2 de junho de 2016

Bernie, Donald, e os pecados do liberalismo

Uma versão americana da luta de classes

por Steve Fraser


Tradução / Erguendo-se das sombras do que a América reprimiu, Bernie Sanders e Donald Trump têm provocado calafrios pelos corredores do poder do establishment. Quem imaginaria tal coisa? Dois homens, dois marginais – embora em sentidos absolutamente diferentes –, parecem estar liderando rebeliões contra os mestres do destino dos americanos nos dois partidos; isso, depois de décadas durante as quais até imaginar a possibilidade de coisa semelhante seria tomado como pensamento ingênuo, no melhor dos casos; e delirante, no pior. A presença desses dois, maior que a vida, sobre o palco nacional talvez seja o evento mais improvável de todo o último meio século da vida americana. Sugere que os americanos estão entrando em nova fase de nossa vida pública.

Há um ano, em meu livro The Age of Acquiescence [Era da Aquiescência], tentei decifrar um mistério já sugerido no subtítulo: "Ascensão e queda da resistência americana contra a riqueza e o poder organizados." Dito de modo bem simples, aquele mistério era: Por que as pessoas rebelam-se em alguns momentos e aquiescem em outros?

Resistir contra sofrimentos, insultos, ameaças ao bem-estar material, exclusões, degradações, desigualdades sistêmicas, mandonismo, indignidades e impotência – resistências que são a essência da vida diária de milhões de seres humanos – poderia parecer natural, inescapável, talvez, mesmo, inevitável. Por que discutir tudo isso?

Historicamente, no entanto, o impulso de ceder provou não ser menos natural. Afinal, resistir é quase sempre se arriscar, arriscar os próprios meios de sobrevivência e o próprio modo de vida. Levantar-se em rebelião significa silenciar aquelas vozes internas intimidantes, que dizem que os que mandam têm direito de mandar porque são sábios, ricos e tudo que o hábito ancestral decrete. O medo implanta-se naturalmente.

Em nosso contexto, por que em determinados momentos históricos os americanos mostraram tal capacidade para levantar-se em rebelião e, noutros, para aquiescer e submeter-se?

Para responder a essa pergunta, explorei os anos da primeira era sindicalizada do século XIX, quando milhões de americanos tomaram as ruas para protestar, muitas vezes diante do poder armado do Estado; e o período na parte final do século XX e primeiros anos do século XXI, quando o rótulo "a era da aquiescência" parecia perfeitamente razoável – até que, em 2016, perdeu, repentinamente qualquer razoabilidade.

Por isso, considero este ensaio um pós-escrito a esse trabalho, de quando descobri, talvez atrasado, que a era da aquiescência realmente chegara ao fim. Hoje, claro, milhões de americanos aplaudem Sanders ["Feel the Bern"] e outros milhões aplaudem O Donald. Talvez devesse ter prestado mais atenção aos primeiros sinais do que estava por vir quando concluía meu livro: o Tea Party pela direita, e Occupy Wall Street pela esquerda, iniciativas de trabalhadores de baixo salário, movimentos de salários mínimos e de salários de fome, vitórias eleitorais de progressistas urbanos, uma avançada no ativismo de defesa do meio ambiente e a irrupção do movimento Black Lives Matter poucos dias antes de o livro ser publicado.

Mas quando se vive por tanto tempo na sombra da aquiescência onde morre qualquer esperança ou, pelo menos, mal consegue manter-se viva, acontece de não se verem essas coisas. Afinal, se a história tem alguma lógica; essa lógica pode permanecer tão profundamente soterrada que a história se torna indecifrável... até que ergue a cabeça e nos morde. Se, por exemplo, alguém tivesse radiografado a sociedade americana em 1932, no fundo da Grande Depressão, a radiografia teria mostrado um corpo político tomado pelo desespero, pela descrença, pelo cinismo, pelo fatalismo e pelo medo mais profundos – numa palavra, pela aquiescência. Esse era o clima de opinião que descera como sombra sobre a terra desde a "terça-feira negra" e o colapso da Bolsa, em 1929.

