29 de abril de 2016

Os primeiros terroristas globais foram os anarquistas nos anos 1890

Maya Jasanoff*

The New York Times

O funeral de Martial Bourdin, como representado na mídia francesa.

Tradução / Já tinha escurecido em um fim da tarde de fevereiro em 1894 quando um zelador do Parque de Greenwich, fora de Londres, ouviu uma explosão. Correndo ao local, ele encontrou um homem jovem de joelhos, com seu abdome aberto e tripas para fora. A polícia identificou a vítima como um francês chamado Martial Bourdin, com ligações com um conhecido clube anarquista. Claramente, eles concluíram, ele tinha a intenção de detonar uma bomba no Observatório de Greenwich. Era um alvo altamente simbólico: o Primeiro Meridiano, o centro longitudinal do mundo.

Bourdin sacudiu o centro do mundo, mas não da forma como pretendia: o anarquismo nos anos 1890 deu início à primeira era de terrorismo global, e na época, como agora, os imigrantes e as liberdades civis pagaram o preço.

Hoje, "anarquismo" parece inofensivo, quase excêntrico, algo que poderia ser associado a ex-hippies, ex-punks e solitários de cabelo comprido rabiscando manifestos anti-establishment em chalés isolados. Mas em seu auge, o anarquismo promovia uma visão com amplo apelo de uma sociedade livre, sem Estado. Os delegados no Congresso Internacional Anarquista em 1881 adotaram a estratégia de "propaganda por atos", ou terrorismo para dizer de outra forma, para conseguirem implantá-lo.

Um único ataque poderia "fazer mais propaganda do que milhares de panfletos", disse o filósofo anarquista Peter Kropotkin, e os anarquistas realizaram dezenas. Eles cometeram uma série de assassinatos proeminentes do tipo que pareceriam inimagináveis hoje, matando o presidente dos Estados Unidos, o presidente da França, o primeiro-ministro da Espanha, o rei da Itália e a imperatriz da Áustria-Hungria em menos de uma década.

Mais chocante eram as bombas. Armados com a recém-patenteada dinamite, a primeira arma amplamente disponível de destruição em massa, os anarquistas transformaram locais de sociabilidade burguesa (um movimentado café em Paris, uma praça em Roma, a ópera de Barcelona) em locais de gritos e carnificina.

Os Legislativos por toda a Europa e Estados Unidos reagiram ampliando os poderes policiais e aprovando leis banindo anarquistas ou proibindo sua entrada.

A única exceção foi o Reino Unido, que se orgulhava das tradições de asilo e liberdades civis. Os anarquistas em fuga se congregaram em Londres, relativamente sem serem perturbados pela polícia.

O mesmo fizeram milhares de outros imigrantes europeus, principalmente os judeus do Leste Europeu que fugiam de perseguição na Rússia. De 1881 a 1901, o número de russos e poloneses em Londres saltou de menos de 9.000 para mais de 53 mil, provocando uma reação contrária nativista. O ativista anti-imigração William Henry Wilkins condenou essa "invasão forasteira", alegando que ela transformava partes de Londres em uma "cidade estrangeira".

Na prática, as massas de imigrantes e o punhado de anarquistas eram bastante distintos. Mas como as pessoas acreditavam (e os tabloides e romances sensacionalistas continuamente as recordavam) que alguns estrangeiros poderiam ser revolucionários detonadores de bombas, elas não pensavam de modo racional sobre as diferenças. Elas viam o que Wilkins chamava de "estrangeiros destituídos e degradados" trazendo "miséria, vício e crime".

Então ocorreu o ataque em Greenwich e ele parecia confirmar o elo que os nativistas suspeitavam entre estrangeiros e violência. A polícia realizou uma batida em um clube anarquista alemão no Soho e deteve italianos suspeitos de preparem bombas. Centenas de manifestantes cercaram o cortejo fúnebre de Bourdin, gritando "Nada de bombas aqui!" e "Voltem para seu próprio país!"

Com o episódio ainda fresco na mente das pessoas, o líder do Partido Conservador, lorde Salisbury, apresentou um projeto de lei no Parlamento para restringir a imigração. Os britânicos "sempre adoraram considerar esta ilha como um refúgio para aqueles que são derrotados nas lutas políticas", reconheceu Salisbury, mas o incidente em Greenwich "causou toda uma mudança nessa ideia de direito de asilo". Existiam terroristas, existiam refugiados, às vezes terroristas que também eram refugiados, de modo que não deveria mais ser permitida a entrada de refugiados.

Salisbury estava errado. Não havia evidência de que a "Inglaterra é, em grande parte, o quartel-general, a base, a partir da qual as operações anarquistas são realizadas", como ele disse. Havia ainda menos ligação entre os anarquistas e os refugiados judeus. A exploração do medo dos anarquistas para promoção de restrições à imigração surtia bons efeitos políticos, mas representava uma política muito ruim.

Se a segurança pública realmente era o objetivo, manter de fora os europeus do continente não contribuía com praticamente nada. Como Salisbury sabia, de longe a maior ameaça terrorista vinha dos próprios súditos do Reino Unido: os nacionalistas irlandeses. Nos anos 1880, os revolucionários irlandeses dinamitaram o metrô de Londres, a Torre de Londres e a Câmara Baixa, causando muito mais carnificina do que um estrangeiro jamais causou.

A bomba de Bourdin foi supostamente o único incidente anarquista na história britânica e os anarquistas (diferente dos comunistas) não tiveram sucesso na derrubada de governos. Olhando para trás, o incidente pareceu a Joseph Conrad, que o usou como inspiração para seu romance de 1907, "O Agente Secreto", como "uma inanidade manchada de sangue de um tipo tão estúpido que era impossível compreender a sua origem, por qualquer processo razoável ou mesmo despropositado de pensamento".

Mas isso não quer dizer que o anarquismo não teve nenhum impacto.

O anarquismo ajudou a moldar as restrições modernas à imigração por toda a Europa e os Estados Unidos. Ele sustentou a consolidação do policiamento internacional quando agentes da Justiça criminal se reuniram em 1914 para tratar da ameaça do anarquismo, formando o que se transformou na atual Interpol. Ele deixou sulcos gravados nas mentes ocidentais ligando estrangeiros e terrorismo nos quais podemos cair quase sem pensar.

O policiamento mais severo e controles de fronteira mais rígidos tiveram um preço. Antecipando Edward J. Snowden em mais de um século, a escritora britânica Louisa Bevington alertou seus compatriotas em 1895 sobre o policiamento intrusivo contra "refugiados estrangeiros desamparados", argumentando que se tratava de um "precursor de um ataque contra suas próprias liberdades".

Em 1905, o Parlamento concluiu o que foi iniciado por Salisbury ao aprovar a lei de estrangeiros, limitando a imigração pela primeira vez na história britânica.

Reconhecendo o papel tradicional do Reino Unido como santuário para refugiados, a nova lei incluiu uma cláusula de asilo. Os liberais queriam emoldurá-la da forma mais ampla possível, para que abraçasse qualquer pessoa diante de "risco à vida, integridade física e à liberdade". Os conservadores argumentaram contra. Quase todos no mundo não enfrentavam risco à liberdade, tendo como base os padrões britânicos? O Reino Unido não podia receber todos, de modo que a palavra "liberdade" foi retirada.

Esse é exatamente o tipo de debate que está se desdobrando hoje, após os ataques terroristas em Paris e Bruxelas. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas, como Bourdin poderia dizer.

* Maya Jasanoff é professora de história em Harvard e está escrevendo um livro sobre a vida de Joseph Conrad.

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