16 de junho de 2016

Brexit - O fim do universo

Mathew D. Rose

Naked Capitalism

Tradução / Esta manhã fui surpreendido por uma entrevista que ouvi na rádio estatal alemã. Foi na Deutschlandfunk, especializada em notícias e assuntos atuais. É considerada por muitos como a estação de rádio mais séria e objetiva da Alemanha.

Neste caso, o moderador entrevistava o Deputado do Parlamento Europeu Sven Giegold, dos Verdes, sobre o próximo referendo, também chamado Brexit, na Grã-Bretanha, sobre o país deixar a União Europeia. Giegold é inteligente, de fato um dos raros talentos ativos em Bruxelas. Uma das primeiras questões do moderador foi se não seria melhor se o ministro das Finanças da Alemanha Wolfgang Schäuble, o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu fossem à Grã-Bretanha para defender o lado "Permanecer" na União Europeia, com vistas ao próximo referendo.

A pergunta reflete alguns dos problemas mais básicos que são como pragas que acometem a elite europeia e sua mídia obsequiosa. O primeiro é um problema especificamente alemão: autoridade não se questiona. Em outras palavras, quando poderosas figuras como o ministro das Finanças da Alemanha e os presidentes da Comissão e do Conselho Europeus dizem para votar "Permanecer", então não pode haver nenhuma dúvida do que você deve fazer.

Passa a ser dever de todos esquecerem imediatamente os feitos recentes desses três políticos. Schäuble, pode-se dizer sozinho, converteu a recessão europeia em depressão, além de ter reduzido a Grécia à situação de crise humanitária perpétua. Juncker, como primeiro-ministro em Luxemburgo, criou o sistema de impostos hoje vigente, pelo qual grandes empresas praticamente não pagam imposto algum sobre lucros auferidos na Europa, em detrimento dos contribuintes cidadãos dos estados-membros. Deveria ter sido condenado e metido na cadeia. Em vez disso, foi instalado como presidente da Comissão Europeia. Tusk enfiou uma política neoliberal europeia goela abaixo dos poloneses, resultado da qual os poloneses recentemente elegeram e deram maioria absoluta no governo da Polônia a um partido antieuropeu e ultraconservador. É a primeira vez, na era pós-comunista, que qualquer partido consegue esse tipo de mandato absoluto. Estas são algumas realizações bastante impressionantes.

Para piorar a situação, Schäuble tem empregado sua tática habitual de intimidação para influenciar os britânicos, tornando-se perfeitamente claro que, no caso de Brexit "Dentro está dentro e fora está fora". Não haverá boa vontade, sem compromissos. Não acho que isso é simplesmente polêmica. É o mesmo tipo de coisa que ele disse aos gregos antes de destruí-los. A Grã-Bretanha pode não ter o Euro, mas uma nação que desafie a hegemonia alemã, deixando a UE, é um precedente perigoso e deve ser feito de exemplo - ver a Grécia. Há um grande arsenal de armas econômicas disponíveis para os alemães e eles não têm escrúpulos em usá-las.

Seja como for, o moderador, na entrevista, ficou pasmo, sem saber o que dizer, quando Giegold explicou que a retórica ameaçadora da Alemanha, seja do Sr. Schäuble ou de outros líderes alemães não impressionou muito os britânicos no passado. Na opinião de Giegold, quanto mais os alemães ameaçam, mais gasolina jogam no fogo pró-Brexit, e absolutamente não ajudam na direção que os alemães preferem.

Seguindo a ameaça de Schäuble, Tusk demonstrou a perspicácia política típica da elite da UE com a análise da questão da Brexit, alegando que ela poderia ser o início da destruição não apenas da UE mas também da civilização política ocidental na sua totalidade. Oh bem, nós podemos ter alguns momentos emocionantes pela frente.

Se a Grã-Bretanha prosperar depois do Brexit, a elite da União Europeia terá pela frente alguns problemas sérios. Pior ainda será se acontecer de a Grã-Bretanha prosperar, mas a União Europeia, não. Ninguém deve esquecer que, depois de aprovada a saída do país, da União Europeia, a Grã-Bretanha será governada por governo um conservador neoliberal, cuja agenda política é semelhante à da União Europeia. O que acontecerá se em eleições futuras esse governo for substituído por outro, mais social-trabalhista (no caso de os blairistas não conseguirem manter o controle sobre o Partido), e introduzir um outro programa econômico?

