26 de maio de 2016

A verdade sobre a Síria: Uma guerra fabricada contra um país independente

Os povos do mundo deveriam perguntar aos líderes ocidentais e seus aliados: Por que vocês estão prolongando esta guerra? Por que continuam a fornecer liberdade de ação e fundos para os terroristas? Cinco anos de guerra ininterrupta já não foram suficientes? Vale mesmo a pena tanta morte e sofrimento apenas para derrubar o governo da Síria?

Caleb T. Maupin

Mint Press

Kevin Lamarque / Reuters

Tradução / 250 tropas de Operações Especiais dos Estados Unidos foram enviadas para a Síria conforme anúncio do presidente Barak Obama em abril. Diferentemente das forças iranianas e russas que prestam ajuda contra o terrorismo no país, o pessoal militar dos Estados Unidos entrou no país contra os desejos do governo reconhecido internacionalmente.

Se fossemos observar fielmente os termos da lei internacional, os Estados Unidos invadiram a Síria, um país soberano, membro das Nações Unidas. Contudo, esta não foi a primeira vez – John Mccain, senador americano pelo Arizona cruzou as fronteiras da Síria sem visto, para encontrar com lutadores anti-governo em 2013.

Mesmo que oficialmente as novas tropas dos Estados Unidos no teatro de guerra na Síria ali estejam para supostamente combater o Daesh, é muito mais provável que trabalhem para alcançar a meta perseguida pelos Estados Unidos há longo tempo: a derrubada violenta do governo da Síria.

Os altos custos das tentativas do governo dos Estados Unidos para a ação de “mudança de regime” na Síria deveriam ser questionados, já que o terrorismo do Estado Islâmico e outros grupos extremistas cresce cada vez com mais intensidade, enquanto milhões de cidadãos sírios se tornam refugiados.

Educação, assistência médica e o renascimento da nação

A luta contra o colonialismo foi o fator de nascimento do governo nacional sírio independente, que agora se tornou o alvo da política externa ocidental. Foram necessárias décadas de sofrimento e um enorme sacrifício do povo sírio para tornar o país livre da dominação estrangeira – primeiro do império francês e depois dos líderes que eram seus títeres. Nas últimas décadas, a Síria se tornou um país forte e autoconfiante na região do Oriente Médio, rica em petróleo. Vivia também um período de relativa paz.

Desde que alcançou a independência a liderança Baathista síria tem desenvolvido um enorme esforço para melhorar o padrão de vida da população. A expectativa de vida da população cresceu 17 anos no período compreendido entre 1970 e 2009. A mortalidade infantil diminuiu dramaticamente, de 132 mortes por 1.000 nascimentos para apenas 17.9. De acordo com um artigo publicado pelo Avicenna Journal of Medicine, essas mudanças extraordinárias foram resultado do acesso da população à saúde pública, por sua vez proporcionado pelos esforços governamentais para levar assistência médica para as áreas rurais do país.

Um estudo nacional sobre a Síria de 1987 publicado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, descreve enormes progressos no campo da educação. Durante os anos 80, pela primeira vez em sua história, o país alcançou “a totalidade em matrículas de meninos na escola primária”, com 85% das meninas também matriculadas da escola primária. Em 1981, 42% da população adulta da Síria era analfabeta. Por volta de 1991, o analfabetismo tinha sido eliminado da Síria, graças a uma campanha massiva de alfabetização liderada pelo governo.

O nome do principal partido político na Síria é: “Partido Socialista Árabe Baath”. A palavra árabe “baath” pode ser literalmente traduzida como “Renascimento” ou “Ressurreição”. Em termos de padrão de vida, o partido Baath esteve à altura de seu nome, forjando um país novo, com uma economia independente e rigorosamente planejada. O “Estudo Nacional” da Síria da Biblioteca do Congresso Americano descreve a vasta indústria da construção de infraestrutura nos anos 80: “gastos massivos para o desenvolvimento da irrigação, eletricidade, água, projetos de construção de rodovias, expansão da assistência médica e educação para as áreas rurais contribuíram para a prosperidade do país”.

