9 de maio de 2016

Israel: os generais do Tsahal [exército israelense] querem o país de volta

Ao comparar a atmosfera em Israel à da Alemanha de 1930, o Chefe do Estado Maior do Exército irritou o governo e a opinião pública.

Danièle Kriegel

Le Point

O vice-chefe do Estado Maior da IDF, Yair Golan, está sob pressão depois de seus comentários sobre a sociedade israelense. © IDF/Chameleons Eye/NEWSCOM/SIPA

Tradução / Les généraux israéliens ont du mal à s'y faire. Ils font face à une opinion publique très critique et à un gouvernement qui ne leur fait pas de cadeaux. Ce dimanche, le Premier ministre Benjamin Netanyahou a ouvert la réunion hebdomadaire de son cabinet en déclarant devant les caméras : « La comparaison faite par le chef d'état-major adjoint, le général Yaïr Golan, au sujet des processus en cours en Allemagne nazie, il y a 80 ans, est scandaleuse, sans fondement. Je la trouve inacceptable. Surtout à la date où elle a été prononcée [...]. C'est un officier exceptionnel, mais ses remarques sont erronées et inacceptables. » O ministro da Cultura, Miri Regev, foi mais longe, exigindo a renúncia do general.

Cette tempête a pour origine des phrases prononcées par le général Golan, lors de la journée commémorative de la Shoah, jeudi dernier : « Une chose m'effraie. C'est de relever les processus nauséabonds qui se sont déroulés en Europe en général et plus particulièrement en Allemagne, il y a 70, 80 et 90 ans. Et de voir des signes de cela parmi nous en cette année 2016. La Shoah doit inciter à une réflexion fondamentale sur la façon dont on traite ici et maintenant l'étranger, l'orphelin et la veuve. » Et Yaïr Golan de marteler : « Il n'y a rien de plus simple que de haïr l'étranger, rien de plus simple que de susciter les peurs et d'intimider... »

La droite nationaliste est immédiatement montée au créneau. Le ministre de la Science, Ofir Akunis, a accusé le général de « porter atteinte à la communication israélienne partout dans le monde. Il doit s'excuser et se rétracter ». Même son de cloche de la part de Naftali Bennett, le ministre de l'Éducation et patron du Foyer Juif, le parti des colons. Netanyahou a immédiatement demandé au ministre de la Défense, Moshe Yaalon, d'exiger de Yaïr Golan une mise au point. Ce qui fut chose faite. « Je n'avais absolument pas l'intention de comparer Tsahal à la Wehrmacht ni Israël à l'Allemagne nazie. » Cela n'a pas empêché l'extrême droite d'attaquer l'état-major sur les réseaux sociaux. Un site francophone a ainsi écrit : "O fedor da extrema esquerda chegou às fileiras seniores das Força de Defesa de Israel."

Racismo e insubordinação dos soldados

Foi no passado mês de fevereiro que começou esta ofensiva da direita contra os responsáveis militares. O chefe do Estado-Maior, general Eizenkot, tinha então explicado a alunos do secundário: “Não podemos agir segundo slogans do tipo: Se alguém quer matá-lo, mate-o primeiro. Eu não quero que um soldado descarregue a sua metralhadora sobre uma menina de treze anos que o ameaça com uma tesoura”. Vários deputados e ministros reagiram vivamente, qualificando as palavras de Eizenkot de verdadeira “heresia”. “Um militar ameaçado, diziam alguns, deve poder atirar sem hesitar sobre o seu agressor”. As coisas agravaram-se ainda mais com o caso do soldado de Hebron que, no dia 24 de março, executou um assaltante palestino, estendido no chão depois de ter ferido um militar com uma faca. A decisão de deter o soldado e de o levar a um tribunal de guerra foi condenada por uma vasta maioria da opinião pública israelita.

Para o professor Yagil Levy, especialista em sociologia política, o chefe do Estado-maior e o seu adjunto decidiram reagir perante o estado de espírito que infiltra cada vez mais o exército, e “que faz com que as regras sobre a abertura de fogo não sejam respeitadas; que haja fenômenos de recusa, ou mesmo de insubordinação entre os soldados. Constata-se manifestações de racismo nas redes sociais em que participam os soldados. Por fim, há as críticas contra o exército que se expressam no seio mesmo das suas fileiras. Isso ocorre sobretudo nas unidades que operam na Cisjordânia juntamente com os colonos e onde se observa um nacionalismo particularmente forte. Tudo isso preocupa portanto o alto comando”. Na opinião de Yagil Levy, é esse estado das coisas que levou o chefe do Estado-Maior adjunto, o general Golan, a expressar-se, criticando não o exército mas a própria sociedade.

O perigo de ver o Tsahal [exército israelense] transformar-se em milícia

De fato, Or Heller, especialista dos assuntos militares da cadeia israelense 10, constata que “o fosso aumenta cada vez mais entre o público e o alto comando do exército. Até aqui, o Tsahal era a instituição mais popular no país. Hoje, o risco é o seguinte: o de que os soldados obedeçam a uma outra autoridade que não a dos chefes militares... A que provém dos websites, das redes sociais ou de homens políticos”. Moshé Yaalon, o ministro da Defesa, que apoia os seus generais a todo o custo perante o governo, considera que, nestas condições, há um perigo: o de ver o Tsahal transformar-se numa milícia...

Por agora, no plano político, a controvérsia está longe de morrer. Yossi Verter, o editorialista do diário de esquerda Haaretz, escreve na segunda-feira de manhã: “Quando um general não canta ao ritmo da propaganda governamental, ele é suspeito de ser uma toupeira e constitui um alvo a abater. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahou não hesita em desfazer-se do que lhe resta da sua estatura de homem de Estado para dar o golpe de misericórdia ao chefe do Estado-maior adjunto”. Não é só isso, a mãe do general interveio no debate, tomando a defesa do filho. Ela recorda que o seu marido, pai de Yair, é um judeu alemão que escapou à Gestapo. “Então não podemos acusá-la de prejudicar a Shoah, como afirma o primeiro-ministro”. A senhora indignada justifica todos os propósitos do filho. Um ambiente longe de estar amenizado, a poucas 48 horas do Dia da Lembrança para os soldados e civis caídos nas guerras de Israel.

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