Mas aquele mesmo raio-X, se feito em 1934, apenas dois anos depois, teria revelado uma tempestade de greves de massa, greves gerais, greves com manifestações de rua, suspensão organizada de pagamento de alugueis, invasão e tomada de instalações e minas fechadas de carvão, por pessoas que estavam sem luz e passando frio, marchas de desempregados, e uma necessidade geral de pôr abaixo o ancien régime; numa palavra, rebelião. Desse modo, o equilíbrio de uma sociedade pode trocar de fase num piscar de olhos e sem qualquer aviso (embora historiadores do futuro e outros, beneficiados pela distância, logo apareçam para mostrar todos os sinais que teríamos de ter visto a tempo).

Liberalismo vs. Liberalismo

Prevista ou não, uma nova era de rebeliões começou, e ameaçava o status quo pela esquerda e pela direita. E talvez o aspecto mais chocante da nova era: o povo estava em armas contra o liberalismo.

Não faz sentido, não é? Como faria sentido se, no próximo novembro, a rainha do liberalismo estará enfrentando nas urnas o bilionário-padrão do republicanismo? No final, tudo sempre acaba sempre do mesmo modo (velho): liberais vs. conservadores, certo?

Não. Não é bem assim. Se se pensa em Hillary como a "liberal de limusine" dessa temporada eleitoral, e em O Donald como o "populista em terno risca-de-giz", e consideramos o modo como cada um deles obrou para alcançar o topo e todos quantos eles tiveram de atropelar para chegar lá, surge quadro bem diferente. Clinton herda o manto de um liberalism que arrasou a economia dos EUA e também, por metástase, o estado da segurança nacional. Remanescentes de qualquer igualitarismo genuíno foram despachados para o sótão do Partido Democrático, e trata-se agora de proteger os interesses da oligarquia que tudo comanda. Essa elite não tem qualquer problema com igualdade de raça e gênero, desde que a igualdade não crie problema para o que realmente conta para ela, e que, afinal, é a característica definidora dos que fazem campanha a favor do liberalismo de limusine de Hillary. Trump canaliza a hostilidade gerada por aquela indiferença neoliberal quanto ao bem-estar da classe trabalhadora e o desprezo cultural mal disfarçado pelo interior da América, num anti-establishmentismo com traços racistas. Enquanto isso, pela outra margem, Bernie Sanders ataca o liberalismo clintoniano. Em outras palavras: o liberalismo está sitiado.

Os anos 60 atacam o liberalismo

Que estranho! Durante décadas, os "progressistas" viram-se trabalhando para defender as realizações da reforma liberal, contra o assalto impiedoso de um conservadorismo em ascensão. É difícil lembrar hoje que a equação "liberal contra conservador" nem sempre se aplicou (e pode novamente não se aplicar).

Volte meio século para a década de 1960, no entanto, e o campo de batalha parece não muito diferente de terreno de hoje. Esse foi um período em que o movimento contra a guerra do Vietnã, em nome da democracia, acusava o liberalismo à moda americana de ser imperialista, enquanto os movimentos pelos direitos civis e do poder negro denunciavam a aliança dos liberais, no sul, com segregacionistas.

Naqueles anos, a Nova Esquerda implantou postos avançados em áreas urbanas pesadas, nas quais os clamores dos liberais de que a América seriam "sociedade afluente" soavam como piada cruel. Os estudantes ocupavam prédios nos campi para dizer não à burocratização da educação superior e à submissão da universidade a mais um desdobramento dos liberais: o complexo industrial-militar. As mulheres romperam o nó que ligava o ideal da família nucleada à hierarquia de gêneros. A contracultura exibia sob mil formas o seu desprezo pelo senso de propriedade do liberalismo. Nenhuma convenção escapou ilesa, dos cortes de cabelo aos contratos de casamento, inibições sexuais, ambições carreiristas, ortodoxias religiosas, modo de vestir, tabus raciais ou proibições químicas.