Comparado ao Iêmen – dominado pela Arábia Saudita, muitas partes da África e outros cantos do mundo que nunca conseguiram estabelecer plenamente sua independência econômica e política, as conquistas da República Árabe Síria parecem sensacionais. Apesar de meio século de investimentos pela Petróleo Shell e outras companhias ocidentais, o CIA World Factbook, elaborado pelo governo dos EUA com um resumo conciso sobre quase todos os países do mundo informa que apenas cerca de 60% dos nigerianos são alfabetizados e que seu acesso a assistência médica e moradia é muito limitado. Na Guatemala, dominada pelos Estados Unidos, 18% da população é analfabeta, e a pobreza grassa no país, ainda de acordo com o CIA World Factbook.

Aquilo que os conquistadores e colonizadores ocidentais não conseguiram realizar durante séculos de dominação, foi feito rapidamente pelo governo sírio independente com a ajuda da União Soviética e outros países anti-imperialistas. A União Soviética providenciou um empréstimo de $100 milhões de dólares para que a Síria construísse a represa de Tabqa no Rio Eufrates a qual a qual, após concluída foi “considerada a espinha dorsal de todo o desenvolvimento econômico e social na Síria”. Novecentos técnicos soviéticos trabalharam no projeto de infraestrutura que levou eletricidade a várias partes do país. A construção da barragem também possibilitou a irrigação para toda a zona rural do país.

Em tempos mais recentes, a China estabeleceu várias joint ventures com corporações energéticas sírias. De acordo com relato da Fundação Jamestown em 2007 a China já teria investido “centenas de milhões de dólares” para ajudar os esforços do país na “modernização da ultrapassada infraestrutura de petróleo e gás”

Não dá para simplesmente colocar de lado ou negar essas grandes conquistas da população síria, como fazem rotineiramente os comentaristas e analistas quando repetem despreocupadamente a narrativa ocidental de que “Assad é um ditador”. Para as pessoas que sempre tiveram acesso a educação e assistência médica, pode-se banalizar essas conquistas. Mas para milhões de sírios, especialmente aqueles residentes em áreas rurais, que viveram em extrema pobreza há apenas duas décadas, coisas como água corrente, educação, eletricidade, assistência médica e educação universitária representam uma tremenda mudança para melhor.

Como quase todo país na alça de mira da política externa dos Estados Unidos, a Síria tinha uma economia forte e controlada pelo próprio país. Não era um “Estado Cliente” como as autocracias do Golfo que a cercam, o que era objeto de desconfiança por parte de Estados Unidos e Israel. Foi isso, não uma suposta preocupação com direitos humanos que motivou os ataques do ocidente contra o país.

O que a Síria precisa é de reformas, não de terrorismo

Uma nova Constituição Síria foi promulgada em 2012 em resposta aos protestos ocorridos durante a Primavera Árabe. De acordo com a nova Constituição, a Síria promoveu uma controversa eleição em 2014, a qual foi monitorada por observadores de 14 países.

A liberdade religiosa é algo que distingue a Síria da Arábia Saudita, Catar, Barein e vários outros regimes alinhados aos Estados Unidos na região. A prática da religião e a liberdade de fé na Síria são estendidas desassombradamente a Sunitas, Cristãos, Alawitas, Drusos, Judeus e outros grupos religiosos. O governo é secular e respeita os direitos da maioria sunita tanto quanto o de minorias religiosas.

Além da liberdade religiosa, a Síria permite abertamente a existência de dois fortes partidos Marxista/Leninistas. O partido Comunista Sírio e o Partido (Bakdash) Comunista Sírio operam abertamente como parte de uma coalizão anti-imperialista apoiada pelo Partido Socialista Árabe Baath. Os comunistas lideram os sindicatos trabalhistas e as organizações comunitárias em Damasco e outras partes do país.

Observe-se que o presidente sírio Bashar al Assad professa a fé Alawita e sua esposa, Asma, é sunita como a maioria da população. Historicamente, os maiores oponentes do governo sírio foram apoiados pela Irmandade Muçulmana, culminando com um episódio sangrento em 1982. Na esperança de amenizar a tensão recorrente, o Presidente Assad recentemente fez incansáveis gestos de boa vontade e solidariedade para com a comunidade sunita. Chegou ao ponto de usar práticas religiosas que não são comuns para os alawitas, como rezar em mesquitas e estudar do Corão.