O que o moderador da rádio alemã parece não compreender é que Schäuble, Juncker e Tusk, como o restante da elite da UE, tornaram-se um anátema para a maioria dos europeus, especialmente para aqueles com algum senso de democracia, justiça ou solidariedade. Na verdade, não há nada democrático ou transparente na UE. Onde mais, exceto em uma ditadura, você tem um parlamento que não tem o direito de criar leis, e que estas devem ser feitas por corpos que não foram eleitos pelo povo.

Se olharmos para a UE de hoje, nada mudou durante anos. E a UE hoje faz de tudo para promover os acordos comerciais TTIP [Parceria Trans-Atlântico de Comércio e Investimento] e CETA [Acordo Econômico e Comercial Amplo], por mínimo que seja o apoio popular nos dois casos. Lobbystas de grandes empresas ditam a política. O que é ilegal nos EUA, relacionado a emissões de óxido de nitrogênio de veículos movidos a diesel, é legal na União Europeia, graças aos buracos implantados no texto das leis. A Volkswagen provavelmente nunca será punida, por usar itens defeituosos em seus carros a diesel. Não surpreendeu ninguém que essa fraude tenha sido exposta nos EUA, mas não na União Europeia. A nova lei sobre testes de emissões para veículos leves movidos a gasolina, WLTP [Worldwide harmonized Light vehicles Test Procedures] é pois absolutamente sem efeito na União Europeia. Apesar da chuva de escândalos relacionados a impostos, inclusive o que envolve Juncker, nunca se criou legislação efetiva para fechar a torneira. E a lista continua e continua.

A União Europeia gasta milhões todos os anos para manter a ilusão de que ela própria seria um dos grandes feitos europeus. O problema é que nada disso é bem assim, há muito tempo. De fato, a União Europeia tornou-se agente para a imposição de uma agenda neoliberal, que converte em lei europeia o que não passa de interesses privados do big business. E assim aconteceu de haver hoje uma União Europeia antidemocrática sob hegemonia alemã, para promover os interesses das grandes empresas privadas – e duvido que seja o que o povo da Europa quer ou merece.

As palavras do dramaturgo britânico Dennis Potter aplicam-se à situação atual na União Europeia: "Eles não estão interessados em nosso desenvolvimento ou emancipação. Essa é a qualidade de uma força de ocupação." A mesma conclusão à qual chegaram os gregos há alguns anos.

Tem sido interessante acompanhar os estágios da campanha pró-Brexit. De início, parecia ser um referendo sobre o governo de David Cameron. Depois, o papel da imigração assumiu o centro do palco. Agora, a soberania nacional e a ausência de democracia na União Europeia tornaram-se importantes itens de discussão. Há até um início de debate dentro da esquerda britânica, sobre se é possível redemocratizar a União Europeia. Questão bem esquisita, dado que nunca antes, em tempo algum, foi organização democrática.

Parece haver pouca esperança de que a UE seja reformada. A elite da União Europeia sente-se segura demais e tem muito a perder. Uma União Europeia democrática é absolutamente inútil para eles, especialmente para os alemães. Recentemente, Schäuble uniu-se aos que querem o fim das reivindicações por mais integração europeia. A Alemanha não mais precisa de integração, que implica concessões, quando o país já está mandando no jogo. Estive recentemente em Bruxelas, e vi um membro de uma ONG explicar que a Alemanha está muito satisfeita com a situação atual da União Europeia. Estão ditando as políticas. Pode haver resistência aqui e ali, mas não são casos existenciais para a Alemanha e seus clientes.

O "Brexit" no entanto oferece à Grã-Bretanha uma oportunidade única. Uma vez fora da UE, quem os Tories vão culpar quando tornar-se claro que são principalmente eles que estão arruinando a Grã-Bretanha, e não a UE ou os imigrantes?

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