16 de maio de 2016

Reflexões sobre a Nakba: 68 anos de estupro sionista e pilhagem da Palestina

Miko Peled

Tradução / Sessenta e oito anos depois da ocupação da Palestina as pessoas começam a referir-se à violação e à pilhagem sionistas da Palestina como um “conflito”. É o “conflito israelense-palestino” ou a “questão” israelense-palestina; alguns até lhe chamam de “disputa” e outros de “problema”. Mads Gilbert disse-me recentemente que se alguém na Noruega se referisse à ocupação alemã da Noruega como um “conflito” ou “disputa”, seria expulso da sala. Espero que isso se torne verdade na França ou na Bélgica e até na ilha de Jersey. Ninguém se referirá à ocupação alemã, para não mencionar as políticas alemãs para com os judeus sob o regime nazista, como um conflito. No entanto, ao falarem da Palestina ocupada, onde a limpeza étnica e o genocídio têm sido uma realidade desde há 68 anos, as pessoas muitas vezes abstêm-se de usar o termo ocupação – sobretudo relativamente a 1948, quando a parte do leão da Palestina foi ocupada.

Há duas coisas que não estamos autorizados a dizer sobre a Nakba palestina. Duas coisas que a sociedade ocidental “civilizada” acha pouco educadas. A primeira é comparar ou simplesmente justapor a experiência judaica sob o regime nazista à experiência palestina sob o regime sionista. A segunda é afirmar que a experiência palestina é um genocídio lento e metódico. Portanto, vou já pedir desculpa por quebrar as regras da sociedade civilizada e vou tratar já aqui destas duas questões. Os judeus da Alemanha e das partes da Europa que foram ocupadas pela Alemanha sofreram com as políticas nazistas de racismo e extermínio físico desde o momento em que Hitler chegou ao poder em 1933 até à derrota da Alemanha em 1945. Os palestinos têm vivido sob as políticas sionistas de apartheid, limpeza étnica e lento genocídio desde 1948 e não se vê um fim à vista. É verdade que o plano nazista de exterminar os judeus era rápido, violento e muito eficaz, e felizmente os nazistas foram derrotados e o genocídio terminou. Também é verdade que as políticas sionistas não replicam as da Alemanha nazista e o massacre dos palestinos não tem sido tão horrenda. Ao mesmo tempo, as famílias de Gaza que perderam os seus entes queridos em bombardeamentos israelenses indiscriminados, e milhões de refugiados palestinos que estão aprisionados em campos devem achar essas diferenças irrelevantes.

Caso haja alguma dúvida de que o que o regime sionista na Palestina, isto é, Israel, está a fazer é genocídio, o artigo 2º da Convenção das Nações Unidas sobre genocídio pode clarificar as coisas. Ele define o genocídio como um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir, totalmente ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. O artigo 3º estabelece quem pode ser punido pelo crime de genocídio.

Artigo II: Na presente Convenção, genocídio significa qualquer dos atos cometidos com intenção de destruir, totalmente ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tal como:

(a) matar membros do grupo;
(b) causar danos graves físicos ou mentais a membros do grupo;
(c) infligir deliberadamente ao grupo condições de vida calculadas para levar à sua destruição física totalmente ou em parte;
(d) impor medidas com a intenção de evitar nascimentos dentro do grupo;
(e) transferir pela força crianças de um grupo para outro.

Artigo III: Os seguintes atos serão punidos:

(a) genocídio;
(b) conspiração para cometer genocídio;
(c) incitamento direto e público para cometer genocídio;
(d) tentativa de cometer genocídio;
(e) cumplicidade em genocídio.

Durante os últimos sessenta e oito anos, Israel tornou a sua intenção mais que evidente através das suas ações em relação aos palestinos, e três dos atos do Artigo 2º e todos os do Artigo 3º se aplicam a Israel. Na realidade, tudo o que no artigo 3º se refere à Palestina também se aplica aos EUA, Reino Unido, França, Alemanha e vários outros países europeus.