Imediatamente após o início do conflito em 2011, o governo sírio garantiu autonomia à regiões de maioria curda e delegou autoridade política para organizações nacionalistas curdas de esquerda.

O sistema politico da Síria com certeza necessita de reforma e modernização, e representantes do governo como o embaixador da Síria para a ONU, Bashar Al-Jaafari Bashar Al-Jaafari admitem prontamente tal assertiva. Ocorre que a guerra que assola o país há cinco anos não se trata nem de democratização, nem de reforma nem de modernização.

Em 2013, a BBC publicou um “guia para os rebeldes na Síria”. Entre eles, não se enumera apenas o infame “Estado Islâmico”, que atualmente causa horror pelo mundo afora, mas também a Frente Al Nusra, conhecida anteriormente como Al Qaeda na Síria. Outras organizações com nomes como “Frente Islâmica”, “Frente Islâmica de Liberação” e “Brigadas Ahfad al-Rasoul” também fazem parte da lista.

Mesmo que a mídia ocidental apresente a Guerra na Síria como sendo uma “Batalha pela Democracia”, liderada por “Revolucionários”, o objetivo principal de quase todas as organizações é a criação de um califado sunita – não um que reflita a realidade sunita nem que sirva para abrigar sunitas, mas em vez disso uma versão politizada e pervertida do sunismo criada pela Arábia Saudita a fim de controlar ideologicamente toda a região. A religião unificada que os “rebeldes” sírios têm em mente é a interpretação do Islã Sunita praticado e promovido pela Arábia Saudita, conhecido como Wahabismo.

Lutadores estrangeiros, armas químicas e crianças usadas como soldados

A maioria dos insurgentes não é composta de sírios. Pessoas empobrecidas em todo o Oriente Médio são recrutados para lutar contra o governo da Síria. no Barein, há instalações onde recrutas são treinados para matar, mandados em seguida para lutar na Síria.

Em vários outros países do Golfo existem instalações para o treinamento de terroristas. Lutadores estrangeiros vêm de lugares tão longínquos quanto a Malásia. Filipinos foram encontrados entre as fileiras de insurgentes Wahabitas que tentam derrubar o governo sírio.

Não é fruto do acaso esse fluxo de lutadores violentos dentro da Síria. Isso foi apoiado e facilitado pelos Estados Unidos e seus aliados. A CIA gastou bilhões de dólares em campos de treinamento na Jordânia para os guerreiros antigovernamentais.

Os regimes da Turquia e da Arábia Saudita, aliados dos Estados Unidos, apoiam abertamente a Frente Al Nusra, ligada à Al Qaeda, organização por sua vez acusada de já ter matado dezenas de milhares de pessoas inocentes na Síria. O Gen. David Petraeus não se pejou de instar os EUA a se juntar a tais esforços, iniciando imediatamente o envio de armamento diretamente para a Frente Al Nusra.

Nas Colinas de Golan (ocupadas por Israel) o governo israelense fez questão de providenciar assistência médica para os extremistas Wahabi. Também fez questão de atacar com bombardeios aéreos os aliados do governo sírio.

Enquanto a mídia ocidental faz alarde estridente das alegações de que o governo sírio teria usado armas químicas, Carla Del Ponte, das Nações Unidas confirmou que os insurgentes, apoiados por governos estrangeiros estão usando largamente o gás sarin, que ataca o sistema nervoso, e outras armas químicas.

Segundo informações fornecidas pela UNICEF, os insurgentes usam crianças em suas fileiras, recrutadas do mundo árabe empobrecido, para a tentativa de derrubar pela violência o governo da Síria. Cometem atos como sequestro para extorsão, bombardeio de escolas e hospitais, além da decapitação e tortura indiscriminada entre a população, tornando a vida efetivamente insuportável no país.

