18 de maio de 2016

As primárias Democratas à sombra do neoliberalismo

David Coates


Tradução / There is an understandable tendency, when in the thick of a long set of presidential primaries, to treat all of them simply as exercises in the choice between individual candidates, and to make them as much about character as about policy. There is also an understandable tendency to assume that what is at stake in these primaries is purely an American matter with entirely domestic roots.

It is much more difficult to place the competing candidates and their differing policy packages on a bigger and a longer map that takes in previous candidates and previous policies. It is also very hard to break out of a purely American focus, and to see what is happening in the United States as part of a more general story.

But it is worth the effort: because by going out to the bigger picture, and then back to the detail of the campaigns, the issues that are actually at stake in those campaigns becomes just a little bit clearer.

I

A batalha das primárias do Partido Democrata entre Hillary Clinton e Bernie Sanders está sendo travada à sombra do “neoliberalismo” - à sombra das políticas econômicas e da filosofia econômica geral abraçadas, com sucesso, por Ronald Reagan nos Estados Unidos e por Margaret Thatcher no Reino Unido. Neoliberalismo é aquela filosofia econômica que prefere o mercado a governos como alocador de recursos e prefere soluções a problemas sociais individuais e privados antes que coletivas e públicas. Nas últimas três décadas, foi a ortodoxia que comandou os dois lados do Atlântico, mas quando o neoliberalismo foi proposto pela primeira vez – na segunda metade da década de 70 – ainda não o era. Significou, então, uma ruptura revolucionária com a ortodoxia anterior – aquela ligada aos escritos de John Maynard Keynes e às políticas do New Deal e que tinha mercados geridos pelos governos e os problemas sociais resolvidos por políticas de gasto público.

A revolução neoliberal de Reagan/Thatcher manteve os Democratas fora da Casa Branca e os Trabalhistas fora do poder em Londres, durante três ciclos eleitorais. Ao fim do terceiro ciclo, os líderes políticos dos dois partidos chegaram à mesma visão. Decidiram que a única maneira de voltar ao poder seria atendendo às demandas do eleitorado de Reagan e Thatcher nos termos neoliberais.

Sob a liderança de Bill Clinton nos EUA e Tony Blair no Reino Unido, ambos partidos de centro-esquerda abandonaram suas políticas mais progressistas iniciais por uma aceitação explícita e acomodação aos princípios da nova ortodoxia conservadora. Eles desistiram de seus papéis de progressistas na “taxação e no gasto” para adotar “novas” posturas. Eles se afastaram das políticas industriais ativas que regulavam os negócios e acabaram com o “bem estar social como o conhecemos”. Para deixar ainda mais clara sua acomodação aos princípios neoliberais para seus eleitores passaram a se autodenominar “Novos Democratas ou “Democratas Centristas” e “Novos Trabalhistas”.

Para Bill Clinton e Tony Blair, ser um progressista nos anos 1990 significava ser um Reaganista/Thatcherista mais civilizado e bondoso e tomar como garantido, sem nunca questionar, os princípios e práticas neoliberais essenciais que incluíam:

Lista A

  • Diminuir impostos corporativos e pessoais para encorajar inovações, o empreendedorismo e a criação de empregos;
  • Redução da rede de bem estar social para evitar dependência e aumentar o incentivo ao trabalho;
  • desregulação de mercados de trabalho pelo enfraquecimento dos sindicatos;
  • A desregulação paralela da atividade empresarial, e a comemoração da desigualdade de renda;
  • A privatização de empresas públicas e a exposição do setor público às forças de mercado.

A “terceira via”, que aceitou as políticas Reaganistas/Thatcheristas funcionou por um tempo. Houve um grande crescimento da oferta de empregos nos EUA nos anos 1990, e os Novos Trabalhistas de fato expandiram a economia do Reino Unido sem recessões entre os anos de 1997 a 2007. Mas depois as rodas do ônibus do neoliberalismo travaram. Instituições financeiras frouxamente reguladas desencadearam, primeiro, uma enorme crise de crédito e depois a maior recessão econômica já conhecida desde 1930. Entre o final de 2008 e princípios de 2009, ninguém mais era um neoliberal apaixonado. Administração de demanda keynesiana, grandes injeções de gasto público e uma direção rigorosa do sistema bancário estiveram em voga novamente. Mas só por um breve período. Logo os conservadores de ambos os países encontraram outras explicações para a crise dizendo a seus eleitores que foram os gastos do governo que causaram a crise (ao contrário do que realmente aconteceu). Até mesmo Democratas moderados como Barack Obama se acharam incapazes de governar do outro lado, porque a ala Republicana da classe política estava, novamente, retrocedendo para posições neoliberais ainda mais extremas.

