13 de abril de 2016

O vento frio do Norte

Com os fundos para programas de bem-estar secando, em plena recessão global, a velha elite, com ajuda dos EUA, está outra vez usando a linguagem da anticorrupção para repor os pés na região e desestabilizar governos de esquerda eleitos na América Latina

por Vijay Prashad

The Hindu

Tradução / Perigos familiares velhos se escondem nos cantos da América Latina. Mais de uma década de esperança – corporificada nos experimentos sociais na Venezuela – parecem agonizar. A "guinada à esquerda" de vitórias eleitorais, da Venezuela à Bolívia e para cima, até a Nicarágua, parecem estar em período de maré vazante. A Velha Direita rejeitou os estertores e a gritaria dos militares, trocados pela fala melosa do que chamam de "anticorrupção". Os bolivarianos da Venezuela – a face atual da esquerda naquele país – perdeu as eleições parlamentares; a Bolívia de Evo Morales decidiu não alterar a Constituição para dar ao presidente um quarto mandato presidencial. O eleitorado Argentina rejeitou a Esquerda Peronista, para eleger a direita dos banqueiros, enquanto o governo de Dilma Rousseff no Brasil sofre com a hostilidade dos conglomerados de mídia e o establishment conservador.

Desolação não define o continente. No Peru, Verónika Mendoza da Frente Ampla saiu-se muito bem no primeiro turno da eleição presidencial; na Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias, FARCs, preparam-se para assinar um acordo de paz e levar a política deles ao julgamento das urnas. Instituições criadas durante o ponto alto da "guinada à esquerda", como a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (uma plataforma de comércio regional), Telesur (uma rede de mídia regional), bem como várias alianças energéticas (como Petrocaribe e Petrosul), permanecem vivas e razoavelmente bem. Novas correntes políticas e esses alinhamentos institucionais sugerem que a "guinada à esquerda" não se deixará conter facilmente. Novas correntes políticas e estes alinhamentos institucionais sugerem que a "guinada à esquerda" não vai ser facilmente descartada. Estabeleceu-se na imaginação dos povos da América Latina e através das instituições criadas mais de uma década atrás.

Iraque distrai a América

Quando Hugo Chávez da Venezuela e Morales da Bolívia pôs em marcha a Aliança Bolivariana em 2004, os Estados Unidos tinham seus olhos no Iraque. A Guerra Global ao Terror, que falsamente incluía o Iraque como campo de batalha, absorveu o governo do presidente Bush. Uma tentativa de golpe contra o governo de Chávez em 2002 fracassou, efeito do massivo apoio popular ao governo venezuelano. A esquerda latino-americana beneficiou-se dessa abertura – e, também, dos altos preços das commodities e crescente demanda da China – para construir uma plataforma alternativa, que chamaram de "bolivarianismo". Com nome derivado de Simón Bolívar, libertador de vários países da América Latina, do jugo espanhol, o bolivarianismo produziu instituições de desenvolvimento regional. O comércio dentro da região denominado em moedas locais permitiu aos estados regionais produzirem um novo ethos.

Os EUA, que vê a América Latina como seu quintal, continuou a procurar oportunidades para minar o Bolivarianismo. Em 2006, o embaixador dos EUA na Venezuela, William Brownfield, desenvolveu uma estratégia de "dividir o chavismo" (seguidores de Chávez) e de "isolar Chávez internacionalmente". Os telegramas diplomáticos dos EUA vazados por WikiLeaks são recheados de conspirações e complôs, com outros embaixadores dos EUA contribuindo, eles também com ideias e planos próprios para desestabilizar governos leais ao processo bolivariano. Mas pouco aconteceu nos anos Bush. A economia latino-americana beneficiou-se do voraz apetite chinês por commodities que alcançavam altos preços e cujos lucros permitiam aos países construir esquemas de bem-estar para oferecer melhor qualidade de vida às respectivas populações.

Obama vai ao sul

A crise financeira de 2007-08 atingiu a economia da China e viu a lenta deterioração dos preços das commodities. Só depois de alguns anos o impacto econômico daquele processo atingiu ferozmente a América Latina. A queda acentuada dos preços do petróleo no verão de 2008, freou muitos dos programas sociais que haviam se tornado essenciais para a dinâmica Bolivariana. Ela sinalizou a fraqueza da experiência contra a dominação ocidental.

A administração do presidente Barack Obama centrou-se intensamente na América Latina. A primeira ação aconteceu no golpe de 2009 em Honduras contra o governo de tendência de esquerda de Manuel Zelaya. Os EUA reconheceram o novo governo militar. E abriram as portas para posição muito mais agressiva contra estados latino-americanos. A presidência de Ollanta Humala (2011) no Peru, e o segundo governo de Michelle Bachelet (2014) no Chile - ambos ostensivamente de esquerda - rapidamente se retraíram, incluindo no gabinete nomes indicados pelos banqueiros, e fizeram as pazes com a hegemonia dos EUA. Com a morte de Chávez em 2012, os bolivarianos perderam o seu guerreiro mais carismático. O impacto do golpe em Honduras e a morte de Chávez foram sentidos ao longo de toda a espinha dorsal da América Latina: "os EUA voltaram", era o que se ouvia.