Mas o liberalismo ajustou-se. De lá até hoje colheu os créditos pela maioria da reformas associadas àquela época. Leis de direitos civis, a guerra contra a pobreza (incluindo Medicare e Medicaid), direitos para as mulheres, ação afirmativa e o apagamento da discriminação cultural são hoje itens que não podem faltar no CV de presidentes Democratas e dos altos políticos do Partido – os que controlam a mídia dominante, a presidência das principais fundações liberais, os reitores de escolas da Ivy League, teólogos e clérigos Protestantes de alto escalão, e tantos outros que orgulhosamente desfraldam a bandeira do liberalismo. E, sim, merecem algum crédito. Podem ter sentido genuinamente aquele "ardor" do passado, que clama por direitos iguais perante a lei..

Mais importante, aquelas elites liberais foram espertas o suficiente, ou suficientemente maleáveis, ou ambas as coisas, para surfar as ondas da rebelião daquele momento. Sabedoria e flexibilidade, contudo, são apenas parte da resposta da charada, que persiste: Por que o liberalismo de meados do século 20 conseguiu autorreformar-se, e não rachou sob a pressão daquele momento, nos anos 60? A explicação mais profunda pode ser que os levantes daquele ano atacaram o liberalismo – mas em larga medida para salvar o mesmo liberalismo. Às vezes explicitamente, como na Declaração de Port Huron, documento de fundação dos Estudantes para uma Sociedade Democrática, da New Left; outras vezes por implicação, as rebeliões daquele momento exigiam que a ordem liberal correspondesse ao próprio credo sagrado de liberdade, igualdade e direito a buscar a felicidade.

A demanda para abrir o sistema tornou-se alma e coração da fase seguinte do liberalismo da necessidade de empoderar o indivíduo livre. Hoje se pode reconhecer aí o desejo clássico do clintonismo, de deixar que todos participem da "corrida até o topo".

Olhando para trás, é frequente tratar os anos 60 como era de rebelião dos jovens. Muito mais do que isso, esses anos podem ser compreendidos, em parte, como uma versão americana de rebelião de pais e filhos (além, claro, de rebelião das mães e filhas). Uma geração mais velha havia criado a ordem do New Deal, já aí um ato de rebelião histórica. Como aconteceu, aquela criação não cabia perfeitamente num Partido Democrata cuja ala sulista, incorporada na antiga Confederação segregacionista, confiava em leis e crenças Jim Crow. Nem ali cabiam as reformas sociais do estado de bem-estar do New Deal que presumiam uma família com pai provedor, e excluíam de suas proteções as classes subalternas, especialmente (mas não exclusivamente) as mal formadas, com seus anseios por igualdade.

Mais importante, o New Deal salvou a economia capitalista derrubada pela Grande Depressão, ao instalar uma nova economia política de consumo de massa. Embora tenha sido grande realização material, foi também desenvolvimento socialmente incapacitante, que nutriu uma cultura de aspiração individualista por status e assim minou o senso de solidariedade social que tornara possível o New Deal. Finalmente, nos anos de Guerra Fria, tornou-se claro que prosperidade e democracia em casa dependiam de um relacionamento imperial com o resto do mundo e de converter o planeta numa só gigantesca base militar. Na frase famosa de Henry Luce da revista Life Magazine, nascia um "Século Americano".

Levantes contra essa versão ossificada do liberalismo do New Deal converteram os anos 60 nos "The Sixties." Emoções políticas no auge, com rebeldes em luta contra um "establishment" liberal. As questões ficaram algumas vezes tão superaquecidas que ameaçavam derreter a superfície da vida pública. Mesmo assim havia uma questão que, independente da temperatura, era sempre difícil propor, naquele momento: E se o liberalismo não for o problema? Reconhecidamente, esse pensamento estava no ar, levantado não só por novas e velhas figuras da esquerda, mas por Martin Luther King, que falava abertamente do que pensava sobre capitalismo, pobreza, raça e guerra, em discursos como "Por que sou Contra a Guerra do Vietnã.

