Cooperação italiana à Somália, oficialmente para pesca, foi utilizado para o transporte de armas estadunidenses e de dejetos tóxicos inclusive radiativos à Somália e para abastecer de armas a Croácia em guerra contra a Iugoslávia. Por ter encontrado as provas desse tráfego, a jornalista Ilaria Alpi e seu cinegrafista Miran Hrovatin foram assassinados em 1994 em Mogadiscio numa emboscada organizada pela CIA com a ajuda da rede Gladio e dos serviços secretos italianos. Com toda probabilidade, na noite de 10 de abril, no ancoradouro de Livorno estava em curso o transbordo de armas dos Estados Unidos que, ao invés de voltar a Camp Darby, foram secretamente enviadas à Somália, à Croácia e a outras zonas, sem excluir os depósitos da Gladio na Itália (Veja o blog de Luigi Grimaldi sobre o Moby Prince).

Quando ocorre a colisão, os que dirigem a operação – certamente o comando estadunidense de Camp Darby – tenta imediatamente apagar todas as provas. Isto explica uma série de "obcuridades": o sinal do Moby Prince, a apenas duas milhas do porto, que chega com muitas interferências sonoras; o silêncio da Rádio Livorno, geradora pública de telecomunicações, que não chama o Moby Prince; o comandante do porto, Sérgio Albanese, "ocupado com outras comunicações de rádio", que não orienta o socorro e imediatamente depois é promovido a almirante por méritos; a falta (ou mais ainda, o desaparecimento) dos traçados de radar e imagens de satélites, em particular sobre a posição do Agip Abruzzo, que apenas tinha chegado do Egito a Livorno em um tempo estranhamente recorde (quatro dias e meio em vez de 14); os roubos na balsa sob sequestro, onde desapareceram os instrumentos essenciais às investigações. Ao ponto de fazer parecer que o Moby Prince sofreu um acidente banal, inclusive por responsabilidade do comandante. As famílias das vítimas conseguiram no presente obter a instituição de uma comissão parlamentar de inquérito, não apenas para fazer justiça aos seus parentes, mas para "fechar um capítulo indigno na história italiana". Capítulo que permanecerá aberto se a comissão limitar como habitualmente a investigação ao exterior de Camp Darby, a base estadunidense que está no centro do massacre do Moby Prince. A mesma que esteve sob investigação dos juízes Casson e Mastelloni no inquérito sobre a organização golpista "Gladio".

Uma das bases dos EUA e da OTAN que – escreve Ferdinando Imposimato, presidente honorário da Corte Suprema de Cassação – forneceu explosivos para os massacres, desde o de Piazza Fontana aos de Capaci e Via d’Amelio. Bases nas quais "se reuniam membros do terrorismo mais obscuro, oficiais da OTAN, mafiosos, políticos italianos e maçons, às vésperas dos atentados". O Mayday do Moby Prince é o Mayday de nossa democracia.

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