A velha elite entrincheirada

Governos de esquerda na América Latina dependiam pesadamente da exportação de commodities caras. O dinheiro dessas vendas garantiam aos governos da região os meios para criar e manter programas de bem-estar social. O Brasil, por exemplo, pôs-se em guerra contra a fome e a miséria, mediante seus programas Fome Zero e Bolsa Família. Mas aqueles governos não conseguiram minar o poder das velhas elites sobre a economia e construir novos fundamentos sobre os quais construir a produção da região. Quando o dinheiro da venda das commodities começou a escassear, os programas sociais logo sofreram, diretamente ou indiretamente. Restavam poucas fontes alternativas de renda. Recorrer aos mercados financeiros internacionais pôs vários países em situação de dependência dos centros hegemônicos, dependência que teve imediatamente impacto político.

Velhas elites da América Latina mantiveram a sua autoridade em todo o período da ascensão de esquerda. Aquelas elites continuam intimamente conectados aos militares americanos e às embaixadas dos EUA. Telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos EUA distribuídos por WikiLeaks oferecem uma janela pela qual se pode começar a conhecer as intrigas e conspirações que se construíam dentro das embaixadas americanas. Na Bolívia, um diplomata dos EUA reuniu-se com o estrategista Javier Flores e o líder da oposição Branko Marinkovic e discutiram ações para explodir oleodutos e fomentar a violência urbana, para desestabilizar o governo de Evo Morales. Para ajudar a oposição de direita na Nicarágua, a embaixada EUA pretende encorajar "os fundos a fluir na direção certa". Estas conspirações aumentaram a confiança das elites e seus associados. Eles esperaram para atacar.

Descida à violência

A fragilidade econômica proporcionou a oportunidade. Em todo o continente, do Chile ao Brasil, novos relatórios começaram a surgir, sempre com 'revelações' de corrupção nos gabinetes e mais altos postos dos governos. Nenhum desses meios de comunicação tinham anteriormente interesse em corrupção, nem tinham dado enfase as histórias de corrupção entre a velha elite ou os seus partidos políticos favorecidos. Mas, eleitos o Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil e o Partido Socialista no Chile, os dois rapidamente conheceram o hálito fedorento da hipocrisia. No Brasil e na Venezuela houve manifestações de rua em que se reuniram aquela velha elite, a velha mídia e as classes a elas aliadas. E pronto. Num instante estavam reunidos e coordenados todos os elementos de uma primavera latino-americana contra a corrupção. Tarefa do Departamento de Estado dos EUA seria, só, inventar um nome para essa revolução colorida, talvez, dessa vez, musical: Revolução do Tango? Revolução Bossa Nova?

Atos de violência contra líderes políticos locais tornaram-se rotina. Na Venezuela, numa única semana do mês passado, três líderes políticos foram assassinados a sangue frio: o prefeito Marco Tulio Carrillo, de La Ceiba; o deputado César Vera, do Conselho Legislativo de Tachira; e Fritz St. Louis, do partido Grande Frente Patriótica. Logo ao lado, no Brasil, uma semana depois, dois ativistas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST - Leomar Bhorbak e Vilmar Bordim - foram emboscados e mortos; e o presidente do PT em Mogeiro, Ivanildo Francisco da Silva, foi assassinado em casa. São nomes que se acrescentam à longa lista de ativistas de esquerda que estão sendo assassinados em sequência, na América Latina. O objetivo é intimidar os ativistas.

Não surpreende portanto que a veterana líder da esquerda uruguaia (esposa do ex-presidente José Mujica) e hoje senadora pela Frente Ampla do Uruguai Lucía Topolansky esteja alertando para "uma operação de desestabilização" em curso na América Latina. "Nossos países atravessaram os anos de chumbo da ditadura, seguiram a onda neoliberal que tanto sofrimento causou ao povo" – disse ela. – "E agora, quando aqueles processos democráticos começam a consolidar-se, já aí vem uma onda de desestabilização". Esse sentimento é claro, também, entre outros líderes da esquerda, do México ao Chile. Eles sentiram o vento frio do Norte em conluio com as ambições de suas velhas elites.

Alguns bolsões de resistência pela esquerda mantêm-se intactos. Rafael Correa do Equador, Daniel Ortega da Nicarágua, Salvador Sánchez Cerén de El Salvador e, claro, Evo Morales da Bolívia chefiam governos que ainda lutam para manter agenda progressista. Os ventos de golpe sopram contra eles, mas parece que esses governos ainda resistem.

O líder do MST João Pedro Stédile sugere que as forças progressistas em toda a América Latina não se deixarão intimidar pela derrota de seus governos ou por agressão que lhes venha das velhas elites. A confiança nas lutas de massa ainda é alta. Isso foi ilustrado quando O MST e outras forças de esquerda foram às ruas para defender o governo liderado por Dilma Rousseff. As velhas elites ainda não se deram conta de o quanto avançou a consolidação de movimentos de massa como o MST - e que esse tipo de movimento não pode ser quebrado com a facilidade com que se derrubam governos. Não há estômago na América Latina - mesmo entre a velha elite - para a violência contra os movimentos de massa. Elas terão que conviver com ela. O que significa que elas não serão capazes de capturar a sociedade da mesma forma como eles conseguiram capturar o palácio presidencial.

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