Mas muitos dos rebeldes daquele momento agarraram-se à fé ancestral. No final, estavam convencidos de que quando o equilíbrio fosse restaurado, um liberalismo, mais moderno, despojado de suas imperfeições, poderia tornar-se um paraíso seguro que não excluiria ninguém. Denunciado naqueles anos por sua hipocrisia e má fé, o liberalismo seria purificado.

Graças àquelas rebeliões de massa e aos esforços persistentes, embora menos ferozes que se seguiram durante décadas, a hipocrisia da exclusão, fosse de negros, de mulheres, de gays ou outra, realmente acabaria, mesmo, em grande parte. Ou pareceria ter acabado. O liberalismo herdado do New Deal havia sido saneado – não completamente, sem dúvida, e não sem resistência feroz, mas, novamente, nada é perfeito, não é? Fim da hipocrisia. Fim da história.

O elo perdido

Foi quando, no alvorecer do novo milênio, começou a emergir um paradoxo. A sociedade liberal mostrara-se compatível com justiça para todos e com direitos iguais que a capacitava a chutar da pequena área, para todos. Porém, estranhamente, no mundo glorioso que disso adveio – o mundo que Bill Clinton presidiu –, liberdade, justiça e igualdade pareciam estar sendo servidas, todas elas, em rações muito minguadas.

Se não era a ordem liberal, então havia alguma outra coisa que estava estragando tudo. Afinal, a vida diária de tantos americanos comuns estava cada vez mais constrangida pela ansiedade econômica e por uma sensação vertiginosa de queda livre no quadro social. Conheceram as emoções de serem expulsos e escarnecidos, de terem padecido um desempoderamento político difícil de definir, de serem espionados no trabalho (quando achavam trabalho) e provavelmente também noutros locais quando não tinham trabalho, de mais temer que esperar o que o futuro lhes reservasse.

Por bravos e audaciosos que fossem, raramente os movimentos rebeldes dos fantasiados anos 60 ou os que vieram depois, haviam explicitamente desafiado a distribuição subjacente da propriedade e do poder na sociedade americana. E, no entanto, se o liberalismo tinha provado ser suficientemente compatíveis com a liberdade, igualdade e democracia, o capitalismo era outra questão.

A elite liberal que ganhara créditos por ter aberto a corrida até o topo do sucesso, também, vez ou outra, comandava um capitalismo liberal que, durante décadas, agredira com violência a vida de trabalhadores de todas as cores. (Na verdade, Hillary hoje consome muito esforço tentando sobreviver sob o peso do legado do encarceramento em massa comandado pelo marido dela.) Mas os Republicanos também participaram desse massacre; mais de uma vez, de fato, eles comandaram a implantação de um sistema econômico movido por mercado-finança que produzira raros "vencedores" e legiões de derrotados. Os dois partidos pregavam mercado desregulado, livre comércio global, deslocalização de fábricas e outras indústrias, privatização dos serviços públicos e o radical encolhimento da rede de seguridade social. Juntas, todas essas medidas geraram vilas e cidades fantasmas, de onde o modo de vida local e a própria vida desertaram (pense no Rust Belt America).

Nesse processo, a tradição do Partido Democrata do New Deal , de resistir contra a exploração econômica e a desigualdade, evaporou; e os "neo-Democratas" da era Clinton e dali em diante, além de muitos dos 500 da revista Fortune e os EUA dos hedge-fund continuaram a pregar direitos iguais para todos. Até resistiram contra tentativas dos conservadores para desmontar as proteções sociais contra discriminações por raça, gênero e opção sexual. A única coisa que nunca fizeram – ninguém, nenhum neo-Democrata jamais fez – foi alterar a absoluta igualdade de direitos dentro do 1%.

E a que se reduzem liberdade e igualdade, diante dessa realidade? Para alguns que podem – graças àquelas aberturas – participar na "corrida até o topo", são muita coisa. Mas para os muitos milhões que ou estão caindo ladeira abaixo ou já viviam muito perto do fundo da sociedade, não passam de piada, zombaria, promessa vazia, algo que (como George Carlin observou certa vez) ainda chamamos de Sonho Americano, porque só dormindo, mesmo, para acreditar nele.