A saga “Tempos de Cavalos Brancos”, de Ibrahim Nasrallah, conta as histórias de uma Palestina que já não existe, e as obras de Walid Khalidi e Salman Abu Sitta recordam as cidades, vilas e aldeias que foram destruídas, mas ainda vivem nos corações dos palestinos em todo o mundo, e permitem-nos apreciar o que lá existia antes da invasão sionista. Não era uma terra sem povo, não era um deserto feito para ser deflorada por judeus, mas sim um país de uma diversidade rica, que foi um lar para uma nação viva e próspera feita de agricultores e intelectuais, escritores e políticos, negociantes e construtores.

Este ano, a comunidade palestina realizou eventos da Nakba e manifestações em todo o país, comemorando a Nakba nas localidades onde foram destruídas aldeias em 1948. Os palestinos levavam bandeiras da Palestina, o que, dentro das fronteiras de 1948, é algo de notável. E num caso, em Eljalil, a bandeira de Israel foi arrancada numa esquadra de polícia e a bandeira palestiniana foi colocada no seu lugar. Milhares de pessoas assistiram a um evento no Negev, onde a aldeia de Wadi Zubala existiu até 1948. Os moradores de Wadi Zubala foram para as colinas do sul de Hebron na Cisjordânia, que nesse tempo estava fora da jurisdição israelita. Lá, eles compraram terras e estabeleceram-se em Um Hiran, onde vivem desde então. Agora, colonos judeus tomaram as suas terras em Um Hiran, forçando-os a sair das suas terras pela segunda vez.

“O velho morrerá e o jovem esquecerá”, é o que os dirigentes sionistas dizem uns aos outros. Mas isto é apenas uma fantasia. Os velhos morrem, infelizmente é como anda o mundo, mas os jovens palestinos recordam. Não há muito tempo, assisti a uma conferência sobre a Palestina em Chicago. Como é frequente no caso de conferências às quais muçulmanos e árabes assistem, havia muitas, muitas crianças pequenas presentes. É uma alegria participar em tais conferências. Durante uma pausa, alguns amigos e eu sentamo-nos na sala do hotel e olhamos as crianças a brincar. Quando perguntamos a essas crianças, que tinham todas nascido nos Estados Unidos e muitas dela já os pais tinham nascido nos Estados Unidos, de onde é que elas eram, as respostas surgiram depressa e sem hesitação. Entre as suas respostas estavam Yaffa, Haifa, Isdud, Akka, Yibne, etc. Tanto para esquecer.

Meu amigo Nader Elbanna sempre diz, “A Nakba é muito mais do que perder a terra e a casa”. Fadwa, a minha cara metade, coloca a questão da Nakba em termos muito crus: “Eu quero o meu país de volta, e quero que o meu pai tenha a sua dignidade de volta antes dele morrer. E depois de tudo o que eles nos fizeram e continuam a fazer-nos, os judeus nunca serão bem-vindos aqui.” O pai dela tem 85 anos, é um estudioso e um educador. “Por ele se ter recusado a trabalhar com o Yahud, não pôde trabalhar de todo”, disse-me ela. Ele recusou-se a colaborar com a polícia secreta israelita, a Shabbak, e então, com 40 anos, perdeu o emprego como director de escola e nunca mais conseguiu outro emprego. Para além do genocídio, da limpeza étnica e da morte e destruição, para além da humilhação e dos anos de sofrimento que nenhuma indemnização ou restituição poderá alguma vez compensar, há um aspecto profundamente pessoal na Nakba. Todo o palestiniano foi tocado por isto e cada um tem uma história pessoal, comovente. E ainda há um fio comum entre as inúmeras histórias: não existe nenhuma disputa, nenhum conflito, apenas um povo que muito simplesmente quer o seu país de volta.

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