II

Duas coisas, então, aconteceram que vieram a orientar as escolhas que se tem agora. No lado Democrata aqui nos EUA, tanto um desafio moderado como um radical à ortodoxia neoliberal começaram a se formar. Hillary Clinton e Bernie Sanders podem, agora, personificar esses desafios, mas ele não são seus únicos arquitetos. Ao contrário, ao longo de toda a coalizão Democrata como um todo, os últimos sete anos testemunharam a presença crescente dessas duas tendências de preferências políticas, conectadas mas concorrendo uma com a outra, no debate de políticas progressistas. A lista moderada inclui:

Lista B

  • A manutenção da demanda através de gastos públicos e de tolerância com a dívida pública;
  • A prevenção de outras crises financeiras ao tornar mais rígida a supervisão financeira;
  • A rota da infraestrutura para o crescimento (gasto público em modernização de estradas, pontes, ferrovias e internet);
  • Taxação progressiva para reduzir a desigualdade excessiva e para distribuir o custo dos recursos para o bem estar social entre aqueles mais capazes de suporta-lo;
  • Maiores direitos para as mulheres e minorias no trabalho, mais assistência infantil e licença parental remunerada;
  • Movimento em direção a políticas energéticas sem carbono.

A lista mais radical inclui a agenda moderada mas acrescenta o que segue:

Lista C

  • Mais direitos para os sindicatos, e um forte aumento no salário mínimo e na previdência social;
  • Ataque sistêmico nas fontes de pobreza, com ações afirmativas enquanto a pobreza persistir;
  • A desconstrução do sistema de encarceramento em massa e o fim da política conhecida como “guerra às drogas”;
  • Nova política de comércio exterior para reverter a terceirização de empregos bem remunerados;
  • O desmembramento dos bancos que são “grande demais para quebrar”;
  • Menos gastos com as forças armadas e com guerras internacionais: mais atenção com a nação em seu interior e menos no exterior

Essas listagens contêm dimensões norte-americanas muito específicas (como os importantes fim do encarceramento em massa e redução das guerras no exterior). Mas elas não são, em sua essência, listas exclusivas aos norte-americanos. Mudanças paralelas sobre esses entendimentos e as políticas estão em debate e disputa em muitos partidos de centro-esquerda da Europeu Ocidental agora. Elas certamente estão no Partido Trabalhista britânico, onde sua liderança mudou recentemente para Jeremy Corbyn, em muitas formas um equivalente a Bernie Sanders no Reino Unido. Das mesma forma, o ministro da Economia francesa, Emmanuel Macron, candidato potencial à presidência, está promovendo uma estratégia de “terceira via” no Partido Socialista francês contra seus rivais do centro ou da esquerda como Arnaud Montebourg – e estão encontrando uma forte resistência. Sigmar Gabriel, líder dos social-democratas da Alemanha ou SPD, está sob ataque da esquerda de dentro e fora desse partido pela sua conciliação, como vice-chanceler com as políticas conservadoras de Angela Merkel. Em todas as economias capitalistas avançadas, a batalha pós-2008 para o retorno à prosperidade generalizada e segurança do emprego, é, de fato, necessário à centro-esquerda de reexaminar a sabedoria de sua acomodação inicial ao neoliberalismo. É essa reavaliação que está no coração do embate atual nas primárias presidenciais do Partido Democrata, entre Clinton e Sanders.

III

As três políticas em vigência aqui listadas não são as mesmas. Seus centros de gravidade são diferentes porque as análises que as embasam também diferem. E porque elas são diferentes, assim como as histórias que as conduziram, Clinton, em particular, tem um problema em dobro com sua base eleitoral em potencial.

Seu primeiro problema é este. Quando ela era uma primeira-dama politicamente ativa durante a presidência de seu marido, a política econômica no mandato operou de acordo com a Lista A. Então uma pergunta que Hillary deve responder agora é se a política econômica em uma segunda presidência Clinton será similar àquela, ou será diferente? Seus oponentes Republicanos tentarão esfregá-la com a esponja 'Bill Clinton', apontando para a infidelidade sexual e uma possível corrupção financeira ou pior. Seus críticos progressistas deveriam se preocupar mais com a extensão com que as atividades globais da Fundação Clinton estão apontando para o compromisso de seu marido com os princípios neoliberais. Porque se não houve uma ruptura, e ele continua entre seus conselheiros, ela, de fato, realizou uma ruptura, e quanto ela conseguirá suportar nessa ruptura?

E então há o segundo problema, o maior deles. Se a resposta para a primeira pergunta é que sim, as políticas serão diferentes, mas operadas na Lista B (que é basicamente a política econômica bloqueada do mandato Obama), ou irão se se estender para abranger algumas dimensões (ou a totalidade) da Lista C, como agora acreditam serem essenciais muitos apoiadores radicais de Sanders? Quão radicalizada Clinton se tornou? O quanto disso é show e o quanto disso é real?

O maior medo da esquerda na coalizão Democrata, é que a ruptura com a lista Clinton original (Lista A) ainda seja tênue e que Clinton dirá coisas radicais (das outras listas incluindo a Lista C) somente para ser eleita. E então, quando estiver no cargo, ela retornará à Lista A, triangulando com Republicanos neoliberais à maneira do primeiro mandato Clinton. É, portanto, uma tarefa vital para ela entre agora e novembro reassegurar seus apoiadores progressistas de que ela não irá fazer nada disso, porque somente se essa garantia for próxima – somente se a profundidade da ruptura com seu próprio passado estiver clara – a vasta maioria dos mobilizados por Sanders irá se portar como soldados na batalha eleitoral para salvar os EUA de um mandato Trump. E ela irá precisar desses soldados.

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