Ao dar uma mão para esse doloroso dilema, os novos Democratas pareciam feitos para o rótulo já existente de – uma espécie de maldição lançada pela direita populista – "liberal limusine". Emblema de hipocrisia, o rótulo foi concebido e usado pela primeira vez em 1969, não pela esquerda, mas por figuras do então nascente movimento de direita. A imagem de uma multidão em meias de seda, todos nascidos de boas famílias, criados e educados para governar, conectados todos em rede nos circuitos do poder e da riqueza, todos preocupados com a sobrevivência dos de baixo, mas não a ponto de ceder qualquer dos seus privilégios para aliviar o sofrimento daqueles próximos, alojou-se então, e para sempre, no coração da política americana. Atualmente, é o norte magnético do populismo de direita.

Luta de classes, estilo americano

Em 1969, o presidente Richard Nixon invocou a "maioria silenciosa" a combater contra os que, em breve, passariam a ser conhecidos como "liberais de limusine". Esperava mobilizar larga fatia da classe trabalhadora e baixa classe média brancas, atraindo-as para o Partido Republicano. Esse grupo havia sido leal ao Partido Democrata do New Deal, mas depois aquelas pessoas passaram a sentir-se cada vez mais abandonadas por ele, e perturbadas pela agitação e rebeliões do período.

Nas décadas seguintes, os liberais de limusine mostraram-se o receptáculo perfeito para absorver todos os ressentimentos daqueles brancos diante dos levantes raciais, contra a desindustrialização e o declínio, e o sofrimento daquelas pessoas diante do fim da "família tradicional" e suas supostas certezas morais. Desse modo, o Partido Republicano obteve número significativo de votos da classe trabalhadora branca. É perfeitamente claro, em retrospecto, que esse confronto entre a maioria silenciosa e o liberalismo de limusine sempre foi uma modalidade americana da luta de classes.

Nixon provou que tinha algo de gênio político, e seu gambito funcionou espantosamente bem... até que, claro, não funcionou, nos tempos que estamos vivendo. Segundo a liderança de Nixon, o alto comando Republicano logo compreendeu que erguer a bandeira vermelha do "liberalismo de limusine" excitava paixões e trazia votos. Mas nunca qualquer daqueles Republicanos tivera nem qualquer ínfima intenção de fazer coisa alguma que realmente visasse a melhorar as condições daquela maioria silenciosa, cuja vida deteriorava rapidamente. As principais figuras do partido eram muito comprometidos com a defesa dos interesses da América corporativa e as classes mais altas.

Os gestos, a carne vermelha que jogavam para os seguidores nas "guerras culturais" só fizeram aumentar as paixões do período, até que, depois do derretimento financeiro de 2007 e da Grande Recessão, explodiram de um modo tal, que a elite Republicana não soube o que fazer daquelas paixões. O que começara como criaturas geradas à semelhança daquelas elites Republicanas, formadas no cinismo e a partir das invejas e ciúmes e sentimentos obscuros do próprio Nixon contra o modo como o establishment liberal o desprezara, acabou por erguer-se contra os seus criadores.

Uma "maioria silenciosa" que não permaneceria convenientemente silenciosa. O Tea Party uivava contra todos e quaisquer tipos de establishment políticos casados com Wall Street, capitalistas pervertidos, desviantes culturais e sexuais, defensores do livre comércio que davam as costas aos empregos que incineravam, gente que se opunha a impostos mas jamais em toda a vida pagara qualquer dos impostos que execravam e que só fazia escarnecer de governos que nunca paravam de mamar nas tetas do Estado e seus subsídios. Em endereços distantes, uma fatia privilegiada de americanos que se aproveitara do sistema, que, de fato, fizera o sistema operar como sistema, olhava para baixo, para as massas dos antes crédulos, hoje ultrajados – e não acreditava no que via.

