1 de junho de 2016

Após fortalecer o 1% e empobrecer milhões, o FMI admite que o neoliberalismo fracassou

Benjamin Dangl

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Na semana passada um departamento de pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI) tornou público um relatório em que admite que o neoliberalismo é um fracasso. O relatório, intitulado "Neoliberalism: Oversold?", é um esperançoso sinal da morte dessa ideologia. O FMI está atrasado só uns 40 anos. Como Naomi Klein tuitou sobre o relatório, "Então todos os bilionários que criou vão devolver o seu dinheiro, certo?".

Muitas das conclusões do relatório que atingem o cerne dessa ideologia ecoa o que os críticos e vítimas do neoliberalismo vêm dizendo há décadas.

"Em vez de gerar crescimento", o relatório explica que as políticas neoliberais de austeridade e redução da regulação da movimentação de capitais têm, de fato, "aumentado a desigualdade." Esta desigualdade "pode por si mesma debilitar o crescimento..." Como resultado, o relatório afirma que "os formuladores de políticas devem estar mais abertos à redistribuição do que estão."

No entanto, o relatório deixa de fora alguns itens notáveis sobre a história e o impacto do neoliberalismo.

O FMI sugere que o neoliberalismo tem sido um fracasso, mas funcionado muito bem para o 1 por cento da população mundial, algo que tem sido sempre o propósito do FMI e do Banco Mundial. Tal como informou a Oxfam no início deste ano, o 1 por cento mais rico do mundo possui tanta riqueza quanto o resto da população do planeta. (Da mesma forma, o jornalista investigativo Dawn Paley comprovou em seu livro Drug War Capitalism que a guerra contra as drogas, longe de ser um fracasso, tem sido um enorme sucesso para Washington e as corporações multinacionais).

O relatório do FMI cita o Chile como estudo de caso do neoliberalismo, mas não menciona nenhuma vez que a sua visão econômica foi aplicada no país durante a ditadura de Augusto Pinochet - apoiada pelos Estados Unidos - uma omissão não ocasional por parte dos pesquisadores. Em toda a América Latina, o neoliberalismo e o terror de Estado tipicamente passou de mão em mão.

Em 1977, em sua Carta aberta à Junta Militar Argentina, o corajoso jornalista argentino Rodolfo Walsh denunciou a opressão do regime, uma ditadura que orquestrou o assassinato e desaparecimento de mais de 30.000 pessoas.

"Estes eventos, que despertam a consciência do mundo civilizado, não são, no entanto, o maior sofrimento infligido ao povo argentino, nem a pior violação dos direitos humanos que cometeram", escreveu Walsh sobre a tortura e os assassinatos. "É na política econômica deste governo, onde se descobre não só a explicação para os crimes, mas a maior atrocidade que pune milhões de seres humanos através da miséria planejada. ... Você só tem que caminhar ao redor da Grande Buenos Aires durante algumas horas para verificar a velocidade com que tal política transforma a cidade em uma 'favela' de dez milhões de pessoas."

Tal como demonstra vividamente Noami Klein em seu Shock Doctrine esta “miséria planificada” formava parte da agenda que o Fundo Monetário Internacional tem impulsionado durante décadas.

Um dia depois que Walsh enviou a carta para a Junta ele foi capturado pelo regime, morto, queimado e jogado em um rio, um dos milhões de vítimas do neoliberalismo.

Benjamin Dangl trabalhou como jornalista na América latina, ocupando-se durante mais de uma década dos movimentos sociais e a política no continente. É autor de Dancing with Dynamite: Social Movements and States in Latin America e de The Price of Fire: Resource Wars and Social Movements in Bolivia. Hoje em dia, Dangl está cursando um doutorado em Historia da América Latina na McGill University; é editor de Upside Down World, um site sobre ativismo e política na América latina, e faz o mesmo trabalho em Toward Freedom, uma perspectiva progressiva sobre os acontecimentos mundiais.

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