Entre 50 a 72 por cento da população vive em áreas controladas pelo governo sírio. Mesmo assim, a USAID confirmou que o comparecimento nas eleições realizadas em 2014 na Síria foi maior que 70% da população.

Enquanto a inundação de lutadores estrangeiros e extremistas, alinhados com pequena percentagem da população e armada pelas potências ocidentais e seus aliados está comprometida com a derrubada do governo sírio, é flagrante a discordância do povo sírio. O fato de que o governo sírio mantém sua força depois de cinco anos de massacres mostra que o país como um todo está dedicado a preservar sua independência. A revista Time magazine e outros órgãos da imprensa empresa ocidental foram obrigados a reconhecer que muito dificilmente o presidente Assad será deposto pelo povo da Síria.

Como acabar com a Guerra?

À medida que lutadores estrangeiros fluíram para a Síria, centenas de milhares de pessoas morreram nos últimos cinco anos, e mesmo assim a mídia ocidental continua a culpar o governo da Síria pelo conflito. No entanto, a guerra poderia ser muito abreviada. Bastaria que findasse o apoio estrangeiro dado aos extremistas.

Ao se mostrar um país independente, com uma economia centralizada e planejada nos mínimos detalhes, a Síria se exibe como um exemplo para o mundo. Prova que mesmo sem a doutrina econômica neoliberal é possível proporcionar condições de vida para a população e se desenvolver de forma independente. O governo da Síria não poupou esforços para ajudar o povo Palestino e sua resistência contra as agressões israelenses, tendo sido esta a causa principal da sua inclusão como estado patrocinador do terrorismo pelo Departamento de Estado dos EUA. A Síria também tem relações econômicas estreitas com a Rússia e com a República Islâmica do Irã.

A Guerra na Síria não é um conflito doméstico. Foi imposta por Israel, Estados Unidos e outras potências ocidentais. A causa primária do extremismo Wahabista através do mundo sempre foi a Arábia Saudita, Estado Cliente dos Estados Unidos. A Turquia e a Jordânia, países que fazem fronteira com a Síria e alinhados com os EUA mantiveram abertas suas fronteiras, através das quais as armas, suprimentos e dinheiro puderam continuar a fluir para as mãos do Estado Islâmico e outros grupos terroristas  antigovernamentais.

Morreram pelo menos 470.000 pessoas, e milhões de outros foram forçados a se tornarem refugiados, porém mesmo assim os líderes ocidentais e seus aliados não querem interromper sua campanha. O coro insano “Assad tem que sair” transformou o que deveria ser um pequeno conflito doméstico numa crise humanitária de larga escala.

Agora que o Estado Islâmico ameaça o mundo inteiro, as consequências da operação de mudança de regime promovida por Wall Street, irrigada pela propaganda enganosa sobre “direitos humanos” se tornam cada vez mais extremos. O governo sírio convocou uma coalizão de Cristãos, Comunistas, Revolucionários Islâmicos e outras forças que estão lutando para manter a estabilidade do país e derrotar as forças do terrorismo Takfiri ( o termo “Takfiri” se refere a grupos de muçulmanos sunitas que consideram todos os outros muçulmanos como apóstatas e pretendem estabelecer um Califado através da violência).

O único plano de paz com chances reais de funcionar na Síria seria o abandono por Estados Unidos, França, Arábia Saudita, Turquia, Jordânia e outras potências de sua cruzada neoliberal. O governo sírio internacionalmente reconhecido e recentemente reeleito pode derrotar facilmente os insurgentes se a intromissão estrangeira for interrompida.

Enquanto a imprensa dos Estados Unidos continua cinicamente lamentando a crise humanitária, culpando o governo sírio por tudo o que aconteceu e os Estados Unidos continuam mandando suas forças militares para o país, os povos ao redor do mundo deveria perguntar aos líderes ocidentais e seus aliados: Por que vocês estão prolongando esta guerra? Por que continuam a fornecer liberdade de ação e fundos para os terroristas? Cinco anos de guerra ininterrupta já não foram suficientes? Vale mesmo a pena tanta morte e sofrimento apenas para derrubar o governo da Síria?

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