No processo, o Partido Republicano foi desmembrado e foi The Trump who magically rode that Trump Tower escalator down to the ground floor to pick up the pieces. A irreverência dele ante a autoridade estabelecida funcionou. Suas fobias racistas e misóginas funcionaram. Os bilhões dele funcionaram para milhões que já não toleravam os celebrados conquistadores da segunda Era Dourada de Wall Street. O modo como sapateou em torno da Seguridade Social funcionou com aqueles cujas situação de carência e lógica emocional foram capturados pela pessoa que – inesquecível! – disse a um congressista Republicano: "Mantenha sua mão governamental bem longe do meu Medicare." Sobretudo, o modo energético bombástico do homem funcionou muito bem com milhões já fartos de desmoralização, paralisia e impotência. Elas sentiram O Donald.

No confronto entre populismo de direita e neoliberalismo, as legiões do Tea Party e de Trumpistas encontram agora executivos de empresas da Fortune 500 CEOs moralmente suspeitos e que são real ameaça econômica, cada vez mais irados com os resgates pelo Federal Reserve, sendo demitidos nas repetidas crises geradas pelo livre comércio global e pelos tratados que as acompanham. E subjacente a essas posições há uma fantasia-delírio de algum antigo capitalismo, que era mais amigável, mais parecido com o que eles supõem que a América algum dia tenha sido. Podem ser chamados de anticapitalistas em nome do capitalismo.

Outros – muitas vezes vizinhos dos primeiros em bairros que se vão esvaziando de bons empregos e parecem estar sendo assaltados – estão "sentindo o ardor"]. O que aí se vê é outro ataque contra o neoliberalismo de tipo limusine. Bernie Sanders se classifica orgulhosamente como socialista, embora suas ideias programáticas ecoem, no máximo uma versão suavemente esquerdista do New Deal. Mas só o fato de pronunciar em público a palavra proibida "socialismo", apostar a própria candidatura nela e dar-se bem, excitando o compromisso caloroso de milhões de americanos já é espantoso – de fato, é além de qualquer imaginação na América contemporânea.

A campanha de Sanders marcou posição contra o liberalismo da elite clintonista. Ecoou tão profundamente porque o candidato, com seu charme e integridade avunculares, insiste repetidas vezes que os americanos devem examinar abaixo da superfície de um capitalismo liberal que é ética e economicamente falimentar e joga seu jogo de confiança política, até quando fala de "o homem esquecido".

Por tudo isso, até certo ponto Trump e Sanders estão competindo pelo voto dos mesmos eleitores, o que não deve surpreender ninguém, porque o dano colateral provocado pelo capitalismo neoliberal espalha-se por toda a sociedade. Não esqueçam que na era da Grande Depressão os nazistas tornaram-se mais influentes e poderosos, o partido deles, dos nacional-socialistas, não apenas incorporou a palavra – socialismo –, mas competia com partidos socialistas e comunistas, todos eles buscando quadros e eleitores entre os operários alemães que enfrentavam dificuldades colossais. Houve até momentos (quando não estavam matando uns aos outros nas ruas) que realizaram manifestações conjuntas.

Trump, é claro, é um demagogo sem consciência, mentiroso serial e niilista que crê que só ele poderá salvar-se. Sanders, por outro lado, pensa em cada palavra que diz. Na questão da justiça econômica falou como vinil quebrado por mais de 25 anos, mesmo que ninguém além das fronteiras de Vermont desse muita atenção ao que ele dizia, até recentemente. Hoje, Sanders é ouvido e aplaudido por suas ideias e as pessoas acreditam nele.

Hillary Clinton é amplamente contestada. Sanders sempre a superou consistentemente contra outros potenciais oponentes Republicanos, porque Hillary é realmente liberal de limusine cuja carreira queimou a lenha da confiabilidade a uma velocidade espantosa. E mais importante que isso, a rebelião que levou Sanders adiante não tem medo de pôr o capitalismo no banco dos réus. Trump não está nem perto de fazer tal coisa, mas o estado mórbido terminal do neoliberalismo fez também dele uma força a ser enfrentada. Por tudo isso, não é difícil perceber que a era da aquiescência está acabando.

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