24 de junho de 2016

A União Europeia está morta

Os povos já não querem a UE. O Brexit poderia desencadear uma avalanche de eventos, tais como a queda do Muro de Berlim em 1989, embora o seu alcance e significado ainda estão para ser medidos, disse Pierre Levy, especialista em assuntos europeus.

por Pierre Lévy


Tradução / Brexit! Acontecimento literalmente histórico.

Para as elites mundializadas, ele ultrapassa os piores pesadelos e era, na realidade, inconcebível.

Para aqueles que seguem atentamente a atualidade europeia, e estão conscientes da crescente rejeição popular que a UE inspira com muita razão, ele ao contrário era previsível.

Em primeiro lugar, uma constatação salta aos olhos. É verdade que uma parte da burguesia inglesa apoiou a opção de retirar o Reino Unido da União Europeia. Mesmo assim a clivagem é gritante: de um lado, as elites institucionais e políticas (e sindicais, com algumas louváveis exceções), a City, os bancos, os patrões das grandes empresas (1,300 deles haviam lançado um apelo final dois antes do escrutínio) – e os meios urbanos abastados; do outro, os bairros populares, as cidades operárias e os arrabaldes abandonados, as regiões desindustrializadas e no abandono.

É este fosso que acima de tudo determinou o resultado. Basta de resto ouvir as caçoadas odiosas que se jorram contra estes "meios desfavorecidos" dotados de "um nível de educação inferior", "irracionais e movidos pelo ódio". Este desprezo de classe, aumentado pelo despeito da derrota, diz muito sobre a natureza real do que estava em jogo.

O mesmo se diz da longa lista interminável dos membros da Santa Aliança que, durante meses, tudo tentou – em particular uma incrível chantagem do caos – para evitar o "cataclismo" anunciado: G7, chefes de Estado e de governo, ministros, dirigentes de multinacionais, banqueiros, agências de rating, OCDE, FMI... Os EUA obtiveram a palma quanto a isto, com uma visita especial a Londres do presidente Obama...

Naturalmente, cada país tem a sua própria cultura política. Mas esta oposição entre os "do alto" e os "de baixo" da sociedade é uma constante que se reencontra em todas as consultas sobre a Europa. Pois esta banana dirigida a Bruxelas é o quarto em menos de um ano. Os gregos (julho 2015), os dinamarqueses (dezembro 2015) e os holandeses (abril 2016) já haviam pronunciado um sonoro Não nos dos referendos quanto à Europa.

Esta geografia social da recusa da integração europeia fora particularmente impressionante no referendo francês de maio de 2005 que rejeitou o Tratado Constitucional Europeu (TCE). Um escrutínio que constituiu de certa forma um primeiro tremor de terra no seio da UE.

Na época, foram os operários, e mais geralmente o mundo do trabalho, os explorados, os dominados, que se revoltaram contra o projeto europeu de que se poderia resumir assim o objetivo mais essencial: retirar aos povos ("povos" no sentido político e não étnico) a liberdade de determinar as grandes escolhas que condicionam seu devir. A expressão mesmo de "comunidade de destino" (como se definiu a UE) diz tudo: proibição de fazer escolhas diferentes daquelas da "comunidade" e, sobretudo, o "destino" ultrapassa a vontade humana...

Deve-se notar de passagem que a mais alta distinção concedida pela União Europeia chama-se "prêmio Carlos Magno". Uma escolha que diz muito sobre as ambições imperiais desta "construção" que foi, no imediato pós-guerra, promovida ativamente por Washington.

Esta vontade de recuperar sua liberdade política coletiva – o termo jurídico é soberania, um conceito frequentemente caricaturado, quando se trata do próprio quadro da democracia real – tem a ver mais habitualmente com a aspiração coletiva do que com uma motivação explícita de cada cidadão. Verifica-se que os eleitores britânicos sem dúvida não se esqueceram de como foi espezinhado o Não francês ao TCE, assim como a maneira humilhante como foram tratados os irlandeses quando exigiram – duas vezes – recomeçar sua votação porque eles não haviam dado a boa resposta da primeira vez...

Um tal abuso de autoridade não foi possível com os ingleses. Estes acabam de entregar uma mensagem simples: pode-se ir embora. A consequência é certa: a União Europeia está morta. Unicamente a forma e a data da agonia são desconhecidas. 

Em 1989, a queda do Muro de Berlim abria uma era em que os dirigentes ocidentais esperavam estender sua dominação sobre o mundo inteiro, privar os povos da sua liberdade e aproveitar para impor recuos sociais literalmente sem precedentes.

O que se segue não está escrito. Mas um formidável retorno da correlação de forças esboçou-se a 23 de junho de 2016. Sugere-se a todos os progressistas que meçam a sua amplitude.

E o sentido da mesma.

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